sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Chegou o Outono


Equinócio do Outono 2011
Em 2011, o Equinócio de Outono, ocorre no dia 23 de Setembro às 09h05m (tempo universal), 10h05m em Portugal continental. Este instante marca o início do Outono no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se até ao próximo Solstício que ocorre no dia 22 de Dezembro às 05h30m.
O equinócio ocorre no instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste. A palavra de origem latina significa "noite igual ao dia", pois nestas datas dia e noite têm igual duração.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Entrelaçadas


Na Primavera de 1943, Lillian Scott deu à luz gémeas. As crianças eram muito semelhantes e tinham sido concebidas no mesmo momento. Com os seus vestidinhos iguais, aconchegadas todas as noites na mesma cama, eram também profundamente diferentes. Joyce, a primeira a nascer, era uma bebé saudável, destinada a enfrentar os desafios e os triunfos daquilo que se costuma designar como uma vida normal. Judith veio a este mundo com os traços faciais enfezados e achatados, próprios da síndroma de Down. Embora na altura não se pudesse ainda saber, viria a revelar também uma surdez profunda.
Apesar do abismo entre ambas, abismo esse que se foi aprofundando com os anos, Joyce Scott vai contar-nos que, a partir do momento em que se nasce gémeo, é-se gémeo para toda a vida. Joyce entrou na vida activa, foi mãe e tornou-se profissional da saúde, mas nunca deixou de ter a irmã no pensamento, ainda que esta vivesse numa instituição longínqua. Com o tempo, porém, a distância entre ambas, quer do ponto de vista literal, quer metafórico, começou a fazê-la sofrer. Esta é a história de como Joyce e Judith voltaram a reunir-se e de como, de várias maneiras, se salvaram uma à outra.
No início, as crianças eram inseparáveis. Deixadas entregues às suas próprias brincadeiras pelos três irmãos mais velhos, passavam longas tardes entretidas no quintal dos subúrbios de Cincinnati, a brincar às casinhas e a inventar jogos. Mas à medida que os anos passavam, as diferenças entre ambas iam-se acentuando. Joyce fazia as etapas do desenvolvimento normal, Judith ficava muito atrás. Joyce já construía frases completas, Judith apenas balbuciava. «Queria tanto comunicar com ela!», diz Joyce, actualmente com 60 anos. «Fazia de conta que ela falava. E nos meus sonhos falava!»
Chegada a altura de irem para a escola, Judith fez testes, na esperança de ser admitida na única escola pública para crianças com dificuldades de aprendizagem. Mas não conseguiu responder à maior parte das perguntas. «Ninguém se apercebeu de que era surda», diz Joyce. «Aponta o círculo», disse-lhe o psicólogo. Mas ela nem sequer conhecia as palavras. Nessa época, as famílias raramente mantinham em casa os filhos com deficiências profundas, e a pressão para mandar Judith para fora começou a aumentar. «Falámos com o padre, com os psicólogos, e todos nos disseram a mesma coisa, que devíamos interná-la numa instituição», diz Lillian, agora com 91 anos. «Senti que se me partia o coração.»
Numa manhã de Outono, aos 7 anos e meio, Joyce acordou e deparou com um lugar vazio na cama da irmã. Os pais explicaram-lhe que a Judith ia para um sítio onde havia pessoas mais aptas a tomar conta dela. Joyce lembra-se de se ter sentido profundamente desolada. «Lembro-me daquela sensação extrema de solidão e de vazio sem ela.»
Sempre que podia, a família visitava Judith na fria e labiríntica Estadual de Columbus, que ficava a três horas de distância de carro. Ao fim de cinco anos, Judith foi transferida para o Centro de Desenvolvimento Gallipolis, um pouco mais moderno que a escola anterior, mas ainda mais longe de casa. As visitas da família foram rareando, sobretudo depois da morte do pai, em 1956, o que deixou Lillian sozinha e com quatro filhos para criar.
Mas mesmo em Gallipolis, Judith recebeu pouca educação e formação. Nunca aprendeu a falar, a ler ou a escrever, e nem após lhe ter sido diagnosticada a surdez, por volta dos 30 anos, lhe ensinaram a linguagem gestual.
Entretanto, Joyce cresceu, entrou para a faculdade e mais tarde mudou-se para a Califórnia, onde se casou, constituiu família e fez carreira como enfermeira. Meses, por vezes anos, decorreram entre as viagens ao Ohio para visitar Judith. Ilana, a filha de Joyce, lembra-se de aos 9 anos ter acompanhado a mãe e ter visto a tia Judy pela primeira vez. «Há anos que não se viam, mas quando a Judy deparou com a minha mãe, reconheceu-a logo. A mamã só conseguiu soluçar.»
Em 1985, Joyce, que tinha começado a trabalhar com doentes terminais e precisava de recarregar as baterias, fez um retiro nas montanhas de Santa Cruz, nos arredores de São Francisco. Durante as horas que passou sozinha, a lembrança da irmã consumiu-a. «É diferente estar-se naquele silêncio», diz Joyce. «Não só me apercebi de como a nossa relação era profunda, como de que não havia razão para que estivéssemos separadas.» Antes do fim do retiro, decidiu que ela e Judy passariam o resto da vida juntas.
