quinta-feira, 28 de julho de 2011

As roupas novas do imperador

Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, "Ele está reunido em conselho", dizia-se, "Ele está no quarto de vestir".
A grande cidade onde vivia era muito próspera e visitada diariamente por muitas pessoas. Um dia, contudo, chegaram à cidade dois aldrabões que se diziam tecelões e afirmavam fazer o tecido mais bonito que se podia imaginar. Não só eram as cores e o padrão do tecido invulgarmente bonitos, afirmavam, mas também as roupas com ele feitas tinham a maravilhosa propriedade de ficarem invisíveis aos olhos de quem não fosse competente no seu ofício ou de quem fosse particularmente estúpido.
— Essas roupas devem ser realmente maravilhosas! — pensou o imperador. — Se eu tivesse uma vestimenta assim, poderia saber quem é que nas minhas terras não é competente para a posição que ocupa. Poderia distinguir quem é esperto e quem é estúpido! Tenho de encomendar imediatamente esse tecido para mim!
E deu imenso dinheiro aos dois aldrabões para que começassem a trabalhar. Assim, eles montaram dois teares e fizeram de conta que estavam a trabalhar, mas na realidade não estavam a fazer nada. Disseram que precisavam da seda mais fina e do fio de ouro mais precioso, mas guardaram tudo para eles e continuaram a trabalhar nos teares vazios, até de madrugada.
— Como é que estará o meu tecido? — interrogou-se o imperador.
Contudo, sentiu-se ligeiramente receoso quando se lembrou de que todos os que fossem estúpidos ou incompetentes no seu trabalho não conseguiriam vê-lo; ele achava que, pela sua parte, não precisava de ter medo. Em todo o caso, resolveu mandar alguém ver como é que o trabalho estava a decorrer.
Todos os habitantes da cidade foram informados do maravilhoso poder do tecido e estavam ansiosos por descobrir se os seus vizinhos eram espertos ou estúpidos.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro fazer uma visita aos tecelões — pensou o imperador. — É a pessoa mais adequada para ver como está o tecido, pois é muito esperto e ninguém é melhor do que ele no seu trabalho.
E o velho e honrado ministro lá se dirigiu à sala onde os dois aldrabões estavam sentados a trabalhar nos seus teares vazios.
— Deus me valha! — pensou o velho ministro, arregalando os olhos. — Não consigo ver absolutamente nada! — mas calou-se.
Os dois aldrabões convidaram-no a aproximar-se. O padrão não era muito requintado? — perguntaram eles. E as cores não eram bonitas? À medida que falavam, iam apontando para o tear vazio, e o pobre do velho ministro continuava perplexo, não conseguindo ver nada, pois não havia nada para ver.
— Meu Deus! — pensou ele. — Será que sou estúpido? Nunca tinha pensado nisso. Bom, o que é certo é que ninguém pode ficar a saber disto! Será que não sou competente no meu trabalho? Nunca poderei dizer que não consigo ver o tecido!
— O senhor não diz nada? — perguntou um dos aldrabões, ao mesmo tempo que fingia continuar a tecer.
— Oh, sim! É fabuloso! Uma maravilha! — retorquiu o velho ministro, espreitando através dos óculos. — Que padrão! E as cores! Claro que vou dizer ao imperador que gostei imenso, de verdade!
— Estamos muito contentes por o ouvir dizer isso! — disseram os dois tecelões, e então puseram-se a falar das cores e a descrever o invulgar padrão. O velho ministro escutou com muita atenção, de modo a poder contar tudo, mais tarde, ao imperador, e assim aconteceu.
Os dois aldrabões pediram então mais dinheiro e mais seda e fio de ouro, dizendo que precisavam de mais materiais para a tecelagem. Claro que guardaram tudo para eles e continuaram a tecer nos seus teares tão vazios como anteriormente.
Pouco tempo depois, o imperador enviou outro honrado funcionário. Este olhou, olhou, mas como não havia nada nos teares, também ele não conseguiu ver nada.
— É ou não um belo tecido? — perguntaram ambos os aldrabões e, fazendo de conta que estavam a mostrar-lho, descreveram o belo padrão que, evidentemente, não existia.
— Tenho a certeza, eu não sou estúpido! — pensou o funcionário. — Por isso, devo ser incompetente no meu ofício! Isto é de facto estranho, mas não posso deixar que alguém saiba!
E assim, elogiou o tecido que não conseguia ver e referiu o quanto gostava das lindas cores e do bonito padrão.
— Na realidade, é de um gosto requintado! — confirmou ao imperador.
Todas as pessoas da cidade falavam daquele maravilhoso tecido e o imperador quis vê-lo com os seus próprios olhos enquanto ainda estava no tear. Fez então uma visita aos aldrabões, levando uma selecta comitiva, na qual se incluíam os dois honrados cavalheiros que já antes lá tinham ido. Os dois malandros teciam com toda a energia, apesar de não haver um único fio no tear.
— Não acha soberbo? — perguntaram o ministro e o funcionário. — Vossa Majestade repare só naquele padrão e naquelas cores!
E apontavam para o tear vazio, como se acreditassem que todos os outros conseguiam realmente ver o tecido.
— Meu Deus! — pensou o imperador. — Não consigo ver absolutamente nada! Isto é terrível! Serei estúpido? Não valho nada como imperador? Era a pior coisa que me podia acontecer!
No entanto, em voz alta, apenas disse:
— Oh, sim, é muito bonito! Gosto mesmo muito dele! — e abanou a cabeça em sinal de aprovação, olhando na direcção do tear vazio. Não queria, de modo nenhum, admitir que não conseguia ver absolutamente nada. Toda a comitiva que viera com ele olhou e tornou a olhar, mas não conseguia ver mais do que o ministro e o funcionário tinham visto, ou seja, nada. Contudo, imitaram o imperador e disseram:
— Na realidade, é lindíssimo!
E aconselharam-no a fazer um fato com aquele tecido, para vestir na grande procissão que iria realizar-se em breve. E todos exclamavam, uns a seguir aos outros:
— Soberbo! Requintado! Magnífico!
Ninguém deixou de comentar como o tecido era bonito, e o imperador deu então aos dois aldrabões medalhas para pendurarem na lapela e ordenou-os Cavaleiros do Tear. Os dois astutos aldrabões estiveram a pé toda a noite na véspera da procissão, com dezasseis lâmpadas acesas, e toda a gente podia ver como eles estavam a trabalhar arduamente para conseguirem acabar a tempo as roupas novas do imperador. Fingiram que estavam a tirar o tecido do tear, agitaram a tesoura no ar como se estivessem a cortar e coseram atarefadamente com agulhas sem linha. Por fim, disseram:
— Vejam, as roupas estão prontas!
Chegou então o próprio imperador, com os seus mais distintos cortesãos, e os dois aldrabões levantaram os braços como se estivessem a segurar em alguma coisa.
— Aqui estão as calças! — disseram eles. — E aqui está o casaco! E o manto! E acrescentaram: — É tão leve como uma pena! Chega-se mesmo a pensar que não se traz nada vestido, mas aí é que está a beleza destas roupas!
— Sem dúvida nenhuma! — concordaram todos os cortesãos, apesar de não conseguirem ver nada, pois não havia nada para ver.
— Quer vossa Majestade fazer a fineza de despir as suas roupas? — pediram os aldrabões. — Assim, podemos vestir-lhe a roupa nova ali à frente daquele espelho grande!
E assim, o imperador despiu tudo e os dois aldrabões fingiram que estavam a vestir-lhe a roupa nova que supostamente teriam feito, puxando daqui, puxando dali, endireitando a cauda do manto, enquanto o imperador se virava e pavoneava em frente do espelho.
— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!
— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre-de-cerimónias.
— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!
E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas. Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.
E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:
— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!
Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.
— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.
— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.
Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.
— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!
Por fim, já todas as pessoas gritavam:
— O imperador vai nu!
O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:
— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.
E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.


Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002
(Adaptação)

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sábado, 16 de julho de 2011

Hiroxima, duas cerejeiras e um peixe-lua

 Yoko faz o embrulho com muito cuidado. De cores claras e os cantos bem dobrados. Por fim, ata a prenda com um cordão dourado e, no meio, cola o Y do seu nome. Amanhã é o dia 6 de Agosto, por isso hoje tem de ir visitar a sua velha tia, irmã da avó. Uma mulher que nunca teve marido, nem filhos. Nem sorte.
Embrulhada a prenda, Yoko já só pensa numa coisa: como fazer para não tocar na tia? Detesta tocar-lhe por causa da «ameixa seca», aquela mancha castanha e enrugada na mão direita da velha senhora. Os pais é que insistem para que ela se aproxime... E este ano, pela primeira vez, Yoko vai lá sozinha. Os pais têm ambos reuniões de trabalho ainda mais importantes do que esta visita anual. Yoko protege o embrulho com um pano, mete-o por sua vez num saco de papel, e põe-no na mochila. Gosta de respeitar os seus hábitos pessoais. Antes de sair, mete ainda no saco a carta da sua correspondente de São Francisco e, depois, lá vai ela ao encontro da sua velha tia Tsukiyo. Ao descer a longa rua que leva à paragem do autocarro, Yoko diz para os seus botões que nenhum outro nome teria calhado melhor à tia. Tsukiyo significa «noite iluminada pela lua».
— Esta mulher é a noite e está totalmente do outro lado da lua! Achas isto normal, caro chapim?
O chapim levanta voo. O autocarro chega. Yoko sobe num passo muito decidido. Este ano vai dizer a verdade à tia Tsukiyo. E vai ainda descobrir outra coisa: quer finalmente saber se gosta desta velha senhora ou se não gosta mesmo nada dela.

