sexta-feira, 29 de abril de 2011

A senhora dos livros

A minha família e eu vivemos num sítio muito alto, pertinho do céu. A nossa casa fica situada num local tão alto que quase nunca vemos ninguém, a não ser falcões a planar e animais a esconder-se por entre as árvores.
Chamo-me Cal e não sou nem o mais velho nem o mais novo dos irmãos. Mas, como sou o rapaz mais velho, ajudo o meu pai a lavrar e a ir buscar as ovelhas quando, às vezes, elas se escapam. Também me acontece trazer a vaca para casa ao pôr-do-sol, e ainda bem que o faço. É que a minha irmã Lark passa o dia todo a ler.
O meu pai diz sempre que nunca se viu uma rapariga tão super-leitora... Cá comigo não é assim. Não nasci para ficar sentado e quieto a olhar para quatro garatujas. E não acho graça nenhuma a que a Lark se arme em professora, porque a única escola que existe fica a quilómetros daqui e ela dificilmente lá chegará. Por isso é que ela quer ensinar-nos. Só que, a mim, a escola não me interessa!
Sou sempre o primeiro a ouvir o ruído dos cascos e a ver a égua alazã da cor do barro. Sou o primeiro a dar-se conta de que o ginete não é um homem, mas uma senhora com calças de montar e cabeça bem erguida. É claro que recebemos a forasteira de braços abertos, porque pessoa mais simpática não há. Depois de tomar chá, põe os alforges em cima da mesa e até parece ouro o que tira de lá de dentro. Os olhos da Lark põem-se a brilhar como moedas e a minha irmã não consegue ter as mãos quietas, como se quisesse apropriar-se de um tesouro.
Na realidade, o que a senhora traz não é tesouro nenhum, pelo menos a meu ver. São livros! Um monte de livros que ela, sozinha, carregou pela encosta acima. Um dia inteiro a cavalo para nada! É o que eu digo! Porque, se ela os quisesse vender, como faz o caldeireiro, que anda por aí com panelas, sertãs e outras coisas, veria logo que nós nem um centavo sequer temos para gastar. Muito menos em livros velhos e inúteis!
O meu pai põe-se a fitar a Lark e pigarreia. Então propõe à Senhora dos livros:
— Fazemos um contrato. Em troca de um livro dou-lhe uma saca de framboesas.
Aperto bem as mãos atrás das costas. Quero falar, mas não me atrevo. As framboesas, fui eu que as apanhei… Para fazer uma tarte, não para trocar por um livro! Quando vejo a senhora recusar, até pasmo. Não aceita uma saca de framboesas, nem um molho de legumes, nem nada do que o meu pai, em troca, lhe quer oferecer. Os livros não custam dinheiro; são de graça, como o ar. Ainda por cima, dentro de quinze dias, voltará para os trocar por outros! Cá para mim, tanto se me dá que a Senhora traga livros ou que não encontre o caminho até nossa casa. O que me espanta é que, mesmo que chova a cântaros, haja neve ou faça frio, ela volte sempre!
Certo dia de manhã, a terra acordou mais branca do que a barba do nosso avô. O vento uivava como lince em plena escuridão e apertamo-nos todos diante da lareira, pois, num dia desses, ninguém faz nada. Com um tempo assim, até os animaizinhos da floresta se deixam ficar bem aconchegados. De repente, ouviram-se umas pancadinhas na janela. Era a Senhora dos livros, abrigada até à ponta dos cabelos! Fez a troca através da porta entreaberta, para não apanharmos frio. E quando o meu pai lhe pediu que dormisse em nossa casa, não se deixou convencer:
— A égua leva-me embora — respondeu.
Fiquei de boca aberta a vê-la afastar-se. Pensei que era uma pessoa muito corajosa e tive vontade de saber por que é que a Senhora dos livros se arriscava a apanhar uma constipação ou coisa bem pior. Escolhi um livro com letras e desenhos e pedi à minha irmã Lark:
— Ensina-me o que está aqui, por favor.
A minha irmã não se riu nem troçou de mim. Arranjou um lugar aconchegado e, em voz baixa, pôs-se a ler. O meu pai costuma dizer que nos sinais da natureza está escrito se o Inverno vai durar muito ou pouco. Este ano, todos os sinais anunciaram neve bem abundante e um frio tremendo. Mas, embora todos os dias ficássemos em casa apertados como sardinhas em lata, não me importei nada. Pela primeira vez. Só quase na Primavera é que a Senhora dos livros pôde voltar a visitar-nos. A minha mãe ofereceu-lhe um presente, a única coisa de valor que lhe podia dar: a sua receita de tarte de framboesa, a melhor do mundo.
— Não é muito, bem sei, para o grande esforço que faz — disse a minha mãe.
Em seguida, baixou a voz e acrescentou com orgulho:
— E por ter conseguido arranjar dois leitores onde apenas havia um!
Baixei a cabeça e esperei pelo fim da visita para comentar:
— Também gostaria de ter alguma coisa para lhe oferecer.
A Senhora dos livros virou-se e fitou-me com os seus grandes olhos negros:
— Vem cá, Cal — disse, com muita doçura.
Quando me aproximei dela, pediu:
— Lê-me alguma coisa.
Abri o livro que tinha entre mãos, mesmo acabadinho de chegar. Dantes, eu pensava que eram quatro garatujas, mas agora já sei ver o que contém. E li um pouco em voz alta.
— Isto é que é a minha prenda! — disse a Senhora dos livros.
 
