sábado, 30 de janeiro de 2010

Chapitô acolhe espectáculo de Circo Contemporâneo Die Maiers - Episódio I





Caro (a) Professor (a):
No âmbito da programação de residências artísticas internacionais e do acolhimento de espectáculos levados a cabo por companhias de circo contemporâneo e artes performativas, o Chapitô – Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, associação cultural com sede em Lisboa, sita Rua Costa do Castelo N.7, recebe, na primeira quinzena de Abril de 2010, a companhia Die Maiers.
 Dos dias 08 a 18 de Abril, às 22H, a família Maiers irá apresentar, na Tenda de espectáculos do Chapitô, o espectáculo para toda a família Die Maiers – Episódio I.
Die Maiers – Episódio I é um espectáculo musical não verbal, criação colectiva de uma família circense, que recupera o tradicional das criações circenses juntando-lhe a energia do teatro de variedades e a contemporaneidade do novo circo.

Num espectáculo criado para não deixar ninguém de fora, adultos e crianças são guiados por uma comédia familiar cheia de cambalhotas e peripécias.

Texto original: Sabine Maier e Yogi Mohr
Guião: Sabine Maier e Yogi Mohr
Encenação: Yogi Mohr
Coreografia: Sabine Maier e Luca Maier
Interpretação: Sabine Maier, Yogi Mohr, Luca Maier, Branca Maier e August Maier
Duração: 45 minutos
Idade: Espectáculo para toda a família


Estamos por isso abertos a inscrições de grupos escolares pelo preço de 8€ por pessoa com oferta de 1 (um) bilhete para o professor.

Em anexo enviamos o cartaz promocional do evento, sendo que, e caso pretendam informações adicionais, enviaremos brochura promocional.

Na esplanada do Chapitô, os grupos de alunos e professores podem beneficiar de um menu especial com respectivo desconto.

Informações acerca desta companhia podem ser consultados no site www.diemaiers.com.

Ficamos a aguardar pelas vossas inscrições.

Cordialmente,


Ulika da Paixão Franco
Cultura, Comunicação e Imprensa
Gabinete da Presidência


Costa do Castelo, 1/7
1149-079 LISBOA
Email: divulgacao@chapito.org
Telef: 218 855 550
Fax:   218 861 463
Site: www.chapito.org

Concurso de Fotografia para Jovens - COMISSÃO EUROPEIA


Exmos Senhores,

A Mundiconvenius é uma empresa de organização de congressos e
conferências, que opera no mercado nacional e internacional desde 1995.

Por via dos seus contactos a nível internacional, foi a nossa empresa
seleccionada para apoiar em Portugal as actividades de uma das agências
de comunicação da Comunidade Europeia.

Um dos primeiros projectos que nos foi entregue e que trazemos agora ao
vosso conhecimento é um  Concurso de Fotografia subordinado ao tema
*O Euro: O que significa para nós?* destinado a Jovens entre os 14 e
os 18 anos e que está a ser implementado em todos os estados membros.

Neste sentido vimos por este meio encaminhar em anexo a carta oficial
enviada pela Comissão Europeia, bem como o anúncio do Concurso em
formato "Poster".

Este concurso permitirá aos jovens portugueses mostarem mais uma vez a
sua capacidade de inovação e de responder aos vários desafios que se
colocam.

A submissão das fotos no concurso processa-se através do site oficial do
concurso, que abaixo segue.
http://www.euroinphoto.eu/index_pt.htm

As equipas podem ser formadas por 2 Jovens, o por 3 jovens e um adulto,
no caso dos mesmos serem menores de idade

Contamos com a participação massiva  dos nossos Jovens!!