♥♥♥♥♥

Yoko inclinou-se várias vezes diante da velha tia, que esperava, pacientemente, de pé, à sombra do grande ginkgo, o imperador das árvores do parque. Depois, Yoko aproximou a cabeça que Tsukiyo acariciou com a mão direita e também com a esquerda. E sem dizer palavra, Yoko voltou a inclinar-se várias vezes, de mãos juntas. Em volta, tudo está verde e florido, excepto o céu, que é azul e sem nuvens. A velha tia traz sempre à volta do pescoço um delicado fio de ouro com a sua pérola natural, branca como uma luazinha. Yoko sorri. De braço dado, a velha senhora e a menina começam o seu passeio anual. Saúdam as árvores que, entretanto, cresceram, e as aves nascidas depois do último encontro.
— Agora, Yoko, podíamos ir ver se…?
— Se as flores de lótus abriram. Sim, minha tia.
— Guia-me, minha sobrinha.
Yoko conhece de cor o caminho do pequeno lago dos lótus. Tem vontade de interrogar uma vez mais Tsukiyo sobre a cidade e a sua vida. E de lhe dizer finalmente a verdade, mas as rosas cheiram tão bem ao longo do passeio….
— Talvez tenhamos a sorte de ver hoje um…
— Um rouxinol, minha tia. Talvez. Mas…diz-me antes, tia Tsukiyo, porque é que a minha correspondente teve tanto medo quando lhe disse o nome da minha cidade: Hi-ro-xi-ma.
Yoko tira a carta do saco e insiste:
— Hiroxima, 6 de Agosto de 1945. Lembras-te, a sério? Anda lá, conta-me, tia.
— Oh... era a guerra, minha querida Yoko! — respondeu ela a sorrir. — A guerra de outrora. Os soldados do Japão eram guerreiros e havia tanta falta de arroz! Felizmente que o meu pai era um valente pescador! As sardinhas saltavam-lhe para dentro da barca! Às vezes até ostras trazia, as melhores ostras do Japão, as nossas lindas ostras de Hiroxima. Mas preferia vendê-las. Um pedaço de tecido custava muitas ostras, sabes?
— Mas então…e a bomba? Diz-me, tia, que finalmente recordas tudo o que aconteceu naquele ano…
— Sim, minha Yoko, lembro-me dos aviões que bombardeavam as cidades do Japão, as que estão à volta de Hiroxima. As casas de madeira e de papel ardiam tão facilmente…
— E depois, tia…
— Eu tinha dez anos e brincava a procurar grãos de arroz por entre a gravilha do jardim. E quando encontrava um, dizia-lhe: «Chama depressa os teus amigos, Grãozinho de arroz», tal como no livro de contos, o primeiro que soube ler sozinha.
— Sim, minha sorridente tia... Mas no dia 6 de Agosto de 1945?
Tsukiyo cala-se. Parece olhar para um ponto muito distante, muito para além do cérebro cansado. Depois, lentamente, retoma:
— Era a hora do pequeno-almoço, no dia 6 de Agosto. Um pouco de sardinha e de água quente. O atum era para os ricos…
— E depois?
— Olhei para a luz do sol. As nuvens diziam-me todas as manhãs se o dia na escola me ia correr bem. «A luz do sol» foi assim que os teus pais te baptizaram, minha Yoko.
— Obrigada, tia, por hoje finalmente te lembrares de tudo. E às 8 h e 15?
— As nuvens disseram-me: «Boa nota a Ciências!». As sirenes acordaram os que ainda dormiam. Chegaram os aviões. E uma bomba estranha caiu, caiu, caiu, caiu…mas felizmente o nosso galo cantou do alto do seu monte da lenha, era o ano do galo! Acordou as flores das nossas duas cerejeiras que imediatamente começaram a multiplicar-se, a crescer, a crescer, a crescer… Um tapete de flores de cerejeira cobriu a nossa querida cidade de Hiroxima… E a terrível bomba pousou suavemente em cima dos ramos, mal tocando em algumas pétalas que nem sequer chegou a amachucar.
— Estás a mentir, Tsukiyo! Estás sempre a mentir! Porque foi na nossa Terra que ela caiu, essa maldita bomba…
— Não te deves preocupar, minha Yoko, porque todos os grous do nosso querido Japão regressaram… Eles estavam de vigia lá no meio dos aviões. Os grous puseram-se em cima das cerejeiras e o mais forte apanhou a bomba com o bico para a levar para longe…
— E os teus dois irmãos e o teu pai que morreram ao mesmo tempo às 8 h e 15, com o calor atómico da bomba, tia? E a vendedeira de legumes e o teu professor e as suas três filhas que morreram muito tempo depois em consequência das queimaduras? E a ameixa seca na tua mão direita, velha tia Tsukiyo?
Sem alterar o sorriso, a tia apoia-se no corrimão da pequena ponte de madeira. Yoko agarra-lhe os dois ombros e fala-lhe mais alto:
— É como se os sessenta vulcões das nossas ilhas tivessem explodido todos ao mesmo tempo, essa é que é a realidade! Tia Tsukiyo, suplico-te que me fales a sério!
— Os grous, minha Yoko, voaram por cima das cerejeiras, dos ciprestes, dos abrunheiros, e foi sobre uma flor de trepadeira que colocaram a bomba. Estava tão longe do avião grande e negro que parecia minúscula, a bomba, como um menino perdido na floresta! Levada pelo orvalho da manhã, a flor da trepadeira deslizou até à cascata, que a levou ainda para muito mais longe…
— Mas, e o meu professor, que todos os anos nos conta, com as abomináveis fotos, como foi a explosão nuclear? E o ramo de lótus e de camélias brancas que todos os anos, com os meus pais, levo ao memorial da cidade e… a minha correspondente que vive num sítio aonde os grous nunca foram e que apesar disso sabe, ela…
Yoko larga bruscamente o braço da velha senhora:
— O que eu sei é que tu mentes aos mais novos!
Tsukiyo sorriu como se nenhuma palavra tivesse poder para perturbar o conto que inventou para se proteger da fealdade do mundo. Depois, incansavelmente, retoma:
— Ao pé da cascata que caía para o mar, havia, sabes o quê, minha Yoko?
— Sim, tia, já mo disseste mil vezes! Havia um estúpido peixe-lua! Detesto os peixes-lua. São mortais!
— Os peixes-lua das nossas águas são peixes perigosos para os humanos — retoma Tsukiyo. — Mas este não teve medo de engolir a bomba que a flor levava. Uma velha tartaruga e um valente pescador encorajaram-no. Então, o peixe mergulhou no mais fundo do mar e depositou a bomba no côncavo de uma ostra, a mais distante ostra de Hiroxima. Ali, transformou-se numa bolinha redonda e branca como a lua. Uma pérola.
A tia conta, e uma lágrima brota ao canto dos olhos de Yoko. Esta limpa-a. Tsukiyo e Yoko chegam então ao pé do pequeno lago. Os lótus estão floridos, abertos e luminosos. Agosto é a sua estação. O céu está tão azul como teria estado no dia 6 de Agosto de 1945. Yoko sente-se infeliz. Mas sorri às flores que olham para ela. Depois contempla a sua velha tia que olha ao longe. Toma-a pelo braço. O sol começa suavemente a baixar. Mulheres e homens de bata branca percorrem as áleas do parque, dizendo as horas e aconselhando as pessoas que por ali passeiam a não se atrasarem demasiado.
Sobre a esteira do pequeno salão cor-de-rosa, a velha tia desenrola um guardanapo com dois bolos de feijão vermelho. Pô-los de lado para Yoko, aquando das suas refeições da semana passada. Yoko abre a mochila e tira de lá o saco de papel que guarda a prenda envolta num pano. Ambas sorriem e Yoko ajuda Tsukiyo a abrir o embrulho. A tia deve pensar que se trata uma vez mais de uma chávena de chá.
— Que linda! Que memória a tua, minha Yoko! Não esqueceste que faço colecção. Que porcelana tão fina! Oh! Que lindo o desenho do galo na árvore!
— Na cidade, vendem-nas em toda a parte, minha tia. Estamos outra vez no ano do galo, sabes, do galo de madeira.
Hhmmm, uma árvore perfumada!
Yoko tinha metido na chávena um saco de chá verde das montanhas.