♦♦♦♦♦♦
NOTA DA AUTORA
Este livro é inspirado numa história real, e relata o trabalho incansável das bibliotecárias a cavalo, conhecidas como «as Senhoras dos livros» entre os Apaches do Kentucky.
O Projecto da Biblioteca a Cavalo foi criado nos anos trinta do século XX, no contexto do New Deal do Presidente Franklin D. Roosevelt, com a finalidade de levar os livros às zonas isoladas onde havia poucas escolas e nenhuma biblioteca. No alto das montanhas do Kentucky, os caminhos eram amiúde simples leitos de riachos ou carreiros acidentados. De cavalo ou de mula, as bibliotecárias percorriam a mesma rota árdua, cada duas semanas, carregadas de livros, independentemente de fazer bom ou mau tempo. Para demonstrar a sua gratidão por algo que não custava dinheiro, "como o ar", as famílias podiam dar-lhes algo do pouco que possuíam: legumes das suas hortas, flores ou frutos silvestres, ou até apreciadas receitas transmitidas de geração em geração.
Embora também houvesse alguns homens na Biblioteca a Cavalo, geralmente eram as mulheres que o faziam, numa época em que a maioria das pessoas achava que o lugar da mulher era em casa. As bibliotecárias a cavalo revelavam uma resistência e uma entrega extraordinárias. Ganhavam muito pouco, mas sentiam-se orgulhosas do seu trabalho: levar o mundo exterior ao povo apache e, em muitas ocasiões, converter num leitor quem antes nunca tinha achado nenhuma utilidade em "quatro garatujas".
No Kentucky, os leitos dos riachos e os carreiros acabaram por se transformar em estradas. Os cavalos e as mulas deram lugar a carros-biblioteca, que são as bibliotecas ambulantes nos dias de hoje. Dedicados à sua tarefa, bibliotecárias e bibliotecários continuam a levar livros a quem deles necessita…

 
Heather Henson
La señora de los libros
Barcelona, Editorial Juventud, 2010
(Tradução e adaptação)

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Revolução dos Cravos - 25 de Abril, O Dia da Liberdade



25 de Abril – O Dia da Liberdade

Revolução dos Cravos
Revolução dos Cravos é o nome dado ao golpe de estado militar que derrubou, num só dia, sem grande resistência das forças leais ao governo - que cederam perante a revolta das forças armadas - o regime político que vigorava em Portugal desde 1926. O levantamento, também conhecido pelos portugueses como 25 de Abril, foi conduzido em 1974 pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o MFA), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial. Considera-se, em termos gerais, que esta revolução trouxe a liberdade ao povo português (denominando-se "Dia da Liberdade" o feriado instituído em Portugal para comemorar a revolução).

Antecedentes
Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário de inspiração fascista. Com a Constituição de 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo e Oliveira Salazar passou a controlar o país, não mais abandonando o poder até 1968, quando este lhe foi retirado por incapacidade, na sequência de uma queda em que sofreu lesões cerebrais. Foi substituído por Marcelo Caetano que dirigiu o país até ser deposto no 25 de Abril de 1974.

Sob o governo do Estado Novo, Portugal foi sempre considerado uma ditadura, quer pela oposição, quer pelos observadores estrangeiros quer mesmo pelos próprios dirigentes do regime. Formalmente, existiam eleições, mas estas foram sempre contestadas pela oposição, que sempre acusaram o governo de fraude eleitoral e de desrespeito pelo dever de imparcialidade.

O Estado Novo possuía uma polícia política, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), uma evolução da ex-PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), mais tarde DGS (Direcção-Geral de Segurança), que perseguiria os opositores do regime. De acordo com a visão da história dos ideólogos do regime, o país manteve uma política que considerava a manutenção das colónias do "Ultramar", numa altura em que alguns países europeus iniciavam os seus processos de alienação progressiva das suas colónias. Apesar da contestação nos fóruns mundiais, como na ONU, Portugal manteve uma política de força, tendo sido obrigado, a partir do início dos anos 60, a defender militarmente as colónias contra os grupos independentistas em Angola, Guiné e Moçambique.

Economicamente, o regime manteve uma política de condicionamento industrial que resultava no monopólio do mercado português por parte de alguns grupos industriais e financeiros (a acusação de plutocracia é frequente). O país permaneceu pobre até à década de 1960, o que estimulou a emigração. Notou-se, contudo, um desenvolvimento económico a partir desta década.

O mito do "orgulhosamente sós"
Nos inícios dos anos 1970 o regime autoritário do Estado Novo continuava a pesar sob Portugal. O seu fundador, António Oliveira Salazar, foi destituído em 1968 por incapacidade e veio a falecer em 1970, sendo substituído por Marcelo Caetano na direcção do regime. Qualquer tentativa de reforma política foi impedida pela própria inércia do regime e pelo poder da sua polícia política (PIDE). O regime exilava-se, envelhecido num mundo ocidental em plena efervescência social e intelectual de finais de década de 60, obrigando Portugal a defender pelas forças das armas o Império Português, instalado no imaginário dos ideólogos do regime. Para tal, o país viu-se obrigado a investir grandes esforços numa guerra colonial de pacificação, atitude que contrastava com o resto das potências coloniais que tratavam de se assegurar da saída do continente africano da forma mais conveniente.

O contexto internacional não era favorável ao regime salazarista/marcelista.

Com o auge da Guerra Fria, as nações dos blocos Capitalista e Comunista apoiaram e financiaram as guerrilhas das colónias portuguesas, numa tentativa de as atrair para a influência americana ou soviética. A intransigência do regime e mesmo o desejo de muitos colonos de continuarem sob o domínio português, atrasaram o processo de descolonização por quase 20 anos, no caso de Angola e Moçambique.

Ao contrário de outras Potências Coloniais Europeias, Portugal mantinha laços fortes e duradouros com as suas colónias africanas. Para muitos portugueses um Império Colonial era necessário para um poder e influência contínuos. Contrastando com Inglaterra e França, os colonizadores portugueses casaram e constituíram família entre os colonos nativos.

Apesar das constantes objecções em fóruns nacionais, como a ONU, Portugal manteve as suas colónias como parte integral de Portugal, sentindo-se portanto obrigado a defendê-las militarmente de grupos armados de influência comunista, particularmente após a anexação unilateral e forçada dos enclaves portugueses de Goa, Damão e Diu, em 1961.

