quarta-feira, 27 de maio de 2009

A Criança Misteriosa (cont)

… continuação
Uma luz maravilhosa brilhava na sombra de um escuro arbusto, mesmo em frente das crianças. Brilhava através das folhas trémulas, como uma lua resplandecente e, por entre o sussurrar das árvores, as crianças ouviram um som calmo, parecido com o vento a tocar harpa melodiosamente. As crianças sentiram-se diferentes. A sua mágoa passou e, embora tivessem lágrimas nos olhos, estas eram causadas por uma suave tristeza que nunca tinham sentido. E, à medida que aquela luz brilhava mais e a música maravilhosa se tornava mais perceptível, os corações das crianças batiam com mais força. Observavam atentamente a luz, quando se aperceberam de que era o rosto de uma linda criança, iluminada pelo sol, a sorrir-lhes e a acenar-lhes do arbusto.
– Vem cá! Oh, vem cá! – gritaram Christlieb e Félix, aos saltos, de mãos dadas.
– Já vou! Já vou! – gritou a criança numa voz muito doce, flutuando como a brisa da manhã. E aproximou-se de Félix e Christlieb.
– Ouvi-os a chorar, ao longe – disse a criança – e tive pena de vós. Meus queridos, o que se passa?
– Não estamos bem certos – disse Félix – mas agora penso que estávamos com saudades tuas!
– Sim – disse Christlieb – e agora estamos outra vez contentes! Oh, por que andaste desaparecida tanto tempo?
As crianças sentiam que conheciam desde sempre a misteriosa criança, que já tinham brincado juntos, e que tinha sido simplesmente a perda da sua companheira de folguedos que os tornara tristes.
– Não temos brinquedos – disse Félix – porque eu fui palerma e deitei fora todas aquelas coisas engraçadas que o meu primo me deu; mas ainda podemos brincar juntos com aqueles jogos, não podemos?
– Oh, Félix! – disse a criança misteriosa, a rir. – Os brinquedos que deitaste fora não valiam grande coisa e vocês têm aqui à vossa volta os mais espantosos brinquedos que alguma vez viram!
– Onde? Onde é que estão? – gritaram Christlieb e Félix.
– Olhem em redor – disse a criança. Então Félix e Christlieb viram lindas e luminosas flores de espécies variadas a espreitarem da relva espessa. Havia seixos coloridos e conchas de cristal cintilante, e pequenos escaravelhos a zumbirem suavemente numa dança contínua.
– Vamos construir um palácio! Ajudem-me a apanhar alguns escaravelhos! – disse a criança misteriosa, juntando as pedras coloridas. Christlieb e Félix assim fizeram, e a misteriosa criança trabalhou com tanta destreza que depressa se ergueram altas colunas a brilhar ao sol como metal polido, cobertas por um telhado dourado. A criança misteriosa beijava as flores que despontavam da relva e se erguiam com um suave sussurro e se entrelaçavam formando aromáticas arcadas, por baixo das quais as crianças dançavam alegremente. Depois, bateu palmas e o telhado dourado do palácio voou zumbindo (pois os pequenos escaravelhos dourados tinham-no feito com as suas próprias asas). Os pilares dissolveram-se num claro ribeiro murmurante e as flores descansaram nas suas margens.
Depois, a misteriosa criança apanhou molhos de relva e alguns pequenos galhos das árvores. Os molhos de relva transformaram-se em lindas bonecas e os galhos em pequenos caçadores. As bonecas dançavam à volta de Christlieb e sentaram-se no seu regaço, murmurando:
– Sê gentil para nós, querida Christlieb!
Subitamente, tudo desapareceu.
– Oh! – gritaram Félix e Christlieb. – Onde estão as bonecas? Onde estão os caçadores?
– Ao vosso dispor sempre que queiram! – disse a misteriosa criança.
– Mas não gostariam de ir agora até à floresta?
– Sim, sim! – disseram Félix e Christlieb. Então, a misteriosa criança pegou-lhes nas mãos e disse-lhes:
– Venham, então! – E partiram. Contudo não podemos dizer que eles caminharam! Não, as crianças pareciam flutuar através da floresta e das clareiras, enquanto pássaros de penas brilhantes voavam sobre elas. Depois, a criança misteriosa tirou uma pequena trompa dourada, dizendo:
– Agora vou tocar-vos uma música de despedida, mas amanhã voltarei!
A criança tocou e os rouxinóis cantaram, mas, subitamente, as notas da trompa e o cantar dos pássaros desapareceram, e tudo o que se conseguia ouvir era o murmurar dos arbustos por onde a criança desaparecera.
– Amanhã... amanhã voltarei! – disse uma voz longínqua.
Félix e Christlieb nunca se tinham sentido tão felizes!
– Oh, se fosse já amanhã! – disseram, correndo para casa para contarem aos pais o que tinha acontecido na floresta.
– Acho que as crianças estiveram a sonhar! – disse Sir Thaddeus à mulher, quando Félix e Christlieb contaram a sua história.
– Mas, como pode ter sido o mesmo sonho, ao mesmo tempo? Não sei o que pensar! – disse a mulher.
– Talvez a criança misteriosa seja apenas Gottlieb, o filho do professor da aldeia vizinha, que tenha estado a encher-lhes a cabeça com disparates!
Mas Sir Thaddeus não era da mesma opinião. Perguntou a Félix e Christlieb como era a criança e que roupas vestia. Ambos disseram que tinha a face branca como um lírio, as maçãs do rosto da cor das rosas, os lábios vermelhos como cerejas, os olhos azuis e brilhantes e caracóis dourados. Mas, quanto às roupas, elas não se comparavam com o casaco e calças azuis às riscas e ao boné de couro preto que Gottlieb usava. Enquanto Christlieb dizia que a criança tinha um encantador vestido feito de pétalas cor-de-rosa, Félix dizia que ela usava um fato verde-claro, como folhas tenras ao sol.
Félix achava que a criança misteriosa era um rapaz, e Christlieb dizia que era uma menina, e não conseguiam chegar a uma conclusão.
– Só preciso de seguir os miúdos na floresta para ver que criança é esta – disse Sir Thaddeus à mulher. – Contudo, acho que lhes podia estragar o divertimento, e não é isso que tenciono fazer.
