sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O regresso a casa

          Leo já não queria voltar para casa. Estar em casa era aborrecido. O pai também já não ia voltar. Morava agora noutro sítio. E havia uma razão para isso: o pai tinha-se divorciado.
Como diz a canção, a separação dói. Quando olhava atentamente para a cara do pai, que visitava uma vez por mês, Leo não conseguia ver sinais de dor. Na da mãe, já via. Mas porquê? Ela ganhava dinheiro e, do pai, recebia a pensão para o filho. Mesmo assim, era incrivelmente avarenta. Mas não só em relação ao dinheiro. De um momento para o outro, ganhara uma inclinação para o cumprimento férreo do dever, e arrancava Leo demasiado cedo da cama, pela manhã.
— Tens de chegar a horas à escola — dizia.
Mas dizia isto num tal tom de voz que fazia Leo ir aos arames. Anteriormente a mãe não gritava, não berrava, não resmungava, bem pelo contrário, era meiga, amável, gentil. Leo não suportava a mudança… No entanto, quando se perguntava porquê, não conseguia encontrar uma resposta, e isso deixava-o ainda mais aborrecido. Preferia tapar os ouvidos quando ela falava. É certo que, dantes, o pai o levava à escola de carro e que isso tinha acabado. Mas seria razão para o arrancar tão cedo da cama?
Leo tinha pavor de ir para casa no fim da escola. Só a fome o empurrava. Quando abria a porta, o estômago contraía-se-lhe, pois sabia o que se ia seguir.
— Houve alguma coisa nova na escola? — perguntava a mãe.
— Nada — respondia.
— Tens trabalhos de casa? — continuava ela a perguntar.
— Sim — respondia ele num tom carrancudo.
— Vamos lá então começar em força! — dizia.
Força! Começar em força! Tinha mesmo dito “força”. O pai nunca o teria incomodado com palavras destas.
Quando ele estava a trabalhar à mesa, a mãe passava, espreitava por cima do ombro e pousava-lhe a mão suavemente nos cabelos. Como ele detestava aquilo! Não era nenhuma criança chorona a precisar de consolo.
— Sabes, agora temos de nos manter unidos — acrescentava em voz baixa.
Manter-se unidos? Contra o quê e contra quem? Contra o pai?
Ela que não tivesse ilusões!
Com os trabalhos de casa prontos, Leo escapava-se para a entrada em bicos de pés. Saltava para dentro das sapatilhas e punha-se à escuta. Sentada à máquina de escrever, a mãe fazia trabalhos para um escritório. Também escrevia aos sábados, por vezes até aos domingos. E de que é que isso adiantava? Para comer, continuava a haver só batatas ou flocos de aveia com espinafres. Se dava um passeio com ele, iam, quando muito, de eléctrico até à periferia. Como o aborrecia passear por terrenos apinhados a servir de armazém e deambular pelo circuito de ginástica da floresta. Que sentido tinha aquilo?
Leo abriu a porta sem fazer barulho, saiu furtivamente e correu para a estação do metro mais próxima. Algumas semanas atrás, tinha lá conhecido uns indivíduos da pior espécie que o haviam impressionado fortemente e que andavam sempre por ali à volta. Com estes indivíduos é que ele dizia palavrões, provocava as pessoas, fazia barulho e vociferava para expulsar a cólera e o desconforto que sentia.
Quando regressou a casa para jantar, não se esforçou por fazer pouco barulho.
— Onde estiveste? — perguntou-lhe a mãe.
— Lá em baixo — respondeu.
— Lá em baixo, onde?
— Fui ter com os meus colegas.
— Não achas que devias ter-me avisado?
Ele não respondeu e foi para o quarto. Depois do jantar, que simplesmente engoliu sem vontade, começou a andar de um lado para o outro como um animal dentro da jaula. A mãe apareceu e ficou a observá-lo por uns momentos.
— Vamos conversar? — perguntou.
— Deixa-me — foi a resposta.
A mãe voltou para a máquina de escrever e continuou a trabalhar. Por vezes, Leo reparava que ela tinha olhos de choro e a cara muito magra. Só que ela nunca chorava alto, não gritava, nunca dava um murro na mesa. Punha-o doido o facto de ela nunca lhe ralhar ou nunca o tratar mal. Durante a noite, quando Leo ia ao quarto de banho, notava que havia luz no quarto da mãe. Perguntava-se o que estaria ela a fazer, mas evitava ir espreitar.
No porta-moedas, Leo trazia o número de telefone do pai. Havia poucos momentos em que podia telefonar sem ser incomodado. Era principalmente quando a mãe ia ao escritório entregar o trabalho. Ficava fora uma hora e Leo pendurava-se ao telefone. Mas, nos últimos tempos, não tinha sorte. De cada vez que levantava o auscultador, ouvia o sinal de ocupado. Também se admirava por o pai nunca telefonar.
Assim que a mãe voltou, Leo foi plantar-se à porta do quarto dela.
— O telefone está estragado — disse, com um tom de censura.
