quarta-feira, 11 de julho de 2012

No país de Iqbal

Para todas aquelas crianças que trabalham sem ter idade,
em qualquer parte do mundo.

Kevin recebeu no seu aniversário uma bola fantástica. Mas sempre que a atira para a fazer saltar, a bola abate-se sobre a relva sem a menor vontade de se divertir. Não há dúvida, aquela bola tem alguma coisa que não bate certo! Kevin fica tão zangado que a fecha dentro do cesto da roupa suja. É então que um rapazinho tenta sair pelo minúsculo orifício da válvula. Chama-se Iqbal e vem de um país longínquo onde obrigam as crianças a trabalhar. Explica a Kevin que pôde fugir graças a uma palavra mágica: Shabatsé. Mas Iqbal já tinha pronunciado a referida palavra quando se apercebeu de que não deveria tê-lo feito. Tarde demais! Kevin e Iqbal são ambos sugados para dentro da bola…
1
— Feliz aniversário, querido!
Kevin sopra as velas. Apaga-as de uma só vez. À volta dele, pais e amigos gritam e aplaudem. Kevin pode agora abrir os presentes. Gosta particularmente deste momento, em que rasga o papel dos embrulhos. Estragam-no com mimos. Como acontece todos os anos. Começa pelos sobrescritos que contêm dinheiro, mas o que mais gosta de abrir são, é claro, os presentes de verdade. Dos três embrulhos, Kevin já percebeu qual é o melhor, aquele por que está à espera. Guarda-o para o fim.
— Uau, é tão bonita! — exclama.
Exactamente o que ele queria: uma bola de couro, cosida. Uma bola de jogador profissional, azul e branca, ainda mais lisa e brilhante do que nos seus sonhos. Tira-a da caixa, segurando-a com a ponta dos dedos, como se fosse de açúcar. Kevin queria uma bola, porque Laurent, o seu vizinho, tem uma e nunca quer emprestá-la por muito tempo. No entanto, é muito menos bonita.
Quando jogam na praceta em frente das vivendas, sempre que Laurent começa a perder, encontra um pretexto para se zangar. Pega na bola e vai-se embora. E, claro, o jogo acaba. É irritante. De futuro, ninguém voltará a interromper a partida enquanto Kevin quiser continuar a jogar; ninguém poderá suspendê-la contra a sua vontade. Nunca se sentira tão feliz.
— Dá cá! — pede o pai, estendendo as mãos.
É a sua vez de agarrar na bola. Acaricia-a, fá-la saltar, que vontade de lhe dar uns bons pontapés!
— Dá-ma, por favor — atalha rapidamente Kevin, que sabe o pai que tem. Quando este segura uma bola nas mãos, torna-se uma autêntica criança. É capaz de a estragar sem querer.
— Se querem jogar, vão para o jardim!
A mãe conhece-os bem, e já começa a recear pelos móveis e adornos. Kevin não espera que lhe digam duas vezes e desata a fugir com o seu presente. Nem sequer espera até chegar ao relvado. Ainda vai a meio do terraço e já quer experimentar a bola. Lança-a ao chão e estende as mãos para a apanhar…Mas não apanha nada! As mãos estendidas ficam vazias. A bola não saltou. Caiu como goma sobre a tijoleira. Não voltou a mover-se, ficou como que colada e mole. Dir-se-ia um marshmallow.
Espantado, Kevin baixa-se para pegar no seu tesouro. Espantado, mas não inquieto. Esta bola não pode ser de má qualidade. Foi ele, Kevin, que a atirou mal… Ou então é a tijoleira do terraço que está pegajosa, provavelmente cheia de compota. Seja como for, tratou-se de um acidente que não voltará a acontecer. Kevin limpa a bola e dá-lhe lustro. Observa-lhe discretamente todas as costuras mas, nada, está tudo perfeito. A bola precisa é de erva. No relvado vai renascer.
Kevin afasta-se da casa e espera o momento de chegar a meio do relvado para atirar ao ar o seu brinquedo. Lança a bola para o céu, o mais alto que lhe é possível. Orgulhosamente, vê-a descer, lisa, brilhante, azul e branca, bela. Vê-a descer… e abater-se sobre aquele tapete de relva tão suave, sem o menor desejo de saltar e de se divertir. Não há dúvida, esta bola tem algum defeito, há algo que não bate certo.