Joyce fez as diligências necessárias para se tornar a responsável legal da irmã, e um ano depois trouxe-a para a Califórnia. Depressa encontrou um centro de dia perto de casa, em Berkeley, onde Judith poderia receber os cuidados diários de que necessitava. E, a conselho de um psicólogo amigo, inscreveu-a nas aulas do Centro de Arte de Desenvolvimento Criativo, um estúdio de arte para pessoas com deficiência.
O armazém aberto e arejado onde os artistas dão aulas de pintura, cerâmica e tapeçaria é um local espantoso, explica Joyce. «Há uma enorme sensação de liberdade e de criatividade.» Durante os primeiros meses, Judith chegava às aulas todas as manhãs e limitava-se a sentar-se a uma das grandes mesas e a fixar o olhar vago, enquanto os formadores lhe iam passando argila, tinta e lápis de cor para trabalhar. «Era intratável e teimosa», diz Sylvia Seventy, que lhe deu aulas no centro. «Por mais que tentássemos levá-la a fazer qualquer coisa, não se mexia.»
Até que a situação mudou. «Ela é engraçada e eu também», diz Sylvia. «Pus-me a imitar as expressões dela e consegui pô-la a rir. E assim começou a apreciar-me.»
Sylvia iniciou o trabalho com Judith numa tela de tapete, ensinando-a a coser com uma agulha de tecelagem e fio de lã. «Ela cosia e cosia até preencher uma boa área», diz a formadora. Um dia, começou a enrolar lã à volta de um feixe de vimes. E acrescentou cordel, tecido, rede de arame e tábuas à criação artística.
«Desde que começou a trabalhar com lã e desperdícios, foi como se encontrasse uma voz para exprimir algo que até então nunca conseguira exprimir», diz Stan Peterson, outro professor do centro. Nos meses seguintes, Judith desenvolveu um estilo próprio e singular. Começou por utilizar objectos de refugo, como uma prancha de skate, uma ventoinha partida, madeira, um sapato, e a envolvê-los com fio de lã ou cordel, trabalhando horas a fio até o objecto inicial ficar irreconhecível. Alguns dos seus trabalhos atingiram tais proporções que foram precisos dois homens para os carregar.
Embora a maior parte tivesse formas abstractas, algumas das peças iniciais tinham uma certa semelhança com bonecas. Judith chamou à sua primeira escultura tridimensional «Baba» e embalou-a nos braços. Fez também um par de figuras enroladas em lã preta. Joyce chorou ao vê-las e pensou: «Somos nós.»
Em 1989, Frank Maresca, co-proprietário da Galeria de Arte Ricco/Maresca, de Nova Iorque, que expõe trabalhos de artistas marginais e autodidactas, visitou o Grupo Criativo e ficou encantado com o trabalho de Judith. «Era algo diferente de tudo o que eu já vira, aqueles casulos muito texturados que escondiam sabe-se lá o quê no seu âmago», diz Maresca. «Senti-me atraído pelo exterior e envolvido pelo mistério do interior.»
Maresca começou a expor e a vender os trabalhos de Judith, tendo alguns deles atingido o preço de 15 000 dólares. (A maior parte das necessidades financeiras de Judith é coberta pela Segurança Social, pelo que os seus proventos são depositados na sua conta bancária.)
A fama da sua arte foi-se espalhando, e os curadores de museus começaram a aparecer para a conhecerem e verem as enigmáticas esculturas de fibra. Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido exposto em museus e galerias de Chicago, São Francisco, Paris e Tóquio. Em 1999, o historiador de arte John M. MacGregor traçou o perfil da artista no livro Metamorfoses: A Arte de Fibra de Judith Scott. No ano passado, o Museu Norte-Americano de Arte Popular acolheu cinco peças da colecção de Judith.
Joyce diz que, embora Judith não tenha consciência da fama, sofreu transformações com a atenção pública. «Está mais sociável agora», diz ela. «Dantes, era desconfiada, calada, fechada em si mesma. Agora, irradia amor pela vida.» Joyce também mudou. «Quando a Judy estava no lar, sentia que me faltava uma parte. Agora que estamos juntas e que a vejo desabrochar sinto-me muito melhor. Que bem me sinto por estar perto dela!»
Numa recente manhã de sol, Judith senta-se no cantinho habitual, no estúdio de arte de tijolo e vidro, a trabalhar na última peça, um guarda-sol partido envolto em fio de lã de múltiplas cores. Com calma e método, corta 1 m de fio azul-claro de um novelo, passa-o pelas varetas meio cobertas do guarda-sol, ata-o, enrola-o, corta-o e recomeça com um novo fio de lã. Esta mulher pequena e rechonchuda, de cabelo às farripas, concentra-se no trabalho, que apenas interrompe de vez em quando para saborear uma Diet Pepsi.
Mal a irmã entra na sala, Judith abre-se num sorriso. Balança como uma criança, abrindo e fechando a mão. Joyce abraça-a. Aperta-lhe as mãos e beija-lhe a face. Uma gémea é-o para sempre.
Rachele Kanigel
Selecções do Reader's Digest
Março – 2004
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Semana da juventude de Tavira 2011

