quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Uma cidade, dois irmãos

 
Em tempos que já lá vão, Salomão reinava na cidade de Jerusalém. Durante o seu reinado, mandou edificar um templo magnífico para o povo. Era um edifício único, um lugar santo. Todos os dias, o monarca recebia no palácio a visita dos seus súbditos, a quem dava conselhos, quando lhos pediam, ou julgava aqueles que tinham infringido as suas leis.
Um dia, apresentaram-se diante do rei dois irmãos. O pai falecera há pouco e ambos disputavam a herança das suas terras. Pediram a Salomão que os aconselhasse.
— Segundo a lei, deveria ser eu a herdá-las! — disse um dos irmãos.
— Mas é de justiça que eu receba a minha parte! — exclamou o outro.
O rei, que era sábio, escutou-os primeiro. Mas, ao ver que cada vez gritavam e se encolerizavam mais, levantou a mão, ordenando que se calassem, e disse:
— Vou contar-vos uma história que ocorreu há muito tempo, muito antes de aqui haver uma cidade, muito antes de esta terra ter um templo.
Eis a história que contou o Rei Salomão:
 
Há muito, muito tempo, havia um vale sulcado por um rio, que abria caminho por entre as montanhas, a nascente, e desaguava no mar, a poente. O vale era rodeado por encostas cobertas de oliveiras e amendoeiras. No lugar onde o rio acompanhava a curva de uma montanha rochosa, havia duas povoações, cada uma delas com um punhado de casas de pedra, algumas lojas, e currais para os animais.
Nelas viviam dois irmãos que cultivavam campos no solo fértil do vale, a meio caminho entre as duas povoações. O irmão mais velho vivia na povoação acima dos campos que partilhavam. O mais novo vivia na povoação abaixo dos campos que cultivavam. Duas estradas ligavam os dois povoados: uma ficava no cume da montanha que os separava, a outra atravessava o vale e passava junto aos campos.
Todos os outonos, depois das primeiras chuvas, os dois irmãos pegavam nos seus burros e juntos aravam a terra e faziam a sementeira. E, todos os invernos, as sementes germinavam e cresciam até à primavera. Depois, as cabecinhas dos caules engrossavam e amadureciam e, no verão, já apresentavam uma cor dourada. Os dois irmãos ceifavam o trigo, debulhavam-no, e guardavam o grão em sacos.
Uma vez terminadas estas tarefas, os irmãos contavam os sacos e repartiam-nos de forma igual, ficando cada um com metade. Tocava a cada um a mesma quantidade de palha para os animais e a mesma quantidade de trigo para moer, converter em farinha, e fazer pão. Quando chegava o outono, começavam a lavrar a terra de novo. E assim se iam passando os anos.
O irmão mais velho casou e não tardou a ter a casa cheia de filhos para alimentar. Felizmente que a parte da colheita que lhe tocava durava sempre até ao fim do inverno, o que o deixava contente. O irmão mais novo nunca casou. Alguns diziam que não tinha encontrado a mulher que lhe convinha, outros diziam que gostava de levar uma vida tranquila. De qualquer forma, também ele se sentia contente.
 
Certo verão, a colheita foi excelente, melhor do que alguma vez fora. Os dois irmãos empilharam os sacos pesados e viram que havia vinte para cada um. Quando o irmão mais velho acabou de os amontoar, pensou no mais novo. "Tenho muita sorte em ter uma família", disse para consigo, "porque, quando for velho, cuidarão de mim. Mas o meu irmão não tem ninguém. Como tem de poupar para a velhice, vai precisar deste trigo mais do que eu."
Então, o irmão mais velho decidiu dar um presente ao irmão mais novo. Quando a noite se pôs, carregou três sacos de grão no burro e subiu a montanha por detrás da sua casa. Depois, desceu a encosta e foi até ao povoado onde vivia o irmão. Era uma noite sem estrelas nem luar. Contudo, ele conhecia tão bem o caminho que poderia fazê-lo de olhos vendados. Sem fazer barulho, dirigiu-se, pé ante pé, até ao alpendre onde o irmão guardava o grão e deixou três sacos junto dos que já lá estavam. Depois, regressou a casa, sorrindo, a pensar na cara do irmão quando visse os sacos na manhã seguinte.
No dia seguinte, depois de tomar o pequeno-almoço, a mulher perguntou-lhe como tinha corrido a colheita.
— Este ano só tivemos dezassete sacos — disse o marido. — Se não os gastarmos mal gastos, serão suficientes.
A mulher fitou-o, surpreendida.
— Só dezassete sacos? Parecia uma colheita tão boa...
O marido encolheu os ombros e sorriu. Enquanto a família acabava de comer, a mulher foi até ao lugar onde guardavam os sacos de trigo. Regressou a casa passado pouco tempo.
— Ó homem, estás tão cansado que nem sequer sabes contar os sacos.
— O que queres dizer com isso? — perguntou o marido.
— Fui ao armazém e contei vinte sacos, não dezassete.
— Não pode ser! — exclamou ele.
Foi ver com os seus próprios olhos e deparou com vinte sacos.
— Como é isto possível? Devo ter sonhado!
Naquela noite, depois de o sol se pôr, voltou a carregar três sacos no burro e levou-os até casa do irmão. Desta vez, para que o burro não se cansasse, tomou o caminho do vale. Na manhã seguinte, disse à mulher que só tinham dezassete sacos porque tinha oferecido três. Pôs um dedo nos lábios e disse, sussurrando:
— É um segredo.
A mulher olhou para ele, desconfiada:
— Tens a certeza do número de sacos? — perguntou.
— Claro que tenho. Vem comigo e já te mostro.
Mas, quando foram contá-los, eram novamente vinte. A mulher não achou graça ao sucedido.
— Porque troças de mim? Devias dizer-me a verdade.
— Será um milagre? — interrogou-se o homem. — Ou será que estou a ficar velho e já não me lembro do que faço?
Na terceira noite, depois do entardecer, saiu de novo com três sacos, decidido a dar o presente ao irmão, custasse o que custasse.
 