No dia seguinte, a criança misteriosa estava, de novo, à espera deles, para lhes mostrar as coisas mais espantosas. Falou às árvores, aos arbustos, ao ribeiro, às flores, e todos respondiam numa linguagem que as crianças entendiam. Elas próprias entraram alegremente na conversa. Ao entardecer, quando os rouxinóis começaram a cantar, a misteriosa criança levou-os a voar, em direcção às nuvens alaranjadas do pôr-do-sol, que pareciam lindos edifícios.
– Os meus castelos! – disse a criança. – Mas não vamos lá hoje!
Depois, inesperadamente, Félix e Christlieb encontraram-se de regresso a casa, junto dos pais, sem saberem muito bem como é que tinham regressado.
Um dia, Félix e Christlieb estavam sentados num lindo pavilhão que a misteriosa criança tinha construído com grandes lírios, rosas resplandecentes e brilhantes tulipas.
– Mas, de onde vens? – perguntou Félix. – E para onde vais quando desapareces tão depressa que não podemos seguir-te?
– Oh, querida menina! – disse Christlieb. – Sabes que a mãe acha que tu és Gottlieb, o filho do professor?
– Está calada, sua tonta! – exclamou Félix. – Se a mãe tivesse visto este rapaz, jamais diria que era o Gottlieb! Agora diz-me onde moras. No Inverno, poderemos ir visitar-te a casa, quando estiver demasiado frio para podermos passear na floresta.
– Sim, sim! – disse Christlieb. – Conta-nos onde vives, quem são os teus pais e, mais importante ainda, diz-nos o teu nome!
A criança misteriosa olhou-os muito séria, quase triste, e disse a suspirar:
– Queridos meninos, por que querem saber onde moro? Venho brincar convosco todos os dias. Não é suficiente? Poderia dizer que moro detrás daquelas montanhas azuis que parecem nuvens lá longe. Contudo, se vocês caminhassem durante dias e dias até conseguirem alcançá-las, encontrariam outras tão distantes como as primeiras e outras atrás dessas, e assim sucessivamente, e nunca chegariam à minha terra.
– Então tu vives a centenas de quilómetros, e és apenas um visitante? – perguntou Christlieb com tristeza.
– Ouve, querida Christlieb – disse a misteriosa criança. – Quando vocês me querem realmente, eu venho logo, e trago-vos coisas maravilhosas da minha casa! Não é o mesmo que estarmos lá todos juntos a brincar?
– Não é bem – disse Félix. – A tua casa deve ser um sítio lindo e, apesar do que dizes, tenho muita vontade de a conhecer. Hei-de conseguir lá chegar!
– Se assim é, conseguirás! – disse ela, com um sorriso alegre. – Se tens assim tanta vontade, é como se já lá estivesses! A minha terra é muito mais bonita do que aquilo que eu posso contar. A minha mãe é a rainha, e satisfaz todos os desejos.
– Então, és um príncipe! – Então és uma princesa! – gritaram, ao mesmo tempo, Félix e Christlieb, fascinados.
– Sim, na verdade sou! – disse a misteriosa criança.
– E suponho que vives num belo palácio! – continuou Félix.
– Sim – disse ela – o palácio da minha mãe é ainda mais bonito do que aqueles castelos cintilantes que vês no ar. Ergue-se até ao céu azul em delgadas colunas de cristal puro, e o céu cobre- -o como se fosse o telhado. Nuvens brilhantes e douradas navegam por esse telhado, o sol nasce e deita-se com uma luz ténue, e estrelas cintilantes dançam à sua volta. Queridos meninos, já devem ter ouvido falar de fadas e já devem ter adivinhado que a minha mãe é uma fada. A mais poderosa de todas. Gosta de tudo o que vive e cresce na terra, e acima de tudo, gosta de crianças. As festas que organiza para elas no seu reino são melhores do que as que vocês poderão imaginar. O seu cortejo
voa através das nuvens, estendendo um brilhante arco-íris de uma ponta à outra do castelo. Por baixo, fica o trono da minha mãe, de diamantes puros, apesar de parecerem lírios, cravos e rosas, e cheirarem tão bem como eles. Os seus músicos tocam harpas douradas e pratos de cristal. Os cantores acompanham-nos: são lindos pássaros, maiores do que águias, com penas púrpura. E quando a música começa, tudo ganha vida no palácio. Milhares de crianças dançam, brincam e gritam de alegria, atiram flores umas às outras, trepam às árvores, sobem e descem rochedos de vento, apanham deliciosos frutos dourados, brincam com veados dóceis e outros animais que saltam do bosque cerrado ao seu encontro. Elas correm sem medo, subindo e descendo o arco-íris, ou passam, montadas em lindos faisões dourados, através das nuvens.
– Oh, que maravilha! Leva-nos para a tua terra e ficaremos lá para sempre! – gritaram Félix e Christlieb, encantados.
– Não – disse a misteriosa criança – não posso levar-vos. É muito longe, e precisavam de saber voar como eu.
Depois, a criança continuou a contar mais coisas sobre o reino dos duendes, e sobre o inimigo da rainha, um malvado espírito que se tornou ministro e tentava magoar as crianças, os pássaros que cantam e todos os animais dóceis. Ele tentara apoderar-se do trono da sua mãe, aparecendo sob a figura de uma mosca monstruosa, mas todos o reconheceram como sendo o malvado Pepser, o Rei dos duendes.
– Contudo – disse a criança – o Príncipe Faisão teve um duelo com Pepser e destronou-o. Depressa tudo voltou à normalidade no reino da minha mãe… mas Pepser segue-me quando deixo o reino, e tenta fazer-me mal. E é por isso, meus queridos, que às vezes fujo muito depressa. Se vos levasse para minha casa, Pepser via-nos e de certeza que nos matava.
Félix e Christlieb correram para casa, a fim de contarem aos pais a história, mas pararam quando viram Sir Thaddeus de Brakel a vir ao seu encontro com um homem estranho a acompanhá-lo.
… continua na próxima semana