— Não está estragado — respondeu, cansada, a mãe. — Está cortado.
— Cortado, porquê?
— Porque não posso pagar a conta.
— Aqui não há nada que funcione! — disse Leo, furioso, regressando ao quarto.
Enterrou a cara nas mãos, tapou com força os ouvidos mas, mesmo assim, ouvia o matraquear da máquina de escrever. Parava a máquina de escrever e era o bater da loiça ou a máquina da roupa a girar aos solavancos no quarto de banho. A mãe estava sempre a fazer alguma coisa, só ele não podia fazer nada. Nada! Esperava, esperava, mas não sabia o quê.
As notas do semestre foram uma miséria. A mãe quis vê-las. Contra isso, não podia protestar, e preparou-se para um furacão. A mãe olhou para a folha, poisou-a em cima da mesa e disse:
— O que se passa contigo? Porque me fazes isto?
— Eu? A ti? — disse ele, confuso.
— Isto entre nós não pode continuar assim — disse a mãe.
Nesse aspecto tinha razão. Assim não podia continuar. Ele já não queria.
Na altura, ele fora motivo de discussão e ficara entregue à guarda da mãe. Entregue! Podiam dizer o que quisessem. Na verdade, o lugar dele não era ali. Quando tivesse catorze anos, ia poder decidir sozinho. Ainda faltava ano e meio. Nessa altura, as coisas iam então esclarecer-se. Esclarecer as posições, como costumava dizer o pai. Sair, queria sair finalmente daquela casa tão triste e escura!
Pouco antes da Páscoa, Leo recebeu uma carta. A mãe tinha-a pousado em cima da mesa dele. Era uma carta do pai.
Queres vir fazer uma viagem a Itália comigo? — leu Leo. — Não consigo telefonar-te porque o vosso telefone está desligado. Que tal Itália? Escreve-me imediatamente.
— Sim! — berrou Leo.
Sentada atrás da máquina de escrever, a mãe assustou-se.
Leo escreveu, juntou as suas coisas e meteu tudo na mochila. Assobiava e cantarolava e já tinha a cabeça bem longe dali. Não reparava na expressão da mãe, nem no que ela estava a fazer. A mãe colocara-lhe uma escova dos dentes nova e pasta dentífrica ao lado da mochila, sabonete, toalhetes, roupa interior lavada e algumas provisões. Remexeu no armário da roupa à procura de um envelope. Dividiu o conteúdo e pôs metade das notas por baixo da saboneteira.
— Para qualquer eventualidade — disse.
— Não preciso disso — respondeu Leo.
— Nunca se sabe — opinou a mãe.
Mesmo assim, aceitou o dinheiro. Uma impressão esquisita apertava-lhe de tal forma a garganta, que nem agradeceu.
Quando saiu de casa, já não pensava nisso. Estava invadido por uma alegria efusiva, e o eléctrico, a caminho da estação do comboio, deslizava como um caracol.
Leo encontrou finalmente o pai. Só tinha olhos para ele. Atirou-se a ele e abraçou-o a rir.
— Olá, Leo! — disse o pai.
— Estou tão contente, pai!
— Também eu — respondeu o pai. — Não me trates por pai. Trata-me antes por João.
— Está bem! — gritou Leo, tão alto, que algumas pessoas se voltaram.
— Está aqui mais alguém que também vai connosco — disse o pai. — Chama-se Nora.
Leo voltou-se. Uma mulher jovem observava-o, com reserva, e deu-lhe um breve aperto de mão.
— Bom dia — disse ela, e Leo sentiu uma pontada no estômago.
— Bom dia — cumprimentou ele em voz baixa.
“Então as coisas são assim”, pensou Leo “e não como eu tinha imaginado.”
— Que caras, meninos! — exclamou o pai. — Alegrem-vos! Somos uma família!
Leo fez um sorriso forçado, mas Nora manteve-se séria.
“Pode ser que, apesar de tudo, seja agradável”, pensou Leo para se acalmar, respirando fundo.
— Como estamos de finanças, Leo? — perguntou o pai.
Leo bateu no bolso do peito e sentiu-se imediatamente mais seguro.
— Óptimo — disse o pai. — O dinheiro guardo-o eu, ou tu ainda vais perdê-lo.
De seguida, dirigiram-se ao balcão e compraram os bilhetes.
Partiram. De olhos fechados, Leo apreciava o trepidar das rodas; sonhara com a viagem de comboio, com o mar azul, com a cara risonha do pai e as brincadeiras que fariam juntos. Mas, quando estavacomacarado pai à frente dos olhos,interpôs-se-lhe a de Nora.
Leo abriu os olhos. O pai e Nora estavam sentados à sua frente, de mãos dadas e em silêncio. Mas era ele quem devia sentar-se ao lado do pai. Afinal de contas, tinha mais direito do que aquela desconhecida, que não podia saber o quanto ele tinha sofrido sem o pai.
— Já acordou — disse Nora. — Vamos, tenho fome.