Em quase todas as colónias portuguesas africanas – Moçambique, Angola, Guiné, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde – surgiram movimentos independentistas, que acabaram por se manifestar sob a forma de guerrilhas armadas. Excepto no caso da Guiné, estas guerrilhas foram facilmente contidas pelas forças portuguesas, apesar dos diversos embargos ao armamento militar fornecido a Portugal. No entanto, os vários conflitos forçaram Salazar e o seu sucessor Caetano a gastar uma maior parte do orçamento de Estado na administração colonial e despesas militares, sendo que cedo Portugal viu-se um pouco isolado do resto do Mundo.

Após a ascensão de Caetano ao poder, a guerra colonial tornou-se num forte motivo de discussão e num assunto muito focado por parte das forças anti-regime. Muitos estudantes e manifestantes contra a guerra terão sido forçados a abandonar o país para escapar à prisão e tortura.

Economicamente, o regime mantinha a sua política de Corporativismo, o que resultou na concentração da economia portuguesa nas mãos de uma elite de industriais.

No entanto, a economia crescia fortemente, especialmente após 1950 e Portugal foi mesmo co-fundador da EFTA, OCDE e NATO. A Administração das colónias custava a Portugal um aumento percentual anual no seu orçamento e tal contribuiu para o empobrecimento da Economia Portuguesa, pois o dinheiro era desviado de investimentos infra-estruturais na metrópole. Até 1960 o país continuou relativamente frágil em termos económicos, o que estimulou a emigração para países em rápido crescimento e de escassa mão-de-obra da Europa Ocidental, como França ou Alemanha principalmente após a Segunda Guerra Mundial.

Para muitos o Governo português estava envelhecido, sem resposta aparente para um mundo em grande mudança cultural e intelectual.

A guerra colonial gerou conflitos entre a sociedade civil e militar, tudo isto ao mesmo tempo que a fraca economia portuguesa gerava uma forte emigração.

Em Fevereiro de 1974, Marcelo Caetano é forçado pela velha guarda do regime a destituir o general António Spínola e os seus apoiantes, quando tentava modificar o curso da política colonial portuguesa, que se revelava demasiado dispendiosa para o país.

Nesse momento, em que são reveladas as divisões existentes no seio da elite do regime, o MFA, movimento secreto, decide levar adiante um golpe de estado.

O movimento nasce secretamente em 1973 da conspiração de alguns oficiais do exército, numa primeira fase unicamente preocupados com questões de carreira militar.

Preparação
A primeira reunião clandestina de capitães foi realizada em Bissau, em 21 de Agosto de 1973. Uma nova reunião, em 9 de Setembro de 1973 no Monte Sobral (Alcáçovas) dá origem ao Movimento das Forças Armadas. No dia 5 de Março de 1974 é aprovado o primeiro documento do movimento: "Os Militares, as Forças Armadas e a Nação". Este documento é posto a circular clandestinamente. No dia 14 de Março o Governo demite os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de Vice-Chefe e Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, alegadamente, por estes se terem recusado a participar numa cerimónia de apoio ao regime. No entanto, a verdadeira causa da expulsão dos dois Generais foi o facto do primeiro ter escrito, com a cobertura do segundo, um livro, "Portugal e o Futuro", no qual, pela primeira vez uma alta patente advogava a necessidade de uma solução política para as revoltas separatistas nas colónias e não uma solução militar. No dia 24 de Março a última reunião clandestina decide o derrube do regime pela força.

Ver também:
Oposição à ditadura portuguesa: ditadura militar (1926-1933) e Estado Novo (1933-1974)
Movimentações militares durante a Revolução
Ver cronologia completa de eventos em Cronologia da Revolução dos Cravos.

No dia 24 de Abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instalou secretamente o posto de comando do movimento golpista no quartel da Pontinha, em Lisboa.

Às 22h 55m é transmitida a canção ”E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa, emitida por Luís Filipe Costa. Este foi um dos sinais previamente combinados pelos golpistas e que desencadeou a tomada de posições da primeira fase do golpe de estado.

O segundo sinal foi dado às 0h20 m, quando foi transmitida a canção ”Grândola Vila Morena“, de José Afonso, pelo programa Limite, da Rádio Renascença, que confirmava o golpe e marcava o início das operações. O locutor de serviço nessa emissão foi Leite de Vasconcelos, jornalista e poeta moçambicano.

O golpe militar do dia 25 de Abril teve a colaboração de vários regimentos militares que desenvolveram uma acção concertada.

No Norte, uma força do CICA 1 liderada pelo Tenente-Coronel Carlos de Azeredo toma o Quartel-General da Região Militar do Porto. Estas forças são reforçadas por forças vindas de Lamego. Forças do BC9 de Viana do Castelo tomam o Aeroporto de Pedras Rubras. Forças do CIOE tomam a RTP e o RCP no Porto. O regime reagiu, e o ministro da Defesa ordenou a forças sedeadas em Braga para avançarem sobre o Porto, no que não foi obedecido, já que estas já tinham aderido ao golpe.

À Escola Prática de Cavalaria, que partiu de Santarém, coube o papel mais importante: a ocupação do Terreiro do Paço. As forças da Escola Prática de Cavalaria eram comandadas pelo então Capitão Salgueiro Maia. O Terreiro do Paço foi ocupado às primeiras horas da manhã. Salgueiro Maia moveu, mais tarde, parte das suas forças para o Quartel do Carmo onde se encontrava o chefe do governo, Marcello Caetano, que ao final do dia se rendeu, fazendo, contudo, a exigência de entregar o poder ao General António de Spínola, que não fazia parte do MFA, para que o "poder não caísse na rua". Marcello Caetano partiu, depois, para a Madeira, rumo ao exílio no Brasil.