O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A origem de @


Os Copistas medievais e o século XXI. Cultura e curiosidades…

Na idade média os livros eram escritos à mão pelos copistas.

Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem económica: a tinta e o papel eram valiosíssimos.


Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um 'm'ou um 'n') que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a Letra. O nome espanhol Francisco, que também era grafado 'Phrancisco', ficou com a abreviatura 'Phco' e 'Pco'. Daí que foi fácil o nome Francisco ganhar em espanhol o diminutivo Paco.


Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de 'Jesus Christi Pater Putativus', ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adoptar a abreviatura 'JHS PP' e depois 'PP'. A pronúncia dessas letras em sequência explica porque José em espanhol tem o diminutivo de Pepe.


Já para substituir a palavra latina 'et' ('e'), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como ' e' comercial e, em inglês, tem o nome de ampersand, que vem do 'and' ('e' em inglês) + 'per se'(do latim 'por si') + 'and'.


Com o mesmo recurso do entrelaçamento de letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina 'ad', que tinha, entre outros, o sentido de 'casa de'.

Veio a imprensa, foram-se os copistas, Mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço; por exemplo, o registo contabilístico mailto:'10@£3' significava '10 unidades ao preço de 3 libras cada uma'.

Nessa época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês, 'at' ('a' ou 'em').


No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contabilísticas dos ingleses.


Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @, supuseram, por engano, que o símbolo seria uma unidade de peso.

Para este entendimento contribuíram duas coincidências:

1- A unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo 'a' inicial lembra a forma do símbolo.

2- Os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registo de '10@£3' como 'dez arrobas a 3 libras cada uma'. Então, o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar arroba.


Arroba veio do árabe ar-ruba, que significa 'a quarta parte': arroba (15 kg em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe (quintar), o quintal (58,75 kg).


As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais dactilografados). O teclado tinha o símbolo '@', que sobreviveu nos teclados dos computadores.

Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio electrónico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido '@' ('at' em inglês), disponível no teclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome do provedor. Assim Fulano@ProvedorX passou a significar 'Fulano no provedor (ou na casa) X'.


Em diversos idiomas, o símbolo '@' ficou com o nome de alguma coisa parecida com sua forma. Em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês, apestaart (rabo de macaco).

Noutros idiomas, tem o nome de um doce em forma circular: shtrudel em Israel, strudel na Áustria, pretzel em vários países europeus.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fado em Si bemol - O Gago Apaixonado

"Guerra ou Paz", pelos alunos do 6ºB, no Dia do Autor Português (fotos)

Nesta peça de teatro, representada pelos alunos do 6ºB, a Guerra e a Paz estiveram presentes no Tribunal. Apesar dos vários argumentos apresentados, a Guerra saíu culpada, mas a Paz também não deve baixar os braços.



Houve ainda tempo para um momento musical.

Uma merecida palavra de apreço a todos os professores que, com o seu trabalho, tornaram possível a realização desta actividade.

Palavras de Baptista-Bastos no Dia do Autor Português: «Autor não é criatura neutra»


O autor “não é uma criatura neutra e muito menos independente ou imparcial”, sustenta o escritor Armando Baptista-Bastos numa mensagem alusiva ao Dia do Autor Português que a Sociedade Portuguesa de Autores comemorou ontem.

“Escrever, criar, sonhar, são sempre lugares de encontro e de procura do outro. Interpelar é tomar partido da compreensão, para se refazer o caminho”, sublinhou o escritor, convidado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) a elaborar a mensagem deste ano.

Criado em 1982 por iniciativa do maestro Nóbrega e Sousa, membro da direcção da entidade, o Dia do Autor Português é comemorado anualmente a 22 de Maio com diversas manifestações culturais promovidas pela SPA, cooperativa que gere os direitos dos autores portugueses de todas as disciplinas literárias e artísticas. “Responsáveis pelas nossas palavras, poderemos vir a ser culpados de as utilizar sem a autoridade moral e a nobreza por elas exigidas. Com o tempo e com a prática, aprendemos que as coisas insignificantes devem ser tratadas com a maior seriedade”, salienta Baptista-Bastos no texto, ao qual deu o título «As palavras, como é hábito».