Para qualquer esclarecimento de dúvidas, favor contactar:
assinatura

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O espelho do quarto, o relógio de cuco e o xaile de seda


Depois do grande temporal que destruiu a casa de Pedro, no alto da arriba, que havia Pedro de fazer? Ir pelo mundo tentar fortuna é coisa fácil nas histórias, mas não na vida. Pedro estava muito desconsolado da sua vida, sentado no alto da arriba, olhando para os buracos abertos na rocha, onde tinham estado enterradas as estacas da sua casinhota. Pedro pensava na noiva que havia de vir de longe, dali a muito pouco, mal começasse a Primavera, para viver na casinha que ele tinha construído para os dois, no alto da arriba.
Tinham feito muitos projectos. Pedro comprara um barco de pesca, pintara-o de novo; com estacas e pranchas de velhos barcos fizera a sua cabana. Arranjara-a por dentro o melhor que pudera, com esteiras de palha, móveis antigos de casa dos pais, candeias de barro envernizado, búzios e conchas dos mais belos que o mar traz à praia...
Longe, na sua aldeia da encosta, entre pomares muito verdes e casalinhos brancos, a noiva de Pedro fiava o bragal. Tinha tranças loiras no alto da cabeça e as melhores mãos de rendilheira que havia nos arredores. Pedro tinha-a conhecido na grande festa do São Miguel, no Verão do outro ano.
Pedro era pescador, trabalhava por conta dum patrão, mas com as suas economias e a sua coragem, tinha arranjado o dinheiro para comprar o barco. Deixara de aparecer aos domingos na vila, onde as tentações eram maiores — o tiro ao alvo, o jogo da malha, a «venda» do Tio Bento — e o seu barco, o «Estrela de Alva», já estava daí a pouco ancorado na baía, entre os barcos dos outros, com as redes secando ao sol, desenroladas pela areia.
O Inverno chegava ao fim, quando veio o temporal. Com a Primavera, devia chegar da aldeia da encosta a noivazinha que Pedro tinha escolhido no Verão do outro ano. Já as pobres ervas rasas das penedias começavam a espontar-se de verde e a deitar florinhas tristes. E Pedro nesse dia tinha ido à vila, comprar uns luxos para alindar a casa: um relógio de cuco, um espelho para o quarto, e também um xaile de seda, para oferecer à sua noiva.
O dia desde manhã que ameaçava chuva, mas pela noitinha o céu carregou, começou a soprar um grande vento e a gente velha da vila, os pescadores com longos anos de mar resmungavam, abanando a cabeça:
— Grande coisa vamos ter! Grossa borrasca!...
Pedro voltava com as suas compras para a cabaninha nova das arribas, quando encontrou o Tio Sardinha:
— Olha, menino, não te metas a caminho que o mar já galgou as rochas e vem por aí acima. Se não queres que te apanhe, volta para trás...
— Mas eu vou para casa, Tio Sardinha...
— Se ainda tiveres casa a estas horas... O mar lambeu tudo o que era arribas!
Pedro já não ouviu mais nada: deitou a correr pelo caminho adiante. Depois... Depois, até é melhor não contar. Pedro nem sequer pôde chegar ao alto dos rochedos, ao lugar da sua casa, porque o mar furioso vinha por lá fora, ao seu encontro. Da cabana que ele levantara nas vésperas, com tanto amor, isso nem rasto.