♥♥♥♥♥

Yoko foi embora depois de saudar longamente a sua velha tia. No seu quarto, Tsukiyo tira do armário uma caixa de madeira que pousa no chão. Com a mão direita pega na chávena do emblema do galo e, do alto, larga a taça e deixa-a cair, cair, cair... Quebrada a taça com toda a violência, Tsukiyo apanha os estilhaços e guarda-os na caixa juntamente com os de dezenas de outras chávenas de chá, de outros sacos rasgados. E fica a olhar. Nenhuma cerejeira, nenhum grou, nenhum peixe-lua, jamais impediram as suas chávenas de explodir. Quando batem à porta, a velha senhora tem os olhos fixos no galo feito em pedaços.
Uma mulher vestida de branco mete a cabeça pela frincha e diz com gentileza:
— Está na hora da sopa, senhora Tsukiyo, uma boa sopa de salmão, esta tarde.
— Oh, foi certamente o meu pai que o pescou, vou já…
— Mas o seu pai, senhora Tsukiyo, o seu pai, já há muito tempo que..
♥♥♥♥♥

Todos os visitantes deixaram o parque.Yoko foi a última a sair, depois de ter colhido, às escondidas, um raminho de lótus e de camélias brancas.O hospital psiquiátrico fechou as portas sobre os seus doentes, os seus fantasmas e os seus dóceis peixes-lua. Ao ver o empregado a fechar a cadeado o portão de madeira, Yoko pergunta-se se tem o direito de dizer aos pais que a velha tia está louca. Sempre disseram «cansada», «cabeça no ar» e «sonhadora». Ela, ela acha que é preciso estar mesmo doida para dizer o que Tsukiyo diz.
No autocarro, Yoko também se questiona sobre se gosta ou não da velha tia da ameixa seca na mão. Gostava de dizer, um dia, perante os seus colegas de turma: «A minha tia é uma sobrevivente. Pode vir dar testemunho. O que ela conta é algo de muito duro, vão ver!».
Quando o autocarro arranca depois de ter deixado Yoko, um chapim pousa no passeio. Yoko, a sorrir, pergunta-lhe:
— Achas que o chá verde das montanhas pode curar uma velha tia? Daqui a um ano veremos!

  
Alain Serres
Hiroshima, deux cerisiers et un poisson-lune
Paris, Rue du Monde, 2005
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Da erva à árvore

Eram dunas e dunas, a perder de vista. Montes de areia para o vento brincar...
Hoje, fazia uma duna maior aqui, amanhã apagava-a, para fazê-la mais além e, sempre segundo os seus caprichos, onde estavam montes, cavava vales, onde estavam vales, amoldava montes. O vento era uma vassoura enorme. Cabeleiras dóceis de ervinhas rasteiras deixavam-se pentear, despentear, ao sabor do vento gigante. Ele é que mandava.
Uma delas, à beira de um tojo só picos, cresceu. Delgadinha que era arriscou-se à vida. Rompera a areia e apontava para cima. Ela lá sabia. De dentes a ranger, o vento passou. Partiu-se o tronquinho? Não se partiu. Fincava as raízes, segurava-se com toda a força e, quando o vento descia, inclinava-se à vontade dele. Tinha de ser assim. Lá se foi aguentando.
O vento, a princípio, nem dava por ela. Era uma erva como as outras. Senhor daquelas dunas, o que ele queria era disciplina, ordem, submissão. A erva, que erva afinal não era, submetia-se. Óptimo. Foi crescendo e o vento sem dar por ela. Era um tronco já, uma arvorezinha de Natal para casa de bonecas. Outras ervinhas como, dantes, ela tinha sido, despontavam também, na mesma duna.
Ali havia uma pequena nação de pinheiros novos. A ordem era: persistir. Por enquanto, persistir. Resistir, seria para depois. E foram vingando. Quando o vento deu por eles, teve uma grande cólera e soprou, dias a fio, sobre a duna, donde nascia, miudamente, frágil ainda, um sinal de rebeldia ao seu poder. Nada conseguiu. Os pinheiros sabiam que eram pinheiros. Tinham raça e coragem para fazer frente ao vento. Uns e outros, os maiores e os mais pequenos, começaram a olhar para a sombra.
Alastravam para outras dunas. Guerreiros chamavam por outros guerreiros e desafiavam o vento. "Nada podes contra nós", gritavam-lhe. O maior, o chefe, o mais velho, que da erva se fez tronco, do tronco se fez árvore, comandava a defesa e dizia aos mais novos, nas alturas em que o vento lhes fazia ranger os ramos: "Aguentem, que já passámos por pior".
Eles aguentavam.
E foi assim que o vento, o gigante caprichoso que dantes arrasava dunas, teve de deixar de fazer castelos na areia.
António Torrado 
(adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

Será que a presidenta foi estudanta?