Três dias antes, o irmão mais novo, ao acabar de empilhar o último saco, pensara no irmão mais velho e nas bocas que este tinha de alimentar. "Ele precisa mais do trigo do que eu", pensou, "e já sei o que vou fazer. Sem ele saber, vou deixar três sacos dos meus junto dos dele, e terá uma bela surpresa pela manhã".
Quando já era noite, carregou três sacos no burro e, sob um céu sem estrelas, tomou o caminho do vale, rumo à casa do irmão mais velho. Uma vez lá, deixou os sacos no celeiro. No dia seguinte, o irmão mais novo reparou, com estranheza, que havia demasiados sacos de trigo no seu alpendre. Contou-os e estavam vinte. Mas, se tinha oferecido três, só devia haver dezassete. Como era possível que houvesse vinte? Teria sonhado?
Passou o dia a dar voltas à cabeça. Quando anoiteceu, voltou a carregar três sacos no burro, decidido que estava a ajudar o irmão. Desta vez, tomou o caminho mais curto, o que subia a montanha, para deixar os sacos ao irmão. Regressou a casa, sem que ninguém o visse. Na manhã seguinte, voltou a contar os sacos e viu que tinha vinte. "Isto deve ser imaginação minha", pensou. "Esta noite, levo-os sem falta". Naquela noite, pela terceira, vez, voltou a percorrer o caminho da montanha para ir ao povoado do irmão. Desta vez, havia lua cheia. Quando atingiu o cume da montanha, viu o irmão a dirigir-se para ele e pareceu-lhe estar diante do seu próprio reflexo.
Sem dizer palavra, ambos compreenderam porque se tinham encontrado ali. Os seus corações encheram-se de alegria, ao darem-se conta do amor fraternal que os unia. Foi naquela montanha, entre as duas povoações, que Jerusalém foi erguida. E, no mesmo sítio onde se encontraram os irmãos, construiu-se o templo sagrado.
 
Com estas palavras, Salomão deu por finda a história.
Os dois homens ficaram em silêncio e todos na sala de audiências ficaram suspensos da sua reacção. Ao fim de algum tempo, o irmão mais velho ergueu os olhos.
— Irmão — disse — o que outrora foi do nosso pai é agora nosso. Nem teu nem meu, mas nosso. Devemos partilhá-lo.
Abraçaram-se os dois e abandonaram a sala, de braço dado. Desde esse dia, tanto eles como as suas famílias viveram sempre juntos e felizes. E não havia história que os filhos ouvissem com mais atenção e interesse do que a dos dois irmãos, a história que Salomão, o rei sábio, tinha contado aos seus pais.
 
 
Chris Smith
Una ciudad, dos hermanos
Barcelona, Intermón Oxfam, 2007
(Tradução e adaptação)
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ondjaki... Na nossa escola

Ontem, dia 26 de novembro e como foi anunciado, esteve presente na Biblioteca da nossa escola o jovem escritor angolano, Ondjaki, Prémio José Saramago 2013. Numa conversa divertida e informal, o escritor falou das suas obras e respondeu às muitas questões colocadas pelos alunos. No final deixou um conselho a todos os presentes...
 
"Quando quiserem e quando puderem, peguem num livro, num  livro qualquer e leiam!"
 

 

Não podemos deixar de fazer alguns agradecimentos:
- À representante do grupo Leya, Inês Luz, que tornou possível este evento;
- Às docentes de Português da escola EB 2/3 Dom Paio Peres Correia, pela dinamização do evento e pelos trabalhos realizados pelos alunos;
- À Coordenadora Interconcelhia da Rede de Bibliotecas, professora Ana Farrajota, pela sua presença;
- Às professoras bibliotecárias do Agrupamento de Escolas D. Manuel I, Isabel e Susana, pela presença;
- Aos elementos da CAP, professores José Baia e Vítor Junqueira, pelo apoio prestado;
- Às turmas presentes e aos professores que as acompanharam;
- À turma de CEF - Mesa e Bar e ao técnico Pedro Gonçalves, pelo serviço prestado no almoço oferecido ao escritor.
 
