sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Saudações Bibliotecárias



A Equipa da Biblioteca Escolar e Centro de Recursos Educativos do Agrupamento Vertical de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores deste blogue, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

Recital de Natal 2009


Cenário elaborado pelas turmas do Professor Nuno Ezequiel




5ºA na voz, acompanhados pelas flautas do 6ºA e 6ºB



Professor Domingos Ramalho (clarinete) acompanhado pelo Professor Luís Conceição (piano)




6ºC



Alunos do 6ºE sob a orientação do Professor Luís Macieira



6ºA e 6ºB na interpretação de Haendel, com acompanhamento de clarinete e piano



5ºA



Uma audiência atenta

O Grupo de Educação Musical agradece a toda a comunidade escolar envolvida o apoio prestado na organização deste evento, com especial destaque para as professoras Emília Padinha, Rosa Rogado, Ana Francisco, Carla Silva e Carla Viegas, por terem cedido as turmas para os ensaios em conjunto, e ao professor Nuno Ezequiel, pela elaboração do cenário.


A batalha de Natal



— Só mais seis dias — disse Neli.
Enquanto a filha tentava assobiar Noite Feliz, a mãe repetiu, pensativa, numa voz que não soava alegre:
— Ainda seis dias.
Após uma curta pausa, prosseguiu, suspirando:
— Se tudo já tivesse passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olhou para a mãe com ar estupefacto:
— Não estás contente?
— Claro que sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tinha aulas à tarde, foi patinar com uma amiga. Ao cair da noite, dirigiu-se ao supermercado onde a mãe trabalhava. Havia tanto movimento que o lugar mais parecia uma colmeia. A mãe estava sentada numa cadeira giratória, diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegavam-lhe num tapete rolante. Enquanto a mão direita marcava os números no teclado, a mão esquerda rodava as embalagens para que a máquina pudesse ler os códigos. Finda a operação, os produtos eram colocados, um a um, no carrinho de compras. Quando acabava de marcar tudo, a mão direita carregava na tecla do total e rasgava o talão, enquanto a esquerda afastava o carro cheio e puxava o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço e, muitas vezes, carregava nas teclas erradas. Como tinham de esperar, as pessoas resmungavam. Agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
E se tivesse um robô como mãe? Nunca teria dores de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração e, por isso, Neli preferia a mãe tal como era, mesmo quando, em certas noites, quase nem conseguia falar de tão cansada!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam e fechavam, abriam e fechavam. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe, tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Perto dele balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80€/kg.
Os altifalantes debitavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Descafeinado
Papel higiénico de três folhas
O Senhor…
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe suspirava e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando apenas no regresso a casa com os sacos pesados e o eléctrico cheio.
Ufa!
Só mais três dias, e acabaria tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse a mãe, à noite, virando-se para Neli. — Patê em folhas de alface, porco assado, batatas fritas, feijão e, para sobremesa, creme de chocolate de lata com peras.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que tinham sobrado. A mãe de Neli achava que valia a pena e, por isso, tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, e a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, houve um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — alegrou-se o chefe do pessoal, que proferiu mais umas palavras elogiosas.
Depois foram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho a cada um.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. "As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!", pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não voltava a abrir. Chegou a casa de mãos vazias.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me caem bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo "Memory" que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado "Memory". Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente queria ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava alguns truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de forma a que o polegar indicasse a direcção em que estava uma determinada carta. Mas Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangou por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou que, afinal, a mãe estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe, admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
(Tradução e adaptação)


O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar


Exposição "Pratos de Natal"



Exposição "No Mundo dos Super-Heróis" (Identificação das capas de EVT)


Afinal, sempre há lugar na estalagem




E
ra uma noite fria e com muito vento em Nairobi, no Quénia. Os aguaceiros de chuva tropical não paravam de cair desde a tarde. Num enorme bairro de lata perto do nosso hospital da Missão de Santa Maria, nasceu, em segredo, uma menina não desejada, que foi atirada para uma lixeira com um cheiro nauseabundo. Durante toda a noite, esta criança esteve exposta à chuva e ao frio. Na manhã seguinte, umas pessoas do mesmo bairro descobriram-na no meio do lixo e trouxeram-na para o hospital. Vinha roxa e com a pele enrugada devido à chuva. Estava tão fria que o termómetro não conseguiu registar a sua temperatura, e a respiração era bastante fraca.
As enfermeiras do hospital conseguiram trazer esta criança de volta à vida, utilizando garrafas de água quente para a aquecerem com suavidade, oxigénio, glicose e doses ilimitadas de amor. Tiraram-lhe da boca e dos ouvidos insectos que trouxera da lixeira. No dia seguinte, a menina começou a ser alimentada a biberão. Foi-lhe dado o nome de Hazina (que significa "Tesouro" na língua suahili) e, agora, esta robusta criança reside numa enfermaria recém-inaugurada no nosso hospital.
Agradecemos a Deus pela graça que ela representa para todos nós, enquanto Centro Católico de Prestação de Cuidados de Saúde aos Pobres.
Talvez esta criança nos tenha trazido uma mensagem de Natal sobre a qual devemos reflectir. Ao longo da nossa vida, cada um de nós deve corresponder ao amor que nos é oferecido pelos outros. Devemos também experimentar o amor vivificante de Cristo na nossa vida durante esta época especial e deixarmo-nos enriquecer interiormente por ele.

William Fryda



O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar


terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Convite Exposição



Convite





segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Recital de Natal


Livro do Mês - Dezembro 2009 - "As Melhores Amigas São Inseparáveis", Judi Curtin


Feira do Livro na BECRE (7 a 11 de Dezembro)


sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

O primeiro Natal em Portugal


É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe "língua de trapos". Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será "fada"? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.
Para uma fada loura.
com amizade
A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:
OЗНАКА — fada
Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.




Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006


O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

O bolo-rei


O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele era o rei dos bolos.
Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao bolo-inglês:
— Traz-me essa passa de volta.
O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:
— Sorry! I don't understand...
O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não tinha entendido.
Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a mesma ordem. Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa.
O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do excesso de natas.
— Flá, plefe, pflu, pfló...
Não se percebia nada.
O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de amêndoa, que lhe respondeu:
— Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me queixo.
O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que quer que fosse.
— São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos cortados às fatias.
E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.
António torrado





O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

A fuga para o Egipto

O anjo que, invisível, acompanhava a Sagrada Família acabara por adormecer de cansaço. Mas, alta noite, uma viga do telhado rangeu com tanta força que o anjo acordou.
— Acudam! Acudam! — gritou o anjo, estremunhado.
— Que cheiro horrível é este? — E ia já pegar na trombeta de alarme para chamar as hostes dos seus irmãos anjos, mas não foi preciso. O anjo fechou a mão direita, fazendo um óculo e espreitou o horizonte. E viu que aquele mau cheiro vinha dos pensamentos repugnantes do rei Herodes. Saíam-lhe da cabeça em ondas fedorentas, como vapor de uma caldeira de água a ferver. O anjo ficou todo arrepiado e bateu as asas com força para afastar aquele cheiro horrível.
Mas era melhor avisar S. José! O anjo esfregou os olhos ensonados, sacudiu os cabelos e apareceu em sonhos a S. José. Este dormia profundamente, ressonando para as barbas brancas. Nisto, apareceu-lhe aquele Anjo de Prata, que lhe falou assim:
— Foge, José, foge! O rei Herodes quer matar o teu menino e Nosso Senhor!
S. José acordou em sobressalto. Ficou muito tempo de olhos abertos no escuro, depois levantou-se e acendeu a lanterna. A lanterna acendeu-se com a sua luz habitual. Mas quando reparou que S. José a levava para junto de Maria, aumentou um pouco a luz, cheia de respeito e curiosidade, porque até aí só conseguira ver bem Maria na noite de Natal, iluminada pelo esplendor de todos os anjos que a rodeavam.
A lanterna tentava agora dar uma luz igual a essa. Engoliu uma boa quantidade de azeite, aumentou a chama o mais que pôde, mas não conseguiu torná-la maior do que uma abelha.
«O azeite não deve ser bom — pensou a lanterna.
— Ai, eu é que não sou bom!? — respondeu o azeite.
 — A culpa é da torcida!
— Minha? — gritou a torcida.
 — A culpa é da chama!
— Estão muito enganados! — protestou a chama.
 — A culpa é toda da lanterna!»
Enquanto a lanterna discutia assim consigo própria, tentava observar  tudo o que  se passava em  volta. Maria continuava deitada sobre um monte de palha com o menino nos braços.
S. José aproximou-se dela nas pontas dos pés, tocou-lhe ao de leve no ombro e chamou suavemente:
— Maria!
— O que foi, José? — perguntou Maria abrindo os olhos, que brilharam como dois milagres. A lanterna olhou-a extasiada e quase se es­queceu de alumiar.
A senhora Noite, envolta no seu manto de veludo negro, mandou as estrelas estarem quietas, e ficou deslumbrada a ver aqueles olhos maiores do que o céu. Em geral, só costumava ver Maria de olhos fechados, enquanto ela dormia.
— Ouve lá, minha grande sovina — disse a Noite à lanterna. — Não poupes o azeite para eu poder ver melhor Nossa Senhora!
— Se a queres ver melhor, vai buscar a tua tampa de lata!
Mas a Noite só podia mostrar a Lua prateada em noites certas. E então, para ver melhor, abriu o manto e o céu apareceu cheio de estrelas, que começaram a brilhar como milhões de diamantes. O rosto de Nossa Senhora ficou todo iluminado.
— Temos que  fugir! — disse  S.  José. — O rei  Herodes quer matar o nosso menino!
Ao ouvir isto, o pobre estábulo rangeu de dor, em todas as suas vigas. Depois ficou petrificado de horror. Viu S. José ajudar Maria a levantar-se, viu-o atar a trouxa e depois sair, levando a lanterna na mão. E, assim que eles saíram, o estábulo desabou com um ruído surdo, morto de dor.
Lá fora a escuridão era completa. A lanterna ia iluminando mal o caminho, e a senhora Noite acendeu a estrela do Norte. Mesmo assim, Maria teve medo e disse:
— Quem me dera que nascesse o dia.
— É só um momento! — gritou o galo no quintal de um lavrador. E soltou o seu canto de despertar, tão alto como nunca se ouvira.
— Endoideceste? — gritou-lhe a Noite, zangada.
— Ainda não acabei o meu trabalho!
Mas o galo não fez caso e cantou segunda vez, ainda com mais força. O Oriente estoirou em faíscas e raios dourados e, ofegante, o Sol iluminou a Terra. A pobre lanterna apagou-se, envergo­nhada perante o fulgor do Sol.
O Anjo da Guarda continuava a acompanhar, invisível, a Sagrada Família, e de vez em quando espreitava pela mão fechada em óculo, a ver se havia perigo. A Noite despira o seu manto negro, tornando-se invisível.
Estou tão cansada disse Maria a certa altura. Descansemos um pouco.
E sentaram-se num tronco de árvore caído.
— Se ao menos tivéssemos um burrinho! — disse S. José.
E nisto apareceu-lhes em frente um burrinho branco. Não viera de livre vontade, não. Fora preciso o anjo invisível ir puxá-lo, dizendo-lhe palavras meigas ao ouvido, para o convencer.
S. José ajudou Maria e o Menino a subirem para o burro, e continuaram a caminhada. De repente, o anjo que os acompanhava viu ao longe os solda­dos de Herodes. Durante uns momentos voou de um lado para o outro, sem saber que fazer, e então surgiram outros anjos, como um bando de borbo­letas, cada um com o seu nome e tarefa diferente.
— Que havemos de fazer, Anjo da Inspiração? — perguntou o Anjo da Guarda.
— Penso que devemos recorrer aos fabricantes de neve, Guarda de Prata.
Então o Guarda de Prata ergueu-se no ar e soprou na sua trombeta de alarme. E logo os anjos fabricantes de neve desceram do céu, trocaram algumas palavras com o Anjo da Guarda e tornaram a subir para as nuvens. Imediatamente, apareceu no Norte uma nuvem negra e a neve começou a cair em grossos flocos sobre a terra, tapando o rasto da Sagrada Família. Ao chegar  a  uma  encruzilhada, o  comandante  dos soldados de Herodes não sabia por que caminho seguir. Mandou um grupo de soldados para cada lado, e ele seguiu com o seu batalhão pelo caminho certo.
O Anjo da Guarda começou a esvoaçar, muito aflito, perguntando a si próprio: «E agora?» Então, viu uma árvore com o tronco oco, e no alto um ninho de pega.
— Bondosa árvore, socorre-nos — pediu o Guarda de Prata.
Então, um golpe de vento fez a árvore dobrar-se até ao chão. Maria entrou no ninho da pega com o Menino, e o ninho começou a crescer, até que teve lugar para todos, e S. José entrou também.
Quando a Sagrada Família estava instalada como num enorme trono, o anjo disse ao burro:
— Podes entrar, burro. Também há lugar para ti!
Mas o burro respondeu:
— Não quero ficar empoleirado numa árvore como se fosse um pássaro.
Então a árvore voltou a endireitar-se lentamente.
Passados poucos instantes, chegaram os soldados de Herodes.
— Desmontar! — gritou o comandante.
— E inspeccionem bem esta árvore!
O cabo espreitou para o buraco no tronco da árvore, e disse: 
— Não está cá ninguém, só um burro. Mas vejo lá no alto um ninho de pega.
— Um ninho? Não vejo ninho nenhum! — disse o comandante. Depois montou a cavalo e deu ordem de marcha.
Parou de nevar, e o Sol pôs-se a Ocidente.
— Maria — disse S. José apontando um traço azul que se via no horizonte — aquilo é o mar. Amanhã lá encontraremos um barquinho.
Passaram toda a noite no ninho da pega e na madrugada seguinte a árvore inclinou-se outra vez até ao chão, e a Sagrada Família seguiu viagem. Em pouco tempo alcançaram o mar. Lá estava o barquinho a postos, com um barqueiro, que era um anjo disfarçado. Estavam salvos!
O burro, esse recusou-se a entrar no barco, e ficou, à beira da água, a dizer adeus com a cauda, enquanto o barco se afastava a caminho do Egipto.

Felix Timmermanns

Ricardo Alberty; Maria Isabel Mendonça Soares (org.)
O livro de ouro do Natal
Lisboa, Editorial Verbo, 1978





O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Exposição na Biblioteca - Identificação das Capas - Educação Visual e Tecnológica, Professores Vera Matos e José Fava












terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Projecto sobre Segurança na Internet


O projecto SeguraNet é parte integrante do projecto Internet Segura, do programa Europeu Safer Internet Plus.

A DGIDC promove pelo terceiro ano consecutivo as actividades SeguraNet destinadas a professores, Alunos e Encarregados de Educação.

Estas actividades contemplam desafios e concursos que têm por objectivo alertar a comunidade educativa para a relevância das questões relacionadas com a utilização esclarecida, crítica e segura das tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente da Internet.