Interessante ser uma professora brasileira a autora deste texto
Na recente entrevista de Miguel Sousa Tavares à Presidente do Brasil, Dilma Roussef, o conhecido escritor e jornalista, por várias vezes, tratou a sua entrevistada por PRESIDENTA.
Existe a palavra PRESIDENTA? E se colocarmos um "BASTA" no assunto?


Será que a presidenta foi estudanta?
Miriam Rita Moro Mine
Universidade Federal do Paraná
 
Tenho notado, assim como aqueles mais atentos também devem tê-lo feito, que a candidata Dilma Roussef e seus apoiantes pretendem que ela venha a ser a primeira presidenta do Brasil, tal como atesta toda a propaganda política veiculada na mídia. Presidenta?!
 
Mas, afinal, que palavra é essa totalmente inexistente em nossa língua? Bem, vejamos:
No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.
 
Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante... Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.
 
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha.

Se diz capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".
 
Um bom exemplo do erro grosseiro seria: "A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizantas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".
 
Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação...
 
Já estão a tratar a nova presidente da Assembleia da República por "Srª Presidenta!..."

O cacto


Sónia está quase a chorar. A chorar de raiva. Quer ser ela a decidir, sozinha, se vai ou não a uma festa de aniversário. Decidiu que NÃO VAI a casa de Catarina, mas a mãe insiste que se deve aceitar sempre um convite de aniversário, mais ainda quando o aniversariante é da mesma turma que nós. E quando a mãe do aniversariante é nossa amiga.
O pai compreende Sónia. Quando não gosta de ir a algum lado, ele também não vai.
— Deixa a Sónia em paz! — diz ele à mãe. — Se ela não quer ir à festa de anos, então que não vá.
— A Catarina só me convidou porque a mãe dela queria — barafusta Sónia. — Sabes muito bem. A mãe dela acha que, só por vocês serem amigas, nós também temos de ser!
É Sónia que escolhe as suas amigas e elas são todas muito diferentes de Catarina: não têm tranças sem graça, sempre do mesmo tamanho e da mesma grossura a caírem pelas costas abaixo, não usam blusas impecavelmente limpas, sem uma pontinha de sujidade, nem mesmo na gola, não usam meias altas de uma só cor, que nunca escorregam. As amigas de Sónia são barulhentas, gostam de roupas garridas e andam um pouco desarranjadas. E quando alguém precisa, estão sempre dispostas a ajudar. E Catarina?
Catarina, se tivesse um grande guarda-chuva preto, daqueles de homem, abri-lo-ia por cima do caderno para que ninguém pudesse copiar. Quando não tem a melhor nota da turma, Catarina parece ainda mais magra, mais macilenta e calada. Catarina nunca ri. É fechada como uma ostra.
— Coitada da Catarina — diz a mãe de repente. — Se não leva 'Muito Bom' para casa, o pai grita com ela. E a mãe não diz uma palavra. Com um marido com tão mau-génio, nem se atreve a falar. Só me admira que a Catarina possa até dar uma festa de anos. Numa casa como aquela, onde todos têm de andar em chinelos para não sujarem o chão e onde não se pode fazer barulho, porque o pai não suporta nenhum ruído!...
"Não gostava nada de ter um pai assim", pensa Sónia. "Quando trago um "Satisfaz" para casa, o máximo que o meu diz é: — Bem, pelo menos não trouxeste nenhum 'Não Satisfaz!' — A Catarina é mesmo infeliz."
A mãe já embrulhou a prenda: papel de carta com linhas fluorescentes. Há muito tempo que Sónia queria ter um assim, mas com as cores do arco-íris.
Aquilo nem faz nada o género de Catarina.
"Vou ficar com ele para mim", pensa Sónia. "A Catarina nunca saberá o que ia receber. E de certeza que as nossas mães não vão falar do papel de carta quando se encontrarem. O que eu queria mesmo era escrever uma carta assim:

Querida mãe,
A Catarina é uma palerma. Como não tenho vontade nenhuma de ir à festa de anos de uma palerma, vou ficar no meu quarto.
Sónia