O escritor questiona-se sobre o poder do autor “num mundo onde as palavras foram substituídas por números que subtraem, omitem ou rasuram as pessoas”. “Apesar do cerco actual - diz - , aprendemos com outros cercos e sobrevivemos a outros perigos e ameaças”. “Escrever, criar, sonhar, não são apenas representações: são projectos e projecções ideológicos e renovadas relações entre História e memória. Não há que fugir a isto: ao compromisso exemplificado na declaração tremenda de que a batalha pela liberdade de criação implica a recusa da mentira e uma permanente resistência à opressão e à tirania”, defende ainda o escritor.

Na opinião de Baptista-Bastos, os autores têm de estar “cada vez mais atentos e cautelosos”, porque os querem fazer “crer na fragilidade da palavra, na fugacidade da arte, na desimportância do acto de pensar”. “Talvez o mundo de outrora fosse mais simplificado, sem deixar de ser menos complexo ou perigoso. Enfrentámo-lo na certeza de que as palavras continham, no seu bojo, a magnitude da esperança, e a crença de que poderiam modificar as coisas e os destinos”, sublinhou ainda, descrevendo os autores como “herdeiros de um legado de insubmissão e de altivez”. “Aqui estamos, para o que der e vier. Com as palavras, como é hábito”, conclui, na mensagem.

in Clube de Leituras


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quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Criança Misteriosa