   
7ª Edição da Semana da Juventude de Tavira 2011
De 19 a 25 de Setembro

A 7.ª edição da Semana da Juventude de Tavira decorrerá entre 19 a 25 de Setembro de 2011. Esta iniciativa anual visa fomentar a participação juvenil, valorizar, promover e divulgar o trabalho desenvolvido pelos jovens e associações/instituições com trabalho na área da juventude. Haverá uma forte aposta na formação artística dos jovens:
oficinas/workshops: "Moda e Fotografia"; "Djing"; "Técnicas e equipamentos de tratamento de som para DJ's"; "Movimento e Dança"; "Teatro", "Malabarismo e Andas", bem como diversas aulas abertas de vários instrumentos musicais na Academia de Música de Tavira.

A Semana da Juventude de Tavira conta com diversas actividades desenvolvidas pelo Município de Tavira, com destaque, este ano, para as comemorações do Dia Europeu Sem Carros (22 de Setembro), a XII Festa do Desporto Tavirense (23 de Setembro) e a Feira da Juventude (23 a 25 de Setembro), que terá lugar na Rua do Cais e Jardim do Coreto e contará com muita animação de rua (ateliers, pinturas faciais, malabarismo, insufláveis, parede de escalada, jogos, arruadas de precursão, etc.).

A programação conta também com diversas iniciativas promovidas por associações locais, nomeadamente, concertos de bandas locais (23 de Setembro); Festa da Juventude, com os DJ's Fábio Palma, Viriato Muata, Dhanny, Seven Souls e VJ Draft (24 de Setembro), passeio pedestre em Cachopo, demonstrações desportivas, palestras, entre muitas outras actividades.