A revolução resultou na morte de 4 pessoas, quando elementos da polícia política (PIDE) dispararam sobre um grupo que se manifestava à porta das suas instalações na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

Cravo
O cravo vermelho tornou-se o símbolo da Revolução de Abril de 1974; Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidários com os soldados revoltosos; alguém (existem várias versões, sobre quem terá sido, mas uma delas é que uma florista contratada para levar cravos para a abertura de um hotel, foi vista por um soldado que pôs um cravo na espingarda, e em seguida todos o fizeram), começou a distribuir cravos vermelhos para os soldados, que depressa os colocaram nos canos das espingardas.

Consequências
No dia seguinte, forma-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares, e que procederá a um governo de transição. O essencial do programa do MFA é, amiúde, resumido no programa dos três D: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver.

Entre as medidas imediatas da revolução contam-se a extinção da polícia política (PIDE/DGS) e da Censura. Os sindicatos livres e os partidos foram legalizados. Só a 26 foram libertados os presos políticos, da Prisão de Caxias e de Peniche. Os líderes políticos da oposição no exílio voltaram ao país nos dias seguintes. Passada uma semana, o 1º de Maio foi celebrado legalmente nas ruas pela primeira vez em muitos anos. Em Lisboa reuniram-se cerca de um milhão de pessoas.

Portugal passou por um período conturbado que durou cerca de 2 anos, comummente referido como PREC (Processo Revolucionário Em Curso), marcado pela luta e perseguição política entre as facções de esquerda e direita. Foram nacionalizadas as grandes empresas. Foram igualmente "saneadas" e muitas vezes forçadas ao exílio personalidades que se identificavam com o Estado Novo ou não partilhavam da mesma visão política que então se estabelecia para o país. No dia 25 de Abril de 1975 realizaram-se as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte, que foram ganhas pelo PS. Na sequência dos trabalhos desta assembleia foi elaborada uma nova Constituição, de forte pendor socialista, e estabelecida uma democracia parlamentar de tipo ocidental. A constituição foi aprovada em 1976 pela maioria dos deputados, abstendo-se apenas o CDS.

A guerra colonial acabou e, durante o PREC, as colónias africanas e Timor-Leste tornaram-se independentes.

O 25 de Abril visto tempo depois
O 25 de Abril de 1974 continua a dividir a sociedade portuguesa, sobretudo nos estratos mais velhos da população que viveram os acontecimentos, nas facções extremas do espectro político e nas pessoas politicamente mais empenhadas. A análise que se segue refere-se apenas às divisões entre estes estratos sociais.

Existem actualmente dois pontos de vista dominantes na sociedade portuguesa em relação ao 25 de Abril.

Quase todos reconhecem, de uma forma ou de outra, que o 25 de Abril representou um grande salto no desenvolvimento político-social do país. Mas as pessoas mais à esquerda do espectro político tendem a pensar que o espírito inicial da revolução se perdeu. O PCP lamenta que a revolução não tenha ido mais longe e que muitas das conquistas da revolução se foram perdendo.

De uma forma geral, ambos os lados lamentam a forma como a descolonização foi feita, enquanto que as pessoas mais à direita lamentam as nacionalizações feitas no período imediato ao 25 de Abril de 1974 que condicionaram sobremaneira o crescimento de uma economia já então fraca.


Mais informação

Centro de Documentação do 25 Abril da Universidade de Coimbra
Site da Associação 25 de Abril
Júnior.TE

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Concerto - Eon Guitar Quartet

Academia de Música de Tavira
Entidade de Utilidade Pública
Música nas Igrejas
Eon Guitar Quartet
23 de Abril  -  Ermida de Santa Ana - 18 horas 




Eon Guitar quartet
"The Italian quartet Eon Guitar Quartet have a genuine and passionate sound and the capacity to attract the attention…all the public was enthusiastic after the Bellinati's rhythms and the big energy of the Carmen Suite…(Critique of the national daily after the concert at the International Festival of Guitar in Turku-Finland)"
"…The sound of the Eon Guitar Quartet simply beautiful… " (Internacional Meeting of Guitar, Mexico City-Mexico 2005)

EON GUITAR QUARTET
Este quarteto foi formado em 1999 e é constituido por Giovanni Maselli, Rita Casagrande, Roberto Tascini e Mario Barbuti.
Todos os elementos são graduados e têm experiências musicais diferentes, desde o clássico aos blues passando por o Jazz.
Eon Guitar Quartet é considerado um dos melhores e mais activos agrupamentos a nivel mundial e vários compositores dedicaram obras musicais a este quarteto.
Giovanni Maselli e Tasini dirigem o O Festival Internacional de S. Filippo Neri em Bologna e o Festival " Joaquin Rodrigo" em Porto São Giorgio.
Actuaram no  Auditorio Nacional Blas Galindo "Encuentro Internacional de Guitarra" Mexico City, Festival Internacional de Guitarra de Morelia, Festival Internacional de guitarra de Zacatecas (Mexico), Internacional Guitar Festival Turku (Finland), Quito Guitar Festival (Ecuador),Kaluga Internacional guitar festival (Russia), Katharinenkapelle Neunkirchen am Brand (Germany), London Guitar Festival, Valencia Guitar Festival entre outros festivais e salas de concerto na  Italia (Bologna, Campobasso, Nuoro, Grosseto, Naples, Rome, Trento etc…) recebendo sempre uma critica bastante positiva.

EON GUITAR QUARTET
Eon Guitar Quartet, was founded in 1999, is constituted by Giovanni Maselli, Rita Casagrande, Roberto Tascini e Mario Barbuti.
All the components are graduated with the maximum of the votes in different Italians conservatories and they come from different musical experiences, from the classic music tout-court to the electronic music passing through the Jazz and the Blues.
Eon Guitar Quartet is actually considered one of the best and the most active chamber ensemble in the international landscape of guitars and different composers have devoted some important pages to the quartet.
The M° Maselli and the M° Tascini direct respectively The International Festival of Guitar "S. Filippo Neri" in Bologna and  The Musical Festival "Joaquin Rodrigo" in Porto San Giorgio, that gave hospitality in the past years to the most famous names in the guitar world and they gave importance to many young talents in the international landscape.
Eon Guitar Quartet performed in many countries: Auditorio Nacional Blas Galindo "Encuentro Internacional de Guitarra" Mexico City, Festival Internacional de Guitarra de Morelia, Festival Internacional de guitarra de Zacatecas (Mexico), Internacional Guitar Festival Turku (Finland), Quito Guitar Festival (Ecuador),Kaluga Internacional guitar festival (Russia), Katharinenkapelle Neunkirchen am Brand (Germany), London Guitar Festival, Valencia Guitar Festival and some others Festivals of Guitar and concert halls in Italy (Bologna, Campobasso, Nuoro, Grosseto, Naples, Rome, Trento etc…) they always received very positive comments and critiques.
In 2007  Eon Guitar Quartet was awarded of the prestigious "Nino Rota" prize as "Best performers of the year".
From 2008 is available the first official recording of the quartet.

