domingo, 27 de novembro de 2011

Fado - Património Imaterial da Humanidade (UNESCO)

O fado é Património Imaterial da Humanidade segundo decisão hoje tomada durante o VI Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

O Presidente da República já se congratulou com esta notícia, considerando-a «motivo de orgulho para todos os portugueses».

«A partir deste momento, o fado é reconhecido como um Património de toda a Humanidade, um valor inestimável no presente e uma herança cultural importante para as gerações futuras», lê-se numa mensagem do chefe de Estado divulgada no «site» da Presidência da República.

Também o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirmou em comunicado que a distinção da UNESCO ao Fado dá aos portugueses «alegria [...] numa altura em que Portugal necessita como nunca de notícias positivas».

Num comunicado enviado à Lusa, Francisco José Viegas diz que esta decisão irá «contribuir para que as atenções do mundo se voltem para um dos emblemas da nossa cultura e do nosso talento».

O antigo presidente da Câmara de Lisboa Pedro Santana Lopes lançou a ideia de candidatar o fado a Património Imaterial da Humanidade e escolheu os fadistas Mariza e Carlos do Carmo para embaixadores da candidatura.

A candidatura foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Municipal de Lisboa no dia 12 de maio de 2010 e apresentada publicamente na Assembleia Municipal, no dia 01 de junho, tendo sido aclamada por todas as bancadas partidárias.

No dia 28 de junho de 2010, foi apresentada ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e formalizada junto da Comissão Nacional da UNESCO. Em Agosto desse ano, deu
entrada na sede da organização, em Paris.

A candidatura portuguesa foi considerada como exemplar pelos peritos da UNESCO, tal como o Paraguai e Espanha.





A notícia chegou via SMS: “O Fado já é património imaterial da humanidade”. Sara Pereira, directora do Museu do Fado, estava sentada na sala onde o comité intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) esteve a votar as candidaturas a património cultural imaterial da humanidade, em Bali, na Indonésia, quando o resultado da votação foi anunciado e enviou a mensagem.
Foram precisos pouco mais de cinco minutos para que a decisão fosse tomada por unanimidade (os 23 delegados presentes – faltou apenas um – votaram a favor), com grandes aplausos, conta ao PÚBLICO pelo telefone o musicólogo Rui Vieira Nery, presidente da comissão científica da candidatura. “Foi uma grande alegria que pôs fim a uma grande ansiedade”, admite Nery, referindo-se ao ritmo lento dos trabalhos na reunião de Bali. “Já não acreditávamos que fosse aprovada hoje.”
(...) http://www.publico.pt/Cultura/o-fado-ja-e-patrimonio-mundial-1522758

