segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

Poesia Palaciana

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
.

Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Cantiga_Sua_Partindo-se"

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um amigo verdadeiro

Sempre que Rogério sai de casa, esquece-se de alguma coisa. Quando se lembra, já é tarde demais.
E o que é que Rogério faz? Absolutamente nada. Só pensa: "Ainda bem que tenho o João".
O João é o seu melhor amigo, um amigo a sério, um amigo com quem se pode contar.
O Rogério sabe muito bem o que é um amigo com quem se pode contar. Sempre que ele se esquece de alguma coisa, é o João que o livra de apuros. O Rogério vai para a escola sem sapatilhas.
– Logo vi que ias esquecer-te! – diz o João, tirando um par de meias grossas do saco de ginástica, que entrega ao Rogério.
O Rogério chega ao parque sem bola.
– Logo vi que ias esquecer-te!
O João tem escondida atrás das costas a sua própria bola, que lhe estende.
O Rogério vai com o João à feira popular e não leva dinheiro na carteira.
– Logo vi que ias esquecer-te! – E como não se pode andar no carrocel sem pagar, o João tira uma moeda do bolso.
E é assim dia após dia: o Rogério esquece-se sempre de alguma coisa, o João, nunca… ou será que não?
Não. O João esquece-se sempre dos lápis de cera. Não adianta esforçar-se por fazer a pasta a tempo e horas. Quando chega a aula de desenho, o João não tem os lápis de cera na pasta.
O Rogério sabe que o João se esquece sempre deles, e por isso ele, Rogério, pode esquecer-se de tudo o que há no mundo, só não se esquece dos lápis de cera.
Estão na aula de desenho. O Rogério tira os seus lápis da pasta e põe-nos em cima da carteira. O João volta a ficar corado de vergonha porque deixou os lápis em casa, no quarto.
Então, o Rogério sorri e tira da pasta outra caixinha de lápis de cera, que pousa em cima da carteira do João.
– Logo vi que ias esquecer-te! – diz ele a sorrir.

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
Texto adaptado

.

Mais em
Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

Dia Mundial Mundial do Livro - 23 de Abril

Tal como prometido para assinalar o Dia Mundial do Livro, o escritor João Aguiar veio fazer-nos uma agradável visita (o senhor que está ao lado do escritor não é o seu guarda-costas, é o senhor da ASA Editores).



A nossa BECRE estava cheia e, com muita pena nossa, tiveram de ficar alguns de fora. Não desanimem, para a próxima serão os primeiros. Havemos de ter mais actividades destas.

Esperou atenta e pacientemente pelas perguntas de todos.


E foi esclarecedor e alegre nas suas respostas. Merece um abraço!



Para devolvermos a atenção, oferecemos ao escritor um livro que nos conta a história de uma outra importante cidade costeira, que já existiu por aqui, antes de Tavira, no séc I d.c., "Balsa".



Autografou-nos livros, marcadores, folhas de papel, e até um guião que um grupo de alunas do 8º A escreveu a partir de um dos seus livros.





No final, e como não podia deixar de ser, os alunos do 9ºE brindaram-nos com o seu profissionalismo e com um delicioso lanche volante.