A todos... Obrigado pela colaboração e pela presença!
 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013


ONDJAKI na Escola Dom Paio Peres Correia


 
 
No dia 26 de novembro, pelas 10h 30, estará presente na Biblioteca da Escola Dom Paio Peres Correia, em Tavira, o escritor angolano ONDJAKI, vencedor do prémio José Saramago 2013, com o romance Os transparentes.

Este jovem autor de 36 anos já publicou diversas obras, de que destacamos: Os da minha rua, O Assobiador, E se amanhã o medo, Momentos de aqui, A bicicleta que tinha bigodes, Quantas madrugadas tem a noite, Avódezanove e o segredo do soviético e, mais recentemente, Uma escuridão bonita.

Poderão encontrar algumas destas obras na nossa biblioteca, cuja leitura aconselhamos vivamente!

Venham participar neste encontro de culturas.
Fátima Veríssimo
(Profª Bibliotecária)

 

 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

PRÉMIO LITERÁRIO JOSÉ SARAMAGO

Escritor angolano Ondjaki foi distinguido com o Prémio José Saramago, pela obra Os Transparentes, publicada, em 2012, pela Editorial Caminho.
 

 
O escritor angolano Ondjaki, de 36 anos, com o romance "Os transparentes", é o vencedor do Prémio José Saramago 2013, no valor de 25.000 euros. A distinção foi anunciada hoje, no mesmo dia em que é publicado o seu novo livro, "Uma escuridão bonita", com ilustrações de António Jorge Gonçalves. É também o segundo galardão que o escritor recebe este ano, depois do Prémio Fundação Nacional do Livro Infantil.
Esta é a oitava edição do galardão, instituído pela Fundação Círculo de Leitores, que distingue autores com obra editada em língua portuguesa, no último biénio, menores de 35 anos à data de publicação da obra.
O júri, presidido por Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores, foi constituído pela poetisa Ana Paula Tavares, Manuel Frias Martins, da Universidade de Lisboa, Maria de Santa Cruz, da Universidade de Aveiro, Nazaré Gomes dos Santos, da Universidade Autónoma de Lisboa, pelos escritores Nélida Piñon e Vasco da Graça Moura e por Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago.
A obra "Os transparentes" foi publicada em 2012 pela Editorial Caminho e, segundo Vasco Graça Moura, surpreende pela "maneira como a sua utilização da língua portuguesa é, não só capaz de captar com a maior naturalidade as mais diversas situações num contexto social tão diferente do nosso, mas comporta em si mesma fermentos de uma inovação que espelha com força e realismo um quotidiano vivido na sua trepidação e também funciona eficazmente ao restituí-lo no plano literário".
A presidente da Fundação Saramago afirma, por seu turno, que "ao lermos 'Os transparentes' temos a sensação de estar a ler uma literatura inaugural".
"Sabemos que não é assim, que Angola tem grandes escritores e que muitos fazem do português em África um idioma sólido, versátil e belo, e que também Ondjaki faz parte de uma poderosa constelação", salienta Pilar del Río.
Segundo a sinopse da obra, publicada pela Caminho, no romance, "de novo aparece Luanda - a Luanda atual do pós-guerra, das especificidades do seu regime democrático, do 'progresso', dos grandes negócios, do 'desenrasca' - como pano de fundo de uma história que é um prodígio da imaginação e um retrato social de uma riqueza surpreendente".
Paulo José Miranda, Adriana Lisboa, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo e Andréa del Fuego foram os nomes premiados com este galardão nas edições anteriores. (Notícia de 5 de novembro de 2013)

Notícia retirada de:
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Livro do mês - Novembro de 2013

"A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde."
(André Maurois)
 
Boas leituras!
 


Top Leitores - Outubro de 2013

Na nossa escola temos ótimos leitores! No mês de outubro a leitora do mês foi a aluna Joana Nascimento do 5º A. Parabéns Joana!
J 


28 de outubro de 2103- Dia da Biblioteca Escolar

No passado dia 28 de outubro de 2013 celebrou-se o Dia da Biblioteca Escolar e a nossa Biblioteca dinamizou diversas atividades. Agradecemos a todos os participantes! E não se esqueçam...
A Biblioteca é uma porta para a vida!
 

Cá estamos para mais um ano de trabalho

Olá estimados seguidores! Retomamos o nosso trabalho, com algum atraso, devido às muitas tarefas que nos têm sido solicitadas. O ano letivo 2013/2014 surgiu com algumas novidades, resultantes da agregação das escolas que agora integram o Agrupamento de Escolas Dr. Jorge Augusto Correia. Mas a nossa Biblioteca continua dinâmica e cheia de atividades e novidades.
 Vamos, então, dar início ao nosso trabalho...
 
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