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O desejo de Nathan

A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, dia 3 de Dezembro.
A minha vizinha, Miss Sandy, é reabilitadora de aves de rapina, ou seja, toma conta de aves feridas, como corujas e falcões, até elas serem capazes de voar de novo.
Todos os dias, vejo-a misturar medicamentos, distribuir comida e limpar as grandes gaiolas que tem no pátio. Por muito cansada ou ocupada que esteja, Miss Sandy tem sempre tempo para falar comigo acerca dos pássaros.
O meu maior desejo era poder andar sozinho para poder ajudá-la nas tarefas, em vez de estar apenas a observar. Mas, como tenho paralisia cerebral, os meus músculos não têm força suficiente para que eu ande sem cadeira de rodas ou andarilho.
Certo dia, Miss Sandy mostra-me uma coruja-das-torres, que tem uma asa partida. Embora a asa esteja dentro de uma tala, a coruja tenta escapar debatendo-se contra as paredes da caixa de madeira onde foi colocada.
— Vai ter de ficar aqui até a asa sarar — diz Miss Sandy. — Que nome achas que lhe devemos dar, Nathan? — pergunta-me.
Os olhos brilhantes e amarelos da coruja faíscam, zangados.
— Que tal Fogo? — proponho.
— Parece-me um bom nome — concorda Miss Sandy. — Espero que em breve a Fogo acalme.
Contudo, em cada dia que passa, a Fogo continua a lutar para ser livre e preocupo-me que se magoe de novo. Finalmente, Miss Sandy tira a tala da asa e coloca a coruja numa gaiola.
— A Fogo precisa de exercitar a asa — explica-me.
À medida que as semanas passam, a asa torna-se cada vez mais forte e a Fogo é colocada numa gaiola maior. Por vezes, ignora os ratos mortos que Miss Sandy lhe traz e prefere perscrutar o céu. Percebo que gostaria de caçar a sua própria comida.
— Quanto tempo falta para ela poder voar de novo? — pergunto, um dia.
— Uma asa partida demora muito a ficar curada — respondeu Miss Sandy. — Pareces tão impaciente quanto ela, Nathan!
E estou. Estou ansioso que a Fogo seja de novo livre. Quando estou na escola e vejo um pássaro a voar lá fora, penso na Fogo e deixo de ouvir o professor.
À noite, quando oiço um grito estridente vindo do pátio, pergunto-me se a Fogo estará a chamar os amigos.
Um dia, vejo a gaiola dela vazia. Miss Sandy colocou-a numa pequena caixa que segura nas mãos.
— Vou pô-la na gaiola de voo, para ver até onde consegue ir — explica-me.
Enquanto a sigo, oiço o coração a bater nos meus ouvidos. Se a Fogo voar bem, Miss Sandy irá libertá-la hoje! Sustenho a respiração enquanto ela vira a caixa gentilmente, de forma à coruja pousar no chão da gaiola. A Fogo dá um salto e voa, forte e bonita.
Contudo, de repente, inclina-se para o lado e começa a descer. Embora tenha os olhos bem fechados, consigo ouvir o baque suave da sua aterragem desajeitada. E quando abro os olhos, vejo Miss Sandy a abanar a cabeça. Dou-me conta, de repente, de que a Fogo nunca será libertada. Não tem a asa suficientemente forte para sobreviver na floresta.
— Pobre Fogo — lamenta Miss Sandy. — Queria tanto ser livre!
Viro-me para que ela não veja as lágrimas no meu rosto. Sei muito bem o que é ter um desejo que não se pode realizar.
Depois desse dia, a luz dos olhos da Fogo apaga-se. Recusa a comida e nem sequer tenta sair da gaiola.
— Por favor, não desistas! — sussurro-lhe.
Mas ela continua imóvel como uma estátua, em cima do poleiro.
Deve haver uma forma de ajudar esta coruja. Procuro, no computador, informação sobre aves feridas. Deparo com um corujão-orelhudo quase cego que toma conta de corujinhas órfãs até estas terem idade para serem libertadas. Talvez a Fogo consiga fazer o mesmo. Imprimo a informação e mostro-a a Miss Sandy, que diz:
— Vale a pena tentar. Tenho três crias que ficaram órfãs na tempestade da semana passada.
Miss Sandy põe as três crias na gaiola da Fogo. As corujinhas balançam as cabecinhas e emitem uns pios engraçados. Mas a Fogo não parece interessada em crias esfomeadas ou no que quer que seja.
Como não suporto vê-la tão infeliz, decido ficar em casa alguns dias, cheio de tristeza por ela e por mim. Uma noite, Miss Sandy toca à nossa porta e entra de rompante.
— Vem comigo, Nathan! — pede. — Tens de ver a Fogo!
Antes de me aperceber do que está a acontecer, já Miss Sandy conduz a minha cadeira aos tropeções até casa dela. Finalmente, estaciona-me junto da gaiola da Fogo.
— Olha! — sussurra.
Nem posso acreditar no que vejo. A Fogo pega num pedaço de carne que estava no chão e leva-o, aos saltos, até à gaiola-ninho, onde o depõe no bico de uma das crias. Embora o seu desejo de ser livre não possa realizar-se, a coruja encontrou algo de importante para fazer. E isso dá-me uma ideia!
No dia seguinte, vou até casa de Miss Sandy e olho para o pátio. Posso não poder andar sozinho, mas vou encontrar uma forma de a ajudar nas suas tarefas! Sei que os baldes são demasiado pesados; contudo, posso encher as tinas de banho das aves com a mangueira. Demoro bastante tempo a desdobrá-la e a arrastá-la até cada uma das gaiolas. Mas não desisto até as tinas estarem todas cheias.
Quando vejo a carrinha do correio a aproximar-se, vou até ao fim da alameda e recebo a correspondência para Miss Sandy. Enfio as cartas no bolso do meu casaco e levo-as até casa dela. Quando são horas de alimentar os pássaros, ofereço-me para ficar no escritório a atender os telefonemas. O telefone toca quatro vezes e anoto os recados.
Antes de ir-me embora, Miss Sandy abraça-me e diz:
— Ajudaste-me muito hoje, Nathan.
Fico corado e baixo a cabeça. Mas sorrio. Agora sei o quão orgulhosa a Fogo se sente!
Laurie Lears
Nathan's wish: a story about cerebral palsy
Illinois, Albert Whitman & Co, 2005
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como seria noticiada hoje, em Portugal, a história do Capuchinho Vermelho...


TELEJORNAL - RTP1
"Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem... mas a actuação de um caçador evitou uma tragédia"
JORNAL DA NOITE - SIC
"Vamos agora dar-lhe conta de uma notícia de última hora. Uma menina foi literalmente engolida por um lobo quando se dirigia para casa da sua avó! Esta é uma história aterradora mas com um final feliz... o Sr. telespectador não vai acreditar mas, esta linda criança foi retirada viva da barriga do lobo! Simplesmente genial!"


JORNAL NACIONAL - TVI
"... onde vamos parar, onde estão as autoridades deste país?! A menina ia sozinha para a casa da avó a pé! Não existe transporte público naquela zona? Onde está a família desta menina? E a Comissão de Protecção de Menores? Tragicamente esta criança foi devorada viva por um lobo. Em épocas de crise, até os lobos, animais em vias de extinção, resolvem aparecer?? Isto é uma lambada na cara da actual
governação portuguesa."
Entretanto manifeste a sua opinião e ligue para:
707696901 se acha que a culpa é do lobo
707696902 se acha que a culpa é do capuchinho
707696903 se acha que a culpa é do governo


CORREIO DA MANHÃ
"Governo envolvido no escândalo do Lobo"


JORNAL DE NOTICIAS
"Como chegar à casa da avozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho"


Revista MARIA
"Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama"


A BOLA
"Lobo será reforço de inverno na Luz"


JOGO
"Mourinho quer Caçador no Real"


LUX
"Na cama com o lobo e a avó"


EXPRESSO
Legenda da foto: "Capuchinho, à direita, aperta a mão do seu salvador".
Na reportagem, caixa com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Capuchinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.


PÚBLICO
"Lobo que devorou Capuchinho Vermelho seria filiado no PS"


O PRIMEIRO DE JANEIRO
"Sangue e tragédia na casa da avozinha"


CARAS
Ensaio fotográfico com Capuchinho na semana seguinte:
Na banheira de hidromassagem, Capuchinho fala à CARAS: "Até ser devorada, eu não dava valor à vida. Hoje sou outra pessoa."


