terça-feira, 17 de maio de 2016

Crónicas deliciosas de José Saramago, sobre os avós, lidas prazerosamente na Tribo das Letras, na última sessão

CARTA A JOSEFA, MINHA AVÓ 
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz. 
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. 
Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!» 
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

E O MEU AVÔ, TAMBÉM 
Talvez o dia chuvoso seja o responsável desta melancolia. Somos uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e apertos, que há momentos em que a vida cai toda sobre nós e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro. Cai a chuva, o vento desmancha a compostura árida das árvores desfolhadas — e dos tempos passados vem uma imagem perdida, um homem alto e magro, velho, agora que se aproxima, por um carreiro alagado. Traz um cajado na mão, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente, caminham animais fatigados, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. Homem e bichos avançam sob a chuva. É uma imagem comum, sem beleza, terrivelmente anónima. 
Mas o homem que assim se aproxima, vago, entre cordas de chuva que parecem diluir o que na memória não se perdeu, é meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. Fala tão pouco (são poucas as palavras realmente importantes) que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende qualquer coisa como uma luz de aviso. Fora isso, tem um modo de estar sentado, olhando para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede mais próxima, que chega a ser intimidade. Não sei que diálogo mudo o mantém alheado de nós. O seu rosto é talhado a enxó, fixo mas expressivo, e os olhos, pequenos e agudos, têm de vez em quando um brilho claro como se nesse momento alguma coisa tivesse sido definitivamente compreendida. Parece uma esfinge, direi eu mais tarde, quando as leituras eruditas me ajudarem nestas comparações tão abonatórias de uma fácil cultura. Hoje digo que parecia um homem. 
E era um homem. Um homem igual a muitos desta terra, deste mundo, um homem sem oportunidades, talvez um Einstein perdido sob uma camada espessa de impossíveis, um filósofo (quem sabe?), um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria, que não pôde ser nunca. Recordo agora aquela noite morna de verão, que dormimos, nós dois, debaixo da figueira — ouço-o ainda falar da vida que tivera, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia (as coisas que ele sabia do céu e das estrelas), do gado que o conhecia, das histórias e lendas que eram o seu cabedal da infância remota. Adormecemos tarde, enrolados na manta lobeira, que a madrugada refrescaria com certeza e o orvalho não caía só sobre as plantas. 
Mas a imagem que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso, como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas, nesta altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a interrogação das estrelas. Só isto — e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.
                                                 Em Deste Mundo e do Outro, Caminho, Lisboa, 1998

terça-feira, 12 de abril de 2016


OLIMPÍADAS DA LÍNGUA PORTUGUESA - IV Edição
 
 
     A aluna BEBIANA MENDONÇA BAGARRÃO, do 7ºF, irá representar a nossa escola na 2ªFase da IV Edição das Olimpíadas da Língua Portuguesa.
      As provas realizam-se no dia 21 de abril de 2016, na Escola Secundária João de Deus, em Faro.
 

Parabéns e boa sorte!
 
Fátima Veríssimo
(PB)
 
CNL - FASE DISTRITAL
 
     Informa-se que as alunas apuradas para a Fase Distrital do CNL são as seguintes:
 
1º - Margarida Carapinha Custódio   nº12   8ºD
2º - Ana Sofia Alcaide Jesus                 nº3     9ºB
3º - Francisca Guerreiro Carrega       nº3     8ºA
    
Parabéns e sucesso na próxima prova!
A Profª Bibliotecária
 
Fátima Veríssimo
 
 
 


Novos jogos, lúdicos e didáticos, na tua biblioteca!







sexta-feira, 4 de março de 2016

TRIBO DAS LETRAS - CLUBE DE LEITURA

Fundada na primeira semana de fevereiro, a Tribo das Letras tem crescido e conta já com oito elementos, a saber: Beatriz Rio, Bebiana Bagarrão, Francisco Lopes. Jéssica Yasharov, Mafalda Gouveia, Marta Falcão, Iara Mendonça, Inês Romão. 
Na biblioteca, no auditório ou noutros espaços da escola, a Tribo reúne-se às quintas-feiras, entre as 16 e as 17 horas, sob orientação do professor José Couto. Se tiveres disponibilidade, junta-te a nós, serás muito bem vinda(o)!


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

        Ontem, dia 20 de janeiro, realizaram-se as provas do CNL-1ªfase, tendo sido apuradas para a fase distrital, em representação da Escola EB 2/3 Dom Paio Peres Correia, as seguintes alunas:
          - Francisca Guerreiro Carrega, nº3, 8ºA;
          - Margarida Carapinha Custódio, nº12, 8ºD;
          - Ana Sofia Alcaide Jesus, nº3, 9ºB.
 
Parabéns às vencedoras e a todos os participantes!
 
A PB
Fátima Veríssimo
A BE da Escola Horta do Carmo vai receber o jovem escritor Bruno Magina, no dia 22 de janeiro, pelas 9h 30.
 
Trata-se de uma iniciativa organizada pela BE e BM Álvaro de Campos e destina-se aos alunos do 2ºano.
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