Programa
L-Boccherini……………….Introduzione e Fandango
J.Rodrigo………………….Concierto de Aranjuez (transcr. R.Tascini)
W.Walton  ……………….Varii Capricci (trancr.P.Geminiani)
J.Rodrigo…………………...Concierto Madrigal  (Selezione, trascr. M Barbuti)

http://www.academiamusicadetavira.com/
academiamusicatavira@gmail.com
Organização: Câmara Municipal de Tavira - D. Artística - Academia de Música de Tavira

A rainha do país dos frutos


I. O PAÍS DOS FRUTOS

O País dos Frutos é um país alto, atravessado por rios imensos e límpidos de luz e pelos caminhos imprevisíveis dos pássaros. Nesse país, os frutos crescem na direcção do chão que é a direcção certa de crescer. No País dos Frutos há cor, sabor, frescura e o tilintar da música que há nas sílabas do nome de todos os frutos. Quando se diz o nome de um fruto é como se o vento fizesse baloiçar as sonoridades delicadas daqueles jogos de canas que se penduram nas árvores ou nas varandas das casas. Por isso se diz que neste país os frutos têm música dentro do nome e luz e cor. E o nome dos frutos escreve-se com as mesmas letras da alegria, da frescura e da liberdade.

O País dos Frutos é o país onde tudo começa numa flor, onde o silêncio cresce devagar até tomar a forma duma ameixa, duma maçã, dum dióspiro, duma romã; até tomar a cor do sol para, enfim, escorrer pelos lábios e neles derramar frescura e claridade. No País dos Frutos há milhares e milhares de bandeiras que nada significam: nem compromisso, nem fervor, nem fé. Estão lá porque nasceram lá. Nasceram dum impulso de vida e são agitadas, não pelo frenesim da voz, mas pela alma invisível dos ventos. O País dos Frutos é um país quente donde o Sol nunca gosta de afastar-se. Sente-se bem naquele país e, desde que se levanta até que se põe, percorre cada coisa com muita lentidão. Nunca tem pressa e por isso passa o tempo a amadurecer os frutos com uma enorme paciência. Todos os dias ao alvorecer, nas hortas e nos pomares, mal pressentem o seu aparecimento, os frutos ficam em alvoroço e começam a dizer uns para os outros:

— Aí vem o nosso amigo! Aí vem o nosso grande amigo Sol!

Aqueles menos bem situados, mais escondidos pelas folhas ou pela sombra de outras árvores vizinhas, tentam apanhar os seus primeiros raios e pedem aos que moram no lado exterior da copa:


— Deixem-nos ir para a vossa janela, deixem-nos ver como caminha lá de longe o Grande Sol para vir ao nosso encontro.


Mas, como se sabe, não é fácil os frutos moverem-se. Não têm pernas e só têm um braço que os prende à árvore. E se há alguns que conseguem, apesar disso, esticar-se, esticar-se até mais acima, há outros que não têm força nem espaço e ficam abafados pelas folhas e pelos outros frutos. É certo que têm a companhia e a frescura das gotas de orvalho que durante a noite por ali se acomodaram e por ali ficam a maior parte do dia. Mas falta-lhes a cor e o sabor que só o Sol lhes pode oferecer.


— É triste ficarmos aqui escondidos. Ninguém reparará em nós. Ninguém nos colherá...


— Mas duraremos mais tempo. Ficaremos para alimentar os pássaros e os insectos e isso é melhor do que ser empacotados e alinhados em caixotes nas frutarias e nos supermercados — diziam outros menos descontentes com a sua sorte.


— E os comentários que teremos de suportar dos outros frutos e dos homens? Que somos enfezados, que não prestamos para nada, que era melhor não termos nascido — acrescentou uma pêra, briosa, mas corcovada e dura como uma pedra.


— Não me importa o que dizem. Nascemos duma flor, como os mais anafados, e o resto é conversa. Deixem-nos ir para as mesas das pessoas importantes..., ter de suportar jantares que nunca mais acabam e ouvir conversas que não interessam ao menino Jesus. Eu, por mim, prefiro ficar com os pássaros e os insectos — dizia do meio da folhagem uma maçãzita bichenta, cheia de manchas e com a pele áspera como a casca de um pinheiro bravo.


Todos os dias a conversa era a mesma. E o Sol que, quando nasce, afinal, não é para todos, ficava triste por não poder oferecer o seu calor a todos os frutos do mesmo modo. Mas nada podia fazer porque ele próprio obedecia a uma lei que lhe impunha limites e o impedia de penetrar nos lugares mais escondidos.


— Chamam-me rei, mas tenho tantas incapacidades... — lamentava-se a cada passo.


E lá continuava como um atleta incansável a percorrer o céu de horizonte a horizonte. Às vezes apetecia-lhe parar um pouco a descansar, a conversar com as nuvens, a olhar preguiçosamente o País dos Frutos. Mas não podia. Se o fizesse causaria graves problemas ao funcionamento do Universo. Um dia, porém, no seu caminhar lento e airoso, teve uma ideia luminosa. Aliás, o Sol só tem ideias luminosas:


— Há tantos frutos que se queixam por viverem nos lugares sombrios da copa... Vou reuni-los e escolher um rei dos frutos para resolver os conflitos, estabelecer a justiça e assegurar a igualdade entre todos. Um rei?... Talvez não. Uma rainha!