Podem participar equipas de todas as escolas públicas e privadas.
Mais informações em http://www.seguranet.pt/

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Recepção aos alunos do 5º ano de escolaridade

Visita guiada e oferta de livros do PNL (Plano Nacional de Leitura)







sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Dia Mundial da Alimentação e Dia das Bibliotecas Escolares



Dia Mundial da Alimentação




Actividades do Dia das Bibliotecas Escolares

Um convite para jantar


Convidámos Khalil para jantar. É um amigo nosso, egípcio. Já o tínhamos ajudado quando, há alguns anos, acabava de chegar, com a sua pobreza um pouco assustada, e a sua dignidade e seriedade, que muito nos impressionaram. Na altura, ajudámo-lo a libertar-se dos preconceitos próprios de quem vem de um país pobre, com todas as dificuldades inerentes à cor da pele e ao domínio da língua.
Não quer dizer que tenhamos feito muito pelo Khalil: limitáramo-
-nos a indicar-lhe um pequeno apartamento que poderia alugar, acrescentando: «Se precisares de alguma coisa, estamos à disposição.»

Nunca teve grandes necessidades: só alguns endereços, algumas explicações sobre usos, costumes e leis, uma ou outra ajuda para decifrar certas expressões e umas quantas palavras difíceis, nomeadamente para ultrapassar determinadas complicações burocráticas. Pediu-nos, sobretudo, algum tempo: para estarmos juntos; para passar as tardes de Domingo, para não se sentir demasiado só e perdido.
Nasceu assim uma certa familiaridade entre nós, por isso, às vezes, convidamo-lo para jantar. Isto ajudou-nos a descobrir como é maravilhosa a hospitalidade. De início, também nós sentíamos sobretudo desconfiança e hesitação: talvez um medo indefinível (de quê, afinal?), e principalmente embaraço frente ao seu universo feito de deserto e pobreza, de uma língua desconhecida e de um céu sem nuvens: era tudo isso que estava escrito no rosto escuro de Khalil.
       Porém, mal entrou em nossa casa, ofereceu pistácios aos miúdos e cumprimentou a cozinheira (que neste caso era eu), pelo cheirinho delicioso que vinha da cozinha (Khalil exerce a profissão de cozinheiro), e ficámos com a sensação de que os mundos estranhos existem apenas para se encontrarem. Foi um serão muito divertido, aquela primeira vez em que o recebemos em nossa casa. E, desta vez, convidámo-lo para trocar votos de Bom Natal. Também ele, pobre homem, trazia um presente para nós.
Abriu o seu embrulho sob o olhar curioso das crianças. Deve ter intuído imediatamente a desilusão delas: era um ícone – um ícone barato, mas bem feito. Representava a SS. Trindade, com os três anjos sentados à mesa. Contudo, graças ao seu sotaque estrangeiro fascinante e à argúcia que o caracteriza, conseguiu manter-nos a todos encantados, enquanto explicava o seu significado.
Explicou-o mais ou menos assim:
Khalil: «Digam lá, o que representa este ícone?»
Stefano: «São três anjos.»
Khalil: «E o que estão a fazer?»
Stefano: «Nada, estão sentados.»
Marco: «Estão sentados a beber: há um cálice; e o deserto a toda a volta.»
Laura: «Não, estão a tomar uma decisão difícil. Estão a olhar uns para os outros; até parecem um pouco tristes e preocupados!»
Khalil: «Tristes? Estão envoltos em luz, em paz...»
Laura: «Estão mas é tristes! Olha para a cara deles.»
Khalil: «E porque estarão tristes?»
Stefano: «Talvez estejam à espera de alguém que nunca mais chega!»
Laura: «Não, têm de tomar alguma decisão difícil.»
Marco: «Que disparate! Nunca ouvi falar de anjos tristes!»
Laura: «Não percebes nada. Os anjos estão tristes porque os homens são maus.»
Khalil: «Talvez Stefano tenha razão; estão à espera de alguém, e sentem-se preocupados porque nunca mais chega. Esperam alguém para começar o banquete. Quem poderá ser?»
Marco: «Estão à espera de que lhes sirvam o almoço. Na mesa há apenas uma taça. Talvez esperem o dono da casa, que foi buscar o pão e a carne.»
Stefano: «Não, não têm fome. Nem sequer têm tempo para comer: têm na mão um cajado para a viagem; em breve terão de partir.»
Laura: «Talvez esperem um amigo para partir juntos...»
Khalil: «E quem é esse amigo?»
Marco: «Como poderemos saber?»
Khalil: «Quero revelar-vos o meu segredo: estas três personagens esperam um amigo, sim. E esse amigo, reparem bem, sou precisamente eu, que estou a olhar para eles. Aqui à frente há um lugar vazio, para alguém se sentar. Foi preparado para mim. Eu, Khalil, sou estrangeiro nesta terra, mas vocês convidaram-me para jantar. Por isso me senti como um amigo esperado: prepararam-me um lugar à mesa. Por isso já não sou estrangeiro, e os três anjos são vocês: Marco, Laura, Stefano.»
Marco: «Mas nós não somos anjos: às vezes o Stefano só faz diabruras, e a Laura é uma bruxa.»
Laura: «Olha quem fala! Então e tu?»
Khalil: «Vocês de facto não são nenhuns anjos, mas quando acolhem um amigo e tratam com respeito um estrangeiro que vos visita, assemelham-se aos anjos de Deus, ou antes, assemelham-se a Deus. Quem sabe? Talvez estes três não sejam anjos, mas as três personagens que Abraão convidou a deter-se sob o carvalho, e que representam o Pai, o Filho e o Espírito Santo.»
Laura: «Quero pôr este ícone no meu quarto.»
Marco: «Não, este ícone vai ficar aqui, na sala de jantar, onde acolhemos os amigos.»
Stefano: «Sim, sim, na sala de jantar.»
Khalil: «Eu também penso que talvez seja preferível na sala de jantar; de cada vez que nos sentarmos à mesa, poderemos pensar, olhando o ícone: eis que eu sou como o amigo esperado pelos anjos, sou como o hóspede de Deus.»
Entretanto, o jantar estava pronto e tive de interromper a explicação: as crianças lutavam entre si para ficarem ao lado de Khalil, para ouvirem as suas histórias e rirem com o seu sotaque incorrecto. Ele sorria com os seus belos dentes brancos e os seus olhos marotos.
Ao acolhermos um hóspede vindo do Egipto, foi-nos concedida a alegria de nos imaginarmos no deserto, como hóspedes de Deus. Parecia-me inacreditável poder pôr tâmaras em cima da mesa.



Para  um  exercício  de  delicadeza

Hoje o Carlo disse-me: «És mesmo estúpida!» Bem sei que foi uma expressão de irritação que lhe escapou: devia estar cansado do trabalho, ou qualquer coisa lhe correu mal. É verdade que eu não esperava que ele ficasse contente quando lhe disse que tinha riscado o carro ao entrar na garagem. No entanto, aquela palavra disparatada que lhe saiu da boca magoou-me muito.
Recordo-me de quando o Carlo estava apaixonado por mim – e ainda não foi há tantos anos como isso — quanta delicadeza, quantas atenções para me ver feliz; como ele era simpático. Não passava dia nenhum sem uma lembrança, uma palavra amável, a proposta de um daqueles momentos inesquecíveis em que estávamos juntos e com que depois sonhávamos durante vários dias. E que cuidado para evitar palavras grosseiras, que desvelo em pedir desculpa por cada mal--entendido, que prontidão em perdoar e em compreender todas as minhas distracções! Tenho saudades dessas delicadezas do Carlo apaixonado.
No entanto, interrogo-me: como é possível que, depois de tanta delicadeza, se possa chegar à grosseria que faz sofrer, sem sequer se dar por isso?
A grosseria é um estilo que se tem vindo a difundir e ao qual talvez nós não tenhamos oposto resistência suficiente. Se mal se liga a televisão nos despejam para dentro de casa um chorrilho de palavras vulgares,  insultos  ofensivos,  cenas de maldade e de violência  desconcertantes; se ao longo das ruas da cidade vemos sinais de degradação e de má educação... Basta um nada, a mínima falta de atenção, para desencadear num transeunte desconhecido uma explosão de susceptibilidade…
Tão assediados por coisas deste género, acabamos, muitas vezes, por nos render.
Insistíamos com as crianças para que não dissessem palavrões, e eis que o calão vulgar entrou também nos nossos discursos. Tínhamos cultivado um certo estilo de seriedade e de boa educação: e eis que, de há um tempo para cá, nos temos deixado levar por reacções de má educação.
Em suma, vemos como as pessoas se habituam a tudo e que aquilo que outrora nos escandalizava se tornou normal, deixando-nos indiferentes. Até o pequeno Stefano pensa às vezes ter graça com palavras que aprendeu sabe-se lá onde: e os seus irmãos mais velhos desatam a rir, como se fosse um grande feito!
Contudo, não quero resignar-me. A grosseria é uma forma de superficialidade, é um sintoma de rendição, revela um grau medíocre de inteligência e interioridade. Parece-me que um certo hábito de recolhimento, de silêncio e até de oração, provocará imediata aversão pela grosseria, tornando desejável a delicadeza.
Quem sabe se eu própria não conseguirei transmitir aos meus a importância da atenção e da delicadeza!
Mas o que fazer?
Gostaria de começar por escrever uma carta: há quanto tempo não escrevo ao Carlo? Parece que o hábito de vivermos juntos esgotou o que há para dizer. Durante o noivado, o tempo nunca chegava, as páginas das cartas nunca conseguiam dizer tudo aquilo que sentíamos. Agora custa-me encontrar palavras para o postal de parabéns e acho cómodo delegar na Laura essa função.
Mas há duas linhas que quero escrever-lhe, e é precisamente a propósito da delicadeza.
Atrever-me-ei ainda a propor uma oração. Quantas graças e alegrias temos recebido através da oração feita em conjunto! Momentos inesquecíveis da nossa vida em comum.
Eis o que faremos: colocaremos na mesa o belo ícone oferecido por Khalil, acenderemos uma vela e eu farei esta oração:
Senhor, nós Te agradecemos por nos reunires em oração
na Tua presença, em nossa casa:
a nossa casa fica mais sólida,
a nossa família mais unida,
quando estamos na Tua presença.
Tu estás sempre presente,
acompanhas-nos com a Tua mão amiga e omnipotente,
mas nós somos tão distraídos e pensamos tão pouco nisso!
Esquecemos tantas vezes
que Tu nos convidas a viver contigo,
na paz, no esplendor da Tua beleza,
na consolação da Tua amizade.
A graça da oração infunde luz na nossa mente
e passamos a compreender-nos melhor,
a nós próprios e aos outros;
a graça da oração dispõe
os nossos corações para a bondade,
tornando-nos mais benévolos e pacientes;
a graça da oração infunde delicadeza
nas palavras e nos gestos,
e temos mais cuidado em dar alegria
e paz àqueles que amamos.
Concede-nos
a graça da oração;
dá-nos o ânimo de Jesus, o Filho de Deus,
para vivermos sempre em comunhão com Deus
e dar-Lhe glória
através de cada pensamento, palavra e obra.
Amen.

Quem sabe se Carlo e os nossos filhos não apreenderão nestas palavras as minhas intuições e se aperceberão das minhas queixas?
Estou certa, de qualquer modo, que delas se aperceberá o Senhor, e não deixará de me escutar.


Carlo Maria Martini
Uma bela família
Lisboa, Edições Paulinas, 1999
(Texto adaptado)



O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

A mais bela mesquita


 
Os cidadãos de Córdova viviam na cidade mais bonita do mundo e sentiam-se muito orgulhosos da Grande Mesquita, que ficava situada no centro da cidade. Não só era uma mesquita maravilhosa, como estava rodeada por jardins magníficos, cheios de laranjeiras perfumadas, fontes espumosas e flores de todas as cores. Os habitantes de Córdova costumavam sentar-se no jardim e pensar que estavam no Paraíso.
O único problema eram três jovens travessos: Rashid, que era muçulmano; Samuel, que era judeu; e Miguel, que era cristão.
Entravam e saíam das fontes; saltavam por cima dos canteiros; escondiam-se nos jardins e atiravam laranjas maduras a quem quer que vissem.
Os jardineiros, Ibrahim e Yacoub, tentavam apanhá-los, mas os três amigos eram demasiado rápidos para eles.
Um dia, os rapazes estavam a atirar laranjas às pessoas, à medida que estas saíam da mesquita. Uma laranja particularmente podre caiu aos pés de um homem ricamente vestido.
— Estamos em apuros! — exclamou Rashid. — É o califa em pessoa! Fujamos!
Os três rapazes tentaram fugir, mas os soldados do califa apanharam-nos e levaram-nos à presença deste. 
— Finalmente, foram apanhados pelos próprios soldados do califa! — rejubilou o jardineiro Ibrahim.
Yacoub esfregou as mãos. 
— Agora é que são elas! Vão apanhar pelo menos dez chicotadas!
O califa interrogou-os:
— Com que então, meninos, a atirarem laranjas ao vosso califa?
— Não sabíamos que éreis vós, Senhor — murmurou Rashid.
— Tendes feito isto com frequência? — perguntou o governante com severidade.
Os rapazes olharam para o chão com tristeza e acenaram com a cabeça.
— Todos os dias, saiba Vossa Magnificência — exclamaram os jardineiros. — Estes rapazes são a nossa desgraça.
— Bem — disse o califa, tentando não sorrir — vejo que tereis de ser severamente punidos. Condeno-vos a trabalharam nestes jardins todos os dias, durante três meses.
E os rapazes assim fizeram. Durante três meses, plantaram, arrancaram ervas daninhas, regaram as flores e apararam os arbustos dos jardins. Yacoub e Ibrahim fizeram-nos trabalhar sem descanso.
Depois do trabalho, os três amigos, cansados e cheios de calor, passeavam pela mesquita fresca.
— Nunca vi um edifício tão belo — sussurrou Miguel. — É muito mais grandioso do que a nossa igreja.
— Ou que a minha sinagoga — acrescentou Samuel. — Maravilhoso, sem dúvida.
— A nossa mesquita é verdadeiramente a casa de Deus — alegrou-se Rashid.
À medida que foram crescendo, os três amigos deixaram de se ver com tanta frequência.
Rashid estudou Medicina e tornou-se um médico famoso.
Samuel viajou por toda a parte como mercador, negociando em especiarias e seda. Anotou todas as suas impressões de viagem num diário e escreveu poemas de rara beleza.
Miguel herdou a quinta do pai. Tornou-se um grande proprietário de terras e era conhecido pela sua bondade e pelas canções alegres que entoava.
O califa envelheceu e os seus inimigos começaram a atacar Córdova por todos os lados. Acabou por ser derrotado numa grande batalha pelo rei cristão Fernando.
Miguel, que era agora o homem mais importante de Córdova, foi saudar o novo rei.
— Don Miguel — exclamou o rei — levai-me à Grande Mesquita, da qual muito ouvi falar.
— Com prazer, Senhor — respondeu Miguel. — É fonte de orgulho e alegria para todos os habitantes de Córdova, tanto muçulmanos como judeus.
O rei contemplou a mesquita.
— É de facto magnífica — concordou.
Depois suspirou.
— Mas esta vai ser uma cidade cristã e vamos construir uma grande catedral neste lugar. A mesquita tem de ser derrubada.
Nessa mesma noite, Miguel convidou Samuel e Rashid para jantar.
— Meus caros amigos, tenho notícias péssimas. O rei planeia derrubar a nossa adorada mesquita.
— E os nossos jardins maravilhosos? — indagaram Samuel e Rashid.
— Também vão ser destruídos.
— O que podemos fazer? — perguntou Rashid, com a cabeça entre as mãos.
— Temos de falar os três com o rei e dizer-lhe quão preciosa é a mesquita para todos em Córdova.
No dia seguinte, os habitantes da cidade encheram a praça para ver o rei.
— Estou aqui — anunciou Miguel — em nome de todos os cristãos de Córdova, para pedir ao rei que poupe a nossa mesquita.
Todos aplaudiram.
— E  eu estou  aqui  em  nome  de todos os judeus de Córdova — disse Samuel.
— É verdade! — aplaudiu a multidão.
— E eu, senhor, falo em nome de todos os cidadãos muçulmanos. Poupai a nossa mesquita!
Todos aplaudiram ainda com mais força.
O rei comentou:
— Vejo que as três comunidades pedem o mesmo e que não terei aliados se derrubar a mesquita.
Depois de pensar por um momento, o rei anunciou:
— Construirei uma igreja numa pequena parte da mesquita, mas o resto do edifício e dos jardins ficarão a pertencer a todos os habitantes de Córdova.
Depois de pensar por um momento, o rei anunciou:
— Construirei uma igreja numa pequena parte da mesquita, mas o resto do edifício e dos jardins ficarão a pertencer a todos os habitantes de Córdova.
Os aplausos da multidão encheram a praça.
E assim a Grande Mesquita foi poupada para que gerações futuras a admirassem e dela usufruíssem. Ainda hoje se mantém intacta, e tem milhões de visitantes por ano. Muitos se sentam nos seus jardins e desfrutam da sombra e do perfume das árvores. Alguns afirmam mesmo ter visto os fantasmas de três rapazes malandros a entrar e a sair das suas fontes.