Foi assim que, nessa tarde, o Pedro pescador perdeu em menos dum abrir e fechar de olhos toda a sua fortuna: casa, barco e economias; e, quando o temporal passou, viu-se sentado no alto da arriba, com um relógio de cuco, um espelho e um xaile de seda por únicos bens deste mundo.
Daí a dois dias, chegava da encosta a noivazinha, que ele escolhera no Verão do outro ano, pelo São Miguel. Havia de vir toda asseada, de blusa nova, tranças enleadas em flores, e atrás o pai, guiando o burrico com as arcas do bragal... Ela esperava com certeza que houvesse flores e sinos na igreja da vila. E que no alto das penedias estivesse a cabaninha nova em folha, feita pelas mãos de Pedro, mas toda agasalhada e bonita. E que na baía houvesse um barco pintado de verde, com redes secando ao sol.
E como se enganava!
O mar tinha comido a casa, tinha comido o barco, só deixara no alto da arriba um Pedro miserável, pobre como Job, sem casa nem trabalho...
Na igreja da vila, nem flores nem sinos: muita gente de joelhos, a pedir pelos tristes que o mau tempo apanhara no mar alto e que sabe Deus por onde andariam...
Pedro pensava nisto tudo. Daí a dois dias chegava a noivazinha... Pedro chorava de vergonha e desespero...
Uma gaivota passou, roçou-o com as asas:
— Olha, Pedro, olha como brilha o Sol! Prepara as redes, volta ao mar...
— Não tenho barco...
O Sol bateu-lhe na cara, brilhante, a pino:
— Olha que é meio-dia, Pedro, vai para casa comer as tuas sopas...
— Não tenho casa...
— Não tens casa?! — gritou ali ao pé uma voz rouca e áspera.
— Tens tal! Sempre há um recanto nas rochas mais altas para os desgraçados como tu. Terás peixe cru, sol e bom ar. À noite, a rocha viva serve de tecto e a palha seca serve de cama... Em querendo é vires...
Pedro, que voltara a cabeça, ainda viu a grande águia marinha levantar voo. Olhou pela última vez para os buracos abertos onde tinham assentado as paredes da sua casa. Pensou ainda na vergonha que seria receber na miséria a noiva que ele escolhera. Não tinha coragem, não tinha coragem...
Depois fez uma trouxa com o relógio de cuco, o espelho do quarto e o xaile de seda, e meteu-se a caminho pelas altas escarpas dos rochedos.
— Que vens tu cá fazer? — perguntaram as aguiazinhas-bebés quando viram aparecer no seu ninho de rochas aquele homem esfarrapado e sangrento.
— Venho viver convosco. Foi a mãe-águia que me convidou.
— Ah! — disseram as aguiazinhas, curiosas. — E o que sabes fazer? Sabes voar?
— Não — disse Pedro.
— E tens garras muito grandes?
— Não.
— Bico já se vê que também não tens... Afinal para que é que serves?
Então Pedro disse tudo quanto sabia fazer. Mas como nenhuma das coisas que um homem sabe fazer pode ser feita num alto ninho de águias, longe do mundo e só com as fracas mãos que os homens têm, as aguiazinhas não apreciaram por aí além os talentos de Pedro, e ele viu-
-se desde logo esquecido e desprezado, e ali ficou para um canto.