Isto era bom mas, infelizmente, não pode ser."
Sónia pensa no que pode oferecer, em vez do papel de carta. O que gostava era de lhe dar um cacto. Um, com picos da grossura de um dedo. Sónia está a pensar naquela vez, ainda há pouco tempo, em que lhe emprestou o seu bonequinho de chumbo preferido e ela, no recreio, o deixou cair na grelha da água. E agora, em troca, vai receber um cacto cheio de picos. Um dos da colecção da mãe. Ela já nem gosta deles. Nascem como cogumelos — costuma dizer, porque a família e os amigos só lhe oferecem cactos. De certeza que a mãe não vai reparar se lhe faltar um vaso no meio dos cinquenta e nove!
Sónia escolhe um cacto pequeno e torto com muitos cabelinhos e inúmeros picos. Na ponta tem uma espécie de espinho, mole e amarelo-acastanhado. Ainda fica a pensar se não devia cortá-lo, mas acaba por deixar o cacto como está. Embrulha-o em quatro folhas de papel de seda para não se picar e põe-no junto dos chinelos de casa, dentro do saco de plástico. "Deve ser horrível ter de levar sempre cincos para casa", pensa Sónia no eléctrico a caminho de casa de Catarina. "E ter um pai que grita e de quem todos têm medo…"
Desde que soube aquilo sobre o pai, Sónia passou a ver Catarina com outros olhos. Tem pena dela. Olha para o saco pousado entre os pés. Se calhar não devia ter trocado o papel de carta bonito pelo cacto feio. A viagem é longa e ele ainda se estraga metido no saco. De repente, Sónia lembra-se da cara que Catarina fez quando reparou que Sónia tinha colado uma cábula por baixo da carteira. Lançara-lhe um olhar ameaçador como se fosse fazer imediatamente queixa dela, mas até agora nada tinha feito. Aquilo é que fora um olhar zangado!
Não! Sónia nem sequer vai dar-lhe os parabéns. Só vai sorrir-lhe delicadamente, assim uma espécie de sorriso pequenino só do canto da boca, e apertar-lhe a mão. E dar-lhe o cacto. O cacto, que nem sequer tem perfume. O cacto, que só pica.
Sónia está em frente à casa de Catarina. Até que está muito barulho lá dentro para quem tem um pai que quer sempre silêncio….
— Ainda bem que vieste — diz a mãe de Catarina. — A Catarina vai ficar contente.
"Ora esta!" pensa Sónia. "Então ela pensou que eu não queria vir?"
Catarina vem à porta a correr. Chega a transpirar, de cabelo solto, vestida com uma camisola cor-de-rosa e umas calças verde-alface.
— Olá! — grita alegremente. — Hoje estou diferente, não é? — diz, ao ver a cara esquisita da Sónia.
— Tive autorização para escolher isto, sozinha!
Catarina aponta orgulhosamente para o rosa-choque e o verde-alface.
— Muitos parabéns — diz Sónia baixinho.
Aquela Catarina tão mudada apanhou-a completamente de surpresa.
Desembrulha o cacto com cuidado… e tem de olhar duas vezes até acreditar:
— Não é possível! — murmura Sónia.
Mas lá está ela, pequenina, delicada, amarela.
Com o calor do saco, aquilo que dantes era castanho e murcho transformara-se numa florinha amarela.
— É tão querido! — exclama Catarina. — Um cacto em flor! O meu primeiro cacto!
Catarina está sinceramente contente. Já não é uma ostra esquisita e calada. Em casa, onde não tem de se esforçar para ter cincos, é completamente diferente.
Levanta o cacto no ar e vira-o de todos os lados. Ri por sair tão torto da terra.
"É esquisito", pensa Sónia. "Trouxe um cacto feio a uma pessoa de quem não gostava. Entretanto, o cacto tornou-se bonito e, de repente, passei a gostar dessa pessoa!"

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sábado, 2 de julho de 2011

As crianças têm direitos! (Continuação)

(CONTINUAÇÃO)

♦♦♦♦
BRYONY E BRIAN
O som de um violino fê-lo erguer a cabeça. Bryony tocava uma doce melodia. Ela parou e perguntou-lhe:
— Não encontraste Bryan pelo caminho? Estou a ouvi-lo. É o meu namorado.
— Tens sorte por teres um namorado!
— Sim, mas quase nunca o vejo.
— Porquê? Vive longe?
— Não, é logo à frente de minha casa, mas estamos proibidos de nos vermos porque eu sou católica e ele é protestante.
— E o que é que isso tem a ver com o amor?
— Em casa, se quiser dizer adeus a Bryan, os meus pais não podem saber. Ficam furiosos. Dizem que os culpados pelas bombas e pela violência são os protestantes. Eu amo Bryan tal como ele é, com os dentes separados e os cabelos ruivos. Não me interessa a religião!
Bryony deu um suspiro e continuou:
— Felizmente, temos um segredo que os adultos não conhecem: sempre que queremos, encontramo-nos através da música.
Bryony recomeçou a tocar. Ao longe, uma flauta respondeu-lhe.
— Mais tarde vamos ser músicos e tocar juntos nas ruas, para mostrar que as crianças têm direito ao amor, mesmo que não sejam da mesma religião, da mesma raça ou da mesma cor.
Ao som da flauta e do violino, a tília cobriu-se de notas de música e de instrumentos de todos os países do mundo. O menino deixou-se embalar por aquela música e, um pouco cansado de tanto viajar, adormeceu.
 
♦♦♦♦
 
AMADOU
A voz de Amadou acordou-o.
— Onde estou? — perguntou o menino.
— Estás no Mali, no meu país!
Debaixo de um magnífico ébano, Amadou remexia na pasta.
— Vais para a escola?
— Escola? Estás a brincar! Há meses que o chefe nos prometeu uma, mas nunca mais chega. As pessoas importantes têm sempre coisas mais urgentes a fazer!
— O quê, por exemplo?
— A guerra. Aqui, as tribos combatem-se, destroem as florestas, as aldeias. Assim, as pessoas não têm tempo para construírem uma escola! Para eles, isso não é importante. A maior parte das pessoas da minha aldeia nem sequer sabe escrever! A minha pasta, estás a ver, foi-me dada por uns meninos de uma escola de outro país. Aqui dentro está tudo o que é preciso para aprender: números, letras, lápis, borrachas… Eu tenho vontade de saber, de compreender!
Amadou estava cheio de curiosidade, até parecia que queria devorar os livros.
— Hoje, posso dizer-te, de cor, a conjugação dos direitos no tempo presente. Eu tenho direito a ir à escola, tu tens direito a aprender a ler, ele tem direito a saber contar… Mais tarde, hei-de ser professor, hei-de ir de aldeia em aldeia ensinar as crianças a ler e a escrever, para que saibam que todos têm direito a uma educação gratuita, qualquer que seja a sua tribo, quer vivam no mato quer vivam nas grandes cidades.
O ébano magnífico balançou-se lentamente.
Livros cheios de histórias e de cadernos impacientes por receberem os mais belos segredos caíram, um a um, à volta de Amadou.
 