Ann Jungman
The most magnificent mosque
London, Frances Lincoln, 2006
Tradução e adaptação





O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

Livro do Mês - Novembro 2009

     Em Novembro, o Livro do Mês é Filhos de Montepó, de António Mota. 
   Leiam, participem nas actividades do Clube de Leitura e poderão ganhar prémios.
  
   Boas leituras!

   A Profª Bibliotecária
   Fátima Veríssimo

 

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A cerejeira da lua



A Lua fita-nos quando a fitamos? Não. Nunca. Se a chamarmos, deste canto da Terra, a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida. Presunçosa.
Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível. Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. Satélites zumbem à sua volta. Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos, rugas e verrugas.
A Lua é a nossa vizinha defronte. E, ao perto, nada bonita, por sinal.
Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo.
Aliás, pouco importa. Ela que nos ignore. Que dirija a atenção para a distância azul da noite. Que recorde outros tempos, antigas glórias. Que sonhe. Deixem-na sonhar.
Entre muitas evocações mimosas, a Lua sonha com o imperador Meng Uóng, que dela se enamorou. Onde isso vai.

Numa das varandas do palácio imperial, ornamentada de gaiolas de ouro, Meng Uóng, tocado pela tristeza do crepúsculo, dá de comer às cotovias.
O sábio Tien-O-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. Foi seu aio, depois seu mestre.
Introduziu-o no segredo dos cultos, interpretou, um por um, para ilustração do jovem imperador, todos os conselhos do livro dos veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo.
Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar à roda do imperador. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite.
Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim. Tocada por um raio do luar parece de prata.

Isto mesmo diz o imperador, pensativo, enquanto acompanha o devanear da pena que, depois, se perde por entre a ramagem dos sicómoros.
– Tudo à nossa volta aspira à perfeição – comenta o sábio Tien-o-Tzê.
O imperador suspira:
– Até uma pena de cotovia...
– Até uma pena de cotovia – repete o sábio.
– Não será um sinal, um aviso da Lua? – pergunta o imperador, subitamente ansioso.
O sábio permite-se sorrir.
– Se Vossa Majestade assim o quer, será – diz, cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura.
Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. Suspensas, rente ao chão, as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. A relva, as ramagens baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. Parece que caminham sobre nuvens.
Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador, logo acrescenta mais esta fala:
– Um vosso antepassado, o erudito e judicioso imperador La-Long, escreveu na base de uma estatueta de jade, que representava um monge de pálpebras descidas, um luminoso pensamento: O inatingível está à tua mercê. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos.
Proferidas estas palavras graves, o sábio Tien-o-Tzê, apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão, suspende os passos. Fecha os olhos.
Encara-o, surpreendido o imperador.
– Estás a desejar alguma coisa? – pergunta.
O sábio abre os olhos:
– Os meus desejos são os vossos, Majestade. Procurava apenas adivinhá-los.
– E descobriste-os?
Tien-O-Tzê, em resposta, ergue o bordão e aponta-o à Lua, redonda e enorme, que subia ao céu, logo por trás dos últimos sicómoros do jardim.
– Tens razão, genial amigo – exclama, entusiasmado, o imperador. – Quero ir à Lua.
– Pois irá – proclama o sábio. – Segure, Vossa Majestade, o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida... Cerre os olhos.
O imperador, habituado a confiar no mestre, corresponde ao mandado.
– Este bordão, que ambos seguramos, há-de levar-nos à Lua –brada, num acesso de inesperada força, o sábio ou mago Tien-O-Tzê. – Não abra os olhos, Majestade, que eu vou lançar o bordão ao céu.
O imperador Meng Uóng, de pálpebras apertadas, sente, num arrepio, que os pés, calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas, se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço.
– Não abra os olhos, Majestade – torna a recomendar-lhe Tien-O-Tzê.
A voz dele ressoa em eco, repercutida por toda a abóbada celeste:
– Não abra… não abra… não abra os olhos, Majestade…
Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta.
Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. É insuportável. Manter os olhos fechados, agora, não custa. Mais custaria abri-los.
O vento pacifica-se em aragem. O frio em amenidade.

Aos ouvidos do jovem imperador soam, primeiro indistintamente depois mais nítidos, os acordes de guitarras e vozes femininas, numa fresca melopeia de boas-vindas. De súbito, os pés encontram chão.
– Pode abrir os olhos, Majestade – comanda o sábio numa entoação de riso.
Ah! eis a Lua! A seu lado, Tien-O-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar, fofo e macio, que dá a cada passo uma cadência de dança.
Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes, vestidas com túnicas de cores celestes, têm um andar precioso de dançarinas rituais. Agitam leques, cantam e riem como sinos de porcelana.
– Para onde nos levam? – pergunta, aturdido, o imperador, que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro.
Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes.
Levados pelo redemoinho da festa, o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado. Sobem agora uma escadaria de marfim onde, no alto, luminosa, os espera...
– Seong-Ngó, a castelã da Lua – exclama Tien-O-Tzê, reconhecendo-a ao primeiro relance.

O sábio não errara. Seong-Ngó reina sobre as selenitas. Ela, que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo, Hau-Ngai, se exilara no palácio do Sol, ora toma a configuração de uma rã de três pernas, ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal.
Felizmente que, para receber as visitas, não apareceu sob a forma de batráquio, o que seria deselegante. Sentada num trono de coral, rodeada de fadas dançarinas, Seong-Ngó não profere uma única palavra, mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar.
Com um gesto insinuante, rodopiando o leque, Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima onde o coelho de jade, diante do almofariz, prepara incansavelmente o remédio contra todos os males. É o elixir da imortalidade. A guardiã da Lua parece dizer: "Querem provar? Apressem-se..."
Sábio e imperador descem, em corrida, a escadaria e precipitam-se para a colina. Esquecidos das regras de reverência, nem agradeceram a generosidade do convite.
Antes de alcançarem o coelho, na sua oficina de alquimista, têm de passar por um desfiladeiro obscuro. Cessaram os cânticos de saudação. Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz, no seu refúgio.
Logo em seguida um rugido e, após este, outro e outro ainda, todos assustadores. Um tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro. Revira os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes.
– Fujamos – grita, apavorado, o imperador Meng Uóng. – O teu bordão, onde o deixaste?
– Longe – responde-lhe o sábio, que já corre à frente do príncipe.
Tien-O-tzê, pela primeira e única vez na vida olvidou, naquele transe, as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria.
Os pés afundam-se no musgo como na neve, o que lhes prejudica o despacho da corrida. Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável...
– Feche os olhos, Majestade. O sonho mau vai passar.
À voz entrecortada do sábio responde o imperador, aflito:
– E aonde me agarro desta vez?
O sábio, sem parar de correr, grita num assomo de impaciência:
– Agarre-se à minha mão – enquanto lha estende. – Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra.
– Aguentará o nosso peso? – teme o imperador.
O sábio repete, soluçando de cansaço, a máxima de La-Long:
– Queres… que os teus desejos… aconteçam? Fecha… os olhos. Acredite… acredite, Majestade!
Mas o imperador duvida:
– E o tigre? O tigre não virá atrás de nós?
– O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos – exaspera-se Tien-O-Tzê. – O tigre tem medo de cair. Nós não!
De olhos fechados, escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.
Assim, sem sobressalto, chegam ao jardim imperial. A Lua escondeu-se. Os archotes da varanda ardem, inúteis, à luz da madrugada.

Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde evocando as melodias que ouviu das selenitas. E entusiasmado pelos bailados e cânticos das fadas lunares criou uma escola, num pavilhão, no meio de um pomar de pereiras. Aí, os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua.
Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome de lei-un-tchi-tâl, "discípulos do pomar das pêras", como são designados os seus actores.
Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-O-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua, conta a lenda que ganhou ramos, folhas, flores...
Quem quiser ver a cerejeira, que olhe para a lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar, segundo o calendário chinês.
Se não conseguir ver, feche os olhos. No espelho da imaginação tudo acontece como queremos…




António Torrado
A cerejeira da Lua
Instituto Cultural de Macau, Editorial Pública, Lda, 1990





O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

Uma algazarra (ideia) original...

video

 Ideia original...

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Dia Internacional das Bibliotecas Escolares



Desde o ano passado que se comemora o Mês Internacional da Biblioteca Escolar por decisão da IASL em Dezembro de 2007.
Neste mês as bibliotecas escolares têm por norma organizar um conjunto de actividades, envolvendo toda a escola e a comunidade em que esta se insere, de modo a torná-las mais conhecidas e a motivar toda a comunidade escolar para a sua utilização.
As equipas devem usar todos os meios ao seu alcance para fazerem a divulgação da biblioteca: a internet (sítio, blogue, facebook, twitter, listas de difusão, recursos disponibilizados pela IASL, etc.), os média locais, o trabalho em parceria com outras instituições, o convite a personalidades, a utilização de espaços fora da biblioteca na escola ou fora da escola, etc..
Os portais das Redes de Bibliotecas Concelhias devem ser a interface de eleição para a divulgação das actividades realizadas nas respectivas escolas e o rosto das realizações em parceria programadas para este mês/dia.
A Rede de Bibliotecas Escolares decidiu, por sua vez, que a última segunda feira do mês de Outubro seria o dia em que as actividades a realizar encontrariam a sua principal expressão. O dia 26 de Outubro será, por excelência, o dia das bibliotecas escolares em Portugal.






sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Os pequenos acrobatas do rio



Na aldeia de Sakata, os meninos brincam à volta da árvore. Mas isso não os impede de estarem atentos a qualquer pequeno ruído que venha do Congo, o grande rio que corre perto dali. Estão à espera de que o barco passe.
— Ei! Olha o barco! Já lá vem o barco-correio!
Para Kembo é um dia importante. Quando o barco que transporta tantas mercadorias maravilhosas abrandar a velocidade, ele vai aproximar-se e pôr as mãos no casco. Até há-de subir a bordo. A manobra é arriscada, mas Kembo está decidido.
— Mido, Eloni, vamos! Temos de ser os primeiros a acostar!
Enquanto Mido e Eloni pegam nos remos do pangaio, Kembo grita:
— Cuidado! A piroga vai meter água! Olhem que tem um buraco à frente!
Kembo tapa o buraco com um pouco de barro.
— Agora podemos ir. A minha mãe quer que lhe traga sabão e uma t-shirt.
As folhas dos nenúfares agitam-se à passagem deles. Escondido debaixo da umbela de um cogumelo, um sapo está quase a apanhar um insecto. Que sossego! Mas, de repente, o sapo esconde-se, e os pássaros levantam voo com grande alarido. O que terá causado toda aquela agitação, pregando um susto de morte às crianças? A serpente negra que assombra o rio. Ela acaba de escapulir-se por entre as ervas altas. Kembo começa então a entoar a canção de Sakata, a Nossa Aldeia, uma canção que dá coragem.

No rio agitado, eh! eh!
É preciso remar com força, eh!
No rio agitado
É preciso remar com força.

Ao longe, outras crianças pescadoras retomam o refrão. Kembo e os amigos voltam a subir a corrente com mais vigor. Em breve,  a piroga sai das águas calmas da floresta e entra nas do rio. No sítio em que os dois braços de água se encontram, as ondas fervilham, formam um turbilhão. Mido e Eloni gritam:
— Kembo, temos medo! Vamos voltar para trás!
— Nem pensar — diz Kembo. — Não vamos desistir!
Um vento forte arrasta a piroga. O pânico apodera-se dos amigos de Kembo. Mas Kembo sabe desviar-se dos perigos, ultrapassar as armadilhas da água, e diz:
— Quietos! Nada de fazer força. Temos de nos deixar levar pela corrente.
A piroga é sacudida por todos os lados. E depois, de repente, ei-la que sai do turbilhão.
Kembo e os amigos esperam com impaciência a aproximação do barco, que abranda mas não pára.
Os passageiros olham para as crianças, admirados. Alguns gritam:
— Afastai-vos! Os redemoinhos são perigosos!
À primeira onda, a piroga sobe até à crista. Os passageiros do barco ficam embasbacados perante a destreza de Kembo e dos amigos, que, certos do sucesso da sua proeza, cantam com toda a força.
Da margem, os pais seguem o espectáculo.
— Oh! Que habilidade! Que acrobatas corajosos! Será que vão conseguir encostar o barco? Eu nem quero ver!
Alguns pais gritam, manifestando o seu medo.
— Os nossos filhos trazem os amuletos, consigo ver daqui as fitas vermelhas!
Os rapazes não conseguiram a acostagem. O choque contra o flanco do barco foi duro e a emoção forte quando as crianças ouviram rebentar o pedaço de barro que tapava o buraco da piroga. Mas Kembo e os amigos mantiveram o sangue-frio.
— Depressa, a outra piroga! — grita Kembo.
A outra piroga pertence, seguramente, a um pescador que já entrou no barco-correio.
Kembo salta para dentro, pega numa amarra e atira-a para as mãos que se agitam acima dele. De repente, a corda estica.
— Consegui! — grita Kembo, que já está a bordo.
Mas Eloni e Mido têm menos sorte, a piroga volta-se e ei-los na água. Falharam.
A bordo do barco-correio era um autêntico mercado. Vendia-se lá de tudo. Vê-se uma coisa amarela e preta a brilhar na penumbra. Será um brinquedo? Kembo aproxima--se. O produto à venda é uma jibóia.
— Nioka! Nioka! (Serpente! Serpente!) — grita Kembo, cheio de medo. E foge a correr.
Cheira muito bem debaixo do tejadilho de madeira. Os passageiros saboreiam  mandioca que as mulheres acabam de fritar em óleo de palma. Fazem-se trocas e conversa-se.
Os habitantes ribeirinhos acabam de acostar, trazem peixe e banana para fritar. Mas Kembo não pode atrasar-se, tem compras a fazer.
Kembo escapa-se por entre as mercadorias. Chega diante da exposição de conservas, de vestidos e de tangas, onde, finalmente encontra o que procurava. Enquanto espera que o sabão e a t-shirt sejam embrulhados, Kembo vê, ao fundo do barco, um carro carregado de caixotes.
São medicamentos para um hospital da Cruz-Vermelha, explica o comerciante.
— Pega! Aqui estão as compras para a tua mãe!
A sirene apitou. Rápido, rápido! Temos de sair depressa, que o barco vai ganhar velocidade! Kembo esconde o embrulhinho com segurança dentro do calção e, splash!, mergulha. Nada como um peixe até chegar junto de Eloni e Mido, que estão na água.
O barco afasta-se. Baloiçados pelo turbilhão dos remoinhos, os rapazes disputam entre si a piroga virada, tentando alcançá-la com agilidade. Mido e Eloni estão desiludidos. Mas não passa de uma oportunidade perdida. Da próxima vez que o barco-mercado passar, subirão a bordo com Kembo. Dessa vez, é certo que vão conseguir.