Era uma vez um senhor do campo chamado Thaddeus de Brakel. Tinha herdado do pai a pequena propriedade de Brakelheim e aí vivia muito sossegado, amado por todos, numa casa pequena mas confortável, com a mulher, o filho Félix e a filha Christlieb.
Uma certa manhã, a família levantou-se muito cedo. A mulher de Sir Thaddeus fez um grande bolo cheio de amêndoas e uvas. Sir Thaddeus vestiu o seu melhor casaco verde, e Félix e Christlieb vestiram as suas melhores roupas, pois iam chegar uns nobres visitantes: o Conde Cyprian de Brakel, primo de Sir Thaddeus, mais a sua mulher e filhos.
Estava um dia lindo, e Félix e Christlieb tinham pena de não poderem ir brincar para a floresta. Em vez disso, tinham de ficar em casa à espera dos visitantes.
Chegaram por fim, numa carruagem luxuosa. O Conde e a sua família tinham maneiras polidas e vestiam roupas caras: o pequeno Hermann usava calças compridas, um chapéu com uma pena e trazia consigo uma curta e cintilante espada, e a saia da irmã Adelgunde tinha muitos laços e fitas.
Infelizmente, os quatro primos não se entendiam muito bem. Os filhos do Conde eram atrevidos e arrogantes. Sabiam tudo sobre história, geografia, zoologia e até sobre astronomia, e gostavam de exibir os seus conhecimentos, enquanto Félix e Christlieb, que tinham crescido livres na floresta, sentiam-se desajeitados e constrangidos diante deles. A Condessa ficou espantada com tal ignorância, e o Conde prometeu a Sir Thaddeus e à mulher enviar um tutor para transmitir um pouco de saber aos seus filhos, dizendo-lhes que tal não lhes custaria absolutamente nada.
Em seguida, o cocheiro entrou com duas grandes caixas. Adelgunde e Hermann entregaram-nas a Christlieb e Félix.
– Aqui tens alguns brinquedos, meu querido primo! – disse Hermann ao primo, fazendo-lhe uma vénia.
Félix ficou atrapalhado, sem saber o que dizer, assim como a irmã, que estava mais perto do choro do que do riso. Apesar disso, a caixa que Adelgunde lhe oferecera cheirava tão bem, que parecia estar cheia de guloseimas. Sultão, o fiel cão de Félix, começou a ladrar e a saltar, e Hermann, que estava muito amedrontado, correu até à outra ponta da sala e começou a soluçar.
– Ele não te faz mal! – disse Félix ao primo. – Não é preciso gritares dessa maneira. – É só um cão e, mesmo que ele te atacasse, tens uma espada, não tens?
Mas Hermann continuou a soluçar até à chegada do cocheiro, que pegou nele ao colo e o levou para a carruagem. Adelgunde também começou a chorar sem razão aparente. Depois, o mesmo fez a pobre Christlieb, e foi ao som de três crianças a chorar que os nobres visitantes partiram.
Mal a carruagem partiu, Sir Thaddeus despiu o seu belo casaco verde e vestiu o de todos os dias. Passou um pente sobre o cabelo e deu um grande suspiro.
– Meu Deus, obrigado por tudo! – disse.
As crianças também despiram os seus belos fatos, sentindo-se libertas e felizes.
– Vamos até à floresta! – gritou Félix.
– Não querem ver os presentes? – perguntou a mãe. Christlieb, que estivera a observar curiosamente as caixas, achou boa ideia, mas Félix não estava assim tão certo.
– Huh! – disse. – Como é que o primo pode ter trazido alguma coisa engraçada? Ele só fala de leões, ursos, elefantes, e depois tem medo do Sultão! A chorar e a soluçar escondido debaixo da mesa, e com uma espada!
– Oh, Félix, meu querido, vamos dar uma espreitadela às caixas! – disse Christlieb.
Félix, que fazia tudo para lhe agradar, concordou. A mãe abriu as caixas e – bem, queridos leitores, só desejo que todos tenham a sorte de ter tantos presentes maravilhosos da vossa família e amigos, no Natal ou no vosso aniversário! Lembram-se de como gritaram de alegria ao verem uns lindos soldadinhos ou os divertidos bonecos mecânicos com um realejo? As bonecas bem vestidas e os coloridos livros de desenho? Pois foi como Félix e Christlieb se sentiram diante daquelas caixas a abarrotar de brinquedos maravilhosos e de guloseimas.
– Oh, que maravilha! – gritavam eles, batendo palmas.
O brinquedo de que Félix mais gostou foi de um forte caçador que levantava a espingarda e apontava para um alvo, quando se lhe tocava nas costas do casaco. A seguir, o melhor foi um pequeno boneco que se inclinava e tocava uma linda melodia numa harpa. Havia uma pistola, uma faca de caça, ambas feitas de madeira e pintadas de prateado, assim como um boné de hussardo e um cartucho de uma pequena espingarda. Quanto a Christlieb, estava fascinada com uma linda boneca e um conjunto de panelas e sertãs. As duas crianças esqueceram-se completamente da ida à floresta e brincaram com os brinquedos novos até serem horas de deitar.
No dia seguinte, tiraram novamente os brinquedos das caixas para brincarem. Lá fora, na floresta, o sol brilhava, os pássaros cantavam e, de repente, Félix gritou:
– Oh, Christlieb, lá fora é mais divertido! Podemos levar os brinquedos!
No entanto, os brinquedos, comparados com as belezas da Natureza, não eram tão interessantes, e as crianças ficaram impacientes e brincaram tão desajeitadamente com eles, que alguns se partiram, incluindo o caçador e o tocador de harpa.
– Vamos fazer uma corrida! – disse Félix.
– Oh sim! – exclamou Christlieb. – E a minha boneca também vai!
E assim, cada um agarrou num braço da boneca e desataram a correr pelo meio dos arbustos, descendo a colina até chegarem a um lago rodeado por altos juncos, onde Sir Thaddeus por vezes caçava patos bravos.
– Porque não paramos um pouco? – perguntou Félix. – Talvez eu mate um pato, como o pai. Afinal até tenho uma pistola!
Mas Christlieb gritou:
– Oh, a minha boneca! O que aconteceu à minha boneca?
Claro que a boneca estava em mau estado. Durante a corrida, as crianças tinham-se descuidado. As roupas estavam espalhadas pelos arbustos e a boneca tinha as pernas partidas. A sua bonita cara de cera estava feita em pedaços.
– A minha boneca! – gemeu Christlieb. – A minha boneca!
– Bem, já vês as coisas estúpidas que os primos nos deram! – disse Félix.
– A tua boneca nem serve para fazer uma corrida connosco. Vá lá, dá cá a boneca!
Triste, Christlieb entregou-lhe a boneca toda estragada, e não conseguia parar de chorar.
– Oh, não! – disse, quando ele a atirou para o lago.
– Anima-te! – consolou-a Félix. – Não chores por causa de uma boneca tão estúpida! Se eu apanhar um pato, dou-te as penas mais bonitas das asas!
Nesse momento surgiu um ruído vindo dos juncos e Félix apontou a sua pistola de madeira, mas baixou-a quase de imediato.
– Sou maluco – disse. – É preciso pólvora e balas para carregar uma pistola e eu não tenho nem uma coisa nem outra, e mesmo que tivesse, como é que ia carregar uma pistola de madeira? A faca de caça também não serve. Não corta! Digo-te uma coisa – o Primo Baggy Breeches está a gozar comigo! Os brinquedos parecem muito bons mas não prestam para nada!
E dizendo isto, Félix atirou ao lago a pistola, a faca e os cartuchos. Quando regressaram a casa, a pobre Christlieb ainda chorava pela boneca e Félix estava de muito mau humor. Quando a mãe lhes perguntou:
– Mas onde estão os vossos brinquedos, meninos?
Félix contou como ele e Christlieb tinham sido enganados pelo caçador, pelo tocador de harpa, pela pistola, a faca e a boneca.
– Meu Deus! – disse a mãe pausadamente. – Vocês não sabem brincar com coisas tão bonitas e frágeis como aquelas!
Contudo, Sir Thaddeus disse:
– Deixa as crianças. Fico contente por vê-las livres daqueles brinquedos que só as baralhavam!
E nem a mãe nem as crianças perceberam o que é que Sir Thaddeus pretendeu dizer!
No dia seguinte, Félix e Christlieb foram bem cedo para a floresta. A mãe disse-lhes que não regressassem muito tarde, pois tinham de estudar alguma coisa, para não se sentirem tão envergonhados quando o tutor chegasse.
– Vamos brincar enquanto podemos! – disse Félix e, começaram a brincar às caçadinhas. Pouco tempo depois, estavam cansados e mudaram de brincadeira. Nada corria bem. O boné de Félix voou e ele apanhou-o com agilidade e endireitou-o. Christlieb tirou alguns espinhos da saia e deu um pontapé num tronco.
– É melhor irmos para casa – disse Félix, de mau humor. Mas, em vez disso, sentou-se à sombra de uma grande árvore e a irmã fez o mesmo. Aí ficaram ambos a olhar tristemente para o chão.
– Oh, mano – suspirou Christlieb – se ao menos ainda tivéssemos aqueles brinquedos tão bonitos!
– Não serviriam para nada – murmurou Félix. – Íamos partir os bonecos outra vez! A mãe tinha razão, Christlieb. Não havia nada de errado com aqueles brinquedos. Nós é que somos tão ignorantes que nem soubemos brincar com eles!
– Sim – concordou Christlieb. – Se fôssemos espertos como os nossos primos, tu ainda tinhas o caçador, o tocador, e aquela linda boneca não estaria agora no fundo do lago! Oh, por que é que somos tão desajeitados e ignorantes?
Começou a soluçar e Félix juntou-se a ela. Choraram ambos bem alto, lamentando-se:
– Se não fôssemos tão ignorantes!
De súbito, pararam de chorar e entreolharam-se espantados.
– Estás a ver aquilo, Christlieb? – perguntou Félix.
– Estás a ouvir aquilo, Félix? – perguntou Christlieb.
continua na próxima semana
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 19 de maio de 2009