2
— Então! Não chores! É porque a bola não está suficientemente cheia. Acontece muitas vezes quando são novas.
Kevin tinha ido contar ao pai a sua desdita. Apesar dos esforços para se conter, os olhos estão cheios de lágrimas. O pai enterra os fortes polegares no couro, que cede facilmente.
— O que é que eu dizia! Anda, vamos arranjar isto!
Kevin assoa-se e vai com o pai até à garagem. Está cabisbaixo, ainda não sorri, mas já recuperou a esperança. O pai de Kevin é habilidoso. Na garagem, penduradas na parede ou guardadas numa gaveta, há ferramentas que permitem consertar tudo o que não funciona bem à face da terra.
— Não mexas! Sei que há uma bomba de ar em qualquer lado… Cá está, nesta caixa…
Introduz um tubo fino como uma agulha na bomba de ar e, com firmeza, segura a bola recalcitrante entre os joelhos. E depressa lhe devolve a boa cara que ela nunca deveria ter perdido.
— Anda, apanha-a, se fores capaz!
A porta da garagem abre para o jardim. O pai lança a bola com tanta força que esta devia saltar até à parede do fundo. Kevin corre atrás dela, a rir-se… Mas não por muito tempo! Cheia ou não, a bonita bola deixa-se ficar na relva, após dois ou três saltos ofegantes. Não chegará nunca à parede do fundo.
Mais uma vez a esperança morre nos olhos de Kevin.
— Tens razão — constata o pai — algum defeito há de ter, na verdade. Talvez um problema no couro, não compreendo… Guardei o talão de compra. Amanhã vamos à loja para a trocarmos, não te preocupes!
Kevin encolhe os ombros:
— Amanhã, amanhã!
Não está preocupado, mas a festa, o seu aniversário, é hoje, não amanhã! Com um pontapé furioso, atira aquele trapo mole para um canto, já que não serve para nada. E Kevin decide esquecê-la. Afinal, tem outros brinquedos, brinquedos de verdade que gostam de se divertir, brinquedos de confiança.
Chegada a noite, ainda se sente tão zangado que continua a não querer ocupar-se daquele brinquedo tão decepcionante.
— Pode dormir lá fora, é o que merece.
Mas o pai não está de acordo.
— Não, não, Kevin. Vai buscá-la e guarda-a. Se a perderes ou estragares, já não podes trocá-la.
É verdade. Kevin reconhece-o. O pai tem razão. Vai buscar a bola. Empurra-a com o pé até ao terraço, como se fosse uma velha lata de conserva, depois pega nela sem qualquer cuidado. À entrada do quarto está o cesto da roupa suja. Atira-a lá para dentro.
— Dorme bem! — ironiza.
De agora em diante só quer esquecê-la, mas sente-se tão irritado que não é capaz de o fazer. Antes de se deitar, não consegue deixar de se virar uma vez mais para o cesto, onde a deixou:
— Não se admite o que fizeste, não se admite! No teu lugar, escondia-me. Não tens o direito de ser tão bonita, de brilhar, para depois não servires para nada quando contamos contigo. Não tens o direito de te esvaziares dessa maneira… Uma idiota, é o que tu és! Detesto-te!... Ainda bem que não te mostrei aos meus colegas. Que vergonha!... Mas não faz mal, não perdes pela demora. Amanhã vais voltar para de onde vieste, e nunca mais quero ouvir falar de ti!
Mais calmo depois destas duras palavras, Kevin deita-se e apaga a luz. Está tão cansado que adormeceria bem depressa se, por detrás dele, um estranho barulho se não fizesse ouvir.
3
Um estranho barulho, na verdade, como o de alguém a fungar, como o soluço abafado de uma criança. No meio da escuridão, Kevin ergue-se e aguça o ouvido.
— És mau! — escuta distintamente.
Desorientado, volta a acender a luz da mesa-de-cabeceira:
— Quem foi que falou, quem? — pergunta Kevin, cada vez mais inquieto.
— Aqui! — decide-se a dizer a voz misteriosa. — Aqui! Na tua bola!
De facto, a voz parece sair do cesto da roupa suja. Kevin senta-se na beira da cama, virado para o cesto, sem se atrever a aproximar-se. É impossível, não consegue acreditar!
— Uma bola não fala! Uma bola não tem boca!
— Uma bola também não tem ouvidos e, no entanto, dirigiste-me a palavra, deste-me uma lição de moral durante um quarto de hora! Verdade ou mentira? Julgo até que me chamaste “idiota”…
— Escapou-me…
— Bem vês que não é assim tão simples.
Com os olhos encarquilhados e a boca aberta, quase sem respirar, Kevin fixa o recipiente.
— Vá, não fiques assim. Vou explicar-te. Mas, por favor, tira‑me deste cesto de roupa suja.
Kevin obedece como um autómato. Aproxima-se e levanta a tampa. É de facto a bola que está lá dentro, a própria bola. Pega nela cautelosamente, com as pontas dos dedos mas, desta vez, é por ter medo dela. Com os braços esticados, leva-a até à cama e pousa-a em cima do colchão.
— Pára lá com essas fitas! Anda ajudar-me! — impacienta-se a voz.
Kevin dá um enorme grito, porque a voz já não vem de dentro da bola. Um rapazinho da sua idade esforça-se por sair pelo minúsculo orifício da válvula. Já libertou a cabeça e os ombros. Com as duas mãos apoiadas no couro, tenta soltar o resto do corpo, e é a voz dele que se ouve.
Kevin esconde o rosto. Já nem se atreve a olhar.
— Não! É demais! Vim parar à casa do rei dos medricas, ou quê? Anda ajudar-‑me, já te disse! Acho que fiquei preso.
Kevin ainda tem medo, mas sente-se envergonhado. Não pode continuar a tremer. Faz um esforço para se aproximar. É verdade que o rapaz não é nenhum monstro. Com os cabelos muito negros e muito lisos colados à testa, é parecido com qualquer outra criança. Kevin agarra a bola, segura nela com firmeza para a impedir de deslizar para os lados, enquanto o seu estranho visitante faz cada vez mais força com os braços.
— Assim, isso! Aguenta!
Faz tanta força que se liberta num rompante, de uma forma tão brusca como a rolha de uma garrafa de champanhe. Depois de um enorme trambolhão, acaba sentado, de costas contra a parede, a um canto do quarto. Ri-se. Os dentes reluzem-‑lhe no rosto tisnado. Kevin ri também. O medo desaparece. O coração continua a bater-lhe acelerado, mas por causa do esforço e da emoção.
— É um caso sério sair de lá de dentro. Ainda bem que me ajudaste, se não, ainda lá estava!
Kevin encolheu os ombros. Concorda, sente-se até orgulhoso, mas nem sabe o que dizer. Não se pode falar tranquilamente, como se nada fosse, com alguém saído não se sabe de onde. Antes de mais, Kevin precisa de algumas explicações. O rapaz compreende.
— Queres saber como cheguei até aqui? É normal! Vou explicar-te, conforme prometi.
Levanta-se e alisa a roupa amarrotada: uma longa túnica, uma espécie de camisa de noite. Satisfeito, senta-se confortavelmente com as pernas cruzadas, em cima da alcatifa. Kevin instala‑se a seu lado, com as costas apoiadas na beira da cama.
Para começar, o rapaz apresenta-se:
— Chamo-me Iqbal… Tu, chamas-te Kevin. Ouvi o teu pai chamar-te assim.
— Ouvias tudo dentro da bola?
— Claro!
— E… (Kevin lembra-se dos seus pontapés furiosos) também sentias tudo? Devo ter-te magoado! Desculpa.
— Não te preocupes, já vi outras coisas bem piores no local onde trabalho! Aliás, foi por isso que fugi.
— Trabalhar… Fugir… Continuo sem perceber! Antes de mais, diz-me de onde vens.
— Venho de muito longe. Venho do país onde se fazem as bolas.
(…)
(continua)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias




"Chapéus divertidos" - chapéus de Carnaval sobre o tema "Dieta mediterrânica"

O rico e o remendão

Era uma vez dois vizinhos que viviam numa terra vulgar. Mas não viviam os dois da mesma maneira! Um era o mais rico senhor daquela terra e muitas noites levava sem poder dormir, preocupado com as suas riquezas, com a sua casa cheia de preciosidades…
O mais pobre era mesmo muito mais pobre: não tinha quase nada e vivia numa casa velhinha, à porta da qual tinha montado uma espécie de oficina de remendão. Ele remendava tudo: carteiras velhas, sapatos, albardas, maletas, enfim, trabalho assim era coisa que nunca faltava! E todo o dia cantava! Tivesse muito ou pouco trabalho, nunca deixava de cantar!
Na casa ao lado, o rico senhor não compreendia como é que com a sua vida de sacrifício e canseira, e tanta miséria que bem se via, o seu vizinho passava o dia em cantorias!!! Aquilo fazia-lhe imensa espécie...
Um dia mandou chamá-lo à sua presença e disse-lhe:
− Ó mestre, vossemecê quanto é que ganha num ano inteiro?
O remendão coçou a cabeça, o que era sinal de que não fazia a mínima ideia, e disse:
− É impossível calcular isso... pois há tantos domingos e tantos feriados que as contas ficam muito complicadas...
Mas o homem rico insistiu:
− Ó mestre, mas diga assim mais ou menos...
Respondeu o remendão:
− Mais ou menos, mais ou menos, ganho o que me dá para o comer do dia! Só sei que não morro de fome, lá isso não!
Então o homem rico disse-lhe:
− Pois tome nota: eu quero que vossemecê viva sem cuidados e com fartura, pois bem o merece, já por tanto ter trabalhado!
E dizendo isto, entregou-lhe uma bolsa bem recheada de moedas de ouro.
O remendão foi às nuvens!!! Nem sabia como havia de agradecer! Julgou-se o homem mais rico da terra e correu para o seu telheiro a enterrar a bolsa de moedas. A partir daí, nunca mais cantou, pois o menor ruído o punha em sobressalto, com medo dos ladrões... Deixou de ter o sono ferrado e descansado que sempre tivera, e então cantar?! Isso foi coisa que nunca mais fez, com medo de dar nas vistas a sua alegria!!!
Um dia reparou que até o andar do seu gato o fazia tremer... Então foi ter com o vizinho rico e levou-lhe a bolsa de moedas de ouro, dizendo-lhe:
− Muito lhe agradeço, meu senhor, a sua bondade, mas aqui tem o seu dinheiro. Guarde-o, que eu por mim guardarei as minhas cantorias e o meu rico soninho descansado!!!
E assim, o remendão
Preferiu o que mais queria.
Mais que a riqueza enterrada,
Vale a sua cantoria!

Maria Alberta Menéres
100 Histórias de todos os tempos
Porto, Ed. Asa, 2003

Concerto por Josué Nunes (Música nas Igrejas- Ermida de Santa Ana)

Música nas Igrejas-  Ermida de Santa Ana
14 de Julho de 2012, às 19:00 h

JOSUÉ NUNES - GUITARRA
 
J.S.Bach (1685-1750)
Suite BWV 996
Passagio e Presto
Allemande
Courante
Sarabande
Bourré
Gigue

Roland Dyens(1955-  )
Três Saudades
                 Saudade nº 1                     
                 Saudade nº 2                     
                    Saudade nº 3                       
   Tango En Skai         

Direcção Artistica - Academia de Música de Tavira
Apoio - Câmara Municipal de Tavira

Rua João Vaz Corte Real nº 20 8800-441 Tavira
Tele: 281322436

sexta-feira, 29 de junho de 2012

São Pedro

Pedro (século I a.C., Betsaida, Galileia — cerca de 67 d.C., Roma) foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, como está escrito no Novo Testamento e, mais especificamente, nos quatro Evangelhos. Os católicos consideram Pedro como o primeiro Bispo de Roma, sendo por isso o primeiro Papa da Igreja Católica.