MAXMEN
Ensaio fotográfico no mês seguinte:
"Veja o que só o lobo viu"


SOL
"Gravações revelam que lobo foi assessor político de grande influência"

 

Pauzinhos de marfim

Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com ele e explicou-lhe:
Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de pauzinhos pode levar-te à perdição!
O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:
Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.
Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos. Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção.
O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.

 Conto do filósofo chinês Han Fei, oito séculos antes da nossa era.

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

O acordo ortográfico (Dra Susana Mendonça, Univ Algarve)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

São Martinho - o santo do inverno que traz o verão


Os santos populares no nosso país são festejados no tempo quente de Verão: Santo António, São João e São Pedro. No Inverno há apenas um, que chega com o frio: São Martinho, que associamos à prova do vinho novo e às castanhas.
Martinho nasceu no séc. IV em 316 ou 317 D.C. Terá sido batizado, por volta do ano 339. São mais de 1600 anos de popularidade. Mas saberemos mesmo quem foi São Martinho?

DE CAVALEIRO ROMANO A APÓSTOLO DA GÁLIA
Não podemos dizer que a vida de São Martinho «se perde na noite dos tempos», porque este santo, nascido em território do império romano - Sabaria na antiga Panónia, hoje Hungria, entre 315 e 317, foi o primeiro santo do Ocidente a ter a sua biografia escrita por um seu contemporâneo - o escritor Sulpício Severo.
Martinho era filho de um soldado do exército romano e, como mandava a tradição, filho de militar segue a vida militar, como filho de mercador é mercador e filho de pescador devia ser pescador. Martinho estudou em Pavia, para onde a família foi viver, e entrou para o exército com 15 anos, tendo chegado a cavaleiro da guarda imperial. Tinha a religião dos seus antepassados, deuses que faziam parte da mitologia dos romanos, deuses venerados no Império Romano, que, como é óbvio, variavam um pouco de região para região, dada a imensidão do Império. As Gálias teriam os seus deuses próprios, como os tinham a Germânia ou a Hispânia.
O jovem Martinho não estava insensível á religião pregada, três séculos antes, por um homem bom de Nazaré. Um dia aconteceu um facto que o marcou para toda a vida. Numa noite fria e chuvosa de Inverno, às portas de Amiens (França), Martinho, ia a cavalo, provavelmente, no ano de 338, quando viu um pobre com ar miserável e quase nu, que lhe pediu esmola e Martinho, que não levava consigo qualquer moeda, num gesto de solidariedade, cortou ao meio a sua capa (clâmide) que entregou ao mendigo para se agasalhar. Os seus companheiros de armas riram-se dele, porque ficara com a capa rasgada. Segundo a lenda, de imediato, a chuva parou e os raios de sol irromperam por entre as nuvens. Sinal do céu. Seria milagre?

MARTINHO E CONSTANTINO I
Conta a lenda, que no dia seguinte Martinho teve uma visão e ouviu uma voz que lhe disse: «Cada vez que fizeres o bem ao mais pequeno (no sentido social de mais desprotegido) dos teus irmãos é a mim que o fazes». A partir desse dia Martinho passa a olhar para os cristãos de outro modo. Recordamos que o Cristianismo teve dificuldade em se impor como religião, e que um passo importante dado, nesse sentido, foi por Constantino I, que, em 313, permite que o Catolicismo seja livremente praticado no Império. Com o tempo foi aceite como religião do Estado.

Constantino- o Grande - acreditou que o deus dos cristãos, que ele, de início associava ao Sol, o protegia e que lhe proporcionara a grande vitória contra Maxêncio, em 312. Acabará senhor absoluto do Império, tanto a Oriente, como a Ocidente, depois da vitória sobre Licínio, em 324. Consta que Constantino I terá visto no céu, antes da batalha com Maxêncio, a frase: «In Hoc Signo Vinces (Por este símbolo (cruz de Cristo) vencerás)» e daí o início da sua conversão. A testemunhar essa conversão existe o Arco de Constantino, em Roma, erigido para celebrar a vitória, onde consta a frase «por inspiração da Divindade e pela sua (de Constantino) grandeza de espírito». A testemunhar a sua conversão há o facto de o prefeito pretoriano da Hispânia, Acílio Severo, conhecido por Lactâncio ter sido o primeiro prefeito cristão de Roma, em 326.

Constantino I fundou a cidade de Constantinopla, onde fez a nova capital do Império, na antiga Bizâncio, e mandou edificar inúmeras igrejas, para o culto cristão, por todo o Império. A cidade foi sagrada no ano 330. As mais importantes igrejas foram a basílica de Latrão, a igreja de São Pedro, em Roma, a igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, bem como basílicas em Numídia e em Trèves. Deu-se origem às fundações da Igreja da Santa Sabedoria (Hagia Sophia), em Constantinopla, que, viria, em 1453 a ser tomada pelos árabes e Constantinopla passou a chamar-se Istambul. Constantino I é batizado no leito de morte, no ano de 337 e sepultado na basílica dos Apóstolos naquela cidade. Deixa o império dividido pelos seus três filhos Constantino II, Constâncio e Constante, que vão lutar entre si ficando senhor do Império Constâncio II.