Dominique Mwankumi
Les petits acrobates du fleuve
Paris, l'école des loisirs, 2000


O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

26 de Outubro de 2009 - Dia Internacional das Bibliotecas Escolares





quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Livro do Mês - Outubro 2009 - "O Diário de Anne Frank"


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Newsletter País Positivo - Edição 10







10/10/2009
Índice de confiança sobe em Setembro
ECONOMIA & FINANÇAS
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E porque nem tudo são más notícias e é de um país mais positivo que queremos falar, destaque para o avanço da notícia de hoje da agência financeira que realça uma subida de 0,4 por cento do índice de confiança dos portugueses relativamente a Julho.
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Estudo revela que emissões mundiais de CO2 poderão cair 3 por cento em 2009
AMBIENTE
As emissões mundiais de CO2, uma das principais causas do aquecimento global, poderão cair 3 por cento em 2009 em consequência da crise económica, segundo um estudo divulgado hoje pela Agência Internacional da Energia (AIE).
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Dupla portuguesa de ilusionismo vence Campeonato em França
ARTE & CULTURA
Imagem vazia padrãoO duo de mágicos portugueses Tá na Manga conquistou o primeiro prémio de Magia Geral no 43º Congresso da Federação Francesa de Artistas Prestidigitadores/Campeonato de Magia de França, informou hoje a Associação Portuguesa de Ilusionismo.
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Palácio do Freixo, no Porto, reabre sexta-feira como Pousada
DESTAQUE

Imagem vazia padrãoO histórico Palácio do Freixo, abre sexta-feira ao público como a primeira Pousada de Portugal na cidade do Porto, após um investimento de 15 milhões de euros.
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Legislativas e Autárquicas 2009 – Quem é Quem?
NÃO PERCA
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Lançamento: Dezembro de 2009;
Veículo de distribuição: Jornal Público (suplemento gratuíto);

Nota:
75.000 exemplares, 3ª Edição – Grande Formato a Cores








Flor de Água




Havia outrora, na região vietnamita de Anam, um belo porto onde as embarcações vinham abrigar-se após as longas travessias do Mar da China.
Numa das ruelas do porto, situava-se a modesta loja de uma família de artesãos, na qual estes confeccionavam lampiões multicolores há já muitas gerações.
Nela viviam o jovem Oceano, a sua mulher, Reflexo da Lua, e a mãe desta, Dona Ameixa. Viviam os três em harmonia e apenas uma nuvem toldava o céu da sua felicidade.
Casados há bastante tempo, o jovem casal sonhava com um bebé de quem cuidar. E Dona Ameixa ansiava por conhecer as alegrias de ser avó. Porém, a criança tardava…
A afeição desta humilde gente recaía, então, num pássaro cor de fuligem, um animal quase mágico. Chamava-se Glu-Glu, porque imitava com perfeição o gorgolejar de Oceano quando este lavava os dentes.
Quando lhe apetecia, Glu-Glu falava. Ou seja, repetia palavras e ruídos que ouvia em seu redor. E diga-se de passagem que conhecia algumas palavras bastante desagradáveis: "Estúpida!", "Palerma!", "Gordo!" e "Cocó!"
Certa manhã, Reflexo de Lua pôs ao ombro uma canga carregada de lampiões que ia vender no mercado da aldeia vizinha. Glu-Glu, que gostava de passear, acompanhou-a, repetindo as suas palavras favoritas sempre que cruzava alguém na estrada. Todos se riam.
Durante a sua caminhada, Reflexo de Lua olhava as jovens mães com pena. À saída do porto, parou diante de um pequeno altar, dedicado a Quan Âm, a Deusa Celeste. Com pauzinhos de incenso entre as mãos unidas, murmurou esta oração: "Suplico-te, Deusa Celeste, concede-nos a alegria de acolher uma criança no nosso lar!" Enquanto murmurava estas palavras, o incenso ascendia ao céu em espirais perfumadas…
No mercado, havia muita gente. Os lampiões de Reflexo de Lua vendiam-se bem. Glu-Glu fazia o seu número e a bolsa da dona enchia-se depressa.
A dois passos de ali, dois malfeitores planeavam um golpe, sentados num banco da vendedeira de chá verde.
— Já viste a massa que ela juntou? E o que podemos ganhar com aquele pássaro esperto? — dizia um.
— Vamos preparar-lhe uma bela surpresa — sugeriu o outro.
Quando Reflexo de Lua empreendeu o caminho de regresso a casa, já a lua estendia o seu leque de lantejoulas sobre o mar.
— Vamos depressa! — disse a Glu-Glu, que repetiu "Vamos depressa, palerma!"
No meio do caminho deserto, duas sombras precipitaram-se sobre a mulher e atiraram-na ao chão. Um dos homens roubou-lhe a bolsa, enquanto o outro enfiava o pássaro num saco de juta. Uma voz metálica ergueu-se do fundo do saco bradando "Seu cocó!"
Os dois ladrões desapareceram na noite. Reflexo de Lua levantou-se e viu a gaiola vazia.
— Esperem! Levem ao menos a gaiola! O pássaro vai sentir-se mal dentro do saco!
Mas os bandidos fizeram ouvidos de mercador e mesmo a voz metálica de Glu-Glu deixou de ouvir-se.
A vida continuou o seu ritmo na loja. Oceano e Dona Ameixa ficaram felizes por ver que Reflexo de Lua não tinha sido ferida, mas a loja estava demasiado calma sem o incessante palrar de Glu-Glu…
Algumas semanas mais tarde, Oceano e Reflexo de Lua viajaram até à velha cidade imperial, Hué. Junto do Rio dos Perfumes, ficava o pagode da Deusa Celeste, que operava grandes milagres. Quem sabe se lhes concederia o desejo de um filho…
Enquanto isto, numa velha casa arruinada, no meio dos arrozais, os dois malfeitores estavam exasperados com o pássaro e gritavam insultos um ao outro, que Glu-Glu se encarregava de repetir, o que aumentava ainda mais a confusão.

Depois de uma viagem de vários dias, o jovem casal, envolto numa nuvem de incenso, pôde enfim suplicar:
— Deusa cheia de bondade, concede-nos a felicidade de acolher uma criança na nossa humilde casa.
E a Deusa pareceu sorrir para eles…
Deixaram o pagode, cheios da esperança que o sorriso da Deusa lhes transmitira. No caminho de regresso a casa, ouviram uma voz familiar que dizia:
— Cabeça de burro! Estúpido! Palerma! Gordo!
As exclamações vinham de dentro de uma loja de pássaros. Um velho barbudo gesticulava e ameaçava a ave:
— Ou te calas ou prego-te o bico!
O casal aproximou-se e Glu-Glu, cheio de alegria porque os reconhecera, saltou no poleiro.
Ao ver que o casal se interessava pelo pássaro, o velho exclamou:
— Como ele parece gostar de vós, levai-o convosco. É um favor que me fazeis…
O vendedor abriu a gaiola e deu o animal a Oceano. Tinha-o comprado a dois meliantes que tinham pressa em desembaraçar-se dele. Como os compreendia agora!
Os esposos agradeceram e libertaram Glu-Glu, que lhes fez uma festa.
Alguns meses após a peregrinação ao santuário, o ventre de Reflexo de Lua ficou redondinho como um lampião. O marido e a mãe cumularam-na de atenções. Até o pássaro se calava sempre que percebia que ela precisava de repousar.
Quando caiu a chuva das primeiras monções, nasceu uma menina na loja dos lampiões. A Dona Ameixa coube a honra de escolher um nome para a criança.
— Esta criança foi-nos dada pelo céu como se fosse uma flor das monções. Chamar-lhe-emos Flor de Água. Louvemos a Deusa Celeste pela sua infinita bondade!
— Flor de Água! Flor de Água! — repetiu Glu-Glu, encantado.
E desde esse dia que todos viveram felizes no meio dos lampiões e das lanternas.


Marcelino Truong
Fleur d'eau
Paris, Gautier-Languereau, 2003
(Tradução e adaptação)




O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar


Os saris da minha mãe


— Quando poderei vestir um sari? — perguntei à minha mãe, saltando para cima da sua cama.

A minha mãe pegou numa mala de couro, dentro da qual guarda todos os seus saris, e que está sempre debaixo da cama. A mala contém o sari de cetim amarelo que ela usou na festa do bebé da Uma Didi, o sari cor de pêssego, que é fino como uma teia de aranha, e o meu favorito, o sari vermelho do seu casamento. Só o vi uma vez, porque está cuidadosamente embrulhado num velho lençol de cama.

— Podes vestir saris quando fores mais velha — disse a minha mãe, abrindo a mala.

— Mas hoje faço sete anos e vamos ter uma festa! Por isso é que estás a usar um sari.

A minha mãe só abre esta mala em dias especiais. A mãe dela, a Nanima, usa um sari todos os dias, mesmo quando dorme. As dobras e os recantos dos saris da Nanima estão cheios de segredos. Neles encontro moedas, alfinetes de segurança, e o seu odor permanente a sabonete de sândalo.

A minha mãe corre o fecho da mala e eu tento absorver todas as cores que ela encerra.

— Ajudas-me a escolher um sari? — pede.

Claro que sim — respondo.

Talvez ela me deixe escolher um também.

— Que tal me fica este? — pergunta, segurando um sari cor de púrpura junto do rosto.

— Oh mãe, pareces uma beringela — rio.

E este?

A minha mãe desenrola um sari de seda preta que brilha como um céu estrelado.

— Esse não, porque já o usaste na festa de anos da Devi Masi.

— Não acredito que te lembres disso tudo!

Mas é verdade que me lembro de todos os saris que a minha mãe usou. Ainda me lembro do sari cor de lavanda, que ela vestiu na festa do Diwali, e do sari cor de magenta com veados bordados, que ela vestiu no dia em que a Nanima nos fez a primeira visita.

A minha mãe fica lindíssima com saris. São tão diferentes das camisolas cinzentas e das calças castanhas que veste todos os dias para ir trabalhar.

— E este? — pergunto, apontando para um sari que nunca tinha visto.

Parece uma bola de fogo laranja e as pontas vermelhas parecem ter sido mergulhadas em tinta vermelha. A minha mãe sorri:

— Usei esse sari no dia em que te trouxemos do hospital. Todos os teus tios e tias vieram dar-te as boas vindas.

— Veste-o hoje outra vez!

A minha mãe desenrola-o e molda-o ao corpo. O sari brilha como o sol poente.

Olho para as minhas roupas e sinto-me desinteressante em comparação.

— Porque não posso usar um sari?

— Os saris são para mulheres adultas. Mesmo que o dobrasses várias vezes, acabarias por tropeçar nele.

— Nunca me deixas fazer nada. Ontem, disseste-me que não podia ir para a escola com sapatos de festa, embora todos os dias calces tacões para ir trabalhar.

— Porque não usas a tua chanya choli? — sugeriu. — Disseste-me que os espelhos da saia te faziam parecer uma princesa.

— Não quero. Já tenho idade para usar um sari. Já não preciso de luz de presença no quarto e consigo servir-me de leite de manhã sem entornar uma gota.

A minha mãe ficou calada durante algum tempo. Depois disse:

— Lembro-me da primeira vez que usei um dos saris da minha mãe. Senti-me tão crescida!

— Por favor, mamã, deixa-me escolher um — sussurro. — Até sei qual quero usar.

— Bem, estás a ficar mais alta e talvez consigamos segurar as dobras com muitos alfinetes. Mas só vestes o sari hoje, porque fazes anos.

— E posso vestir outro quando fizer oito anos? Nessa altura, já serei tão alta como tu!

A minha mãe ri e começa a mostrar-me os saris, um a um. Quando só resta um no fundo da mala, exclamo:

— É esse mesmo! O azul com flores douradas nas pontas.

— Põe-te de pé em cima da cama — pede a minha mãe.

Depois, começa a enrolar o sari em volta do meu corpo. Quando tento ver-me ao espelho, avisa:

— Espera, ainda não estás pronta!

De uma latinha em forma de coração que tem no armário, tira algumas pulseiras em ouro. Coloca seis no meu braço, que caem no chão a tilintar quando o estico.

— Temos de pedir à Nanima que nos envie pulseiras que condigam com este sari — brinca a minha mãe.

— Já posso ver-me ao espelho? — peço.

— Só mais uma coisa — responde a minha mãe, abrindo uma gaveta da cómoda.

Dela retira uma pequena caixa que contém alguns bindis de cores e feitios diferentes. Pega num prateado e coloca-o bem no meio das minhas sobrancelhas.

— Já podes olhar.

Debruço-me sobre o espelho, pegando no sari com cuidado.

— Que tal?

Sinto-me a flutuar num oceano de azul. O material reluzente faz-me brilhar. É tão bonito que digo, dedilhando a borda do sari:

— Acho que estou parecida contigo, mãe!


Pooja Makhijani; Elena Gomez
Mama's Saris
New York, Hachette Book, 2007
(Tradução e adaptação)


* * * * *

GLOSSÁRIO DE PALAVRAS EM HINDI

Bindi – sinal decorativo que as mulheres hindus usam na testa. Antigamente, era sempre um sinal vermelho e simbolizava o estatuto da mulher casada. Hoje em dia, é considerado um acessório de moda e não conhece restrições de cor ou feitio.

Chanya choli – conjunto de saia larga e blusa justa, tradicionalmente usado pelas mulheres dos estados do Gurajat e do Rajastão.

Didi – termo respeitoso usado para com uma irmã mais velha, uma prima, ou uma amiga.

Diwali – significa "fiadas de luzes acesas". É o festival da renovação da vida, o Festival das Luzes, no qual é comum as pessoas usarem roupas novas. É uma altura em que as famílias acendem lâmpadas de azeite e as colocam em torno das casas, para dar as boas vindas ao novo ano.
 
Masi – a irmã da mãe.

Nanima – a mãe da mãe.

Sari – o traje tradicional das mulheres indianas. Um sari é um pano de 6,30m de comprimento e 1,20m de largura, cujos estilo, cor e textura variam muito. Pode também ser dobrado de forma diferente, conforme o estatuto, a idade, a profissão, a religião e a região da mulher.