♦♦♦♦
 
MEENA
O menino mal teve tempo de dizer adeus a Amadou; viu-se, logo de seguida, sentado numa carteira de escola ao lado de uma menina que dormia em cima do caderno. “Ela tem direito a descansar. Deve estar muito cansada!”, pensou ele. Meena abriu os olhos:
— Oh, que horas são? Ai, ai, vou chegar atrasada à fábrica! O patrão vai ralhar comigo!
— À fábrica? O patrão? De que é que estás a falar?
— De manhã e de tarde, trabalho numa fábrica de tapetes, e também vou à escola, mas estou cansada e nunca acabo os deveres. Por isso tenho más notas.
— Não vás para a fábrica! Tens os olhos vermelhos.
— É normal. Os trabalhos de tecelagem são numa cave sombria, iluminada só por um respiradouro. Trabalhamos na penumbra.
— Há lá mais crianças?
— Claro, só há crianças!
— Não voltes para lá! As crianças da tua idade vão à escola, não vão trabalhar!
— Os meus pais não podem viver se eu não trabalhar.
O menino ficou a pensar:
— Se fores à escola, aprendes uma boa profissão e podes ajudá-los melhor.
Os olhos de Meena iluminaram-se.
— Mais tarde quero ser professora de Indi. Hei-de ensinar às crianças que têm o direito de dizer não! Não, não queremos ser explorados, queremos ir à escola, estudar para sermos livres de escolher as nossas vidas.
O menino já apertava nas mãos algumas folhas do velho carvalho. As mais brilhantes e as mais vivas.
Meteu-as na palma da mão de Meena e desapareceu.
 
♦♦♦♦

MOHAMED
Seguia agora por uma rua branca, deserta. De repente, alguém o interpelou atrás de uma persiana:
— Eh, o que andas aqui a fazer?
O menino hesitou:
— Ando à procura das crianças deste país, mas nem sequer sei a que país vim parar!
— Estás na Argélia.
— Tem deserto?
— Com areia dourada, fluida, que escorre como o mel quando a agarramos com as mãos. Antigamente, ia muitas vezes para esse deserto com o meu pai.
— E porque é que agora já não vais?
— Porque já não saímos de casa. Desconfiamos de tudo: dos vizinhos, dos amigos, dos primos!
— E de mim?
— Sim, de ti também! Dantes, teria saído à rua para falar contigo. Agora, fico aqui fechado e tenho medo de tudo: de um carro que arranca, de uma persiana que faz barulho, de passos no passeio… Olha, tenho medo!
O menino sentiu-se pouco à vontade. Lembrou-se do terrível medo que sentira no caminho de pedra:
— De que é que tens medo?
— Da violência!
— Mas tu não tens nada a ver com isso!
— Pois não, mas quando uma bomba explode num mercado, ou perto de uma escola, fere e mata crianças e pessoas que são contra isso tudo! Mais tarde, se eu vier a ser Presidente da República, vou impedir que haja violência e guerra, para que as crianças tenham direito a viver em paz!
Ao ouvir as palavras violência e guerra, o menino sentiu o medo voltar. À sua volta, nem uma única árvore para o proteger. Procurou no bolso. Já só tinha duas folhas. Pegou numa e desfê-la em pedaços minúsculos. Imediatamente, uma fila de palmeiras ladeou a estrada. O menino começou a contá-las: uma… duas…, quando se viu a cavalo num ramo do carvalho. Era tudo tão rápido! Por baixo dele desfilava um continente com os seus países. A cabeça andava às voltas, tinha vertigens.
 
♦♦♦♦
 
CHINESINHA
Viu-se deitado debaixo dos bambus. Num campo, algumas crianças jogavam futebol. Sentada ao lado, uma menina observava-os.
— Não jogas com eles? — perguntou o menino.
— Não!
— Como te chamas?
— Chinesinha. O futebol é para os rapazes.
— No meu país, as meninas também jogam à bola.
Chinesinha torceu a sua longa trança.
— Sim, mas aqui os rapazes têm direito a fazer mais coisas do que as raparigas. Fazem grandes estudos, têm uma família, comem arroz todos os dias, carne ou peixe!
O menino não estava a compreender!
— Rapazes e raparigas são iguais, têm a mesma importância!
— No meu país, não. Aqui, as famílias só têm direito a ter um filho e a maior parte prefere ter um rapaz que, mais tarde, trabalhará e poderá ajudar a família a sobreviver.
— Uma rapariga é a mesma coisa!
— Creio que os adultos pensam que as raparigas são mais fracas, mais frágeis. Sabes, nós, no orfanato, somos muito fortes, corremos muito depressa. Somos campeãs de Tai-Chi. Sabemos escrever mais de mil caracteres, sabemos construir papagaios gigantes! Porém, quando nos cruzamos na rua com uma mãe e um pai com o seu filho, sentimo-nos tão pequenas como um grão de arroz e perguntamo-nos porque não tivemos a sorte de ser amadas! Mais tarde, hei-de ter uma família, vou ter dois filhos, um menino e uma menina, e hei-de ensinar-lhes que têm o mesmo direito ao amor, à família, a um futuro.
O menino pegou na mão de Chinesinha e beijou-a com ternura, como a uma irmã.
As suas duas sombras iguais começaram a brilhar, inundando de luz todos os bambus do país.
 