Quando a noiva de Pedro chegou à aldeia, encontrou as portas das casas fechadas em sinal de luto.
— Onde mora o Pedro pescador?
— Morava lá em cima, nas arribas...
A noiva de Pedro não quis saber por que diziam «morava» e correu às arribas: mas nas arribas não havia nenhuma casa. Só restavam os buracos abertos das estacas da antiga cabana.
— O mar levou-lhe a casa... — explicaram os tojos rasteiros da penedia.
— E ele, onde está?
— Isso não sabemos...
A noiva de Pedro viu lá em baixo, à beira-mar, ao sol, homenzinhos que consertavam barcos. Desceu as arribas, e chegou à praia. Mas entre os barcos alinhados não estava o barco verde, o «Estrela de Alva».
— O mar levou-lhe o barco... — responderam os homens às perguntas da noiva de Pedro.
— E ele, onde está?
— Isso não sabemos...




— Talvez o mar o levasse também... — disse então o Tio Sardinha, que fumava ao sol o seu cachimbo. — Na tarde do temporal vi-o subir para as arribas, aconselhei-lhe cautela... O mar talvez o levasse...
— O mar leva tudo... — disseram os homens.
A noiva de Pedro tornou a subir as arribas e sentou-se nas pedras que tinham segurado as estacas da cabana de Pedro.
«O mar leva tudo...», diziam os homens.
— Mas talvez não o levasse! — disse a noiva de Pedro.
— E não levou! — disse a águia marinha passando a voar sobre as rochas da beira-mar.
— Sabes dele? — gritou a noiva de Pedro.
— Está no meu ninho! — respondeu a águia, e passou para mais longe.
As mãozinhas que passaram dias e dias fazendo dançar os bilros, fiando o linho na roca, têm a pela fina e as unhas delicadas. Os pés que andaram metidos em chinelinhas bordadas, são mimosos e doridos. Os braços que nunca levantaram mais peso do que uma abada de frutos ou de flores, são fracos, cansam-se logo. Mas os corações valentes, quando querem uma coisa, valem por mãos calejadas, valem por pés de andarilho, por braços de lutador...
E a noiva de Pedro chegou ao ninho das águias.
As águias andavam a voar ao sol. Só Pedro dormia deitado na palha.
— Pedro, acorda! Acorda, Pedro!
Pedro abriu os olhos, corou de vergonha.
— Ah! Porque vieste? O mar levou tudo...
— Não te levou a ti, Pedro. Ainda estás vivo...
— Já não tenho nada, já não valho nada...
— Vamo-nos embora, Pedro! Que não és águia marinha para viver nestas alturas...
E a noiva de Pedro fê-lo levantar. Sentados na rocha, à beira do ninho, viam lá em baixo as ondas na praia, e o Sol a afundar-se, vermelho e sem raios, na linha das águas...
— O mar levou tudo. Volta tu sozinha. Hás-de achar um noivo com casa e com barcos, mais rico e melhor... Eu é que não desço!
— Que vergonha, Pedro! Já não és um homem!
— Já não tenho nada! Olha o que me resta. — E Pedro mostrou a trouxa: era o espelho para o quarto, era o relógio de cuco e o lindo xaile de seda.
— O mar levou tudo, o mar levou tudo...
Então a noiva de Pedro pegou no espelho e pô-lo diante dele:
— Olha bem para aí, Pedro, e vê se o mar levou tudo; olha bem para aí e vê que ainda és o mesmo Pedro que comprou o «Estrela de Alva» e construiu a cabana, lá no alto das arribas...
— Sim, fui eu, e ainda aqui estou...
— E havemos de fazer os dois outra cabana, e compramos um barco mais pequeno, e vais ver Pedro, e vais ver... Vamos descer para a vila...
— Qualquer dia começamos... Hoje não, que estou cansado... Deixa passar mais um tempo... Esquecer mais esta desgraça... Esquecer que o mar levou tudo.
— Tudo não, Pedro. Deixou-te isto: olha como o tempo passa. — E a noiva de Pedro mostrou-lhe o relógio de cuco, o tiquetaque apressado, os ponteiros, gira que gira. — Olha cada minuto que passa, olha que já não volta mais. Temos de o aproveitar, mãos à obra! Vamos, Pedro!
Pedro pôs-se de pé e começaram a descer de mão dada. Já caía a tarde e fazia frio.
— Que vergonha a minha! A noiva que eu escolhi no outro ano pelo São Miguel vem-me achar de mãos vazias... O mar levou tudo, o mar levou tudo!
O vento do mar passava.
— Pedro!
— Que é?
— Não vês que eu tenho frio...?
— Põe o teu xaile de seda... Foi para ti que o comprei...
— Vês que o mar não levou tudo? Sempre tinhas que me dar...
E Pedro, todo contente, deitou pelos ombros da noiva o belo xaile de seda.
Assim voltaram à vila.
Hoje Pedro tem uma casa de pedra e cal, tem muitos barcos, que vão e vêm no mar. Mas aos filhos que vão nascendo, Pedro sempre mostra as três coisas que o mar não levou: o espelho do quarto, o relógio de cuco e o xaile de seda. O espelho, que é como a certeza de nós mesmos, e do que podemos fazer; o relógio, que lembra a obrigação de trabalhar e de encher utilmente o tempo que não pára; o xaile de seda — para que ninguém esqueça que ainda o mais miserável tem sempre um pouco de amor para espalhar pelos outros.
E estas são três coisas que o mar de nenhuma desgraça pode levar.



Esther de Lemos
A borboleta sem asas e outras histórias
Lisboa, Editorial Verbo, 1986





O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

Origem de algumas expressões. Curioso.

Expressão popular: 'Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho carpinteiro.'
Origem: 'Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro.'

Expressão popular: 'Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão.''

Origem: 'Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão.'

Expressão popular: 'Cor de burro quando foge.'

Origem: 'Corro de burro quando foge!'

Expressão popular: 'Quem tem boca vai a Roma.'

Origem: 'Quem tem boca vaia Roma.' (isso mesmo, do verbo vaiar)

Expressão popular: 'Cuspido e escarrado' - quando alguém quer dizer que é muito parecido com outra pessoa.

Origem: 'Esculpido em Carrara.' (tipo de mármore)

Expressão popular: 'Quem não tem cão, caça com gato.'