Consulte o programa específico e participe!
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 MUNICÍPIO DE TAVIRA
DEJ| DIVISÃO DE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE
( 281 320 536 - ext. 236
Ê  281 322 888

Comemorações dos 363 Anos do Regimento de Infantaria N.1 - Quartel da Atalaia em Tavira

Em virtude das Comemorações dos 363 Anos do Regimento de Infantaria N.1, o Quartel da Atalaia em Tavira, irá abrir as suas portas para visita, a toda a população estudantil do Distrito de Faro.
O programa proposto é:
1.       Exposição de equipamento orgânico do Exército Português;
2.       Demonstração de treino físico militar;
3.       Missão das Forças Armadas;
4.       Apresentação dos símbolos Nacionais (evolução da Bandeira Nacional ao longo da história).
A visita iniciar-se-á às 14h do dia 26 de Setembro de 2011, com a formatura de início de trabalhos, do período da tarde, e tem a duração aproximada de 2 horas. Esta iniciativa será objecto de uma reportagem por parte da RTP – Faro.
Face ao exposto convidam-se todas as escolas desse Agrupamento a estarem presentes nesta iniciativa.
Agradece-se a confirmação da presença e número de alunos até ao dia 20 de Setembro de 2011.
As confirmações podem ser feitas através de qualquer dos contactos abaixo referidos. Por telefone nos dias úteis das 09h às 16h.
Para mais informações ou alguma questão podem utilizar os seguintes contactos:
Telefone: 289 380 094
Fax: 289 380 097
  
Sem mais assunto de momento,
Os melhores cumprimentos.
Pedro Rafael
Alf

SuperTmatik 2011-12 (inscrições abertas)

Campeonatos escolares superTmatik 2011-12, INSCRIÇÕES ABERTAS
Informamos que se encontram abertas as inscrições para os Campeonatos escolares superTmatik, ano lectivo 2011-2012.

Competições disponíveis:
1.Cálculo Mental (1º ao 9º ano)
2.Quiz Matemática (5º ao 9º ano)
3.Quiz Ciências Naturais (5º ao 9º ano)
4.Quiz Corpo Humano (6º e 9º anos) NOVO
5.Quiz Astronomia (7º ano) NOVO
6.Quiz Língua Portuguesa (4º ao 9º ano)
7.Sinónimos-Língua Portuguesa (4º ao 9º ano)
8.Francês-Português (7º ao 9º ano)
9.Inglês-Português (3º ao 9º ano)
10.Quiz História de Portugal (5º ao 9º ano)
11.Quiz Geografia (7º ao 9º ano)
12.Quiz Cristianismo (5º ao 7º ano)

Regulamentos e Inscrições visite www.eudactica.com, secção Campeonatos
Mais informações contacte: dep.cultural@eudactica.com ou ligue 219 246 437.

sábado, 17 de setembro de 2011

"Movimenta-te - Trajectórias de Programação Cultural em Rede" - NOVA CRIAÇÃO

Para quem queira participar….
  
Procuram-se actores, bailarinos e performers para integrar o elenco da nova criação da rede Movimenta-te – Trajectórias de Programação Cultural em Rede.

Direcção Artística: Ainhoa Vidal (coreógrafa), Gonçalo Amorim (encenador), Madalena Victorino (coreógrafa)
Local e Período de Criação: Algarve Central de Janeiro a Abril de 2012 com estreia durante o mês de Março.
Audição/Laboratório: 19 e 20 de Outubro numa das cidades da rede (Faro, Loulé, Olhão, Tavira, São Brás de Alportel)
Inscrições e informações: Cristina Braga
Por favor enviar CV e uma fotografia.