♦♦♦♦
 
ANTONINO
Desta vez, o menino aterrou numa montanha desprovida de vegetação. O ramo devia ter-se enganado no caminho. Ninguém poderia viver a uma tal altitude! De repente, um pouco mais abaixo, perto das quinoas, pareceu-lhe ver a sombra de alguém a cortar juncos. Uma criança sozinha naquelas montanhas! A sombra veio até ele.
Sim, era Antonino, o pastorinho. Estava tão feliz por ver o menino, que até pulava de alegria.
— Obrigado por vires ver-me, obrigado! Estou sempre sozinho, na montanha, sozinho com os rebanhos, de dia, de noite, à chuva e ao vento, sob as estrelas. O meu único companheiro é este — e mostrou ao menino o seu instrumento de música. — É um siku, mas, para o tocar, é muito melhor se formos dois. Numa tarde, estava eu a tocar quando, de repente, alguém me respondeu. Bem, já não estava sozinho. Era maravilhoso. Corri ao longo do rio em direcção às ervas altas e procurei, procurei, chamei, chamei… Não encontrei ninguém!
— Então quem é que te tinha respondido? — perguntou o menino, intrigado.
— O eco, era só o eco! Tinha tanta vontade de encontrar outros meninos, para nos divertirmos, para cantarmos! Vês, estou a fazer sikus para cada um deles. Mais tarde, hei-de descer aos vales e dar-lhes os meus instrumentos para que todos nós tenhamos direito a nos divertirmos, a nos encontrarmos para deixarmos de estar isolados!
Antonino pôs-se a tocar e o menino deitou ao vento a sua última folha. Sem esperar mais, subiram, vindas dos vales, crianças em fatos de festa. Cantavam, dançavam, batendo nos bombos, revolteando os ponchos multicores.
 
♦♦♦♦
 
LENA
A música encheu os vales e as montanhas, guiando o menino para longe do planalto, bem longe de Antonino, até à entrada de uma estação de metro. Aí, uma menina pequena rodopiava em volta de um grande lenço. O menino parou, fascinado.
— Danças como um pássaro!
— Adoro dançar, mas não posso estar sempre a dançar. Tenho de me sentar a pedir esmola!
— Pedir esmola, o que é isso?
— É pedir dinheiro a chorar, a dizer que estou doente, que o meu pai está doente… É o meu tio, aquele que tem o carro grande, que me obriga a dizer estas coisas e a entregar-lhe o dinheiro todo!
— O quê? Mas isso é horroroso! É inaceitável!
O menino procurou rapidamente uma folha no bolso mas já não lhe sobrara nenhuma. Os bolsos estavam vazios. Sentia-se desamparado. A voz tremia-lhe.
— Já não tenho folhas!
E explicou:
— Se estou perto de ti, devo-o a um amigo, um velho carvalho. Levou-me a passear nos seus ramos, pelos quatro cantos da Terra. Ofereceu camas de rede, brinquedos. Com as suas folhas, deu braçadas de esperança! Mas agora as folhas já se acabaram!
Lena pegou no acordeão e abriu suavemente os foles. Deixou escapar uma nuvem de folhas. O menino, maravilhado, seguiu-as com os olhos.
— Tu também conheces o velho carvalho?
— Claro! Eu e as minhas irmãs contamos muitas vezes a grande aventura.
— A grande aventura?
— O futuro, se preferires.
— Será que podes dizer-me o futuro das crianças da terra inteira?
Lena pegou numa folha e começou a ler:
— Todas as crianças da Terra vão unir-se para, juntas, defenderem os seus direitos: o direito ao respeito, o direito a uma família, o direito à liberdade de opinião e de expressão, o direito à educação, o direito ao lazer, o direito à saúde, o direito a nunca mais serem vendidas nem maltratadas, o direito à justiça, o direito ao amor. Em suma, o direito a viver as suas vidas de criança!
— Não vai haver mais guerras?
— Quem quiser a guerra vai para um planeta seco.
— E na Terra, todas as crianças vão ter tempo para brincar, para sonhar?
— Sim. Até serão criadas aulas de sonho nas escolas!
— E vai haver amor para todos, rapazes e raparigas?
— Não faltará o amor a ninguém!
— Então, todas as crianças serão felizes à face da Terra?
— Sim, poderão crescer e tornar-se pais respeitadores dos direitos dos seus filhos!
— Sabes mais alguma coisa?
— Sim, que o velho carvalho é a árvore dos direitos, e que todas as crianças que encontraste estão à tua espera.
— Todas? Até as meninas presas? Aquela criança maltratada? As crianças de lado nenhum?
— Sim, todas!
O menino nunca se sentira tão feliz. Correu para o velho carvalho. Lá estavam os meninos, uns encostados ao ramo, outros sentados contra o tronco. O menino correu pelo meio deles e, estendendo os braços para a árvore protectora, declarou:
— Olhem, todos juntos formamos as folhas desta árvore com a mesma seiva a correr nos ramos. Somos tão fortes como ela! De futuro, não estaremos mais sós e nunca mais teremos medo. Esta árvore é a árvore dos nossos direitos. Levem as suas folhas e plantem as suas sementes. Amanhã teremos uma floresta magnífica!
As crianças levantaram-se e cantaram em uníssono, em todas as línguas, a canção que abre a porta da felicidade. Ela voou à volta do planeta, para lá dos oceanos, para lá das montanhas, pelo meio dos desertos e nas grandes cidades, até ao coração de todas as crianças!

Dominique Dimey
C’est le droit des enfants !
Arles, Actes Sud, 2001
(Tradução e adaptação)
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