Origem: 'Quem não tem cão, caça como gato'... ou seja, sozinho!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A pequena Havrochetchka


Há pessoas boas neste mundo. Mas também há pessoas que não são boas. E pessoas que não têm sequer vergonha do mal que fazem.
A pequenina Havrochetchka teve a infelicidade de viver com pessoas que pertenciam a este último grupo. Ela era órfã, e uma família recolheu-a mas apenas para a fazer trabalhar até mais não poder ser. A pequenina Havrochetchka fiava e tecia e fazia toda a lida da casa e tinha de responder por tudo.
A dona da casa tinha três filhas. A mais velha chamava-se Um-Olho, a do meio Dois-Olhos, e a mais nova Três-Olhos.
As três irmãs não faziam nada durante todo o dia: sentavam-se junto do portão a olhar quem passava, enquanto a pequenina Havrochetchka fiava e tecia para elas, sem nunca receber uma palavra de agradecimento.
Às vezes a pequenina Havrochetchka ia ao campo. Abraçava a vaca Malhada e contava-lhe todas as suas mágoas.
— Minha querida Malhada — dizia então. — Elas batem-me, e ralham-me, não me dão comida suficiente e ainda por cima proíbem-me de chorar! Para amanhã tenho de ter cinco fardos de linho fiado, tecido, branqueado e dobrado!
E a vaca respondia:
— Minha querida, basta que entres por uma das minhas orelhas e saias pela outra para que o teu trabalho fique pronto!
E o que a Malhada dizia, assim se cumpria. A pequenina Havrochetchka entrava por uma das orelhas da vaca e saía pela outra. E — maravilha das maravilhas! — ali estava o pano: tecido, branqueado e dobrado.
Então a pequenina Havrochetchka levava as peças de linho para casa e entregava-as à madrasta que olhava para elas, resmungava, e as escondia numa cómoda, dando-lhe logo mais trabalho para fazer.
E a pequenina Havrochetchka ia até junto da Malhada, abraçava-a, fazia-lhe festas, entrava por uma das suas orelhas e saía pela outra, agarrava no pano pronto e levava-o de novo à madrasta.
Um dia a velha chamou a filha Um-Olho e disse-lhe:
— Minha querida filha, minha encantadora filha, vai ver quem é que ajuda a órfã no seu trabalho. Descobre quem lhe fia o linho, quem lhe tece o pano e quem o enrola nas peças.
Um-Olho foi com a pequenina Havrochetchka ao campo, e foi com ela à floresta, mas esqueceu-se do que a mãe lhe tinha mandado fazer. Deitou-se no chão à torreira do sol, enquanto a pequenina Havrochetchka murmurava:
— Dorme, dorme, olhinho, dorme!
Um-Olho fechou o seu único olho e adormeceu. E enquanto ela dormia, a Malhada fiou, teceu, branqueou e dobrou o linho.
A madrasta ficou de novo sem saber nada, por isso chamou Dois-Olhos, a filha do meio, e disse-lhe:
— Minha querida filha, minha encantadora filha, vai ver quem é que ajuda a órfã no seu trabalho.
Dois-Olhos foi com a pequenina Havrochetchka, mas também ela se esqueceu do que a mãe lhe tinha mandado fazer. Deitou-se no chão, à torreira do sol, enquanto a pequenina Havrochetchka murmurava:
— Dorme, dorme, fecha um olho e fecha também o outro!
Dois-Olhos fechou os olhos e adormeceu. Enquanto dormiu, a Malhada fiou, teceu, branqueou e dobrou o linho.