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sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Dia Mundial da Alimentação

video

"Eu nunca na vida comerei tomate", de Lauren Child

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

As sextas-feiras de Nana




As noites de sexta-feira em casa da avó Nana começam logo de manhã cedo na
cozinha. Nós comemos pão com doce de pêssego, que é o nosso preferido.
Nana bebe chá, que está muito quente, e sopra para dentro da taça antiga de porcelana chinesa, fazendo pequenas ondas.
— Hoje não tenho escola! — digo a cantar. — Que sorte que eu tenho!
— Hoje não tens escola! — responde. — Que sorte que EU tenho!
— Agora fala-me da noite de hoje – peço.
— Vem a família toda! Vem para o Sabbath e nós temos muito que fazer!
Nana apressa-se a fazer a cama e a limpar os quartos. Eu estou encarregada de alisar as almofadas.
Nana lava as porcelanas chinesas e passa a ferro os vincos da renda da toalha de mesa.
Eu dobro guardanapos com bordos de renda.
Nana inspecciona se faltam botões no seu vestido de Sabbath, azul marinho, de gola branca e punhos brancos também.
— É altura de fazer a tarte? — pergunto.
— Daqui a pouco, Jennie.
Eu puxo e volto a puxar o lustro a dois candelabros.
— Já é altura agora?
— É – diz Nana, estendendo a massa, e eu deito açúcar nas maçãs para a tarte. Em seguida, ela entrança os challah (Challah – Pão tradicional para o Sabbath e outras festas judaicas.) e mete-os no forno.
Ao meio-dia comemos sandes no parque, perto do rio. Bebemos também uma chávena de cacau.
O céu está cinzento e o vento sopra do rio, levantando-nos o cabelo, e nós dançamos para nos mantermos quentes, com os ponchos vestidos e as luvas calçadas.
Depois, andamos pela cidade de mãos dadas, à procura de flores roxas, que são as nossas preferidas.
— Oh, obrigada! — diz Nana.
— Obrigada — repito, saltitando pelo passeio com as flores.
Quando regressamos a casa de Nana, pomo-las numa jarra alta com água.
— É altura de nos vestirmos? — pergunto.
— Daqui a pouco, Jennie.
Mais para o fim da tarde, a casa está toda esfregada, a sopa de cevada já ferve e os challah estão a arrefecer. O frango aloura no forno e as batatas também.
— Agora já é altura?
— É — diz Nana.
Nós vestimos os nossos vestidos, ambos azul-marinho. Os sapatos também são azuis. Nana põe batom nos lábios, olhando-se ao espelho.
Pomos a mesa, contamos os talheres de prata e as taças da sopa, os copos que cintilam.
Nana pica o frango para ver se está tenro.
Lá fora escurece.
— Nana, olha! Neve!
A campainha da porta toca e a família precipita-se para dentro, abraçando Nana.
Também me abraçam a mim, pincipalmente os meus pais, e eu faço cócegas ao meu irmão bebé, o Lewis, metido no fatinho de bebé.
A campainha toca de novo e entra mais família de rompante. Os tios, as tias e os primos. Toda a gente fala ao mesmo tempo, tiram os sapatos aos pontapés, atiram os
sobretudos para cima das cadeiras.
No forno, a minha tarte já começa a cheirar.
— Já é altura? — pergunto.
— Agora é — diz Nana, e finalmente chega o melhor momento da noite.
Nana acende as velas e os nossos vestidos tocam um no outro; ela murmura orações de Sabbath e todos ficam em silêncio. Até o Lewis.
Daí a pouco, estamos a mastigar os challah e a passar taças de sopa, e todos falam ao mesmo tempo sentados à comprida mesa de jantar.
Lá fora, o vento uiva. A neve levanta-se em lindos rodopios brancos.
Mas aqui dentro as velas tremulam. Um cântico de Sabbath está no ar. É altura da tarte, e nós estamos todos juntos na sexta-feira de Nana.



Amy Hest
The Friday nights of Nana
Cambridge, Candlewick Press, 2001
Tradução e adaptação




O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

Newsletter Qualidade Online - Edição 16





30/09/2009
Portugal recebe evento europeu contra discriminação
DESTAQUE
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Portugal vai receber, de 15 a 18 de Outubro, o evento "Dias da Diversidade", uma iniciativa desenvolvida no âmbito da campanha europeia "Pela Diversidade. Contra a Discriminação" e que decorrerá no centro Comercial Colombo, em Lisboa. Os "Dias da Diversidade" englobam várias iniciativas dirigidas ao público em geral e organizadas em parceria com ONG's, Parceiros Sociais e Organismos Públicos nacionais que trabalham nas áreas da diversidade e discriminação. Para além de Portugal, os "Dias da Diversidade" vão passar por Chipre, Luxemburgo, Hungria e Suécia.
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Teatro Municipal de Faro com Qualidade Certificada por Organismo Internacional
CERTIFICAÇÃO
Imagem vazia padrãoO Teatro Municipal de Faro recebeu a certificação do seu Sistema de Gestão da Qualidade segundo os princípios da norma ISO 9001, conferido pela SGS ICS, organismo líder mundial em certificação. A Entrega do Certificado da Qualidade decorreu recentemente, durante a Sessão Solene do Dia da Cidade de Faro. O Certificado foi entregue por Patrícia Monteiro, do Departamento de Comunicação do Grupo SGS Portugal, a José Apolinário, Presidente da Câmara Municipal de Faro.
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Vinhos de Portugal conquistam mercado Norte-Americano
DESTAQUE
ViniPortugal organiza grandes provas para profissionais


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Reforçar a promoção dos vinhos portugueses no mercado norte-americano. É este o compromisso da ViniPortugal para o programa que arranca nos EUA amanhã. Trata-se de um mercado prioritário para Portugal, constituindo o 4º maior país ao nível das exportações. Uma posição que importa capitalizar, não fosse os EUA o importador líder no mundo dos vinhos.
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I Jornadas Nacionais Água e Juventude
RESPONSABILIDADE AMBIENTAL
Nos dias 3 e 4 de Outubro, na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa (Campus Asprela)




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Porque a água é um bem considerado "ouro azul do século XXI", porque tem mobilizado cada vez mais pessoas para a sua defesa e porque cada um tem uma palavra a dizer sobre os recursos de todos realizam-se no Porto, nos dias 3 e 4 de Outubro, as I Jornadas Nacionais Água e Juventude. O encontro acontecerá na Escola Superior de Biotecnologia, como marco comemorativo do Dia Nacional da Água que se assinala no dia 1 de Outubro.
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SPV anuncia termo do projecto experimental de retoma de plásticos mistos
RESPONSABILIDADE AMBIENTAL
Imagem vazia padrãoA Sociedade Ponto Verde (SPV), entidade responsável pela gestão de resíduos de embalagens em Portugal, decidiu pôr termo à experiência de retoma de plásticos mistos. A decisão de suspensão da retoma deste tipo de plásticos, que se realizava em Portugal desde finais de 2007 a título experimental, decorre da necessidade normal de reavaliação do projecto.
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OSLO VOLTA A CONTRATAR TECNOLOGIA "E-COUNTING" DA INDRA PARA AS ELEIÇÕES PARLAMENTARES DE 2009
DESTAQUE
•    Trata-se do quarto processo eleitoral que a Indra implementa na Noruega com a sua solução de contagem electrónica
•     A solução utiliza scanners de alta velocidade com capacidade para ler 120 boletins por minuto

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O Município de Oslo voltou a seleccionar a Indra para a gestão do processo de escrutínio dos votos das eleições para o Parlamento da Noruega, que decorreram no dia 14 de Setembro, recorrendo novamente ao sistema de contagem electrónica "e-counting", desenvolvido pela Indra.
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sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Eu, sozinho, no fim do mundo - 2ª parte

… continuação
Quando chegou o Outono, Constantino Brilho tinha terminado a sua estalagem, que ostentava pórticos, torres e espigões. Uma a uma, as folhas caíram das árvores e despenharam-se pela borda do mundo. Gostava de as ver, a rodopiar. Caíam aos meus pés, vindas do céu.
Quando as cores estavam mesmo brilhantes, o Alberto, o Júlio e a Margarida chegaram da cidade. Corremos a estalagem de uma ponta à outra, brincámos com os elevadores, e eles pediram que lhes servissem peru e pastilha elástica no quarto.
Alugámos quatro planadores e atirámo-nos dos rochedos no Fim do Mundo. Gritámos quando sentimos o sangue afluir todo aos nossos pés.
— Nada de lágrimas! — avisou o Sr. Brilho, que estava em terra firme. — Nada de lamúrias! É tempo de divertimento! Senhores e Senhoras, coloquem-se em fila. Saltem hoje e esqueçam o amanhã!
No Inverno, a neve caiu nas árvores, nos rochedos e nos túmulos. Observei os flocos a caírem em silêncio sobre a terra. Um dia, apareceu um trenó, com o Alberto, o Júlio e a Margarida. Cuspimos nas mãos, apertámo-las e piscámos o olho.
Divertimo-nos imenso. Vimos espectáculos de sombras de marionetas à noite, enquanto o vento soprava. Alugámos patins e fizemos figuras de oito nas Cataratas Pataratas e figuras de nove no Lago Conta-Gotas. As pessoas gritavam, enquanto se balançavam nos pinheiros. Os hóspedes patinavam e esquiavam em massa, descendo as encostas aos saltos e deslizando por longas rampas.
— Isto é ou não divertido? — perguntava o Sr. Brilho. — Divertimento a sério. Sentem-se sozinhos, Senhores e Senhoras? Na Estalagem do Brilho, nunca!
O Júlio, o Alberto, e a Margarida voltaram na Primavera. Não se ouvia o vento soprar através dos pinheiros eriçados. O barulho das festas era demasiado alto na floresta. Homens de bigode ensinavam o fox-trot a duquesas e a herdeiras de lavandarias vestidas de seda. Os monstros já não se mostravam quando os relâmpagos surgiam com as chuvas da Primavera. Tinham medo do barulho e das máquinas. O Júlio, o Alberto, a Margarida e eu corríamos pelos caminhos através das florestas, caminhos agora cheios de lixo. Também jogávamos às escondidas.
A cabana onde eu vivia estava rodeada de carrinhos. Já não conseguia encontrar ossos de dinossauros ou moedas de oiro antigas. Os pavilhões e as escadas rolantes tinham-nos coberto.
No Verão, as multidões eram imensas e a estalagem estava aberta para casais em lua-de-mel que vinham em busca do sossego e dos pores do sol de quatro horas. Só que estes mal se viam devido à bruma que cobria o paredão e provinha das luzes artificiais das arcadas.
— Quero ver mais divertimentos! — gritava o Sr. Brilho ao megafone, pendurado num prego que parecia vindo do céu. — Nada de silêncios solenes no Fim do Mundo! Só gargalhadas! E saltos! Senhoras e senhores, recomendo-lhes vivamente as vertigens!
Não dormia há sete dias. Havia sempre alguma coisa para me distrair. Tentei falar com os meus amigos:
— Sabem, estive a pensar…
— Não há tempo para pensar! — interrompeu o Sr. Brilho. — É tempo para se divertirem! Vejam, minha gente, o Fim do Mundo! Que vista magnífica, sublime e resplandecente! Vou construir tudo aquilo que quiserem! Deixem tudo o que estão a fazer! Não há tempo para tristezas ou ideias! Vamos DIVERTIR-NOS! DIVERTIR-NOS sem PARAR!
A Margarida estava toda suada.
— Anda lá! — insistiu comigo.
— Aqui vimos nós! — gritava o Júlio.
— Aqui vamos nós! — ria-se o Alberto, rangendo os dentes e rasgando a camisa nas tropelias.
— Penso que é tempo de ir também — disse para comigo.
Tirei o chapéu de papel da cabeça e as luvas das mãos. Enrolei-as e dei-as ao Júlio.
Depois disse-lhe:
— Tenho de ir embora. Sinto falta do vento.
E fui embora.
Agora vivo sozinho no Topo do Mundo. É uma montanha muito alta. Consigo ver a borda da montanha. Os dias passam-se devagar e bem. Como biscoitos salgados e cartilagens. Limpo as rochas e encontro fósseis. Procuro tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Sento-me no alpendre da minha cabana e escrevo cartas aos meus amigos na cidade, Alberto, Júlio e Margarida. Um dia destes vou visitá-los.
Às tardes, escuto o rumor do vento por entre os ramos dos pinheiros eriçados.
Sinto a suavidade da solidão a cair.
Por ora, sinto-me bem, sozinho, aqui no Topo do Mundo.
FIM
M. T. Anderson; Kevin Hawkes
Me, All Alone, at the End of the World
London, Walker Books, 2007
(Tradução e adaptação)
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Eu, sozinho, no fim do mundo - 1ª parte

Eu vivia sozinho no Fim do Mundo.

Os dias decorriam devagar e bem. Procurava tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Limpava rochas e encontrava fósseis. Reconstituía o esqueleto de monstros enormes com cordel. Jogava à bola até cair de cansaço. Sentava-me e lia. Gostava de ouvir o vento soprar através dos pinheiros eriçados, cujos ramos ondulavam no azul do céu. Comia biscoitos salgados e cartilagens. Ao sol-pôr, tocava melodias para a minha mula ouvir.
Em noites de tempestade, gostava de ficar na minha cabana. Aconchegava-me junto ao fogão e ouvia a chuva e a trovoada. Via os animais de longas caudas, cinco patas, ou bocas beijoqueiras, enfrentarem o trovão. Também nunca tive medo. Adormecia ao som dos seus grunhidos, que mais pareciam barulhos de canalização. Sabia que, de manhã, não haveria vestígios da chuva, excepto um pequeno orvalho nas árvores que ficavam junto dos rochedos desolados. Sentia-me feliz, sozinho, no Fim do Mundo.
Até um dia. Nesse dia, estava eu sentado de cabeça para baixo para que o meu cabelo ficasse completamente de pé, quando vi um homem estranho. Tinha pernas altas, um chapéu de aba larga e uma barba circular. Os seus óculos reflectiam as nuvens.
Montou um cavalete. Tirou um pincel da bota. Pintou o céu e o pinheiro mais solitário. E disse, numa voz que parecia a lã de um carneiro:
— Chamo-me Constantino Brilho e sou visionário profissional.
Olhou-me de alto a baixo e continuou:
— Rapaz, o que fazes o dia inteiro no Fim do Mundo?
— Muitas coisas — respondi.
E contei-lhe dos assobios, do vento e dos pinheiros.
— Só isso? — perguntou, com um ar aborrecido. — Não te divertes? Não tens amigos?
Olhei para os meus pés. Dantes achava que o que fazia era divertido. Agora já não tinha a certeza.
— Penso que as coisas vão mudar bastante por estes lados — disse o Sr. Brilho.
Por cima da pintura do rochedo e do pinheiro solitário, escreveu as palavras: CONSTANTINO BRILHO, VIAGENS MÁGICAS AO FIM DO MUNDO. DIVERTIMENTO GARANTIDO!
Uma semana mais tarde, estava eu a pescar peixes que voavam sobre as cataratas, quando ouvi o ruído de máquinas grandes e homens a darem ordens. Estavam a pavimentar uma clareira. Estavam a abrir valas. E o Sr. Brilho guiava uma visita.
— Aqui — anunciava ele — é o Fim do Mundo. Este é o rochedo. Este é um rapaz local com a sua mula. Vejam como nos olham com um olhar sonhador. E aqui está o local da futura Estalagem do Fim do Mundo.
Fiquei em estado de choque. Tinha-se juntado uma pequena multidão composta por pais e filhos, que me olhavam com curiosidade e fitavam o rochedo embasbacados.
Nem queria acreditar que ele tinha aplanado o terreno.
— Sr. Brilho! — chamei. — Sr. Constantino Brilho!
Apontei para as lajes.
— O que está a fazer? O que fez?
— Trouxe-te uns amigos. Se lhes mostrares a paisagem, dou-te uma moeda de ouro.
— A paisagem? Mas eu vivo numa cabana sozinho. Não quero amigos e não preciso de…
Foi então que olhei para os miúdos que o rodeavam. Sorriam e eram simpáticos. Estenderam as mãos. Um chamava-se Alberto, outro Júlio, e a rapariga chamava-se Margarida. Queriam gostar de mim. E eu queria gostar deles. Sorri.
— Bem — comecei — na realidade…
O Sr. Brilho acenou, encorajador. Perguntei aos miúdos:
— O que querem que vos mostre?
— O que fazes por estas bandas?
Pensei no que fazia: entretinha-me com fósseis, pores do sol, assobios, ouvia os ramos, observava os pinheiros.
Tentei pensar em algo que fosse excitante.
— Bem, se cuspirem no topo da terra, a cuspidela nunca mais pára de dar voltas.
— Isso é o máximo! — exclamaram os miúdos.
Passámos o dia na floresta junto aos rochedos. Cuspimos e batemos palmas. Mostrei-lhes os fósseis. Mostrei-lhes os caminhos. Mostrei-lhes as árvores e as pegadas dos animais rastejantes.
Quando chegou a altura de regressarem à cidade, disseram:
— Não queremos ir embora. Voltaremos no Outono à Estalagem do Fim do Mundo.
continua…
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Bom Ano Lectivo 2009/2010


A Equipa da Biblioteca Escolar e Centro de Recursos do Agrupamento de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores e colaboradores deste blogue, um Bom Início de Ano Lectivo 2009/2010.
Não deixem de visitar a BECRE e o blogue. Temos novidades.