Levantou-se e levou o pai com ela.
— Tens alguma coisa para comer? — perguntou o pai, apontando para a mochila de Leo.
Leo assentiu com a cabeça.
— Nós voltamos já. Toma conta da bagagem — disse o pai, dizendo-lhe adeus com a mão.
Deixaram-no e seguiram para o vagão-restaurante a rir e a tagarelar. Leo tirou as provisões da mochila. De repente, sentiu-se despido de qualquer sensação. Estava vazio. Abriu mecanicamente a lata, arranjou o pão e pegou num saquinho que tinha um pequeno papel dentro. Reconheceu a letra da mãe. SAL – estava escrito. Sentiu as orelhas a aquecer. Começou a comer sem apetite, deitou fora o lixo, mas foi incapaz de se desfazer do papelinho, que meteu no bolso do casaco junto com as moedas soltas. Depois, tentou adormecer.
Deve mesmo ter adormecido, pois, quando abriu os olhos, já era dia. O pai estava sentado à sua frente. Nora dormia com a cabeça deitada no ombro do pai. O pai sorriu a Leo.
— Já estamos quase a chegar — disse.
O hotel era à beira da praia e tinha poucos hóspedes.
Não havia ninguém na água, ainda era muito cedo. Alguns casais caminhavam pela praia de um lado para o outro, apreciando a brisa fresca; outros estavam deitados nas espreguiçadeiras, embrulhados em mantas. O pai e Nora passeavam na areia de mãos dadas, Leo seguia três passos atrás. Já era o segundo dia em que as coisas se passavam assim. Leo gostaria de ter deslizado a sua mão na mão livre do pai, mas já não era nenhuma criança pequena. Tinha vergonha e parecia‑lhe ridículo. Esperava por um sinal do pai que lhe indicasse que, finalmente, ia começar um jogo de bola, uma corrida, uma prova de esforço na água fria. Esperava em vão. Leo caminhava três passos atrás de Nora e do pai. Se eles paravam, ele parava também. Se prosseguiam, ele recomeçava. Até que Nora se virou para trás:
— Leo, não arranjas nada para fazer sozinho?
O olhar de Leo saltou de Nora para o pai. O pai olhava para o mar.
— Olha, um barco à vela! — disse.
Leo também olhou para o longe.
— Sim — disse Leo em voz baixa — posso arranjar qualquer coisa para fazer. Dás-me o meu dinheiro, pai?
— Dinheiro? Não sobrou nada. Chegou à justa para o teu bilhete.
— Vou para o hotel — disse Leo.
— Vemo-nos ao jantar — disse-lhe o pai com um sorriso.
Leo voltou para trás, caminhando devagar pela praia. Assim que ficou fora do alcance da vista do pai, desatou a correr. No quarto, procurou o bilhete decomboio e um pedaço de papel. Encontrouo bilhete,masnão tinha papel. Tirou do bolso o papelinho amarrotado onde a mãe tinha escrito a palavra SAL. Espantou-o a facilidade com que agora se separava dele.
Obrigado pelo convite, escreveu ele no papel, que prendeu no espelho.
Em seguida, tirou a mochila do cubículo onde estava o seu catre e correu para a estação do comboio. O empregado do balcão explicou-lhe, por sinais, quanto faltava para chegar o comboio. Leo trancou-se no quarto de banho da estação e ficou à espera.
Assim que o comboio chegou, atravessou furtivamente o cais, como um ladrão, e saltou para uma carruagem. O comboio partiu e Leo começou a chorar. Não sabia porquê. Não sentia dor nem alegria, somente alívio. Fechou os olhos. Através das pálpebras descidas, via a paisagem a passar e ouvia o bater das rodas. Matraqueavam como a máquina de escrever da mãe. Estava com fome, mas não tinha dinheiro. As poucas moedas que trouxera mal tinham chegado para o eléctrico!
Seguiu ao acaso pelas ruas escuras, chegou a casa e viu luz nas janelas. Abriu a porta sem fazer barulho, entrou furtivamente na sala que tinha as janelas iluminadas e susteve a respiração.
Viu a máquina de escrever com uma folha de papel metida e um maço de folhas escritas. Ao lado estava a tábua de passar a ferro; por baixo, o cesto cheio de roupa e, no chão, meias de vidro e panos de várias cores. Viu a mãe a dobrar as camisas dele, a alisar, com a mão, a roupa dele. Ele estava ali, de pé, incapaz de dar mais um passo, e esperava. Deixou cair a mochila.
A mãe assustou-se. Leo olhou para a cara amedrontada da mãe, que se alegrou em seguida ao reconhecê-lo na ombreira da porta. Levantou-se, veio junto dele e observou longa e atentamente a sua cara.
— Deves estar com fome — disse, dirigindo-se para a cozinha.
— Mãe! — disse Leo.
Há muitos meses que não pronunciava esta palavra. E como o vestíbulo estava às escuras, abraçou-a.
Wilhelm Meissel
Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980
(Tradução e adaptação)
  
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

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