"Nascem Nuteixos", na BECRE, com Helena Tapadinhas




"A Poesia está na Escola ...e em toda a parte" - Declamação de Poesia e debate


No próximo dia 25 de Maio, pelas 10.30, vamos ter na nossa BECRE o artista Afonso Dias, que nos trará uns belos momentos de poesia.
O tema será "A Poesia está na Escola ...e em toda a parte" e inclui duas sessões, de uma hora cada. Depois da sessão de declamação, seguir-se-á a sessão de debate.
Esta actividade, que conta com o apoio da Direcção Regional de Educação do Algarve, pretende dar a conhecer a poesia portuguesa, desenvolver o gosto pela leitura e sublinhar o carácter lúdico e estético da literatura.
Mais informação em DREAlg

Newsletter n.º 4 - Rede de Bibliotecas Escolares



Rede de Bibiotecas Escolares
Portal da Educação


Newsletter 04

Editorial

O número 4, agora publicado, está sistematizado em três áreas diferentes: uma dedicada aos Artigos de fundo, outra reservada às boas práticas que devem ser destacadas e que designámos por Dossier e uma terceira que veiculará as Notícias e os eventos da actualidade.

Miguel Real - Escritor e professor na biblioteca da escola

A biblioteca na escola é para alguns, mais do que um espaço de trabalho, um lugar natural para "estar". Luís Martins, Miguel Real (1) na actividade de escritor, associa o seu gosto pelo ensino e pela relação com os jovens, com a paixão pela leitura, pelos livros e pela escrita. Mais razões para sentir a BE como o local primeiro do seu "prazer" na escola? Oiçamos, então, este professor escritor, amante da arte de ensinar e dos livros.

Professor bibliotecário: uma função especializada - um cargo

Vai cumprir-se este ano um dos objectivos consignados, desde o início, no Programa da Rede de Bibliotecas Escolares - a criação da figura de professor bibliotecário.

Competências do Professor-bibliotecário no processo de auto-avaliação da biblioteca escolar

No âmbito da acção de formação Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares (Setembro - Dezembro 2008) foi desenvolvida uma actividade de auto-avaliação de competências dos participantes aplicada à área da avaliação organizacional. Pretendia-se que a reflexão fosse acompanhada de evidências que ilustrassem a existência das competências. Alguns dos relatos apresentados constituíram excelentes narrativas das várias fases de adaptação a novas competências ligadas ao desempenho em contexto biblioteconómico...

Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil - O caminho faz-se caminhando!

Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil nasceu em 1996 com a inauguração da Biblioteca Municipal e foi-se construindo com as 11 Bibliotecas Escolares do 1º, 2º e 3º Ciclos e Secundária que hoje existem, completando-se com a abertura da Biblioteca Pública Alberto Martins de Carvalho. A Formação de todos os intervenientes, a Organização das Bibliotecas e a Promoção da Leitura têm sido as preocupações dominantes ao longo do percurso, que deu, recentemente, mais um passo com a publicação do Portal da RBCA e o Catálogo Concelhio.

Moche à leitura - um projecto aLer+

O projecto aLer+/ Escolas Leitoras, lançado em Junho de 2008 pelo Plano Nacional de Leitura (PNL) e Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), resulta da parceria com o National Reading Trust do Reino Unido, em especial com o programa Reading Connects e conta, ainda, com o apoio Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, da Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular e da Fundação Calouste Gulbenkian.Neste artigo é feito um breve roteiro do projecto "Moche à Leitura" do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares (Escola EB 2,3/S Dr. Daniel de Matos).

Aprender com a Biblioteca

Reflexão sobre o papel da biblioteca escolar e do professor bibliotecário no processo de ensino aprendizagem.

Catálogos em linha das bibliotecas escolares

O catálogo de uma biblioteca é um instrumento essencial na perspectiva da constituição e da gestão do fundo documental e na óptica dos utilizadores. Sem ele, os utilizadores, mesmo numa biblioteca de acesso livre, organizada tematicamente, correm o risco de ignorarem uma parte considerável dos títulos que ela dispõe, ficarem sujeitos à bibliografia sumária indicada pelos professores ou à opinião dos elementos da equipa da biblioteca (professores e funcionários).

Bibliotecas Escolares: estado da arte

Dados preliminares referentes à base de dados das escolas integradas na Rede de Bibliotecas Escolares e que se encontravam em funcionamento no ano lectivo 2007/08


recebido por http://www.rbe.min-edu.pt/

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De que estiveram a falar?