São Pedro, o Apóstolo e o pescador do lago de Genezareth, cativa seus devotos pela história pessoal. Homem de origem humilde, foi Apóstolo de Cristo e depois encarregado de fundar a Igreja Católica, tendo sido o seu primeiro Papa.
Depois da sua morte, São Pedro, segundo a tradição católica, foi nomeado chaveiro do Céu. Assim, para entrar no paraíso, é necessário que o santo abra as suas portas. Também lhe é atribuída a responsabilidade de fazer chover. Quando começa a trovejar, e as crianças choram com medo, é costume acalmá-las, dizendo: "É a barriga de São Pedro que está a roncar" ou "o São Pedro está a mudar os móveis de lugar".
Tal como São João e Santo António, São Pedro é um santo popular e a data é celebrada no mês dos santos populares – Junho.
 
Em Portugal o Dia de São Pedro comemora-se a 29 de Junho e a tradição manda que a população festeje a data decorando as ruas com várias cores e manjericos. Bailes e marchas populares são organizadas nas ruas e a música está sempre presente.
 
Na gastronomia, a sardinha assada, o pimento, broa, caldo verde e vinho são os elementos principais da festa.
 
Algumas cidades celebram o feriado municipal no dia de São Pedro como por exemplo, Póvoa de Varzim, Sintra e Bombarral.
Também considerado o protector das viúvas e dos pescadores, o Dia de São Pedro é festejado no Brasil, no dia 29 de Junho, com a realização de grandes procissões marítimas em sua homenagem.
 
Em terra, os fogos e o pau-de-sebo são as principais atracções festivas.
No dia de São Pedro, todos os que receberam o seu nome devem acender fogueiras à porta das suas casas. Além disso, se alguém atar uma fita ao braço de alguém chamado Pedro, ele tem a obrigação de dar um presente ou pagar uma bebida àquele que o amarrou, em homenagem ao santo.
 
Fonte e mais informação

domingo, 24 de junho de 2012

São João Baptista


João Batista (AO 1945: Baptista) (Judeia, 2 a.C. - 27 d.C.) foi um pregador judeu, do início do século I, citado pelo historiador Flávio Josefo e os autores dos quatro Evangelhos da Bíblia.

João Batista nasceu na cidade de Judá, quando os pais, Zacarias e Isabel, já eram idosos. Ele era um filho muito desejado, uma vez que Isabel era estéril e Zacarias, mudo. Ambos eram de estirpe sacerdotal. Isabel haveria de dar à luz um menino, cujo nome significaria "Deus é propício". Assim foi avisado Zacarias pelo Anjo Gabriel que o visitou anunciando a chegada do tão esperado herdeiro.

Segundo a narração do Evangelho de São Lucas, João Baptista era filho do sacerdote Zacarias e Isabel (ou Elizabete), prima de Maria, mãe de Jesus. Foi profeta e considerado pelos cristãos como o precursor do prometido Messias, Jesus Cristo. Baptizou muitos judeus, incluindo Jesus, no rio Jordão, e introduziu o baptismo de gentios nos rituais de conversão judaicos, que mais tarde foram adoptados pelo cristianismo.

No ano 27, João apareceu como profeta e quando iniciou a sua pregação muitos chegaram a acreditar que ele era o próprio Messias. Vestia-se como os sábios eremitas essênios da época, os quais usavam uma túnica grosseira feita de pele de camelo atada a um cinto de couro (representação da liberdade, da escolha do destino de cada um), e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Para que se salvassem do pecado, as pessoas recebiam, por intermédio desse profeta, a ablução nas águas do rio Jordão (acto comum entre os essênios), prática chamada de baptismo, razão por que passou ele a ser conhecido como João Baptista.