A LENDA DE S.MARTINHO
Depois do encontro de Martinho com o pobre que seria o próprio Jesus, sente-se um homem novo e é batizado, na Páscoa de 337 ou 339. Martinho entende que não pode perseguir os seus irmãos na fé. Percebe, que os outros são, na realidade, mais seus irmãos que inimigos. Só tem uma solução - o exílio, porque, oficialmente, só podia sair do exército com 40 anos. Hoje o sentido de irmão está, no Ocidente, perfeitamente interiorizado, mas, na época era algo de totalmente revolucionário. Era uma sociedade estratificada, e os grandes senhores, onde se incluía a classe militar, não se misturavam com a plebe, e muito menos um escravo era considerada pessoa humana. Daí Cristo ter sido crucificado. O amor entre todos, como irmãos que pregava era verdadeiramente contra os usos do tempo. Todos o que o seguiram e praticaram a solidariedade eram vistos como marginais e mais ou menos perseguidos.
Martinho, ainda militar, mas com uma dispensa vai ter com Hilário (mais tarde Santo Hilário) a Poitiers. Em primeiro lugar, funda o mosteiro de Ligugé e depois o mosteiro de Marmoutier, perto de Tour, com um seminário. Entretanto a sua fama espalha-se. Muitos homens vão seguir Martinho e optar pela vida monástica. Com o tempo, as suas pregações, o seu exemplo de despojamento e simplicidade, fazem dele um homem considerado santo. É aclamado bispo de Tours, provavelmente em Julho de 371. Preocupado com a família, lá longe, e com todo o entusiasmo de um convertido vai à Hungria visitar a família e converte a mãe.

A vida de São Martinho foi dedicada à pregação. Como era prática no tempo, mandou destruir templos de deuses considerados pagãos, introduziu festas religiosas cristãs e defende a independência da Igreja do poder político, o que era muito avançado para a época. Nem sempre a sua acção foi bem aceite, daí ter sido repudiado, e, por vezes, maltratado.

VITA MARTINI
Sulpício Severo, aristocrata romano, culto e rico fica fascinado com o comportamento pouco comum de Martinho e escreve, entre 394 e 397 a biografia, daquele que ficaria conhecido por São Martinho de Tours. A obra chama-se apenas Vita Martini (escrito em latim), livro que teve enorme repercussão no mundo medieval. Espalhou-se até Cartago, Alexandria e Síria. Sabe-se que este livro foi muitíssimo lido (Enciclopedia Cattolica, Cidade do Vaticano, 1952, p. 220), o que era difícil numa época em que os livros eram caros e quando só o clero e monarcas mais cultos os leriam, mas o certo é que foi um verdadeiro «best-seller».

Só em 357 Martinho é dispensado oficialmente do exército e continua a espalhar a sua fé. Morre em Candes, no dia 8 de Novembro do ano de 397 e o seu corpo foi acompanhado por 2000 monges, muito povo e mulheres devotas. Chega à cidade de Tours no dia 11 de Novembro. O seu culto começou logo após a sua morte. Em 444 foi elevada uma capela no local. Não foram só as gentes das Gálias que o veneraram, o seu culto espalhou-se por todo o Ocidente e parte do Oriente. Na cidade francesa de Tours, foi erguida uma enorme basílica entre 458 e 489 que viria a ser lugar de peregrinação, durante séculos. Em França há perto de 300 cidades e povoações com o nome de São Martinho e, em Portugal, numa breve contagem, descobrimos 60. É, no entanto, importante frisar que nem todas serão evocações de São Martinho (o da capa), mas também de São Martinho de Dume (na região de Braga), também originário da Hungria (séc. VI).

Por toda a Europa os festejos em honra de São Martinho estão relacionados com cultos da terra, das previsões do ano agrícola, com festas e canções desejando abundância e, nos países vinícolas, do Sul da Europa, com o vinho novo e a água-pé. Daí os adágios «Pelo São Martinho vai à adega e prova o teu vinho» ou «Castanhas e vinho pelo São Martinho».