Liberdade


"A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida."
Miguel Cervantes



"Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros."
Françoise Sagan

25 de Abril de 1974 - 34º aniversário


O 25 de Abril de 1974, o princípio de uma nova era


Em 2008 comemora-se o trigésimo quarto aniversário do 25 de Abril de 1974, data que marcou o início de uma nova era, de um novo Portugal. Pelo menos foi essa a intenção de quem esteve na base do Movimento dos Capitães de Abril que lideraram a “Revolução dos Cravos”. Hoje em dia discute-se muito, duvidando-se até, acerca do sucesso da revolução. Trouxe-nos liberdade? Trouxe liberdade a mais? Democracia? Autoritarismo? Desobediência? Desrespeito?
Em termos históricos 34 anos constituem pouco tempo para fazer-se uma avaliação profunda sobre as consequências da revolução, mas há de facto aspectos inquestionáveis.
O 25 de Abril de 1974 terminou com um regime ditatorial. O Estado Novo, personificado por António de Oliveira Salazar e continuado por Marcello Caetano, foi um regime castrador das liberdades fundamentais de todos os portugueses. Um regime extremamente autoritário, absolutista, violento e que defendeu o “isolamento” cultural de Portugal.
O crime mais punido era o de ter ideias livres e contrárias ao governo. O direito à contestação e à diferença eram severamente punidos. A guerra colonial, que cerceou a vida a milhares de jovens, era obsoleta e sem fim à vista. Os jovens tinham de fugir do país para não serem castigados.
Irrita-me profundamente ouvir a frase que muitas vezes se repete, principalmente quando o povo está descontente com a governação do país: “No tempo de Salazar é que era!”. O direito à indignação é legítimo e até necessário. Só com o confronto de ideias e opiniões é possível melhorar os nossos governantes e consequentemente as suas políticas. Para além disso cada país apenas tem aquilo que merece ou escolhe. Somos nós quem votamos naqueles que “supostamente” nos representam. Por isso mesmo a única forma de dar a volta é utilizar o nosso direito ao voto livre. Porque é isso que se pretende: o voto livre.
Para votarmos em consciência e para podermos filtrar tudo aquilo que nos é “impingido” nas campanhas políticas, é absolutamente necessário investirmos na nossa formação, aprofundando os nossos conhecimentos e insistindo na nossa capacidade crítica. Por isso mesmo é fundamental que nós, professores, trabalhemos com os alunos essas competências. Fazer-lhes compreender que é necessário investir na aquisição de informação, mas também fazer com que percebam que é fundamental saber utilizar essa mesma informação. O futuro do país não se resolve com o “empinanço” de matéria, mas sim com a criação de futuros adultos com capacidade crítica e argumentativa, que não tenham receio de intervir, que saibam intervir e que não tenham medo de assumir as suas opções.
Deixo-vos um texto de Daniel Sampaio que elucida bem um sentimento com o qual me identifico.


Farto de Salazar


Estou mesmo farto de Salazar. Durante toda a minha juventude ansiei pelo seu fim. Tudo começou há muito tempo. Talvez quando eu tinha doze anos e o meu irmão me explicou Humberto Delgado, numa inesquecível conversa sobre a democracia. Ingénuo, eu acreditava na vitória do General Sem Medo: com tanta gente a seu lado, como poderia perder as eleições? Foi aí que comecei a detestar Salazar.
Com quinze anos aderi à ilegal Comissão Pró-Associação dos Liceus, participei em muitas reuniões clandestinas e vi ser proibido um jornal escolar chamado “Perspectiva”, que elaborei com o Ruben de Carvalho e mais alguns amigos. Com dezasseis anos, a minha conferência no Pedro Nunes sobre Albert Camus foi autorizada à última hora, graças ao pedido da mãe de um colega: parece que o orador não era de confiança e o romancista não agradava ao regime.
Com dezoito anos entrei na Faculdade de Medicina de Lisboa. Participei, ao longo do curso, em todas as greves e manifestações contra Salazar e não me deixei seduzir pela “primavera marcelista”. Adiado do serviço militar para fazer a especialidade de Psiquiatria, o dia 25 de Abril de 1974 salvou-me da guerra colonial e foi dos mais felizes da minha vida.
Por tudo isto, estou farto. Depois de livros sobre Salazar que ocultaram com intenção o lado mais terrível do regime, após um concurso televisivo onde se esconderam as atrocidades da ditadura, chegámos ao embelezamento físico da personagem: a imagem “modernizada” de Salazar aparece-nos em cada esquina. Agora surge de cabelo colorido e aspecto tranquilo em cartazes por toda a cidade, numa propaganda de um concurso qualquer. Competição e cartazes legítimos e oportunos, a aproveitar a “onda salazarista”, mas que a mim causam más recordações e vontade de retratar o homem de outro modo: vestido de cinzento, de chapéu negro enterrado na cabeça e botas-de-elástico, afinal a face visível do que ele sempre foi.
O problema será só meu, que protesto contra o embelezamento de tão desagradável pessoa? Julgo que não: é tempo de aproveitarmos a oportunidade e explicar aos mais novos quem foi Salazar. O livro “Vítimas de Salazar”, de João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha (Esfera dos Livros) deveria ser ensinado em todas as escolas e publicitado por todo o lado: mostra bem como foi o regime de Salazar, um dos períodos mais negros da nossa história. Precisamos demonstrar aos nossos filhos e netos como o medo dominava e a liberdade não existia, uma guerra incompreensível matava muita gente e o país estava triste e atrasado. Sigo o livro citado e leio: a censura, as escutas telefónicas e as violações do correio, os informadores da PIDE/DGS, a tortura (”meia dúzia de safanões dados a tempo a essas criaturas sinistras”, dizia Salazar, a querer esconder a “estátua”, a privação do sono e o isolamento dos presos políticos), a farsa dos julgamentos e as medidas de segurança, a darem cobertura legal a prisões prolongadas dos opositores do regime; os saneamentos na função pública e os campos de concentração como o Tarrafal; a guerra de África e os seus massacres; a repressão sobre os estudantes (eu aluno do liceu a espreitar o meu irmão nos plenários de 1962, depois a fugir das cargas policiais…); acima de tudo, as mortes de que Salazar foi o grande responsável: Catarina Eufémia, Alfredo Dinis, José Dias Coelho, Manuel Fiúza, Humberto Delgado, Ribeiro dos Santos, só para citar alguns mais conhecidos.
Por isso eu digo: mostrem o Salazar que pretendem branquear, a democracia em que vivemos dá essa possibilidade e por isso aproveitem bem. Para quem estiver, como eu, farto de tanta propaganda, uma frente de esclarecimento deve ser posta em marcha: com respeito pelas opiniões alheias (o que faltava ao homem de Santa Comba), é imperioso que informemos toda a gente - distraída ou inebriada pela atraente publicidade - de quem foi Salazar na realidade.
Pela verdade. Pela memória das suas vítimas. Pelo direito à informação dos mais novos, que a continuar assim deixarão de perceber por que motivo se fez o 25 de Abril.