Gonçalo Amorim (encenador), Madalena Victorino (coreógrafa) e Ainhoa Vidal (coreógrafa)

Paula Ferreira
Divisão de Cultura e Turismo
Biblioteca Municipal Álvaro de Campos
Tel: 281 320 576 /585   Fax: 281 325 727
Munícipio de Tavira
www.cm-tavira.pt

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Manuel e os pássaros

         No tempo em que os meninos trabalhavam de criados, havia uma patroa muito má que tomara a seu serviço um rapazinho, o Manuel, a quem dava ordens por tudo e por nada, qual delas a mais disparatada.
No quintal, a senhora dona tinha uma figueira que, nesse ano, dera um único figo. Pois não é que a maluca da mulher exigiu ao Manuel que estivesse todo o tempo de atalaia, não se desse o caso de os pássaros cobiçarem o figuinho?
– Quero comê-lo quando estiver maduro. Ai de ti, se deixares os melros roubarem-no.
Bem os afugentava o garoto, mas os passarocos de bico cor de laranja são teimosos. E gulosos... Às duas por três, adeus figuinho.
– Maldito miúdo. Vais pagar-mas – gritou a megera.
E meteu-o de castigo numa pipa vazia, às escuras. Sorte para o Manuel que os melros tivessem sabido. Logo convocaram os pica-paus e outros passarinhos de bico duro. Todos juntos, toc toc toc, libertaram o Manelinho. Depois, uma águia, que também tinha sido chamada para ajudar, levantou o rapazinho nos ares.
A patroa viu-os e foi buscar uma caçadeira, mas já não chegou a tempo. Era mesmo má a criatura. A águia sobrevoou montes, campos, pinhais, aldeias, como se andasse à procura não se sabe de quê, até que poisou o Manuel num quintal, onde havia uma figueira. Depois, bateu as asas e desapareceu.
O rapaz, ainda meio tonto, viu a figueira e nela um único figo lampo. "Que desgraça a minha. Vai voltar tudo ao princípio", pensou o Manuel. De dentro da casa, donde era o quintal, apareceu uma velhota. O miúdo encolheu-se e pensou: "Estou mesmo com azar. Esta há-de ser ainda mais torta do que a outra".
– Como te chamas? – perguntou a velha.
– Manuel, para a servir.
– Para me servires? – riu-se a velha, num riso desdentado. – Eu nunca tive criados, mas querendo, podes ficar a cuidar-me da horta. Queres?
– Sim, minha senhora.
– Estamos acertados. E, olha, enquanto te preparo umas sopas, lambe-te com aquele figuinho único que a figueira me deu.
– A senhora não o quer para si?
A velhota fez uma careta.
– Não me dou bem com figos e tu puseste-te a olhar para ele como nunca vi ninguém olhar para um figo. Deve ser da fome que trazes.
O Manuel chamou a si o figo e pronto. Enquanto saboreava o figo e a velhinha, enternecida, sorria para ele, o Manuel pensou: "Valeu a pena conhecer as alturas, porque a águia sabia onde me deixava."
Também estamos em crer que sim. As águias, lá de cima, vêem muito, olá se vêem.

António Torrado
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Bom Ano Letivo 2011/2012

A Equipa da Biblioteca Escolar e Centro de Recursos Educativos deseja a toda a comunidade educativa um excelente ano letivo!

Caminhos sem nome

Um campo de neve deserto.
Um pardal pousa.
O Jardim das Hortênsias.
Ao amanhecer, uma pequena tartaruga atravessa lentamente.
Ninguém a vê.
Dois namorados estendidos na relva
em silêncio contemplam a noite e os astros.
Uma estrela cadente desliza.
No bosque por detrás da cidade,
uma aranha lança o primeiro fio de prata
até ao ramo mais alto.
Em cima dos telhados, por entre as chaminés,
uma auto-estrada invisível
por onde as andorinhas vão e vêm.
Uma longa caravana de formigas
em direcção ao biscoito caído no pátio.
Sara lancha no terraço ao sol.
Na tarde de Verão, o mar tranquilo.
Ondas que desenham anéis vermelhos.
Uma onda vai mais longe,
até ao castelo que as crianças construíram na areia.
Nem todos os caminhos têm nome.
Há caminhos que passam em silêncio.
No sossego do quarto onde te escondes,
se tivesses ouvidos de morcego,
escutarias as ondas a atravessar os muros
e a noite oferecendo-te a música do mundo.
Que confusão! Parece um carnaval!
Tambores e címbalos de ferro.
Camiões que esburacam montanhas.
Canções sem palavras. Palavras na escuridão.
Melodias de salão. Rotas sonâmbulas de navios mercantes.
Aviões perdidos.
Mas tu não tens ouvidos de morcego.
Tens ouvidos aquáticos que escutam