A velha ficou muito zangada e, no terceiro dia, chamou Três-Olhos, a filha mais nova e ordenou-lhe que fosse com a pequenina Havrochetchka, a quem dera muito mais trabalho do que era habitual.
Três-Olhos brincou e saltou ao sol até que ficou tão cansada que se deixou cair no chão. E a pequenina Havrochetchka murmurou:
— Dorme, dorme! Fecha um olho e fecha também o outro!
Mas esqueceu-se completamente do terceiro olho.
E assim dois olhos adormeceram, mas o terceiro olhou à sua volta e viu tudo.
Viu a pequenina Havrochetchka entrar por uma das orelhas da vaca e sair pela outra, e viu-a pegar no tecido já pronto.
Três-Ohos chegou a casa e contou à mãe tudo o que tinha visto. A velha ficou doida de alegria. No dia seguinte foi ter com o marido e disse-lhe:
— Mata a vaca Malhada.
O velho ficou admirado e tentou chamá-la à razão.
— Ficaste louca, mulher? — disse ele.— Trata-se de uma óptima vaca e além disso ainda é muito nova.
— Mata-a e deixa-te de palavreado — insistiu a mulher. Não havia nada a fazer e o velho começou a afiar a sua faca.
Mas a pequenina Havrochetchka percebeu o que se passava. Foi ao campo e lançou os braços ao pescoço da Malhada:
— Minha querida Malhada, querem matar-te! — chorou ela.
E a vaca respondeu:
— Não chores, minha querida, e faz o que te mando: depois de me matarem pega em todos os meus ossos, embrulha-os no teu lenço,   enterra-os no jardim e rega-os todos os dias. Não comas pedaço algum da minha carne, e nunca te esqueças de mim.
O velho matou a vaca, e a pequenina Havrochetchka fez tudo tal qual a Malhada lhe ordenara. Estava cheia de fome mas não tocou na carne. Enterrou os ossos no jardim, e regou-os todos os dias.
Pouco tempo depois nascia uma esplêndida macieira nesse lugar: as suas maçãs eram redondas e sumarentas, e o mais espantoso de tudo é que os ramos eram de prata e as folhas de ouro! Todos os que por ali passavam paravam a olhar para ela e maravilhavam-se com tal prodígio.
Se passou muito tempo, se passou pouco, ninguém sabe dizer. Sabe-se apenas que um dia Um-Olho, Dois-Olhos e Três-Olhos estavam no jardim a passear, e logo aconteceu que nesse exacto momento passou por elas, num belo cavalo, um jovem muito elegante e muito rico. Vendo as maçãs tão apetitosas parou e disse de brincadeira às raparigas:
— De todas três, uma será minha esposa se me der um fruto dessa árvore maravilhosa!
As três irmãs correram até à árvore, cada uma tentando ser a primeira a apanhar uma maçã.
Mas as maçãs, que até então se encontravam nos ramos mais baixos, à mão de qualquer pessoa, ergueram-se de repente no ar, fora do alcance das mãos das três irmãs.
As três irmãs ainda tentaram sacudir os ramos, mas as folhas caíram em catadupas e cegaram-nas. Tentaram agarrar os ramos, mas os ramos enfiaram-se pelo seu cabelo e desfizeram-lhes as tranças. Por mais que se esforçassem e lutassem não conseguiram apanhar as maçãs, e cada vez ficavam mais feridas e arranhadas.
Então a pequenina Havrochetchka chegou junto da macieira, e logo os ramos se baixaram, e as maçãs caíram nas suas mãos. Ela deu uma maçã àquele belo jovem, e pouco tempo depois casava com ele.
Desde esse dia nunca mais conheceu a tristeza: viveu com o marido em boa saúde e grande alegria, enriquecendo de dia para dia…