Crónica do Daniel Sampaio na “Pública”

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um simples caderno?

As rodas giravam mas enterravam-se cada vez mais fundo na areia, e o carro não saía do sítio. O motor acelerou e acabou por parar de vez.
A pele muito escura de Mumo brilhava com o suor. Saímos do carro. Os pés enterraram-se até aos tornozelos na areia escaldante. Todas as tentativas para empurrar o carro eram inúteis.
— A que distância estamos do Centro das Missões? — perguntou Willi.
— Dois quilómetros, talvez três — respondeu Mumo.
— Foi sorte o carro não se ter avariado há duas horas atrás — pensou Willi em voz alta. — Eu vou buscar ajuda. Em que direcção fica o Centro?
Mumo estendeu o braço numa direcção qualquer.
Eu só via areia até perder de vista, e alguns espinheiros.
— É melhor irem os dois — disse eu. Tinha muito medo que Willi se perdesse naquela imensidão de areia.
— Queres ficar a guardar o carro sozinha? — perguntou Mumo num tom duvidoso.
— Guardar de quem? — perguntei-lhe a rir. Quem iria assaltar um carro em pleno deserto do Koroli?
— Há muitas pessoas, muitas tribos diferentes, todas muito pobres aqui, em North Horr — disse Mumo com ar sério.
Sentei-me na areia e encostei-me contra a porta do carro. Pelo menos assim estava um pouco mais protegida do vento quente que me fustigava o braço com minúsculos grãos de areia cortantes. Com os olhos, seguia os dois, que, afundados na areia e curvados para se protegerem do vento, se iam afastando, cada vez mais pequenos, até acabarem por se diluir no calor tremeluzente.
Antes que tivesse tempo de me assustar com a solidão daquele ermo, os dois pontos distantes tornaram a aumentar de tamanho. Os homens já estariam de volta? Mas afinal não eram dois, não! Três, quatro, cinco pontos foram crescendo na minha direcção. A ajuda que procurávamos estaria afinal tão perto?
Levantei-me. Os olhos ardiam-me por causa da areia, do vento e do sol incandescente. Seria alguma assombração?
Os pontos transformaram-se em formas, e as formas, em crianças a correr. Crianças que corriam na minha direcção e cada vez em maior número!
Em pouco tempo vi-me rodeada por um bando de crianças nuas, semi-nuas, embrulhadas em trapos, crianças grandes e pequenas. Algumas traziam bebés às costas, outras arrastavam crianças mais pequenas pela mão. Todas de olhos encovados e corpos famintos. Nenhuma se acercou mais de cinco metros.
Fixavam-me, espantadas e de boca aberta, sem um único sorriso para a curiosa aparição que eu devia ser para elas.
Mulheres adultas, com os panos das suas vestimentas ondulando ao vento, aproximavam-se, mais lentas do que as crianças. Também elas eram magras, algumas velhas, outras novas, mulheres grávidas, mulheres com bebés ao peito e de todos os tons de pele, desde castanho "café com leite" até preto escuro. Ficaram em silêncio atrás das crianças e olhavam-me também fixamente.
"Mas que rico encontro!", pensei eu.
Encostei-me ao jipe. A chapa quente do carro queimava-me a pele através da camisa. E assim ficámos a olhar fixamente uns para os outros, calados e imóveis: mulher branca olha para pretos e pretos olham para mulher branca.
— Olá! — disse eu, quando não aguentei mais.
Ninguém respondeu. Ninguém se mexeu um milímetro sequer, ou mostrou uma cara simpática.
A ideia de que os dois homens poderiam demorar horas até regressarem com ajuda encheu-me de medo. Será que tinha de ficar horas a olhar para os nativos e a ser observada fixamente por eles? Não ia aguentar.
Fiz uma nova tentativa. Com cuidado, acocorei-me, como os africanos fazem. Os meus olhos estavam agora ao nível dos das crianças que se encontravam mais perto de mim. Comecei a cantar: "Todos os patinhos sabem bem nadar…" procurando olhá-las nos olhos.
De repente, as mulheres recuaram. Ocorreu-me a ideia absurda de que teriam pensado que eu queria enfeitiçar as crianças. Mas um dos meninos aproximou-se e estendeu o bracinho magro na minha direcção. Eu segurei-o, com cuidado, e comecei a contar os dedos: "Este é o mindinho…" A criança recolheu o braço, assustada.