o baile das algas nos corais.
Ouvidos de caramujo que escutam
o crepitar da chuva no bambu.
E dizes: estrela marinha.
E as tuas palavras são minúsculas
como ninhos de colibri.
Com o nariz colado à janela,
Viste a garça voar até ao norte.
Quando fores pelos caminhos do mundo, não esqueças nunca a linha que ela desenhava no céu.
Anna Castagnoli
Caminos sin nombre
Pontevedra, OQO Editora, 2007
(Tradução e adaptação)
  
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sábado, 10 de setembro de 2011

Alerta, mas sem alarmismo


Agora que todos têm um míssil balístico pessoal de longo alcance em casa, é engraçado ver como já ninguém lhes dá importância.
No início distribuíram-nos à sorte. Nessa altura, foi muito excitante: uma pessoa, nossa conhecida, recebe uma carta do governo e, ao fim de uma semana de espera, um camião vinha entregar-lhe o míssil. Depois, nas casas de cada esquina era preciso que houvesse um. A seguir, nas casas do lado. Até que se chegou ao ponto de, hoje em dia, parecer raro que alguém não tenha um míssil no telheiro do jardim ou no estendal da roupa.
Sabe-se por que é que lá estão… Mas temos uma ideia aproximada… É que devemos proteger a nossa forma de vida num mundo cada vez mais hostil. Todos devem participar na segurança nacional (aliviando assim a pressão em que se acham os armazéns de material de guerra) e, acima de tudo, todos têm direito a sentir que estão a contribuir com o seu diminuto grão de areia. É uma pequena ajuda.
Basta apenas limpar e encerar o míssil no primeiro domingo de cada mês e, de vez em quando, deitar uma olhadela ao indicador do nível do óleo. E, uma vez num intervalo de vários anos, recebe-se uma encomenda com um kit completo de pintura, sinal evidente de que chegou a altura de eliminar qualquer ponto de oxidação e de lhe dar uma mão de pintura cor de chumbo.
Não obstante, muitas pessoas começaram a pintar os mísseis com outras cores e até há quem se tenha atrevido a pintá-los com desenhos de borboletas e flores. É que ocupam tanto espaço no jardim que o mínimo que se pode fazer é pô-los bonitos. Além de que os panfletos governamentais não proíbem a utilização doutros tipos de pintura diferentes dos enviados.
Ultimamente, é costume cobri-los de luzes pelo Natal. Seria bom subir de noite a uma montanha e ver as centenas de pontinhos acesos a brilhar e a pestanejar na escuridão.
Além disso, o míssil do jardim pode ter uma enorme quantidade de usos práticos. Quem desapertar a tampa inferior e retirar os fios e o resto, pode utilizar o espaço para guardar sementes, ferramentas, molas de roupa ou lenha. Se for alterado um pouco mais, pode-se facilmente fazer dele uma fantástica cabana-foguetão espacial e, quem tiver cão, arranja assim uma casota de graça. Numa casa, até houve quem lhe pusesse uma chaminé na parte de cima e usasse o míssil como forno de fazer pizas.
Sim, todos sabemos que, no dia em que o governo decidir usá-los, os mísseis já não irão funcionar, mas com o passar do tempo já não nos preocupamos com isso. Afinal, a maioria das pessoas tem a sensação de que assim é melhor. Sobretudo, esperamos que, no outro lado do mundo onde as famílias têm mísseis no jardim de casa, armados e apontados para nós, também elas tenham encontrado para eles aplicações muito melhores.

Shaun Tan 
Cuentos de la periferia
Arcos de la Frontera, Barbara Fiore Editora, 2008
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias
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