O Sol lá tinha as suas razões para preferir uma rainha.



II. A RAINHA DE TODOS OS FRUTOS


No dia marcado pelo Sol, todos os frutos se reuniram para entre eles escolher um que assegurasse a justiça e resolvesse os conflitos. Falou em primeiro lugar a Pêra-Joaquina:


— Tomo a palavra, meu soberano sem igual, para dizer que sou o fruto indicado para chefiar todos os frutos da horta e do pomar. Sou pequena e discreta, é certo, mas tenho a força do carácter e a dureza para impor a lei.


— Eu moro nos lugares baixos da horta — começou por dizer o Melão-casca-de-carvalho — mas a vantagem física do meu porte levará a uma natural obediência.


— A autoridade não é uma questão de físico — interrompeu o Figo-pingo-de-mel. — Eu sou de frágil constituição, mas tenho doçura e essa é uma forma de autoridade que todos aceitarão livremente.


— Concordo com o Figo-pingo-de-mel, mas deve haver uma inclinação natural para a autoridade. A minha linhagem nobre e antiga — disse a Ameixa-rainha-Cláudia — faz circular na minha seiva a necessidade de dirigir e defender os outros. A autoridade está em mim com a mesma naturalidade com que as raízes da ameixoeira estão na terra.


— Não me parece que seja assim. Há raízes que secam... — disse a Maçã-pata-de-boi. — Nos tempos que correm, a autoridade deve ter estatura e, por isso, a minha fortaleza discreta e altiva é um argumento que o Pai-de-todas-as-luzes não pode desprezar.


— Se me permite a palavra — disse o Pêssego-careca — gostava de falar sobre a importância da experiência e da sabedoria no exercício da autoridade. A minha calvície é com certeza sinal de ponderação, fundamental para ultrapassar conflitos e discussões.


— Autoridade rima com virilidade — sentenciou a Uva-coisa-de-galo. — Não é com falinhas mansas que se exerce a autoridade. É necessário ter argumentos..., compreende o meu rei, Luzeiro-de-todos-os-luzeiros? E esses argumentos, eu tenho-os: o meu exército de bagos estará sempre pronto a intervir para que a lei seja cumprida duma forma exemplar.


Ainda outros frutos falaram, mas o Grande Rei Sol não ficou convencido com as razões expostas. Pareceu-lhe que estavam demasiado interessados em mandar e poucos invocaram a preocupação da paz, da justiça e da igualdade entre a família dos frutos.


— Ouvi as vossas palavras e, a seu tempo, tomarei uma decisão.


Despediu-os e retirou-se para pensar mais maduramente. Logo nessa noite, ninguém dormiu. Todos discutiram com todos. Cada um deles esperava vir a ser o escolhido. Passaram-se noites e dias, dias e noites e, ao alvorecer, pensavam sempre que seria aquele o dia em que o Sol iria anunciar a sua escolha. As discussões eram cada vez mais acesas e a impaciência começava a retirar lucidez à maior parte. Todos se vigiavam a todos. Em cada palavra dita havia um ouvido rente às folhas a escutar. O mais pequeno deslize, um erro, qualquer defeito, eram anotados e guardados para, na altura certa, serem jogados em desfavor do rival. Como às vezes acontece no país dos homens, ninguém estava resguardado. Todos estavam expostos diante de todos. Havia naquele pomar uma palavra que pairava, luminosa, sobre a copa de cada uma das árvores: vencer. Vencer eliminando os outros. A Maçã-pata-de-boi, o Melão-casca-de-carvalho e a Uva-coisa-de-galo tinham mesmo já feito uma aliança para tomar o mando pela força.


— Eu dominarei nas alturas e esmagarei a meus pés qualquer fruto que não aceite as leis eficazes que iremos impor — dissera a Maçã-pata-de-boi.


— Eu dominarei ao nível do chão e rebolarei sobre os desobedientes até os esmagar — dissera o Melão-casca-de-carvalho.


— Os espaços intermédios ficam por minha conta. O meu exército de bagos estará vigilante: ninguém falará mais do que aquilo que pode falar, ninguém ousará pensar mais do que aquilo que deve pensar — dissera a Uva-coisa-de-galo.


Foi através da Lua que o Sol soube das conspirações tramadas durante a noite.


— É grande a confusão que reina entre os frutos — disse a Lua. — Todos querem ser rei, mas a nenhum preocupa a igualdade e a protecção dos que habitam o interior pobre da copa.


— Conheço a situação, irmã Lua, e agradeço as tuas palavras. Vai lá, vai! Está na hora de trocarmos de posto. Eu vou abrir o dia no País dos Frutos e convocá-los para anunciar a minha escolha.


E assim aconteceu. Os primeiros raios de sol convocaram os frutos para escutarem a decisão do Grande Rei Sol.


— Ouvi as vossas palavras, guardei-as e, depois de reflexão e conselho, elas parecem-me cheias de vontade de domínio e vazias da intenção de servir. Soube ainda da maquinação de alguns de vós, decididos a tomar pela força o mando sobre todos os frutos da horta e do pomar.


— Aposto que foi a Lua que nos denunciou! Queixinhas...— murmurou entre dentes o Melão-casca-de-carvalho, muito inchado entre as folhas amarelecidas.


O Sol não ouviu o comentário. Apenas a Maçã-pata-de-boi e a Uva-coisa-de-galo trocaram um sorriso amarelo de conivência. E o Sol continuou:


— Por isso, a minha escolha para chefiar o País do Frutos não recai em nenhum dos que manifestaram opinião.


Houve grande agitação e muitos protestos. Alguns figos atiraram-se abaixo, descontentes, e esborracharam-se no chão. Um deles desfez-se sobre o Melão-casca-de--carvalho que logo vociferou:


— Ei, cuidado aí em cima!... Se a Maçã-pata-de-boi se lembra de fazer o mesmo ainda fico com um galo.