Da última fila, alguém empurrava e furava para passar. Uma menina com cerca de doze anos conseguiu por fim chegar à frente e perguntou-me timidamente, em inglês, se estava a cantar canções infantis. Eu acenei que sim, aliviada, e perguntei se podíamos conversar um pouco em inglês. Ela acenou igualmente. Em seguida virou-se para as mulheres e disse-lhes algo em Suahili[1] que, aos meus ouvidos, soou como se estivesse a acalmá-las.
Isto encorajou-me a fazer-lhe mais perguntas. Se ia à escola das Missões? Acenou que sim, com orgulho. Depois, perguntou-me de onde vinha e pareceu traduzir a minha resposta às mulheres.
O gelo estava quebrado. As mulheres murmuraram alguma coisa e, de repente, vi-me cercada por elas.
— Há muita água no teu país? — quis saber a menina. — E árvores verdes?
Acenei que sim e comecei a falar. Falei das nossas montanhas e dos lagos, das nossas crianças, e de como todas eram obrigadas a ir à escola. A menina traduzia, palavra a palavra, e as crianças e as mães estavam espantadas e incrédulas.
Com os dedos, desenhei na areia montanhas, vacas, árvores, e a forma das nossas casas, mas o vento forte depressa apagava os meus desenhos.
Levantei-me e meti o braço pela janela do carro. Sabia que tinha um caderno e um marcador na minha carteira. Tirei as duas coisas mas tive de as segurar no ar, acima da cabeça. Os africanos, grandes e pequenos tinham-se, entretanto, acercado de tal forma contra mim, que mal me podia mexer.
Depois de ter pedido um pouco de espaço, abri o caderno em cima do capot escaldante do carro. Mais uma vez, desenhei montanhas, lagos, árvores, vacas e casas.
As crianças treparam para cima do carro, empurravam-me, penduravam-se em mim. Todas queriam ver e tocar no papel branco e macio.
Deitada de barriga para baixo no tejadilho do carro, a minha intérprete via tudo do alto, fazia-me perguntas e pedia-me para desenhar as respostas e levantar o caderno, para todos poderem ver aquelas coisas maravilhosas e inacreditáveis.
— És professora? Vens para aqui? Vais ficar aqui, connosco? Trouxeste um caderno desses para cada um de nós?
As perguntas choviam de todos os lados. Envergonhada, tive de responder não a todas.
Um barulho ao longe fez-me erguer a cabeça. Da direcção em que Mumo e Willi haviam desaparecido aproximava-se um jipe. A nossa ajuda estava a chegar.
Dei o caderno à menina, que me olhou radiante com os seus grandes olhos, mas ainda antes de ter podido dizer thank you, cerca de trinta ou quarenta pares de mãos estenderam-se e tentavam apanhá-lo. A preciosidade acabou por ser conquistada por um rapazinho.
Protestei com veemência mas ele não ligou às minhas palavras. Subiu para um monte de areia, chamou as crianças com o braço e com os dedos ágeis tirou os agrafos do caderno.
Como rei que distribuía as riquezas do seu reino, distribuiu ele as folhas brancas e lisas.
Não estava à espera disto. Emudecida, compreendi. Estava a zelar para que todos tivessem uma parte do tesouro. Sorria, orgulhoso, com o marcador enfiado no cabelo encarapinhado.
Como o caderno era grosso, quando o jipe chegou, já quase todas as crianças tinham uma folha na mão.
— Estás bem? — perguntou Willi, preocupado, ao ver-me no meio daquela multidão. Limitei-me a acenar com a cabeça.
Enquanto os homens prendiam o cabo no nosso carro, atei rapidamente o meu lenço à volta da cabeça da minha pequena intérprete.
— Vais voltar? — perguntou-me, no momento em que eu entrava para o carro.
— Vamos tentar — prometi-lhe.
Durante a viagem até North Horr — eram mesmo só dois quilómetros — contei a Willi a minha aventura.
— Nem quero pensar no meu cesto de papéis lá de casa — terminei.
— Vais ver que havemos de arranjar forma de lhes enviar cadernos e lápis. — disse Willi para me consolar.
E assim fizemos.