O João espera pela mãe à porta de casa sentado no banco azul. Uma hora e dez. Quando ainda há meia hora olhara para o relógio, eram uma hora e cinco. A mãe nunca chega a casa antes das duas e cinco, isso quando vem cedo. Esquecera-se das chaves.
Passa a D. Joana:
— Então, João, ficaste fechado cá fora?
João faz um aceno de cabeça, delicadamente.
Passa o Dr. Gerardo:
— Então, não te deixam entrar?
João sorri delicadamente.
Passa a D. Gertrudes:
— Oh! Não me digas que a mãe ainda não chegou!
Quando vê o casal Meireles aparecer ao longe, João levanta-se, pega na pasta e muda--se para o banco do parque de estacionamento, do outro lado.
Talvez seja mesmo isso que em breve vai acontecer: ele fechado cá fora e eles, dentro casa, não deixam entrar. Logo se verá na próxima semana… A mãe tem um namorado. Há três anos que o pai morreu, tinha o João treze anos na altura; e agora a mãe arranjou um namorado.
Falara-lhe dele. Não é de cá, conhecera-o na casa de repouso depois da operação, na Primavera. Vem visitá-los na próxima semana e vai ficar instalado no escritório. Como quase não é usado desde que o pai morreu, põe-se lá uma cama.
— É só por dez dias — dissera a mãe.
Chega um carro de mobílias e estaciona com dificuldade num dos lugares vagos. Dois homens fortes saem a abanar os talões de entrega. Um deles vem direito a João:
— Há por aqui algum restaurante? É que nos enganámos no caminho e perdemos o almoço.
— Lá em cima, na povoação. Aqui, não.
— Ah, então vamos ter de comer aqui mesmo. Podemos? — pergunta o segundo. Sentam-se e começam a tirar umas sandes do saco da merenda.
A D. Julieta sai do carro com os dois filhos pequenos. Depois, é a enfermeira do 1º andar que regressa na sua motorizada. Em seguida, um carro que João não conhece estaciona no lugar do Engº Florismundo.
"Espero que o engenheiro não venha", pensa João. "Ele faz sempre um pé-de-vento... Até já chegou a chamar a polícia por invasão de propriedade. Oh, e que venha!" pensa João logo a seguir. "Ao menos havia alguma animação para ajudar a passar o tempo…"
Não é que o escritório seja um lugar sagrado, não é disso que se trata. João tem medo das mudanças, de… mas de que é que ele tem medo afinal?
— Não vou mentir-te — dissera a mãe — por isso quero dizer-te que gosto dele, do Bernardo. Gostava que tudo corresse bem, que tu gostasses dele. E acho que ele vai agradar-te — acrescentou.
"Espero bem que não", pensara João. "Espero que não dê certo. Espero que seja um mau tipo sobre quem não seja difícil decidir se gosto ou não."
A pequenita da D. Julieta aproxima-se dele. A bola saiu fora do parque infantil e João devolve-lha.
A menina agradece e vai embora a correr.
Os dois homens também vão. Chega agora um homem com uma pasta, senta-se no banco — Bom dia! — e começa a escrevinhar num bloco de papel. Talvez seja algum empregado de caixa.
João falara neste assunto a Geraldo. Em sigilo absoluto! Geraldo é um bom amigo e não é nada infantil quando o assunto são coisas sérias.
— Que idade tem a tua mãe? — perguntara o Geraldo.
— Trinta e seis ou trinta e sete.
— É óbvio — dissera o Geraldo. — Tens de entender. Com essa idade uma mulher ainda…
Fizera uma pausa e dera a entender o resto da frase com um sinal de cabeça cauteloso e aí João compreendera. Sem qualquer pré-aviso, pregou-lhe uma bofetada. Geraldo ficara terrivelmente assustado mas por pouco tempo… e reagira logo.
O empregado de caixa também foi embora e o dono do carro desconhecido atravessou o parque de estacionamento. "Ah", pensa o João. "O Engº Florismundo já não vai ter de se aborrecer. O senhor já vai sair."
Mas o homem não se vai embora. Veio só deixar uma coisa no carro e pegar outra. Um livro de bolso, pelos vistos. Olha em volta e encaminha-se para o banco de João. Senta-se na outra ponta sem uma palavra, de costas voltadas para ele. Tem um casaco de ganga e umas calças de veludo.
Pela maneira como se sentou e começou a ler sem fazer caso nenhum de João nem do que está à sua volta, não parece ser lá muito simpático.
Passa-lhe um pensamento maldoso pela cabeça. "Talvez se zangue", pensa João e maldosamente diz-lhe:
— Peço desculpa, mas estacionou num lugar reservado.
— E o que é que tem? — responde o outro sem se voltar.
— Só estou a dizer isto porque o dono do lugar pode fazer uma cena desagradável… Já chegou até a chamar a polícia…
Nesse momento o outro volta-se completamente e olha para João. Tem um bigode esquisito, olhos escuros com rugas à direita e à esquerda. Em vez de responder, aponta para o olho esquerdo de João e pergunta:
— O outro também?
João não percebe imediatamente mas depois acena com a cabeça.
— Sim, um pouco — a estalada de João não tivera o mesmo resultado que o soco de retaliação de Geraldo.
— E qual foi o motivo?
— Foi… foi por assuntos particulares.
— Ah, estou a perceber.
"Não percebes nada", pensa João.
— Para dizer a verdade, não estou a perceber nada — disse o homem. — Mas também não tem importância. — Depois sorriu e continuou:
— Andamos nós para aqui a fazer manifestações em favor da paz e, nos miúdos, as brigas continuam à larga. O que é que achas? O que pensas?
João encolhe os ombros.
— Não, a sério! O que é que pensas disto? Um — e encolhe os ombros — é muito pouco.