Fonte e mais informação

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O presente do Povo Pequeno

          Um alfaiate e um ourives viajavam juntos.
Certo dia, ao crepúsculo, ouviram à distância o som de música. Caminharam mais rapidamente e a melodia foi-se fazendo ouvir, cada vez mais alegre. Esqueceram todo o cansaço da jornada e apressaram-se, para ver de onde vinha.
A lua já se erguera, quando os dois caminhantes alcançaram uma colina, de onde divisaram uma porção de pequenos homens e mulheres. Davam-se as mãos e rodopiavam com grande alegria, numa farândola animada. Cantavam ao mesmo tempo uma linda melodia. No meio da reunião, estava sentado um velho, um pouco mais alto que os demais, e cuja longa barba branca se espalhava pela frente do seu casaco colorido. Os dois companheiros estacaram e contemplaram a festa, cheios de admiração. O velho fez-lhes sinal para entrarem também na roda, enquanto o povo pequeno abria, prazenteiramente, a roda, para dar lugar a ambos.
O ourives, mais expansivo, aceitou de imediato. O alfaiate, tímido, hesitou um pouco, mas vendo como era divertido, acabou por aderir também. A roda fechou-se, novamente, e todos dançaram e pularam, com gritos de alegria. O velho, tomando uma faca que trazia à cintura, amolou-a, olhando para os dois viajantes. Estes assustaram-se, porém não tiveram tempo de tomar qualquer atitude. O velho, agarrando o ourives, escanhoou-lhe, com grande rapidez, o cabelo e a barba. A mesma coisa sucedeu ao alfaiate.
O medo dos dois desapareceu, quando o velho, ao terminar, lhes deu uma amistosa palmadinha nas costas, como se quisesse dizer-lhes que haviam agido acertadamente, ao deixarem que lhes fosse cortado o cabelo e barba. Mostrou-lhes, depois, por gestos, um monte de carvão, mandando-os encherem os bolsos. Obedeceram, embora sem compreenderem, e foram à procura de um lugar para passar aquela noite. Ao chegarem à planície, ouviram o relógio de um convento próximo bater a meia-noite. No mesmo instante, o canto parou e tudo desapareceu, ficando apenas uma colina deserta ao luar.
Os dois caminhantes acharam um lugar coberto de palha, onde se deitaram, esquecendo-se de tirar dos bolsos os pedaços de carvão, tão cansados estavam. Um peso desacostumado fê-los acordar mais cedo, enfiaram as mãos nos bolsos para deles tirar o carvão, mas, com grande espanto, encontraram, em lugar dele, pedaços de ouro. Agora podiam considerar-se ricos. Felizmente, o cabelo e a barba já haviam crescido. Todavia, existe gente por demais ambiciosa e, entre essa, estava o ourives. Lamentou não ter enchido mais os bolsos, assim teria o dobro do que coubera ao alfaiate. O ourives, ávido de mais ouro, propôs ao alfaiate pernoitarem mais uma vez naquela região, para voltarem a ver o povo pequeno e o velho no outeiro. O alfaiate declarou:
Já tenho o bastante e estou satisfeito! Agora vou poder casar-me e ser um homem feliz.
Mas estava pronto a esperar mais um dia pelo companheiro.
À noite, o ourives pendurou mais algumas bolsas à cintura e pôs-se a caminho do outeiro. Encontrou, como na noite anterior, todo o pequeno povo a cantar e a dançar, e o velho cortou-lhe barba e cabelo e fez-lhe sinal para que fosse buscar os pedaços de carvão. O ourives não teve dúvidas de embolsar tudo quanto cabia nos seus muitos bolsos e voltou, todo feliz; cobriu-se com o casaco e ferrou no sono. "Tanto se me dá que o ouro pese", pensou. "Suportarei tudo de bom grado." Adormeceu com a deliciosa antecipação de acordar milionário.
Ao abrir os olhos, levantou-se apressado, para examinar os bolsos. Mas ficou abismado quando apenas retirou deles pedaços de carvão. Decepcionado, consolou-se, pensando que lhe sobraria pelo menos o ouro ganho na noite anterior. Mas ficou apavorado quando viu também aquele transformado em carvão. Inadvertidamente, bateu com a mão na cabeça e sentiu-a lisa e calva, e assim estava o seu rosto. Reconheceu, então, tratar-se de um castigo pela sua ambição.
Enquanto isso, o alfaiate acordara e agora consolava do melhor modo possível o companheiro, banhado em lágrimas de desespero.
És meu companheiro de viagem e amigo; vais ficar comigo e gozaremos juntos da minha fortuna.
Manteve a palavra, mas o pobre do ourives teve de esconder, dentro de gorros, a sua cabeça calva, durante toda a vida.
Marie Tenaille (org.)
O meu livro de contos
Porto, Asa Editores, 2001
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Programa 2011-2012 do Serviço Educativo do Museu De Portimão


Oficina Educativa
Nuno Silva e Rossana Costa
Museu de Portimão
Sector de Museus
 
Rua D. Carlos I – Zona Ribeirinha
8500-607 Portimão
Tel: 282 405 235 – Fax: 282 405 277

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Leitor do Mês - Outubro 2011

Livro do Mês - Novembro 2011 - "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar" (Luís Sepúlveda)

OLD alphabet vs NEW alphabet


... at least "A" is still "Apple".