— Essa é comigo, ó Melão grandalhão? — disse, mal disposta, a Uva-coisa-de-galo.


Foi tal a agitação e tantas as ameaças que o Sol teve de intervir energicamente. Quando o burburinho acalmou, disse:


— A partir deste dia, declaro a Romã rainha do País dos Frutos.


Houve um silêncio que incomodava e ninguém teve reacção para dizer o que quer que fosse. A Romã nem sabia se havia de dizer alguma coisa ou ficar mergulhada naquele incómodo silêncio que tinha tomado toda a horta. É certo que tinha uma boa aparência e uma coroa real, mas achava-se inábil para o mando. Cheia de rubor no rosto, lá balbuciou algumas palavras:


— Rei Sol, agradeço a confiança e a distinção, mas não me acho capaz de recuperar a paz e a boa convivência entre os frutos. A minha coroa está voltada para baixo e essa não é, entendo eu, uma posição que inspire respeito e imponha autoridade.


— Mas é essa a razão porque decidi escolher-te. A tua coroa indica um caminho de convivência que despreza o orgulho e aponta a direcção da terra humilde e generosa. E essa é a solução para os conflitos surgidos no País dos Frutos. Além disso, tens o dom de retardar o fim do Verão e de guardá-lo dentro de ti para o oferecer às estações futuras.


— Seja como dizes, Altíssimo rei Sol. Rejeitarei a glória de mandar e a direcção da minha coroa apontará o lugar escondido da paz.


III. A ROMÃ BOCA ABERTA


O Sol retirou-se e durante muito tempo não apareceu. Os frutos entenderam que isso era um castigo e decidiram aceitar a Romã como rainha do País dos Frutos. No entanto, mesmo depois de o Sol voltar, estudaram uma artimanha para minar a autoridade da Romã e assim destroná-la: começaram a instigar os grãozinhos que há dentro da romã para se revoltarem. E o certo é que, passado algum tempo, começaram as intrigas entre eles: porque os de cima apanhavam mais sol do que os de baixo, porque os de baixo estavam mais protegidos do sol do que os de cima e coisas deste género. Decidiram organizar-se em grupos, erguer muralhas a separar uns dos outros, procurando cada um desses grupos situar-se dentro da casca da maneira mais favorável. E se a Romã-rainha-de-todos-os-frutos ficou descontentíssima com esta atitude, muito mais descontente ficou o Sol. Como sinal de desagrado enviou um raio fortíssimo que fendeu a casca e abriu ao meio a romã onde tudo começou. Os seus interiores ficaram à mostra e expostos à irrisão dos restantes frutos, que andavam mortinhos por uma oportunidade como esta para ridicularizar a Romã-rainha:


— Olha a boca aberta... — dizia o Figo-pingo-de-mel que devia era estar calado, pois, não raras vezes, padecia do mesmo mal.


— Pintaste os lábios, romã comilã?... — gracejava a Maçã-pata-de-boi.


— Que mau hálito... Podia fechar essa boca imunda... — mangava a Pêra Joaquina.


— Foi um raio que te partiu?... — disse a Uva-coisa-de-galo de cima do seu cacho já muito rosado. E a filharada deu uma risada em cascata que ecoou por toda a horta.


Até o Melão-casca-de-carvalho, gordo como um pipo, levantou os olhos com grande custo para fazer o seu comentário:


— Com que então a menina dos olhos do Sol está de castigo. É da maneira que talvez deixe cair uns grãos dessa frescura vermelha aqui para o vizinho do rés-do-chão.


A Romã-rainha adoeceu de desgosto e todas as outras romãs se sentiam envergonhadas e culpadas por terem cedido à provocação dos outros frutos. Mas nada podiam dizer ou fazer, tão fechadas e repuxadas estavam na sua casca. Veio, enfim, o tempo da colheita. Um a um todos os frutos foram colhidos. Só ficaram os mais enfezados. Esses e a Romã-boca-aberta. Ao chegar junto dela, disse o dono da horta:


— Vou deixá-la para os pássaros.


E ali ficou esquecida, desolada e exposta às bicadas da passarada. Mas, eis que um dia, já quase não sentia qualquer emoção, passou por perto um velho homem. Era um homem triste, de longos cabelos e barba descuidada, que andava pelos caminhos, falava sozinho, dizia versos que ninguém escutava e se alimentava, tal como os pássaros, dos frutos rejeitados ou que ficavam esquecidos nas árvores.


— Que bela romã! O seu sumo aclara o sangue e espalha pela alma a saudade das manhãs frescas e luminosas do Verão...


Colheu-a e sorveu com prazer e lentidão a doçura de todos aqueles grãos. E enquanto era degustada, a Romã-boca-aberta ainda conseguiu escutar as palavras do velho homem:


— Ó Grande Rei Sol, como és sábio, justo e generoso!... És sábio porque ensinaste aos frutos da horta o significado da coroa da romã que aponta o chão. És justo porque castigaste a sua ganância. És generoso porque, procedendo desse modo, proveste ao deleite deste teu servo que assim pode saborear-te sorvendo estes grãos tardios e doces.