Brigitte Meissel
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

[1] Língua oficial da Tanzânia

João Aguiar na nossa BECRE

O escritor João Aguiar vem visitar-nos no Dia Mundial do Livro, dia 23 de Abril, brindar-nos com uma palestra e responder às tuas perguntas (e talvez até assine um livrito ou outro que tenhas lá na estante).

João Aguiar

João Aguiar nasceu em Lisboa em 1943. Licenciou-se em jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas, após ter frequentado os dois primeiros anos do curso de Filosofia da Universidade Clássica de Lisboa. Em 1976 regressou a Lisboa trabalhando na rádio, na imprensa escrita e em televisão. Foi coordenador da equipa do programa infantil da RTP, Rua Sésamo.
Iniciou a sua carreira literária aos quarenta anos e o seu primeiro romance foi A Voz dos Deuses (1984), um dos livros mais vendidos em Portugal nos últimos anos. Tem escrito, sobretudo, romances históricos.
Na sua vasta obra contam-se também vários guiões para programas de televisão e argumentos cinematográficos. É também autor da colecção juvenil O Bando dos Quatro.
Em 1995 recebeu o Prémio Eça de Queirós.
Da sua obra literária destacam-se os seguintes títulos:
A Voz dos Deuses (1984; 20 edições, além de uma edição do Círculo de Leitores)
O Homem sem Nome (1986; 10 edições)
O Trono do Altíssimo (1988; 5 edições)
Os Comedores de Pérolas (1992; 11 edições)
A Hora do Sertório (1994; 4 edições)
A Encomendação das Almas (1995; 4 edições)
Navegador Solitário (1996; 4 edições)
Inês de Portugal (1997; 5 edições)
O Dragão de Fumo (1998; 2 edições)
A Catedral Verde (2000)
Diálogo das Compensadas (2001)
Uma Deusa na Bruma (2003)
O Sétimo Herói (2004)
Em televisão participou em diversas actividades, donde se destacam:
A Marquesa de Vila Rica (Guião e diálogos), 1990 RTP
Os Melhores Anos I e II (Guião e diálogos), 1990 RTP
Rua Sésamo (Coordenação) RTP
O Rosto da Europa (Texto, diálogos e co-autoria) 1994 RTP
.
23 de Abril, Dia Mundial do Livro, na nossa BECRE (ver aqui)

Júri do Concurso de Vídeos BiblioFilmes


O Júri do concurso de vídeos BiblioFilmes, Livros Bibliotecas, Acção! irá atribuir um dos prémios, intitulado Prémio Júri (existe ainda o vencedor da Votação Popular).