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

A lenda da rosa-de-cristo - 3ª parte

continuação…
Os anjos interromperam imediatamente os seus cânticos e fugiram espavoridos. A luz intensíssima desapareceu de repente, a pesada atmosfera de ouro diluiu-se e a escuridão voltou a descer sobre a floresta. Sentiu-se um frio glacial, as flores começaram a murchar e os animais correram a refugiar-se nas suas tocas. O murmúrio das cascatas suspendeu-se e as folhas tombaram das árvores como uma chuva de cobre.
O coração do abade apertou-se de dor ao pensar: «Os anjos do céu visitaram-me cantando, e um terrível brado afugentou-os». E nesse momento lembrou-se da flor que prometera ao arcebispo. Meteu a mão por entre os musgos para apanhar ainda a última, mas sentiu os dedos gelados, porque a neve voltara a cobrir tudo. Tentou erguer-se, mas não conseguiu, e ficou estendido no chão, hirto. Sobre ele caía a neve, soterrando-o.
O irmão leigo chorou, acusando-se por ter sido o causador da morte do abade, quando ele ia entrar na bem-aventurança. E depois de transportarem o abade para o convento de Ovede, os frades repararam que ele segurava qualquer coisa na mão fechada. E, quando conseguiram abrir-lha, viram que ele apertava com força os bolbos que arrancara dos musgos antes de morrer.
O irmão leigo foi enterrar os bolbos num canteiro do jardim, cuidou muito bem deles e esperou durante o ano inteiro que dessem flor. Passou a Primavera, o Verão e o Outono, e no Inverno, quando todas as outras flores estavam mortas, já tinha perdido a esperança de os ver florir. Mas, quando chegou o Natal, o irmão leigo viu com espanto que os bolbos vindos da floresta estavam cheios de flores brancas e delicadas. E verificou que aquelas flores eram iguais às que o abade João trouxera da floresta de Goinger.
Reunidos os frades em capítulo, todos concordaram que aquelas flores deviam ser mandadas ao arcebispo Absalão para comemorar o milagre.
E quando o irmão leigo foi à presença do arcebispo, estendeu-lhe as flores e disse:
— Estas são as flores que te envia o nosso abade João. São as que ele prometeu colher na noite de Natal, na floresta de Goinger.
E o arcebispo, ao contemplar as flores que em pleno Inverno tinham conseguido brotar da terra gelada e ao ouvir o que o leigo lhe contou, ficou uns segundos em silêncio e depois disse pausadamente:
— O abade João cumpriu a palavra dada, e eu vou cumprir a minha.
E mandou redigir a carta de alforria que libertava o salteador.
O irmão leigo partiu para a floresta e procurou a gruta dos salteadores. Ao encontrá-la, era outra vez noite de Natal e o ladrão veio ao seu encontro e gritou:
— Malditos sejam todos os frades! Por vossa culpa, a floresta este ano não se tornou num Paraíso como era costume em noite de Natal!
— Trago uma mensagem do abade João! — E tirando do bolso a carta de alforria disse-lhe que ele podia ir viver em sociedade com a outra gente. E mostrou-lhe o selo lacrado do arcebispo Absalão.
— De hoje em diante podes passar o Natal com os teus filhos e festejar com eles o nascimento do Menino Jesus, na companhia dos homens de bem, como era desejo do nosso abade João.
E a mulher do salteador disse:
— O abade João cumpriu a promessa. O salteador da floresta cumprirá a sua.
E quando o salteador, a mulher e os filhos abandonaram para sempre a gruta, o irmão leigo ficou a viver nela para o resto da vida, entregue às suas orações, pedindo a Deus que lhe perdoasse a sua pouca fé e dureza de coração.
O irmão leigo arrependera-se de ter pronunciado aquelas palavras malditas na noite dos prodígios a que assistira, mas o certo é que desde essa noite a floresta de Goinger nunca mais festejou o nascimento do Salvador, e de todas as maravilhas que ali se operavam só restou a flor que o abade colhera no último segundo de vida.
Puseram-lhe o nome de rosa-de-cristo, e todos os anos essa planta brota da terra gelada e cobre-se de flores brancas, como se quisesse lembrar o tempo em que floria na floresta de Goinger, em noite de Natal.
FIM
Selma Lagerlöf
Ricardo Alberty;
Maria Isabel Mendonça Soares (org.)
O livro de ouro do Natal
Lisboa, Editorial Verbo, 1978
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Homem na Lua - 40 anos




Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de Julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objectivo final do presidente John F. Kennedy, que, em discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar.
Composta pelo
módulo de comando Columbia, do módulo lunar Eagle e do módulo de serviço, a Apollo 11, com seus três tripulantes a bordo, foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida, às 13:32 UTC de 16 de Julho, na ponta de um foguete Saturno V, sob as vistas de centenas de milhares de espectadores que lotavam estradas, praias e campos ao redor do Centro Espacial Kennedy e de milhões de espectadores pela televisão em todo o mundo, para a histórica missão de oito dias de duração, que culminou com as duas horas de caminhada de Armstrong e Aldrin na Lua.

Fonte e mais informação
Wikipedia
AFP
CDCC – Universidade de São Paulo

Teorias sobre a não ida do Homem à Lua
A fraude do século

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

A lenda da rosa-de-cristo - 1ª parte



A lenda da rosa-de-cristo
Certo dia, a mulher do salteador de estradas, que vivia numa gruta no alto da montanha de Goinger, no meio de uma densa floresta, desceu às terras baixas, acompanhada dos cinco filhos, para pedir esmola pelas aldeias. Quando a mulher do salteador batia às portas das casas, ninguém ousava negar-lhe esmola, porque todos sabiam que, como vingança, o marido viria de noite pegar fogo aos campos e aos pomares.
E foi durante uma dessas visitas pelas aldeias que a mulher do salteador e os filhos chegaram ao convento de Ovede, habitado por uns santos frades. À volta do convento corria um alto muro, e a mulher viu uma porta meio-aberta. Dirigiu-se para lá, seguida dos filhos, e entrou sem pedir licença a ninguém. Era no Verão, e a mulher encontrou-se num lindo jardim, cheio de flores de toda a espécie. Ficou tão embevecida que começou a caminhar pelas alamedas para admirar mais de perto aquela maravilha.
Ao fundo do jardim estava um irmão leigo que trabalhava no convento como jardineiro, e quando viu a mulher do salteador e os cinco filhos avançou para correr com
eles.
— Toca-me, se te atreves! — gritou a mulher do salteador.
— Isto é um convento de frades — disse-lhe o irmão leigo — e deves saber que não é permitida a entrada a mulheres.
Mas a mulher do salteador não fez caso e continuou a passear por entre os canteiros de rosas, hissopos e madressilvas. Então o irmão leigo avançou para ela e quis expulsá-la à força. Mas a mulher do salteador começou aos gritos e arranhou-o e mordeu-o, ajudada pelos filhos. O pobre irmão leigo desatou a correr para o convento, em busca de reforços, mas no caminho esbarrou com o velho abade João, que acudira a ver o que se passava no seu jardim.
O irmão leigo contou-lhe o que se passava, mas o abade censurou-o por ter usado de violência e proibiu-o de ir buscar reforços. E, apesar de velho e fraco, avançou para a mulher do salteador, que continuava a admirar o jardim. O abade João amava mais o seu jardim do que todas as coisas terrenas, e pensou que ela queria admirar as flores por nunca ter visto outras tão bonitas. E perguntou-lhe, com suavidade:
— Gostas do meu jardim?
E a mulher respondeu-lhe com mau modo:
— A princípio pareceu-me um lindo jardim, mas agora vejo que não se compara
com outro que eu conheço. Se vocês o vissem, arrancavam todas estas flores e atiravam--nas fora, como se fossem ervas ruins.
— Deve ser bonito o teu jardim, lá no alto da floresta selvagem, onde nunca entra o Sol — disse o irmão jardineiro, a rir.
— Pois eu juro que estou a dizer a verdade, e vocês, que são homens santos, deviam saber que, na noite de Natal, a floresta de Goinger se transforma num jardim que parece o Paraíso, para festejar o nascimento do Salvador. E aparecem flores tão lindas que nem nos atrevemos a tocar-lhes.
O irmão leigo riu ainda com mais vontade:
— Não percebo por que razão Nosso Senhor Jesus Cristo havia de festejar o seu
nascimento num sítio onde vivem só ladrões, como tu e o teu marido!
— É pena — gritou a mulher — tu não teres coragem para subir lá acima à floresta, na noite de Natal, para saberes que eu falo verdade.
O irmão leigo ia responder, mas o abade fez-lhe sinal para que se calasse. Porque o abade João sempre ouvira contar desde pequeno que a floresta se cobria de maravilhas na noite de Natal. E sempre desejara ver esse prodígio. Então pediu à mulher para o deixar ir visitar a gruta dos salteadores na noite de Natal. E se ela lhe mandasse um dos filhos como guia, jurou que iria só, montado num cavalo, prometendo que nunca os denunciaria e que, pelo contrário, os recompensaria como pudesse.
A princípio a mulher recusou, pensando que se tratava de uma cilada, mas depois, na ânsia de provar que o seu jardim era muito mais bonito do que o do convento, disse:
— Mas só podes ir acompanhado por uma pessoa. Eu ficaria muito desiludida se nos armasses uma cilada, porque te considero um santo homem.
A mulher saiu, seguida pelos filhos, e o abade João ordenou ao irmão leigo que não contasse a ninguém aquela conversa. Mas aconteceu que daí a dias chegou o arcebispo Absalão de Lund, e passou uma noite no convento. E foi o próprio abade que lhe falou no salteador que vivia escondido no alto da floresta, e pediu-lhe uma carta de alforria, para que ele pudesse voltar a viver honradamente entre os homens.
O arcebispo Absalão respondeu que era perigoso deixar um ladrão viver entre pessoas honestas e que era melhor deixá-lo onde estava. Então o abade contou-lhe o que
sucedia todos os anos na floresta em noite de Natal. E terminou:
— Se a graça de Deus se manifesta assim a esses desgraçados, é porque não os acha assim tão maus, e não somos nós quem pode negar-lhes a clemência humana.
Mas o arcebispo encontrou uma boa resposta:
— Prometo-lhe que, no dia em que me trouxer uma flor desse tal jardim de Natal na floresta de Goinger, lhe dou uma carta de alforria para o salteador que vive afastado de Deus.