O jardineiro e o senhor

A uma milha de distância da capital havia um velho solar com grossas paredes, torres e empenas entalhadas.
Ali vivia, apenas no tempo de Verão, uma família nobre e rica. Era o solar mais rico e mais bonito de todos os que possuía. De fora, parecia novo; e por dentro tinha todo o conforto possível. O brasão da família exibia-se esculpido junto do portão, e à volta das suas armas e do balcão da janela de sacada enroscavam-se magníficas rosas. Um grande tapete de relva estendia-se diante da casa. Podia ver-se também aí espinheiros vermelhos e brancos, e outras flores raras, não contando com as que se encontravam nas estufas.
O proprietário do solar tinha um jardineiro muito competente e dava prazer ver o jardim, o pomar e a horta. Um pouco mais acima, havia ainda um resto do primitivo domínio senhorial, com arbustos, combinados e aparados de modo a formarem coroas e pirâmides. Por detrás dos arbustos erguiam-se duas grandes árvores muito antigas. Estavam quase sempre sem folhas, e ao vê-las, parecia que um vento tempestuoso ou uma tromba de água as havia coberto de grandes torrões, mas cada um desses torrões era nem mais nem menos do que um ninho.
Aí morava desde tempos imemoriais um bando de gralhas e corvos ruidosos. Verdadeira cidade de aves, elas eram as donas, as proprietárias, as verdadeiras senhoras do domínio. Indiferentes aos seres humanos, cá em baixo, toleravam essas criaturas que andavam pelo chão, embora entre elas algumas houvesse que disparavam espingardas, o que lhes fazia sentir um arrepio na espinha, obrigando-as a fugir com medo, gritando «cra, cra,».
O jardineiro sugerira muitas vezes ao senhor mandar deitar abaixo as velhas árvores, que não davam bom aspecto e que, além disso, sendo abatidas, o livrariam provavelmente das barulhentas aves, que iriam procurar outro pouso. O senhor, porém, não queria desfazer-se nem das árvores nem do bando de aves. Era algo que fazia parte do seu domínio, algo dos velhos tempos e, portanto, não deveria ser destruído.
As árvores são herança das aves, deixa-as estar, meu bom Larsen! Não tens, amigo Larsen, espaço suficiente para te estenderes? Todo o jardim, as estufas, o pomar e a horta?
Tudo isso o jardineiro possuía, na verdade, e bem o cuidava, preparava e tratava com zelo e competência, o que era reconhecido pelo senhor, que não se coibia, contudo, de dizer diante dele que em casa de outras pessoas havia comido frutas e visto flores que superavam as do seu domínio. Afligia deste modo o jardineiro, que queria sempre fazer melhor e conseguia-o. Era um homem tão bom de coração como de ofício.
Um dia, o senhor mandou-o chamar e disse-lhe, com afáveis modos senhoriais, que, na véspera, em casa de uns ilustres amigos, havia provado maçãs e peras tão sumarentas e saborosas que ele e todos os convidados não puderam deixar de expressar a sua admiração. Os frutos não eram certamente do país, mas podiam ser importados e aclimatados se as condições o permitissem. Sabia-se que tinham sido comprados na melhor frutaria da cidade; o jardineiro deveria lá ir e procurar saber de onde tinham vindo aquelas maçãs e peras, para depois mandar vir os enxertos. O jardineiro conhecia bem o dono da frutaria. Era precisamente a ele que, por conta do senhor, vendia as sobras das frutas cultivadas no pomar.
Tomou assim o caminho da cidade para perguntar ao dono da frutaria de onde recebia aquelas maçãs e peras tão apreciadas.
São do teu próprio pomar! – declarou o dono da frutaria, que lhas mostrou, e foram por ele reconhecidas.
Como ficou contente o jardineiro! Correu logo para o senhor a contar-lhe que tanto as peras como as maçãs eram do seu pomar. O senhor não queria crer.
Não é possível, Larsen! Poderás arranjar uma declaração escrita do dono da frutaria?
Larsen voltou com a declaração pedida.
É estranho! – exclamou o senhor.
Então, passaram a vir para a mesa do senhor, todos os dias, grandes açafates com aquelas belas peras e maçãs do seu próprio pomar, que foram também enviadas aos quintais e às toneladas para os amigos da cidade e de fora, e até mesmo para o estrangeiro. Eram, na realidade, maravilhosas! Contudo, deve ter-se também em conta que haviam sido dois anos extraordinariamente bons para as árvores de fruto, não só ali como em todo o país.
Decorreu algum tempo. Um dia, o senhor foi convidado para um jantar na corte. No dia seguinte, chamou o jardineiro. Tinham servido na corte uns melões muito sumarentos e saborosos, das estufas de Sua Majestade!
Tens de procurar o jardineiro da corte, meu bom Larsen, para que nos arranje algumas sementes desses preciosos melões!
Mas foi de nós que ele as recebeu! – respondeu o jardineiro todo contente.
Então soube tratá-los muito bem para que ficassem assim tão bons – retorquiu o senhor. São excelentes, esses melões!
Bem posso sentir-me orgulhoso! – disse Larsen. Devo esclarecer Sua Excelência que o jardineiro não teve sorte com os melões este ano e, quando viu como os nossos eram bonitos e os provou, mandou que lhe enviássemos três para o palácio!
Larsen! Não vás agora imaginar que eram precisamente os melões da nossa quinta!
Creio bem que sim! – respondeu Larsen, que foi depois procurar o jardineiro do palácio e dele recebeu uma declaração escrita de como os melões servidos na mesa real haviam vindo do pomar do senhor.
Isto, naturalmente, foi uma surpresa para o senhor, que não ocultou o que se havia passado, exibiu a quem o quis o atestado do jardineiro e assim passaram a ser enviadas sementes de melão para toda a parte, bem como enxertos, na devida altura. Foram depois recebidas notícias de que tinham sido muito apreciados, que haviam dado magníficos frutos e recebido o nome do pomar do senhor, o qual podia agora ser lido em inglês, alemão e francês.
O senhor nunca antes havia pensado nisso.
Que não vá agora o jardineiro dar-se ares de importância por causa disso! – comentou o senhor.
Mas foi de outro modo que o jardineiro encarou as coisas.
O que desejava era apenas esforçar-se por ganhar nome como um dos melhores jardineiros do país, procurando, todos os anos, produzir alguma coisa ainda melhor, de entre as espécies cultivadas no pomar, o que conseguia. Porém, ouvia frequentemente dizer que, de todos os frutos de primeira qualidade que havia cultivado, as maçãs e as peras haviam sido realmente os melhores; todos os outros lhe eram inferiores. Os melões tinham sido bons, mas eram de uma qualidade à parte; os morangos podiam considerar-se admiráveis, mas não, contudo, melhores do que os das outras quintas; e quando os rábanos um ano não saíram bons, então só se falou daqueles desafortunados rábanos e não de tudo o mais que de bom fora produzido. Era quase como se o senhor sentisse prazer em dizer:
Este ano vai ser mau, amigo Larsen!
Parecia sentir uma grande alegria em exclamar:
Não, este ano não dá nada!
Algumas vezes por semana, o jardineiro trazia flores frescas para a casa do senhor, sempre dispostas com muito gosto, e de tal modo as combinava que as cores ficavam realçadas.
Tens bom gosto, Larsen! – dizia o senhor. É um dom que Nosso Senhor te deu e não propriamente teu!
Um dia, o jardineiro trouxe uma grande taça de cristal na qual colocara uma pétala de açucena aquática branca e, sobre ela, com o longo e grosso caule mergulhado na água, uma admirável flor azul, do tamanho de um girassol.
O lótus do Indostão! – exclamou o senhor, quando a viu.
Nunca vira uma flor assim. Durante o dia foi colocada ao sol e, à noite, sob a luz reflectida duma lâmpada. Todos os que a observaram a acharam extraordinariamente bela e rara. Foi isso que declarou uma das primeiras damas do país, uma princesa inteligente e bondosa.
Sua Senhoria considerou uma honra presenteá-la com a flor, e assim foi levada para o Palácio Real.
Desceu depois o senhor ao jardim para colher ele próprio uma outra flor igual, se ainda houvesse, mas nenhuma encontrou. Chamou então o jardineiro e perguntou-lhe onde havia colhido o lótus azul:
Procurámos em vão! – disse ele. Estivemos nas estufas e percorremos todo o jardim!
Pois não está propriamente ali – respondeu o jardineiro. É uma simples e vulgar flor da horta. Mas não é verdade que é muito bonita? Parece um cacto azul e, contudo, outra coisa não é senão a flor da alcachofra!
Devias ter-nos dito isso logo – retorquiu o senhor. Pensávamos que era uma flor exótica, rara. Obrigaste-nos a fazer má figura diante da jovem princesa! Viu a flor em nossa casa, achou-a muito bonita e não a reconheceu, embora seja forte em botânica; mas esta ciência, claro está, nada tem com as hortaliças. Como te ocorreu, bom Larsen, trazer uma flor dessas para minha casa? Obrigaste-nos a ser ridículos!
A bonita e radiosa flor azul apanhada na horta foi retirada da casa do senhor, da qual não era digna. Sua Senhoria apresentou as suas desculpas à princesa, explicando que a flor era simplesmente uma planta da horta que o jardineiro trouxera para mostrar, e que este havia recebido por isso séria admoestação.
Pois é pena e é injusto! – retorquiu a princesa. Abriu-nos os olhos para uma flor magnífica de que não nos tínhamos apercebido, mostrou-nos a beleza onde devíamos tê-la procurado! Darei ordem para que o jardineiro do palácio me traga todos os dias uma flor dessas, enquanto florirem as alcachofras.
E assim aconteceu.
Sua Senhoria mandou dizer ao jardineiro que podia tornar a trazer-lhe uma flor de alcachofra fresca.
No fundo, é bonita! – disse ele. Muito curiosa!
E fez do jardineiro o elogio seguinte:
Larsen ficará contente com isso! – disse Sua Senhoria. É uma criança mimalha.
No Outono, houve uma terrível tempestade. Rebentou de noite e tão violentamente que muitas das árvores grandes na orla do bosque foram arrancadas pela raiz e entre elas, com grande pesar de Sua Senhoria (foram as suas palavras), mas com alegria para o jardineiro, foram derrubadas as duas grandes árvores com todos os ninhos. Ouviram-se no meio da tempestade os gritos dos corvos e das gralhas, que tinham batido com as asas nas vidraças das janelas, afirmava a gente de casa.
Estás satisfeito agora, Larsen? – perguntou Sua Senhoria. A tempestade derrubou as árvores e as aves fugiram para o bosque. O jardim já não tem o aspecto dos velhos tempos. Tudo o que fazia recordar o passado desapareceu! Tive realmente muita pena!
O jardineiro nada disse, mas logo pensou no que andava a magicar há tanto tempo: utilizar o belo campo soalheiro de que antes não podia dispor e transformá-lo num adorno do jardim e num objecto de prazer para Sua Senhoria.
As grandes árvores derrubadas haviam destroçado e despedaçado as antiquíssimas sebes de buxo talhadas em figuras. Aí plantou arbustos e plantas dos campos e dos bosques da região. Aquilo que nenhum outro jardineiro antes pensara quanto à rica variedade de plantas do jardim do senhor, fê-lo ele, dispondo-as na terra adequada, ao sol ou à sombra, conforme as necessidades de cada espécie. Cuidou-as com todo o carinho e elas cresceram magníficas.
Os zimbros da Jutlândia desenvolveram-se em forma e cor como se fossem ciprestes italianos. O azevinho brilhante e espinhoso, sempre verde com o frio do Inverno ou com o sol do Verão, era digno de se ver. Na sua frente havia fetos de diversas espécies, alguns pareciam filhos das palmeiras, e outros, pais da bela e fina planta a que chamamos adianto.
Estava ali também a bardana desdenhada, tão bonita na sua frescura, que podia ser colhida para um ramalhete. A bardana estava em terra seca, mas mais profunda. Em terra húmida cresciam as azedas, uma planta também desprezada e, contudo, tão pitoresca e bonita na sua altura imponente, e com as suas grandes folhas. Esbelta, com vários troncos, flor contra flor, como um grande candelabro de muitos braços, erguia-se a candelária, transplantada para aquele local.
Ali se encontravam também as aspérulas, as primaveras e os lírios do bosque, o esparto silvestre e as finas azedas do bosque, de três folhas. Era realmente digno de se ver. Diante, alinhadas por detrás de uma vedação de arame, cresciam pequeníssimas pereiras de procedência francesa. Com bom sol e bom tratamento, em breve deram frutos grandes e sumarentos, como na terra de onde provinham.
Em lugar das duas velhas árvores desfolhadas, foram colocados um alto pau de bandeira onde ondeava o «Danebrog» e, próximo, outro poste onde, no Verão e no Outono, se enroscavam as ramadas do lúpulo com as flores odoríferas em cone, mas onde também no Inverno, segundo um velho costume, era suspensa uma gamela com aveia para que as aves tivessem de comer na época festiva do Natal.
O bom Larsen está a tornar-se sentimental com a idade! – disse Sua Senhoria. Mas é-nos, na verdade, muito fiel e afeiçoado!
No Ano Novo, uma revista ilustrada da capital apresentou uma gravura do antigo solar. Nela via-se o pau de bandeira e a gamela de aveia para as aves. Comentava-se e apontava-se também a ideia excelente de o velho costume ter sido preservado e honrado de um modo tão significativo, precisamente no antigo solar.
Tudo o que Larsen faz – declarou Sua Senhoria – é apregoado a todos os ventos. É um homem com sorte! Quase me sinto orgulhoso de o ter ao meu serviço.
Mas não era orgulho o que sentia!
Sabia que era o senhor, que podia despedi-lo, o que não fazia, é claro, por ser boa pessoa; e nesta classe há muitas boas pessoas, o que é também uma sorte para todos os Larsens.
Pois esta é a história do jardineiro e do senhor!
Pensa um pouco nela!