Membros do Júri
Galeno Amorim, do Brasil, responsável pela Agência de notícias Brasil Que Lê
Dra. Teresa Silveira, Bibliotecária
Dra. Helena Magalhães, Professora
João Carlos, aluno 12º ano
Helena Isabel, aluna universitária
Dr. Pedro Vasconcelos, representante do El Corte Inglés
Dr. Nelson Lage, representante do Gabinete do Coordenador Nacional da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico

Critérios de Avaliação sugeridos ao Júri
Originalidade e criatividade, 20%
Mensagem clara e cumprimento dos objectivos do concurso (mostrar como gostam de ler, de uma biblioteca e/ou de um livro), 40%
Entretenimento do filme (Dá vontade de continuar a ver? Dá vontade de dar a conhecer aos amigos?), 20%
Inspirador (dá vontade de visitar uma biblioteca ou ler um livro?), 20%
O vencedor na categoria será, preferencialmente, decidido por consenso dos elementos do Júri. Caso contrário, será por maioria.
A Organização definiu, para eventual desempate, que a decisão de cinco elementos terá uma percentagem de 18% cada um, sendo que o voto dos dois alunos corresponde a 10%.
Cada elemento do Júri deverá elaborar e entregar à Organização uma tabela de análise dos vídeos, indicando por ordem decrescente quais os vídeos que considera mais merecedores de ganharem, visando chegar-se ao vencedor da edição 2008 do concurso BiblioFilmes, a anunciar no dia 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, comemorado também na nossa BeCRE (ver programa aqui).

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Auto da Índia - Gil Vicente




Foi hoje, no auditório da nossa escola. A ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve) apresentou-nos o Auto da Índia, de Gil Vicente.

Concurso de Fotografia

O Concurso de Fotografia, organizado pela professora Isabel Macieira, foi bem sucedido. Os prémios - vouchers para aulas de kitesurf , oferecidos pelo professor Fernando Gonçalves, menções honrosas e diplomas de participação - foram atribuídos a todos os níveis de ensino e a alunos do Ensino Especial, com excepção do 7º ano, pelo professor Luís Macieira, na BECRE da nossa escola.
Um dos prémios foi atribuído por votação online, através da plataforma Moodle.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Herói da Holanda

A Holanda é um país em que a maior parte do território fica abaixo do nível do mar. Enormes muralhas, chamadas diques, são o que impede o mar do Norte de invadir a terra, inundando-a completamente. Há séculos que o povo se esforça para manter as muralhas resistentes, para que o país continue seco e em segurança. Até as crianças pequenas sabem que os diques precisam de ser vigiados constantemente e que um buraco do tamanho de um dedo pode ser extremamente perigoso.
Há muitos anos, vivia na Holanda um menino chamado Peter. O pai era uma das pessoas responsáveis pelas comportas dos diques. A sua função era abri-las e fechá-las para que os navios pudessem sair dos canais em direcção ao mar aberto.
Numa tarde do início do Outono, tinha Peter oito anos, a mãe chamou-o quando ele estava a brincar:
“— Vem cá, Peter. Vai levar estes bolinhos ao teu amigo cego, ao outro lado do dique. Se andares depressa e não parares pelo caminho para brincar, ainda estás de volta antes de escurecer.”
O menino gostou da tarefa e partiu feliz da vida. Ficou um bom tempo com o seu amigo cego, falando-lhe do passeio e do sol e das flores e dos navios lá do mar. De repente, lembrou-se que a mãe lhe dissera para voltar antes de escurecer; despediu-se do amigo e tomou o rumo de casa.