continua………
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

A lenda da rosa-de-cristo - 2ª parte

continuação…
O abade João prometeu que lhe traria a flor, e na véspera de Natal pôs-se a caminho da floresta de Goinger, levando como única companhia o irmão leigo que tratava do jardim. Um dos filhos do salteador corria à sua frente para lhes indicar o caminho. E, conforme subiam, iam vendo as aldeias muito atarefadas nos preparativos para a festa do Natal. O abade picava esporas ao cavalo, porque estava certo de que lá em cima, na montanha, ia assistir a uma festa mais bonita do que todas as outras.
O irmão leigo suspirava e pedia ao abade que voltasse para trás, porque estava convencido de que tudo aquilo não passava de uma cilada, mas o abade não lhe dava ouvidos e continuava a cavalgar. Começavam agora a escalar a encosta e entravam na floresta selvagem e solitária. O caminho era cada vez mais difícil, coberto de pedras e de agulhas de pinheiro. Quanto mais subiam, mais o frio apertava, porque o chão da floresta
aparecia coberto por uma espessa camada de neve.
Atravessaram estreitas gargantas e bosques de vegetação espessa. E quando chegou o pôr do sol, o garoto parou numa clareira rodeada de árvores frondosas. Ao fundo da clareira erguia-se uma rocha escarpada, com uma pequena porta feita de tábuas toscas. O rapazinho correu a abrir a porta e viu-se uma profunda gruta desconfortável. A mulher do salteador estava acocorada junto de uma fogueira mesmo no centro da gruta, e junto às paredes nuas viam-se catres feitos de ramos de pinheiro e musgo. E num desses catres estava o salteador a dormir.
— Entrem — disse a mulher do salteador, sem se levantar. O abade João entrou na caverna, e o irmão leigo seguiu-o, preocupado. Os filhos do salteador estavam sentados em volta de um grande caldeirão onde se via uma sopa aguada.
— Chega-te para o pé do lume, abade João — disse a mulher — e se trouxeram farnel é melhor comerem-no, porque a nossa comida não deve agradar-vos. E se estiverem cansados, estendam-se ali sobre aqueles ramos de pinheiro.
Deitaram-se o abade João e o irmão leigo e, cansados como estavam, depressa adormeceram profundamente. Quando o irmão leigo acordou, viu o abade sentado junto do lume, a comer o seu farnel e a conversar com a mulher do salteador, que tinha acordado também. O abade João falava dos preparativos de Natal que vira durante a viagem.
— É uma pena os teus filhos não poderem andar também a brincar nas ruas da aldeia como as outras crianças e não receberem as prendas do Natal — disse o abade. E, de repente, o salteador ergueu o punho e gritou:
— Maldito frade! Vieste cá para me roubares os filhos com essas falinhas mansas?
Não sabes que sou um condenado e não posso sair da floresta?
Mas o abade fitou-o calmamente e disse:
— Já pedi ao arcebispo Absalão uma carta de alforria com o teu perdão.
— Nunca ninguém perdoará a um salteador de estradas! — gritou o bandido.
— Mas, se o arcebispo me conceder uma carta de alforria, prometo nunca mais roubar nem sequer uma galinha!
Nisto, a mulher do salteador pôs-se de pé e disse:
— Estamos para aqui a conversar e esquecemo-nos de ir à floresta ver o que lá se passa. Já ouço os sinos do Natal a tocarem ao longe.
Todos se puseram de pé e saíram da gruta a correr. Mas a floresta continuava mergulhada na escuridão e no silêncio, e o frio era muito intenso. Depois de os sinos terem tocado durante algum tempo, desceu inesperadamente do céu um raio de luar por entre os ramos das altas árvores. E tudo ficou outra vez no escuro. Daí a pouco a luz voltou de novo, como se tentasse romper as trevas. Avançava como uma espécie de nevoeiro luminoso e a pouco e pouco a noite deu lugar a um pálido amanhecer.
Então o abade viu a neve retirar-se de repente, como se fosse um tapete puxado por alguém, e começaram a surgir plantas da terra. Os fetos ergueram os seus ramos encaracolados como báculos; a urze apareceu por entre as rochas, e a giesta surgiu pavoneando as flores amarelas. Por toda a parte surgiam plantas, lucilando ao luar, como que feitas de cobre e prata.
O abade João sentiu o coração bater com mais força ao assistir ao despertar da floresta. De repente, a luz começou a diminuir e o abade receou que tudo voltasse às trevas.
Mas surgiu uma nova onda de luz que se derramava sobre a floresta. E, agora, ouvia-se o murmurar dos riachos e o chalrar das cascatas. E as árvores ficavam revestidas de folhas, como se um bando de borboletas tivesse vindo pousar sobre os ramos nus. Não eram só as flores e as árvores que tinham acordado. Os cruza-bicos começaram a saltitar de ramo em ramo, e os pica-paus martelavam nos troncos duros. Um bando de estorninhos descansou no alto de um abeto e seguiu viagem. Quando outra vaga de luz inundou novamente a floresta, começaram a florir as groselhas e os murtinhos.
Bandos de gansos bravos e de grous atravessaram o céu, os tentilhões construíam os ninhos e os esquilos jogavam às escondidas por entre as ramagens.
Tudo aconteceu tão de repente que o abade João não teve tempo de reflectir acerca do milagre que presenciava. Outra vaga de luz trouxe o cheiro de campos lavrados de fresco. Ouvia-se ao longe o tilintar dos chocalhos das vacas e dos carneiros. Os pinheiros e os abetos cobriram-se de pinhas vermelhas que pareciam forradas de seda. O zimbro encheu-se de bagas que mudavam de cor a cada instante. E flores silvestres atapetavam o chão como uma alcatifa de mil cores. O abade João curvou-se para colher uma flor de morangueiro e, enquanto se endireitou, a flor transformou-se em fruto na sua mão.
A raposa saiu da toca seguida da sua ninhada de raposinhos. O mocho, que havia pouco tinha começado a sua caçada nocturna, surpreendido por tanta luz, regressou ao seu esconderijo no escuro. E foram surgindo novas marés de luz e de ar quente, e agora ouviam-se os patos grasnar para os lados dos pântanos. O pólen das flores pairava no ar como uma poalha dourada e surgiam de toda a parte borboletas, que pareciam lírios a voar. Uma colmeia de abelhas, no buraco de um velho carvalho, estava tão cheia que o mel escorria pelo tronco abaixo. Pelas escarpas, as roseiras trepavam ao desafio com as amoras silvestres e, lá no alto, apareciam flores enormes, como caras a espreitar.
Foi então que o abade João se lembrou da flor que prometera ao arcebispo. Mas cada flor que surgia era mais bela do que a anterior, e ele queria colher a mais bela de todas.
As vagas de luz e de calor seguiam-se umas às outras e a atmosfera estava tão densa que parecia feita de ouro coalhado. «Não sei o que a próxima onda de luz possa trazer de mais belo e deslumbrante», pensou o abade João. Mas a luz continuava a aumentar, e ele apercebeu-se de que qualquer coisa ainda distante se ia aproximando. Sentiu-se rodeado por uma atmosfera sobrenatural e, a tremer, esperou. Desceu sobre a terra um profundo silêncio, os pássaros emudeceram, os raposinhos e os esquilos pararam de brincar e até as flores deixaram de crescer nos cálices. Era tal a sensação de bem-aventurança que o abade João julgou que o coração lhe parava. A sua alma sentia ânsias de entrar na eternidade.
Ouviram-se então, ao longe, uns sons de harpa, acompanhados de coros celestiais. O abade juntou as mãos e ajoelhou com a face banhada por um resplendor de glória. Nunca esperara sentir neste mundo a bem-aventurança do além.
Outro tanto não sentia o irmão leigo, que ficou furioso, porque no seu jardim do convento, por mais cuidados que tivesse, não conseguira nunca ter flores tão lindas. E não percebia como é que Deus desperdiçava tantas maravilhas para as oferecer àquela família de ladrões que nem sequer respeitavam os seus mandamentos. «Isto não pode ser obra de Deus — pensou — pois que se apresenta a pessoas tão ruins. Isto é obra do diabo, que nos faz ver o que não existe. Não sairemos salvos deste bruxedo e cairemos no abismo!»
Agora as hostes dos anjos tinham-se aproximado tanto que o abade sentia o esvoaçar das suas asas e via-lhes as sombras luminosas. O irmão leigo também os via, mas continuava convencido de que tudo aquilo era obra do demónio, para o perder, mais ao abade, em plena noite de Natal. E então gritou tão alto que a voz ecoou no fundo da floresta:
— Arreda, demónio! Volta para o inferno que te enviou!
continua…
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Gripe A

gripe A

Rede de Bibliotecas Escolares - Newsletter n.º 5


Rede de Bibiotecas Escolares
Portal da Educação


Newsletter 05

Ab Initio

É preciso ter a consciência dos desafios que a sociedade da informação coloca às bibliotecas, destacadamente o ambiente digital que hoje avança inexoravelmente como uma onda que vai progredindo a uma velocidade cada vez maior e que é preciso acompanhar para não soçobrarmos nela.

Editorial

Maria Teresa Calçada - Coordenadora do Programa da Rede de Bibliotecas Escolares

Candidaturas RBE: 13 anos a construir bibliotecas

Apesar das correntes pedagógicas, que desde meados do século XX, propunham novos modelos de aprendizagem, é sobretudo a partir dos anos 80 que, em Portugal, estratégias de ensino assentes na ideia de construção do conhecimento e de promoção de autonomia dos aprendentes ganham nova expressão.

A auto-avaliação da biblioteca escolar

A escola da Sociedade do Conhecimento tem que lidar com os desafios que as tecnologias da informação colocam às atitudes, hábitos e comportamentos informacionais dos jovens. Estes desafios decorrem de renovadas formas de acesso, uso, produção e comunicação do conhecimento, que permeiam diferentes niveis de acção: da aprendizagem formal à informal, ao lazer e à intervenção social.

Documentaliste dans l'Education nationale en France : un statut d'enseignant, des fonctions hybrides et une identité incertaine

Les CDI sont largement intégrés dans le paysage éducatif des établissements du 2° degré en France (collège et lycée), car depuis 1989, il est acquis que chaque établissement scolaire en est doté. Créée en 1974, la structure CDI coïncide avec l'émergence de nouvelles démarches pédagogiques, favorisant le travail autonome sur documents, et avec l'instauration du collège unique et donc l'arrivée d'un public scolaire plus diversifié.

Bibliotecas Escolares numa Plataforma Moodle? Porquê e para quê?

Será que as Bibliotecas escolares podem ser, na escola, algo próximo das "novas praças públicas" de que fala Talscott (2008) - "locais de encontro movimentados onde os consumidores regressam para usufruir de experiências enriquecedoras e envolventes. Afinal as relações são a única coisa que não se pode transformar num produto"

Onde a leitura também se enreda

Temos por vezes a impressão que nos confrontamos com o fim de uma ilusão. Acreditámos que para pôr toda a gente a ler, para resolver os problemas da leitura e da literacia, seria suficiente a alfabetização e a melhoria da oferta de recursos de leitura.

Biblioteca 2.0

O contributo da biblioteca escolar (BE) pode ser estruturado em dois grandes eixos. O primeiro será o ensino da literacia da informação, isto é, o desenvolvimento da capacidade de transformar a informação em conhecimento, pois é reconhecido por todos que a abundância de informação e a facilidade de acesso à mesma não garante indivíduos mais bem informados; o segundo eixo de acção da BE será a promoção da transversalidade dos saberes, gerindo a inovação e a mudança, e contrariando a progressiva segmentação, simplificação e descontextualização dos recursos de informação disponíveis on-line.

Redes locais de bibliotecas: construção de parcerias

No actual contexto de uma sociedade da informação, onde emergem novos paradigmas educacionais, e onde a amplitude das mudanças tecnológicas, a disseminação da informação, o desenvolvimento do digital, das redes físicas e virtuais favorecem a expansão das sociedades em rede, a consolidação de redes locais de bibliotecas afigura-se como imprescindível. Neste sentido, e no âmbito dos pressupostos do programa Rede de bibliotecas Escolares, apresentamos uma reflexão sobre dinâmicas colaborativas subjacentes à criação de Redes Locais de Bibliotecas, fazendo sobressair a importância do envolvimento das entidades locais em benefício de uma efectiva parceria. Motivo pelo qual, o texto que se apresenta, é também o resultado de opiniões escritas de alguns intervenientes nesses processos.

Fórum RBE

Reportagem fotográfica do Fórum RBE - 26 de Junho de 2009

A nossa biblioteca

Os alunos da Escola EB 2,3 de São Pedro do Sul apresentam a sua visão da biblioteca da escola.




domingo, 5 de Julho de 2009

O homem que tinha uma árvore na cabeça - 3ª parte

O homem que tinha uma árvore na cabeça
… continuação
Arbóreo viu que se chamava «Somnium», que significa «sonho» em latim, e, passando rapidamente os olhos pelas páginas carregadas de caracteres e de desenhos, percebeu que falava de uma viagem imaginária à Lua, a qual, segundo Kepler já lhe dissera, devia ser habitada por seres capazes de cavar as grandes crateras que se viam na sua superfície rugosa e iluminada.
– Deve ser um livro muito belo – comentou Arbóreo.
– E também perigoso – acrescentou Kepler – porque defende ideias raras que não agradam àqueles que mandam nos reinos desta Terra.
Dizendo isto partiu, misturando-se com as sombras esguias do crepúsculo. De Praga foi para a cidade de Vurtemberga, onde, disfarçando as lágrimas, encontrou a mãe acorrentada numa masmorra, acusada de vender ervas misteriosas que alucinavam e faziam enlouquecer. Ele sabia-a inocente, mas não tinha meios para o provar. Aquele era um tempo de crueldade e de intolerância. Ninguém ouvia ninguém, ninguém lutava para demonstrar a inocência de ninguém.
Quando regressou a Praga, viajando por campos e aldeias saqueados e destruídos pelo fogo, já não encontrou a mulher e o filho vivos. Correu para o parque e, porque esta é uma história triste e desolada, deparou com uma clareira no sítio onde costumava conversar com Arbóreo. Tinham-no levado.
Um velho carvalho, ali mesmo ao lado, segredou-lhe com grossas lágrimas de seiva a escorrerem-lhe pelo tronco:
– Levaram-no a ele e a muitas outras árvores, porque dizem que precisam de lenha para alimentarem as caldeiras e de madeira para construírem torres de assalto e aríetes para arrombarem portas de castelos. Vou sentir a sua falta. Embora fosse mais árvore que homem, gostava muito dele. Entendíamo-nos muito bem. Levou consigo pássaros e borboletas, os seus companheiros de sempre. E também muitas ideias dentro da cabeça.
Kepler não soube o que havia de responder. Era um daqueles momentos em que as palavras não têm qualquer valor, sobretudo se forem trocadas entre um astrónomo e uma árvore.
Cobriu o rosto com a capa negra, para ninguém o ver chorar, e partiu sem bagagem para outra cidade.
Voltou a ter-se notícias dele em Sagan, uma cidade da Silésia, onde fazia horóscopos para o duque Wallenstein. Ele que era astrónomo e não astrólogo, ou seja, cientista e não adivinho, não deve ter passado com alegria os últimos anos da sua vida, pois ninguém fica feliz por ter de fazer, só para comer, aquilo de que não gosta, aquilo que vai contra os seus princípios e desejos.
Todos os dias o duque, sentado no seu trono de veludo e ouro, lhe dizia:
– Que posso esperar hoje dos astros, mestre Kepler? Se não estiverem de feição, nem me arrisco a deixar o castelo.
E o pobre Kepler fazia das tripas coração e lia nos astros coisas que a ciência desmentia.
Quando morreu, triste e solitário, ordenou que escrevessem na pedra da sua sepultura: «Medi os astros, agora meço as sombras. O Espírito volta-se para o céu, o corpo repousa na Terra».
Há quem garanta que, depois de ser sepultado, apareceu junto da campa uma árvore que nunca ninguém ali vira antes. Era uma árvore de fruto, com o tronco largo e ramos que pareciam braços estendidos em direcção ao céu, como se quisessem abraçar as estrelas.
As crianças que faziam rodas à volta da árvore começaram a espalhar a notícia de que ela falava e de que parecia ter, no meio do tronco, dois olhos de onde escorriam abundantes lágrimas. Mas ninguém se atreveu a acreditar nelas. Uma das crianças chegou mesmo a ver, desenhada na casca grossa, a palavra «Arbóreo», mas não sabia o que significava. Ninguém sabia.
Mais de trinta anos passaram sobre o desaparecimento de Kepler e de Arbóreo até que nasceu em Inglaterra um menino muito pequeno e doente, tão pequeno que a mãe dizia que cabia dentro de uma caneca de cerveja. Tinha no rosto tamanhos sinais de doença que parecia nunca ter visto a luz do sol. Chamava-se Isaac Newton, e deve ter lido no grande livro do céu as conversas fantásticas de Kepler com Arbóreo. Da sua cabeça não nasceu nenhuma árvore, mas ideias de luz que transformaram a compreensão do Universo e a vida dos homens.
Diz-se até que foi a uma árvore rara que Newton foi buscar a maçã que usou para demonstrar a Lei de Gravidade. Explicava ele que a mesma força que atrai a maçã para a Terra mantém a Lua na sua órbita. Essa maçã tinha um sabor igual ao dos frutos que cresciam na cabeça de Arbóreo.
* * *
Nota do Autor
«O Homem que Tinha uma Árvore na Cabeça» não é um livro sobre ciência, embora nele se fale de três cientistas: João Kepler, Tycho Brahe e Isaac Newton. Os dois primeiros são contemporâneos, ou seja, viveram na mesma época. O terceiro, dos três o mais célebre, nasceu doze anos depois da morte de Kepler. Que cientistas foram estes? Tycho Brahe nasceu em Knudstrup, na Dinamarca, em 1546, e morreu em Praga em 1601. Rico e dedicado ao estudo da astronomia, ajudou Kepler nos momentos difíceis da sua vida e apontou-lhe o caminho para o que viria a ser a Lei sobre o Movimento dos Planetas.
Johannes (João) Kepler nasceu perto de Weil, Wurttemberg, na Alemanha, em 1571, e morreu em Regenburg, também na Alemanha, em 1630. Teve uma vida que a doença, a pobreza e a guerra tornaram muito dura, mas nunca deixou de estudar e de trabalhar. Sem as conclusões científicas a que chegou, nunca Isaac Newton teria enunciado o Princípio da Atracção Universal, que provocou uma verdadeira revolução na Física e na relação do Homem com a Natureza e com o Universo.
Isaac Newton nasceu em Woolsthorpe, Inglaterra, em 1642, e morreu em Kensington, Inglaterra, em 1727. Alcançou, com o seu trabalho como matemático, físico e astrónomo, popularidade e fortuna, sendo considerado um dos génios do pensamento científico. Formulou a teoria da composição da luz branca, descobriu as Leis da Atracção Universal e, ao mesmo tempo que Leibniz, achou as bases do Cálculo Diferencial.
Quando se fala do episódio da «maçã de Newton», referido também no fim desta história, dá-se como verdadeiro o seguinte: um dia o cientista terá visto cair uma maçã, concluindo que o movimento da Lua se podia explicar por uma força da mesma natureza. Estendeu essa teoria aos planetas do sistema solar e os cálculos que fez permitiram-lhe confirmar as leis anteriormente enunciadas por Kepler.
A pequena história que vos quis contar, se alguma coisa tenta dar a ver, é que os grandes avanços na história da ciência e na vida da humanidade resultaram sempre da soma de esforços, trabalhos, sonhos e lutas de homens e mulheres que, em muitos casos, nem sabiam da existência uns dos outros. Havia somente um fio a uni-los: o da inteligência e o da capacidade de sonhar.
Ao falar de Kepler, Brahe e Newton nada quis ensinar ou explicar. Tentei apenas contar uma história inventada (Arbóreo nunca existiu) em que também há lugar para figuras reais, por sinal três cientistas. O resto é poesia, imaginação, gosto de inventar. Inventem, vocês também, outras histórias a partir desta. As histórias melhores são sempre as que abrem portas para outras histórias. E já agora, espero que a leitura de «O Homem que Tinha uma Árvore na Cabeça» crie em vós o interesse pelas coisas da ciência. E também pelas da literatura.
FIM
José Jorge Letria
O homem que tinha uma árvore na cabeça
Porto, Porto Editora, 1991
Adaptação
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

São Pedro (século I a.C., Betsaida, Galileia - cerca de 67 d.C., Roma)



Pedro (século I a.C.,
Betsaida, Galileia — cerca de 67 d.C., Roma) foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, como está escrito no Novo Testamento e, mais especificamente, nos quatro Evangelhos. São Pedro foi o primeiro Bispo de Roma, sendo por isso, considerado o primeiro Papa pela Igreja Católica.