— Não sei — responde João. — Acho que um simples olho negro ainda não é sinónimo de guerra.
— Um olho negro não é sinónimo de guerra — repete o outro pensativamente. — Mas talvez comece por aí. Tenho certas dúvidas sobre a relação entre as brigas de escola e os movimentos pacifistas. Ainda não pensei bem no assunto mas acho que se devia reflectir a sério sobre isso, devia sim.
Reclina-se para trás e estica as pernas.
— Estou a falar a sério — acrescenta. — Claro que não só as brigas de escola mas as disputas das crianças no dia-a-dia, não achas?
João quer voltar a encolher os ombros, mas não o faz.
— Podes encolher os ombros à vontade — disse o homem. — Eu também não sei. Devia começar-se já em criança.
"Mais um maluco", pensa João.
Calam-se por um momento e o homem continua:
— Quanto ao lugar de estacionamento, claro que o dono ou inquilino, ou o que for, está no seu direito. Eu sou é demasiado preguiçoso para o ir tirar agora. Quando o dono vier ainda estou a tempo. Ou achas que ele também faz queixa por se desgastar o lugar?
— É bem capaz disso! — diz João a rir.
— Bem, ainda tenho de esperar mais um pouco. Não está ninguém na casa para onde quero ir.
João faz um aceno de cabeça.
O homem torna a virar-se para ele e olha mais de perto o olho negro com interesse.
— Doeu?
— Mais ou menos.
— Levaste pontos?
— Uhm.
— Uma vez, também fiz uma rachadela aqui — e apontou para a sobrancelha do olho direito.
— Mas não se vê nada — observa João.
— E na altura até cheguei a levar pontos.
— O outro também? — pergunta João atrevidamente.
O homem ri e bate com a mão no joelho.
— Não vais acreditar. Não havia mais ninguém! Eu vou pela sala às escuras à procura da porta da sala, às apalpadelas de braços esticados.
Estende os braços e fecha os olhos, provavelmente para mostrar como estava escuro como breu.
— E avanço, pé ante pé, a porta deve ser já aqui… E era, mas estava aberta. Eu passei-
-lhe com os braços de um lado e do outro e bati com a cabeça directamente na esquina da porta.
— Que mau! — disse João a rir-se.
— E tu ainda te ris? — disse o outro. — Que rapaz tão sem coração!
Nesse momento, a mãe entra no parque de estacionamento, passa pelo banco e olha. João levanta-se e diz:
— Adeus!
O desconhecido levanta-se e diz:
— Adeus!
A mãe sai do carro e sorri incrédula:
— Porque é que…
— Acabámos uma hora mais cedo… — responde João.
— Eu vim três dias mais cedo… — responde o desconhecido.
Mais tarde, num almoço feito à pressa a mãe pergunta:
— Sobre o que é que estiveram a conversar?
— Sobre o movimento de paz e cabeças rachadas — responde Bernardo.
A mãe está muito admirada.
— Uma coisa é esquisita — diz ela. — Vocês viram fotografias um do outro. Deviam ter-se reconhecido.
— O olho negro dele mudou-o muito — disse Bernardo.
— E o senhor… E na fotografia tu não tens bigode! — disse João.
Mais tarde, cada um vai tratar das suas coisas. Bernardo põe as camisas dentro do armário e pensa "Espero que ele perceba que gosto dele."
A mãe telefona à amiga para desmarcar o jantar e, enquanto espera que ela atenda, pensa "Parece que eles afinal… espero que dê certo. Esperemos."
João procura um lugar na sua colecção de minerais para o cristal que Bernardo lhe trouxe (Encontrei-o eu mesmo. Um dia mostro-te o lugar!). Claro que ele tinha de lhe oferecer alguma coisa. Precisava de se pôr nas minhas boas-graças.
Precisava mesmo?
João não se sente feliz. Não se sente feliz porque é tudo muito pouco claro, novo, diferente, ameaçador ou pelo menos emocionante, e tão rápido. No meio de todos estes pensamentos obscuros lembra-se – só por um instante – da história da porta aberta.
"Uma coisa ele não é", pensa João. "Um mau tipo!"
Em baixo, no parque estacionamento, o Engenheiro Florismundo, de pé em frente do carro desconhecido, escreve, por esta vez, uma carta muito pouco delicada, que prende no limpa pára-brisas.
Hans Domenego
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
Tradução e adaptação
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 12 de maio de 2009

"Nascem Nuteixos", Dra Helena Tapadinhas

No dia 19 de Maio, vamos receber na BECRE da nossa escola a Dra Helena Tapadinhas, que nos vai brindar com o conto Nascem Nuteixos, actividade promovida pela Direcção Regional de Educação do Algarve, no âmbito do PREEA (Programa Regional de Educação Ambiental pela Arte).
Informação complementar aqui.
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Esta actividade será dividida em duas sessões
14.00 h - 5ºs anos
15.00 h - 6ºs anos
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As turmas apresentarão ainda, com a colaboração dos respectivos professores, actividades no âmbito da poesia e de exposição de trabalhos.

BiblioFilmes


I and I Bob Marley. Escrito por Tony Medina e ilustrado por Jesse Joshua Watson.
O livro é um tributo multifacetado à lenda da música internacional que nos transporta à Jamaica de Bob Marley (dia 11 Maio faz 28 anos que morreu), enquanto os poemas dão vida novamente à sua viagem de rapaz ao verdadeiro ícone em que se tornou.

in Bibliofilmes

domingo, 10 de maio de 2009

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