Quando passava pelo canal, percebeu como as chuvas tinham feito subir o nível da água e como estavam a bater com força contra o dique, e pensou nas comportas do pai.
“Ainda bem que elas são tão fortes! Se se partissem, o que seria de nós? Estes lindos campos ficariam inundados. O meu pai diz sempre que as águas estão "zangadas". Parece que ele acha que elas estão zangadas por ficarem presas tanto tempo.”
O menino parava a cada passo para apanhar umas florzinhas azuis que cresciam à beira do caminho, ou para escutar o barulhinho dos coelhos a correr pela relva. Mas, muitas vezes, sorria ao pensar no seu amigo cego, que tão poucos prazeres tinha e tanto apreciava as suas visitas.
De repente, percebeu que o Sol estava a pôr-se e que escurecia rapidamente. “A minha mãe vai ficar preocupada”, pensou ele, já a correr para chegar depressa a casa. Nesse momento, ouviu um barulho. Parecia água a respingar! O menino parou e foi procurar de onde vinha. Encontrou um buraquinho no dique, por onde estava a correr um fio de água.
Qualquer criança na Holanda morre de medo só de pensar num vazamento dos diques. Peter compreendeu imediatamente o perigo. Se a água passasse por um qualquer buraco que fosse, de pequeno ele logo se tornaria grande, e todo o país seria inundado. O menino percebeu de imediato o que deveria fazer. Largou as flores, desceu a encosta lateral do dique e mete o dedo no furo.
A água parou de vazar! E Peter ficou a pensar com os seus botões:
“As águas zangadas vão ficar presas. Posso contê-las com o meu dedo. A Holanda não vai ser inundada enquanto eu estiver aqui.”
Correu tudo bem no início, mas depressa escureceu. O menino começou a gritar bem alto:
“— Socorro! Alguém que venha até aqui!”
Mas ninguém ouviu, ninguém veio ajudá-lo.
Estava a arrefecer cada vez mais, o braço começou a doer-lhe e a ficar dormente. Peter voltou a gritar:
“— Será que ninguém vem? Mãe! Mãe!”
Mas ela já tinha procurado o menino muitas vezes desde que o Sol se fora, olhando pelo caminho do dique até onde a vista alcançava, e decidira voltar para casa e fechar a porta, achando que ele tinha resolvido passar a noite com o amigo cego, e estava disposta a ralhar-lhe no dia seguinte de manhã, por ele ter ficado fora de casa sem a sua permissão.
Peter tentou assobiar, mas os dentes batiam de frio. Pensou no irmão e na irmã, aconchegados no calor das suas camas, e no pai e na mãe. “Não posso deixá-los afogar-se. Tenho de aguentar até que alguém venha, mesmo que passe a noite inteira.” A Lua e as estrelas brilhavam, iluminando o menino encostado a uma pedra junto ao dique. A cabeça pendeu-lhe para o lado, os olhos fecharam-se-lhe, mas Peter não adormeceu, pois tinha de esfregar a mão que estava a deter o mar zangado.
“Custe o que custar, hei-de conseguir!”, pensava ele. E passou a noite inteira ali, contendo as águas.
De manhã bem cedinho, um homem a caminho do trabalho achou ter ouvido um gemido enquanto passava por cima do dique. Inclinou-se na borda e encontrou o menino agarrado à parede da muralha.
“— O que aconteceu? Estás magoado?”
“— Estou a conter a água do mar!”
gritou Peter “Mande vir ajuda!”
O alerta foi dado imediatamente. Chegaram várias pessoas com ferramentas e arranjaram o furo. Peter foi levado para casa, ao encontro dos pais, e rapidamente todos ficaram a saber que naquela noite, ele lhes tinha salvo a vida. E, até hoje, ninguém se esquece do corajoso pequeno herói da Holanda.