Nome e importância
Segundo a
Bíblia, seu nome original não era Pedro, mas Simão. Nos livros dos Actos dos Apóstolos e na Segunda Epístola de Pedro, aparece ainda uma variante do seu nome original, Simeão. Cristo mudou seu nome para כיפא, Kepha, que em aramaico significa "pedra", "rocha", nome este que foi traduzido para o grego como Πέτρος, Petros, através da palavra πέτρα, petra, que também significa "pedra" ou "rocha", e posteriormente passou para o latim como Petrus, também através da palavra petra, de mesmo significado.
A mudança de seu nome por Jesus Cristo, bem como seu significado, ganham importância de acordo com Igreja Católica em Mt 16, 18, quando Jesus diz: "E eu te declaro: tu és Kepha e sobre esta kepha edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão nunca contra ela." Jesus comparava Simão à rocha. Pedro foi o fundador, junto com
São Paulo, da Igreja de Roma (a Santa Sé), sendo-lhe concedido o título de Príncipe dos Apóstolos e primeiro Papa (um tanto anacronicamente, visto que tal designação só começaria a ser usada cerca de dois séculos mais tarde – Pedro foi o primeiro Bispo de Roma); essa circunstância é importante, pois daí provém a primazia do Papa sobre toda a Igreja Católica.

Dados biográficos
Antes de se tornar um dos doze discípulos de Cristo, Simão era pescador. Teria nascido em Betsaida e morava em
Cafarnaum. Era filho de um homem chamado João.
Segundo o relato no
Evangelho de São Lucas, Pedro teria conhecido Jesus quando este lhe pediu que utilizasse uma das suas barcas, de forma a poder pregar a uma multidão de gente que o queria ouvir. Pedro, que estava a lavar redes com São Tiago e João, seus sócios, concedeu-lhe o lugar na barca que foi afastada um pouco da margem.
No final da pregação, Jesus disse a Simão que fosse pescar de novo com as redes em águas mais profundas. Pedro disse-lhe que tentara em vão pescar durante toda a noite e nada conseguira mas, em atenção ao seu pedido, fá-lo-ia. O resultado foi uma pescaria de tal monta que as redes iam rebentando, sendo necessária a ajuda da barca dos seus dois sócios, que também quase se afundava puxando os peixes. Numa atitude de humildade e espanto Pedro prostrou-se perante Jesus e disse para que se afastasse dele, já que é um pecador. Jesus encorajou-o, então, a segui-lo, dizendo que o tornará "pescador de homens".
Nos Evangelhos Sinóticos o nome de Pedro sempre encabeça a lista dos discípulos de Jesus, o que na interpretação da Igreja Católica Romana deixa transparecer um lugar de primazia sobre o Colégio Apostólico. Não se descarta que
Pedro, assim como seu irmão André, antes de seguir Jesus, tenha sido discípulo de João Batista.
Outro dado interessante era a estreita amizade entre
Pedro e João Evangelista, fato atestado em todos os evangelhos, como por exemplo, na Última Ceia, quando pergunta ao Mestre, através do Discípulo Amado, quem o haveria de trair ou quando ambos encontram o sepulcro de Cristo vazio no Domingo de Páscoa. Fato é que tal amizade perdurou até mesmo após a Ascensão de Jesus, como podemos constatar na cena da cura de um paralítico posto nas portas do Templo de Jerusalém.
Segundo a tradição defendida pela Igreja Católica Romana, o apóstolo Pedro, depois de ter exercido o episcopado em Antioquia, teria se tornado o primeiro Bispo de Roma. Segundo esta tradição, depois de solto da prisão em Jerusalém, o apóstolo teria viajado até
Roma e aí permanecido até ser expulso com os judeus e cristãos pelo imperador Cláudio, época em que haveria voltado a Jerusalém para participar da reunião de apóstolos sobre os rituais judeus no chamado Concílio de Jerusalém. A Bíblia atesta que após esta reunião, Pedro ficou em Antioquia (como o seu companheiro de ministério, Paulo, afirma em sua carta aos gálatas. A tradição da Igreja Católica Romana afirma que depois de passar por várias cidades, Pedro haveria sido martirizado em Roma entre 64 e 67 d.C. Desde a Reforma, teólogos e historiadores protestantes afirmaram que Pedro não teria ido a Roma, esta tese foi defendida mais proeminentemente por Ferdinand Christian Baur da Escola Tübingen. Outros, como Heinrich Dressel, em 1872, declararam que Pedro teria sido enterrado em Alexandria, no Egipto ou em Antioquia. Hoje, porém os historiadores concordam que Pedro realmente viveu e morreu em Roma. O historiador luterano Adolf Harnack afirmou, que as teses anteriores foram tendenciosas e prejudicaram o estudo sobre a vida de São Pedro em Roma. Sua vida continua sendo objecto de investigação, mas o seu túmulo está localizado na Basílica de São Pedro no Vaticano, o qual foi descoberto em 1950 após anos de meticulosa investigação.


O primado de Pedro segundo a Igreja Católica
Toda a primeira parte do Evangelho gira em torno da pergunta: quem é Jesus? Simão foi o primeiro dos discípulos a responder essa pergunta: Jesus é o filho de Deus. É esse acontecimento que leva Jesus a chamá-lo de Pedro.
Encontramos o relato do evento no
Evangelho de São Mateus, 16:13-19: Jesus pergunta aos seus discípulos (depois de se informar do que sobre ele corria entre o povo): "E vós, quem pensais que sou eu?".
Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim Meu Pai que está nos céus. Também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja, e as portas de Hades nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as
chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus. E o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 16:19).
O
Evangelho de João, bem como o de Lucas, também falam a respeito do primado de Pedro dever ser exercido particularmente na ordem da Fé, e que Cristo o torna chefe: Jesus disse a Simão (Pedro): "Simão, filho de João, tu Me amas mais do que estes? "Ele lhe respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo". Jesus lhe disse: "Apascenta Meus cordeiros". Segunda vez disse-lhe: "Simão filho de João, tu Me amas? - "Sim, Senhor”, disse ele, “tu sabes que te amo". Disse-lhe Jesus: "Apascenta Minhas ovelhas". Pela terceira vez lhe disse: "Simão filho de João, tu Me amas? Entristeceu-se Pedro porque pela terceira vez lhe perguntara “Tu Me amas?” e lhe disse: "Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo". Jesus lhe disse: "Apascenta Minhas ovelhas.
Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos.
Mais do que em Mt 16, 17:19 esse texto é mais claro no que se refere ao primado que Cristo confere a Pedro no próprio seio dos apóstolos; um papel de direcção na Fé.

O apóstolo Pedro, o primeiro Bispo de Roma
A comunidade de Roma foi fundada e evangelizada pelos apóstolos Pedro e Paulo e é considerada a única comunidade cristã do mundo fundada por mais de um apóstolo e a única do Ocidente instituída por um deles. Por esta razão desde a antiguidade a comunidade de Roma (chamada actualmente de
Santa Sé pelos católicos) teve o primado sobre todas as outras comunidades locais (dioceses); nessa visão o ministério de Pedro continua sendo exercido até hoje pelo Bispo de Roma, assim como o ministério dos outros apóstolos é cumprido pelos outros Bispos unidos a ele, que é a cabeça do colégio apostólico, do colégio episcopal. A sucessão de Pedro começou com São Lino (67) e, actualmente é exercida pelo papa Bento XVI.
Segundo essa visão, o próprio apóstolo Pedro atestou que exerceu o seu ministério em Roma ao concluir a sua primeira epístola: "A [Igreja] que está em Babilónia, eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, meu filho.” Trata-se da
Igreja de Roma. Assim também o interpretaram todos os autores desde a Antiguidade, como abaixo, como sendo a Roma Imperial (decadente). O termo não pode referir-se à Babilónia sobre o Eufrates, que jazia em ruínas ou à Nova Babilónia (Selêucia) sobre o rio Tigre, ou à Babilónia Egípcia cerca de Mênfis, tampouco a Jerusalém; deve, portanto referir-se a Roma, a única cidade que é chamada Babilónia pela antiga literatura Cristã.
Os historiadores actualmente acreditam que a tradição católica está correcta, igualmente muitas tradições antigas corroboram com a versão de que Pedro esteve em Roma e que ali teria sido martirizado:
· Assim nos refere o bispo Dionísio de Corinto, em extracto de uma de suas cartas aos romanos (
170):
"Tendo vindo ambos a
Corinto, os dois apóstolos Pedro e Paulo nos formaram na doutrina evangélica. A seguir, indo para a Itália, eles vos transmitiram os mesmos ensinamentos e, por fim, sofreram o martírio simultaneamente."
· Gaio, presbítero romano, em 199:
"Nós aqui em Roma temos algo melhor do que o túmulo de Filipe. Possuímos os troféus dos apóstolos fundadores desta Igreja local. Vai à Via Óstia e lá encontrareis o troféu de Paulo; vai ao
Vaticano e lá vereis o troféu de Pedro."
Gaio dirigiu-se nos seguintes termos a um grupo de hereges: "Posso mostrar-vos os troféus (túmulos) dos Apóstolos. Caso queirais ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, lá encontrareis os troféus daqueles que fundaram esta Igreja."
·
Orígenes (185-253) responsável pela Escola catequética em Alexandria afirmou:
"Pedro, ao ser martirizado em Roma, pediu e obteve fosse crucificado de cabeça para baixo"
"Pedro, finalmente tendo ido para Roma, lá foi crucificado de cabeça para baixo."
·
Ireneu (130 - 202), Bispo de Lião (actual Turquia) referiu:
"Para a maior e mais antiga a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo." e ainda "Os bem-aventurados Apóstolos portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a
Lino o cargo de administrá-la como bispo; a este sucedeu Anacleto; depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado."
"
Mateus, achando-se entre os hebreus, escreveu o Evangelho na língua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja."
· Formado como jurista
Tertuliano (155-222 d.C.) falou da morte de Pedro em Roma:
"A Igreja também dos romanos publica - isto é, demonstra por instrumentos públicos e provas - que Clemente foi ordenado por Pedro."
"Feliz Igreja, na qual os Apóstolos verteram seu sangue por sua doutrina integral!" - e falando da Igreja Romana, "onde a paixão de Pedro se fez como a paixão do Senhor."
"Nero foi o primeiro a banhar no sangue o berço da fé. Pedro então, segundo a promessa de Cristo, foi por outrem cingido quando o suspenderam na Cruz."
·
Eusébio (263-340 d.C.) Bispo de Cesáreia, escreveu muitas obras de teologia, exegese, apologética, mas a sua obra mais importante foi a História Eclesiástica, onde ele narra a história da Igreja das origens até 303. Refere-se ao ministério exercido por Pedro:
"Pedro, de nacionalidade
galileia, o primeiro pontífice dos cristãos, tendo inicialmente fundado a Igreja de Antioquia, se dirige a Roma, onde, pregando o Evangelho, continua vinte e cinco anos Bispo da mesma cidade."
·
Epifânio (315-403 d.C.), Bispo de Constância (também foi Bispo de Salamina e Metropolita do Chipre) fala da sucessão dos Bispos de Roma:
"A sucessão de Bispos em Roma é nesta ordem: Pedro e Paulo, Lino,
Cleto, Clemente etc..."
· Doroteu:
"Lino foi Bispo de Roma após o seu primeiro guia, Pedro."
·
Optato de Milevo:
"Você não pode negar que sabe que na cidade de Roma a cadeira episcopal foi primeiro investida por Pedro, na qual Pedro, cabeça dos Apóstolos, a ocupou."
·
Cipriano (martirizado em 258), Bispo de Cartago (norte da África), escreveu a obra "A Unidade da Igreja" (De Ecclesiae Unitate), onde diz:
"A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal."
·
Santo Agostinho (354-430):
"A Pedro sucedeu Lino."


Os textos escritos pelo apóstolo
O
Novo Testamento inclui duas epístolas cuja autoria é atribuída a Pedro: A "Primeira epístola de São Pedro e a Segunda epístola de São Pedro.

Indícios arqueológicos
A partir da década de 1950 intensificaram-se as escavações no subsolo da
Basílica de São Pedro, lugar tradicionalmente reconhecido como provável túmulo do apóstolo e próximo de seu martírio no muro central do Circo de Nero. Após extenuantes e cuidadosos trabalhos, inclusive com remoção de toneladas de terra que datava do corte da Colina Vaticana para a terraplanagem da construção da primeira basílica na época de Constantino, a equipe chefiada pela arqueóloga italiana Margherita Guarducci encontrou o que seria uma necrópole atribuída a São Pedro, inclusive uma parede repleta de grafitos com a expressão Petrós Ení, que, em grego, significa "Pedro está aqui".
Também foram encontrados, em um nicho, fragmentos de ossos de um homem robusto e idoso, entre 60-70 anos, envoltos em restos de tecido púrpura com fios de ouro que se acredita, com muita probabilidade, serem de São Pedro. A data real do martírio, de acordo com um cruzamento de datas feito pela arqueóloga, seria 13 de Outubro de 64 d.C. e não 29 de Junho, data em que se comemorava o traslado dos restos mortais de São Pedro e
São Paulo para a estada dos mesmos nas Catacumbas de São Sebastião durante a perseguição do imperador romano Valeriano em 257.


Fonte e mais informação
Wikipedia
Centro Virtual Camões
Portal de Turismo do Algarve
Júnior.TE