Nuno Higino
A Rainha do País dos Frutos
Marco de Canavezes, Cenateca, 2000
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Brincar às guerras


― Está muito calor para jogar basquete. Vamos fazer outra coisa ― sugeriu Luke.
Os amigos sentaram-se à sombra do salgueiro a decidir o que fazer.
― Tens mais balões de água? ― perguntou Danny.
― Não ― respondeu Luke. ― Quem me dera ter.
― Podemos jogar jogos de vídeo ― sugeriu Sameer, com um sorriso rápido.
― Não, não podemos ― disse Luke. ― A minha mãe disse que tínhamos de brincar ao ar livre.
― Já sei! ― exclamou Jeff. ― Vamos brincar às guerras!
Luke levantou-se logo.
― Que óptima ideia! ― concordou.
― E se fôssemos andar de bicicleta? ― sugeriu Jen.
― Não, nem pensar ― atalhou logo Jeff. ― A guerra é melhor! Há muito que não brincamos.
E Luke acrescentou:
― Podemos esconder-nos e fazer uma emboscada. Jen, tu és boa a atirar granadas.
Jen sorriu. Luke pegou num pau e traçou uma linha no chão poeirento. De um lado escreveu um grande S e do outro desenhou um I.
― Temos de nos dividir em duas equipas, Soldados e Inimigos.
Depois tirou o boné e pô-lo no meio da linha.
Jen explicou as regras a Sameer:
― Todos temos de pôr alguma coisa dentro do chapéu. Depois despejamo-lo em cima da linha e vemos quem faz de Soldado e quem faz de Inimigo, conforme o sítio onde os objectos caem. Vais ver que o Luke põe a sua placa de identificação militar. Faz sempre isso.
― O que é uma placa de identificação militar? ― perguntou Sameer.
Sameer tinha vindo de um outro país para viver com os tios. Tinha aprendido a jogar basquetebol bem depressa, mas não sabia brincar às guerras. Luke mostrou-lhe uma placa de metal brilhante que tinha ao pescoço.
― É isto. Era do meu tio. Ele já esteve numa guerra a sério e, quando voltou, deu-ma. Os soldados andam sempre com ela. É muito importante.
 Sameer esfregou a placa brilhante com os dedos.
― Não tenho uma igual ― disse.
― Não faz mal. Ninguém tem ― consolou-o Luke. ― Podes pôr outra coisa qualquer no chapéu. A Jen vai colocar uma pedra e o Danny põe um cromo de basebol.
Sameer remexeu no bolso e tirou de lá um pião.
― Posso usar isto?
― O que é isso? ― perguntou Danny.
― É um pião ― respondeu Sameer. ― Vocês não têm disto aqui?
 Tirou um cordel do bolso e continuou:
― Lá no meu país havia muitos.
De repente, o pião rolou aos pés deles. Sameer atirou-o ao ar, apanhou-o a girar e colocou-o no boné de Luke.
― Que espectáculo! ― disse este.
Depois virou o boné com um gesto rápido e anunciou:
― Os Soldados são Danny, Jen e Jeff. Os Inimigos são o Sameer e eu.
Antes mesmo de os outros se terem mexido, Luke correu pela encosta abaixo, gritando:
― Os Inimigos vão para o pinhal. Os Soldados ficam aqui.
Jen queixou-se:
― Não é justo começar a guerra antes de estarmos prontos!
― Como nos preparamos para uma guerra? ― perguntou Sameer, logo que chegaram às árvores.
― Apanha paus para fazerem de armas e pinhas para fazerem de bombas e granadas. Temos de ter um plano de ataque.
Dentro de alguns minutos, o boné de Luke estava cheio de pinhas. Sameer só tinha uma.
― Só tens uma? ― admirou-se Luke.
― Acho que chega.
― Talvez para ti. Quanto a mim, tenciono arrancar-lhes a cabeça!
Sameer deu a sua pinha a Luke e disse:
― Lembrei-me agora de que tenho de ir cedo para casa.
Virou costas e deixou o amigo ali especado.
― Espera! ― gritou Luke. ― Não posso ser o único Inimigo! São muitos contra um!
Mas Sameer já tinha desaparecido.

Quando os miúdos se juntaram de novo na manhã seguinte, o plano de Luke estava pronto. Tinha apanhado montes de pinhas atrás de casa e tinha-as escondido no pátio. Estava ansioso por começar. Comentou para Sameer:
― Quem me dera que houvesse uma guerra para miúdos. Uma guerra a sério.
― E há ― disse o amigo, em voz baixa.
― O quê? Onde? ― quis saber Luke.
― No meu país.
Sameer pegou numa bola de basquete, driblou e encestou.
― No sítio onde vivias? ― perguntou Luke.
― Sim, perto da minha casa verdadeira, antes de vir viver com o meu tio Mustafa. Até participei nela.
― Nela o quê?
― Na guerra.
― Estás a brincar! Nunca nos contaste nada. Tinham meninos-soldados e metralhadoras?
Sameer deixou cair a bola e sentou-se junto de Jen. Embora tivessem brincado bastante juntos este Verão, nenhum deles sabia muito sobre o outro.
― Não gosto de falar sobre isso ― confessou Sameer. ― Eu não era soldado. Ninguém na minha família era. Entrámos na guerra porque fizeram a nossa casa ir pelos ares.
― Quem fez? ― perguntou Jeff.
― Não sabemos. Havia muitos tiros a serem disparados de ambos os lados.
O menino pegara, entretanto, no pião, e começara a enrolar o cordel em torno dele.
― Os meus pais e o meu irmão estavam em casa quando morreram. Como eu estava na escola, salvei-me e vim viver com o meu tio Mustafa.
― Mas, porque atacaram a tua família? ― sussurrou Jen.
― Foi um engano. Não planeavam atacar-nos. O meu tio disse que os morteiros deviam ter atingido outras casas.
Todos olharam para ele. Ninguém sabia o que dizer. Sameer falava de algo que eles nem imaginavam que existisse.
― Foi um erro terrível ― disse Luke, por fim.
Sameer concordou com a cabeça.
― Quem me dera que nunca tivesse acontecido.
Ao ouvir a história de Sameer, Luke teve vontade de chorar. Por momentos, ficou apenas a olhar para o pião do amigo. Depois, foi até à linha divisória que traçara no chão e apagou as letras S e I, bem como a própria linha.
― Não vamos jogar mais? ― quis saber Danny.
― Vamos ― respondeu Luke, pondo o braço em torno de Sameer. ― Vamos jogar basquete.
Depois olhou para os amigos e disse:
― Está muito calor para guerras.

Kathy Beckwith
Playing War
Maine, Tilbury House, 2005
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

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