Contos Tradicionais da Rússia
Lisboa, Edições Raduga, 1990



O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Livro do Mês - Janeiro 2010 - "Lua Nova", Stephenie Meyer


Uma história do Ano Novo

Quando Danni foi à sinagoga com o pai, na véspera do Ano Novo, viu que todos estavam de pé e rezavam. Observou tudo com cuidado e escutou os cânticos a várias vozes. Depois do ofício religioso ter terminado, Danni disse ao pai:
— Pai, vai para casa e deixa-me ir até à praia. Tenho de dizer algo de muito importante ao mar. É um segredo.
O pai concordou de imediato, porque sabia o quanto Danni gostava do mar, e que o filho falava às ondas na sua própria língua. Tinha aprendido a fazê-lo, porque passava os dias à beira-mar, a ouvir o rebentar das ondas. Já conseguia distinguir entre o mar agitado e o mar calmo, entre o mar zangado e o mar feliz.
Danni tinha aprendido a estranha linguagem que a água falava quando galgava a areia da praia, e sabia o que ela dizia.
Tendo obtido autorização do pai, correu para a praia. Não havia lá ninguém, porque estavam todos em casa a preparar o Ano Novo.... Danni ficou muito quieto e os seus lábios moviam-se devagar como numa prece.
— Ó mar, meu querido mar — murmurou. — Traz, por favor, muitas crianças nas tuas ondas. Trá-las de terras para além do horizonte. É tudo o que te peço.
Foi só isto que Danni disse. De repente, viu uma bela senhora a seu lado. Usava um vestido da cor do azul do céu, que lhe caía até aos pés. A princípio, Danni ficou muito surpreendido. Porém, quando viu a cara radiante da senhora, deixou de ter medo. Foi ter com ela e perguntou-lhe:
— Quem é a senhora e de onde vem?
— Talvez não te diga quem sou — respondeu a senhora, cuja voz soava como o murmúrio das ondas suaves num dia alegre de Verão. — Vim porque ouvi a tua prece e desejo tornar o teu sonho realidade. Agora, diz-me o que vês, meu filho.
Tirou o manto azul e cobriu a superfície das ondas com ele, de forma que Danni não visse a diferença entre a cor do seu manto e a cor das ondas, já que ambos pareciam ficar da cor do azul do céu. Pouco a pouco, a desconhecida cobriu totalmente as ondas. Em seguida, pegou nos quatro cantos do manto e, maravilha das maravilhas, fez aparecer um pequeno barco a remos, que se aproximava da praia.
O barco balouçava no mar como se fosse uma concha, e dentro dele estavam cinco crianças. Eram magras, estavam cheias de frio e descalças, e a água salgada escorria das suas roupas. Era óbvio que tinham naufragado, ou talvez tivessem apenas soltado as amarras que prendiam o barco ao cais onde ancoravam. Tinham, sem dúvida, remado sem parar, até chegarem ali.
Danni observou-as enquanto saíam do barco, a tremer de frio, pois o sol tinha-se já posto. Agarravam-se umas às outras, com medo, e choravam amargamente.
Olharam para Danni, que lhes devolveu o olhar, mas não trocaram nenhuma palavra. O menino não conseguia falar, porque tinha o coração cheio de compaixão. Receava que, se falasse, desatasse a chorar. As crianças continuavam em silêncio. Estavam cansadas das suas andanças, e tinham medo de serem expulsas da praia.
De repente, a voz suave da desconhecida fez-se ouvir. Doce, terna e maternal:
— Venham, meus filhos, não tenham medo. Este é o Danni, um amigo vosso. Foi ele que pediu que vocês viessem até aqui. Tem muitos amigos que estão também à vossa espera. Venham conhecê-los.
Devagar, as crianças aproximaram-se de Danni. Depois, uma delas sussurrou:
— Olá, Danni. Passámos momentos horríveis e estamos muito cansados. Mas chegámos, finalmente.
Danni respondeu:
— Venham comigo, por favor. Os meus pais estão à vossa espera, numa casa cheia de amigos. Hoje é um feriado especial. Venham daí.
Partiram juntos. As crianças ainda tinham dificuldade de caminhar, mas iam avançando cada vez com mais segurança. Danni pegou na mão da mais pequena de todas, que estava muito magrinha e triste. À medida que passavam pelas casas, ouviam gargalhadas e canções que lhes chegavam através das janelas abertas. Todos se preparavam para o Rosh Hashana, ou seja, o Ano Novo judaico. Quando chegaram a casa de Danni, a mãe dele abriu a porta e puderam ver as salas todas iluminadas. A mesa estava coberta com uma toalha branca, as velas estavam acesas e inúmeras iguarias cobriam a mesa.
— Mãe, chegaram — anunciou Danni com simplicidade.
— Óptimo — respondeu a mãe. — Finalmente! Temos estado à vossa espera desde sempre, meninos. Sentem-se e comam à vontade.
Colocou as crianças em redor da mesa, e estas comeram até à saciedade. Enquanto estavam ocupados a festejar, Danni olhou lá para fora. Parecia-lhe ver a senhora vestida de azul a caminho da montanha e anjos sagrados a virem ao seu encontro, cantando Abençoado sejas, Ano Novo, abençoado sejas…Então, Danni soube que a desconhecida que atendera as suas preces era a fada do Ano Novo, que tinha vindo visitá-lo.
Levin Kipnis
Gan-Gani Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
Tradução e adaptação
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar


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