Hans C. Andersen
Histórias e contos completos II
V.N. Gaia, Edições Gailivro, 2005
(Adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Redassão

O mano
Cando o meu mano nacer, vai chamarce Herrar, porque me pai dis que Herrar é o mano.



Não há acordos ortográficos que resistam a isto...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dia de Todos os Santos

O Dia de Todos os Santos, que se celebra hoje, é cada vez mais o Dia dos Fiéis Defuntos, marcado para amanhã. Igreja não condena esta vontade popular, que aproveita assim o feriado para lembrar os familiares que já morreram. A homenagem aos mortos acontece um pouco por todo o mundo, de formas muito diferentes
O primeiro dia de Novembro é marcado pela ida de milhares de portugueses aos cemitérios, que nesta altura estão especialmente enfeitados. Mas esta visita tem tendência a acontecer no dia anterior ao definido pela Igreja, muito por culpa da força popular. Assim, é cada vez mais comum celebrar-se o Dia dos Fiéis Defuntos no Dia de Todos os Santos.
Um fenómeno que pode ser explicado simplesmente pelo facto de o dia 1 de Novembro (Dia de Todos os Santos) ser feriado e o dia 2 (Dia dos Finados), não. Porém, o padre José Manuel Almeida prefere acrescentar uma justificação mais espiritual.
"A voz do povo é a voz de Deus e se calhar muitos dos nossos defuntos podem ser também celebrados no dia de Todos os Santos", explica. O religioso vai mais longe e acredita que co-mo "Deus escreve direito por linhas tortas, esta mistura popular dos dois dias pode fazer-nos pensar e levar à luz: Se calhar não são datas assim tão diferentes."
Uma coisa parece certa, os portugueses dão mais significado ao Dia dos Finados que à celebração de Todos os Santos. Talvez porque esta é uma data em que "particularmente se recordam os amigos e familiares que se encontram a caminho da comunhão com Deus", refere o prior de Santa Isabel. A proximidade das pessoas aos seus defuntos aumenta o significado desta data, em relação à celebração de santos que são desconhecidos.
A homenagem aos mortos é um acontecimento global e é vivido de diferentes formas um pouco por todo o mundo. Tal como sublinha o padre José Manuel Almeida, "no México é uma festa bastante divertida, enquanto aqui tem um pendor mais triste e saudoso".
Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o pão por Deus de porta em porta. As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocam dentro dos seus sacos de pano. É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.
Esta tradição teve origem em Lisboa em 1756 (1 ano depois do terramoto que destruiu Lisboa). Em 1 de Novembro de 1755 ocorreu o terramoto que destruiu Lisboa, no qual morreram milhares de pessoas e a população da cidade, que era na sua maioria pobre, ainda mais pobre ficou.
Como a data do terramoto coincidiu com uma data com significado religioso (1 de Novembro), de forma espontânea, no dia em que se cumpria o primeiro aniversário do terramoto, a população aproveitou a solenidade do dia para desencadear, por toda a cidade, um peditório, com a intenção de minorar a situação paupérrima em que ficaram.
As pessoas, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão, dado grassar a fome pela cidade. E as pessoas pediam: "Pão por Deus".
Esta tradição perpetuou-se no tempo, sendo sempre comemorada neste dia e tendo-se propagado gradualmente a todo o país.
Até meados do séc. XX, o "Pão-por-Deus" era uma comemoração que minorava as necessidades básicas das pessoas mais pobres (principalmente na região de Lisboa). Noutras zonas do país, foram surgindo variações na forma e no nome da comemoração. A designação indicada acima (Dia dos Bolinhos) em Lisboa nunca foi utilizada, nem era sequer conhecido este nome.
Nas décadas de 60 e 70 do séc. XX, a data passou a ser comemorada, mais de forma lúdica, do que pelas razões que criaram a tradição e havia regras básicas, que eram escrupulosamente cumpridas: só podiam pedir o "Pão-por-Deus", crianças até aos 10 anos de idade (com idades superiores as pessoas recusavam-se a dar); as crianças só podiam andar na rua a pedir o "Pão-por-Deus" até ao meio-dia (depois do meio-dia, se alguma criança batesse a uma porta, levava um "raspanete", do adulto que abrisse a porta).
A partir dos anos 80 a tradição foi gradualmente desaparecendo e, actualmente, raras são as pessoas que se lembram desta tradição.
Até a comunicação social, contribui para o empobrecimento da memória coletiva. Neste dia todas as estações de TV, Rádio e jornais, falam no Halloween, ignorando completamente o "Pão-por-Deus".

Fonte e mais informação
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