http://www.inkdotbebe.com.br/

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Primeiro levaram os negros


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Agora estão a levar-me a mim
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo


Bertolt Brecht

sexta-feira, 4 de abril de 2008

ACTA – Auto da Índia

No próximo dia 11 de Abril, sexta-feira, vamos ter no Auditório da nossa escola a ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve). Esta companhia vai apresentar-nos o Auto da Índia, de Gil Vicente.
Será uma actividade dividida em duas sessões, uma de manhã (10.20) e outra de tarde (14.45) e será dinamizada pelo Grupo de Língua Portuguesa do 3º ciclo, apresentada em exclusivo para as turmas do 9º ano.

Este clássico da literatura dramática portuguesa será apresentado numa feição didáctica e pedagógica de forma a servir os objectivos escolares. Num exercício de razoabilidade, pretende-se que ao fazer-se uso dos recursos da elaboração cénica se faça também uso daqueles outros recursos afectos ao ensino do texto dramático, como tratando-se de uma "aula dramatizada". O espectáculo é seguido de debate com os discentes.

Para mais informações, consulta o programa definitivo, afixado em vários locais da nossa escola.

O Tesouro do Baobá

Num dia de grande calor, um lebrão parou à sombra de um baobá, sentou-se na erva e, contemplando ao longe a restolhada sob o vento a soprar, sentiu-se infinitamente bem.
"Baobá", pensou ele, "como é leve e fresca a tua sombra ao braseiro do meio-dia!"
Levantou o focinho para os ramos poderosos. As folhas estremeceram, felizes, devido aos pensamentos simpáticos que se lhes dirigiam. O lebrão riu-se, vendo-as contentes. Ficou calado por uns instantes e depois, piscando o olho e batendo com a língua, tomado de malícia jovial, disse:
"A tua sombra é boa, é claro, seguramente melhor do que o teu fruto. Não quero maldizer, mas o que me pende sobre a cabeça tem todo o ar de um odre de água morna."
O baobá, despeitado de ouvir assim duvidar dos seus sabores depois do elogio que lhe abrira a alma, entrou no jogo. Deixou cair o fruto num tufo de erva. O lebrão farejou-o, provou-o, achou-o delicioso. Depois devorou-o, lambeu o focinho e balançou a cabeça. A grande árvore, impaciente por ouvir o seu veredicto, susteve a respiração.
"O teu fruto é bom" admitiu o lebrão.
Depois sorriu, retomou a alegria impertinente e acrescentou:
"Seguramente é melhor do que o teu coração. Perdoa-me a franqueza: o coração que bate em ti parece-me mais duro do que uma pedra."
O baobá, ouvindo estas palavras, sentiu-se invadido por uma emoção que jamais experimentara. Oferecer a este pequeno ser as suas belezas mais secretas, Deus do céu, era seu desejo, mas, assim de repente, que medo tinha de as descobrir! Lentamente entreabriu a casca. Então apareceram colares de pérolas, panos bordados, sandálias finas, jóias de ouro. Todas estas maravilhas que enchiam o coração do baobá escorreram em profusão diante do lebrão, cujo focinho tremeu e cujos olhos se arregalaram.
"Obrigado, obrigado. És a melhor e a mais bela árvore do mundo" disse ele, rindo como uma criança satisfeita e apanhando febrilmente o magnífico tesouro.
Voltou a casa com as costas dobradas por todos esses bens. A mulher acolheu-o, pulando de alegria. Aliviou-o depressa de tão belo fardo, vestiu panos e sandálias, ornou o pescoço de jóias e saiu para o mato, impaciente de ser admirada pelas companheiras.
Encontrou uma hiena. Esse cadáver, ofuscado pelas invejáveis riquezas que passavam por si, foi imediatamente à toca do lebrão e perguntou-lhe onde tinha encontrado aqueles ornamentos soberbos com que se vestia a esposa. O outro contou-lhe o que tinha dito e feito à sombra do baobá.
A hiena correu para lá com os olhos inflamados, ávida dos mesmos bens. Jogou o mesmo jogo. O baobá, que a alegria do lebrão tinha verdadeiramente rejubilado, de novo se agradou de dar a sua frescura, depois a música da sua folhagem e o sabor do seu fruto, finalmente a beleza do seu coração.
Mas, quando a casca se abriu, a hiena atirou-se às maravilhosas oferendas como sobre uma presa e, escavando com unhas e dentes as profundezas da velha árvore para dela ainda arrancar mais coisas, pôs-se a resmungar:
"E nas tuas entranhas o que há? Também quero devorar as tuas entranhas! Quero tudo o que tens até às tuas raízes! Quero tudo, ouves?"
O baobá, ferido, dilacerado, tomado de medo, guardou os seus tesouros, e a hiena, insatisfeita e furiosa, voltou de mãos vazias para a floresta. Desde esse dia que procura desesperadamente oferendas ilusórias nos animais mortos que encontra, sem nunca ouvir a brisa singela que acalma o espírito. Quanto ao baobá, já não abre a ninguém o seu coração. Tem medo. É preciso compreendê-lo: o mal que lhe fizeram é invisível, mas incurável.
Em verdade, o coração dos homens é semelhante ao desta árvore prodigiosa: cheio de riquezas e benefícios. Porque se abrirá tão pouco, quando se abre? De que hiena se lembrará?

(recriação de Henri Gougaud)
A Árvore dos Tesouros
tradução de Maria do Rosário Pedreira

O Leão, o Urso e a Raposa


terça-feira, 1 de abril de 2008

Esperando


Esperando que tudo se resolva,
Esperando que a chuva passe,
Esperando que o tempo pare,
Esperando que o Sol ilumine o céu,
Esperando que a Lua fique iluminada,
Esperando que as estrelas se tornem em pequenos desejos concretizados,
Esperando que acabem com as confusões,
Esperando que Alguém seja feliz,
Esperando o Sol se deitar,
Esperando ouvir a Lua dizer "Tem calma, tudo se resolve.",
Esperando arranjar forças para continuar com a "guerra",
Esperando que o tempo passe rápido,
Esperando que o Amor vença,
Esperando que o Ódio morra,
Esperando que a Amizade ilumine o mundo,
Esperando que consiga ser mais feliz,
Esperando que ponha o Medo de lado,
Esperando e nada mais…

Soraia Lázaro
9º A
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