Fazia os seus sermões e muitos eram aqueles que o ouviam e o acompanhavam. Afirmava que o Reino de Deus estava próximo, baptizava todos os que queriam e pedia que repartissem os seus alimentos e roupas com os mais pobres. Chegou a baptizar o próprio Cristo, embora se achasse indigno até mesmo de lhe desatar as sandálias.

Foi depois do baptismo que Jesus entendeu que começava então sua verdadeira missão. Passados de alguns meses, João foi preso mas, mesmo no cárcere, acompanhava os trabalhos de Jesus, fazendo perguntas por intermédio de mensageiros (Lucas 7, 19-29).

Morreu degolado sob o governo do rei Herodes, por defender a moralidade e os bons costumes, por isso é reconhecido nos dias de hoje como um dos Santos mais populares em todo o mundo cristão. O dia 24 de Junho foi consagrado a S. João pois crê-se que ele nasceu nesta data.

São João é o santo que mais se festeja na Europa, sendo também o padroeiro de muitas terras em Portugal e no Brasil.

Há inúmeras tradições associadas às festas de S. João que variam de terra para terra, de região para região, havendo mesmo quem considere que a noite de S. João é uma noite mágica, propícia a milagres e adivinhações. Enfim, o imaginário à volta da figura deste santo é riquíssimo e variado.

Fonte e mais informação

São João no Porto

Se Santo António é o santo de Lisboa, São João é, sem sombra de dúvida, o mais popular santo em Portugal. No Porto, na noite de 23 para 24 de Junho, toda a cidade perde a cabeça em homenagem a São João Baptista, também designado por São João Degolado. Na origem do seu martírio esteve uma mulher - Salomé.

S. João do Porto, eremita natural do Porto, (séc. IX), viveu a sua vida eremítica na região de Tuy, em frente a Valença, tendo sido sepultado em Tuy. No séc. XVII ainda aí se conservavam as suas relíquias, de grande veneração entre os fiéis, que acreditavam que S. João os salvaria das febres. Diz a tradição, que a cabeça de S. João do Porto, foi trazida pela Rainha Mafalda no séc. XII, para a Igreja de São Salvador da Gandra e que parte dessa relíquia teria sido levada para a capela da " Santa Cabeça ", na Igreja de N ª Sra. Da Consolação, na Cidade do Porto. O facto da sua festa se ter celebrado a 24 de Junho talvez explique o facto de ter o seu culto sido absorvido pelo de S. João Baptista, cujo nascimento ocorreu no mesmo dia 24 de Junho e a que o povo dedicou através dos tempos forte devoção e grandes festas, mantendo-se ainda hoje muito viva a tradição das fogueiras de S. João de origem muito antiga, ao mesmo tempo que substituíam as festas pagãs do solstício.

Festas de forte caris popular, o S. João do Porto é uma festa que nasce espontaneamente, nada se encontra combinado, embora a festa se vá preparando discretamente durante o dia, é normalmente depois do jantar, constituído por sardinhas assadas, batatas cozidas e pimentos ou entrecosto e fêveras de porco na brasa, acompanhadas de óptimas saladas, jantar obviamente regado com vinho verde ou cerveja, mais modernamente. Findo o jantar, os grupos de amigos começam a encontrar-se, organizando rusgas de S. João, como são chamadas.

As pessoas muniam-se de alhos-porros e molhos de cidreira, actualmente as armas, são outras, mudaram para martelos de plástico, duros e ruidosos, mas que acabaram por ser bem aceites e hoje já fazem parte da tradição, Há alguns anos atrás, o S. João limitava-se a uma área da cidade que era constituída, pelas Fontainhas (Ponto nevrálgico), R. Alexandre Herculano, Praça da Batalha, R. Santa Catarina, R. Formosa ou R. Fernandes Tomás, R. de Sá da Bandeira, R. Passos Manuel, Praça da Liberdade, Av. dos Aliados, R. dos Clérigos, Praça de Lisboa, e no retorno, subindo-se a R. de S. António, estava praticamente concluído o percurso obrigatório.

A par deste percurso, que juntava para cima de meio milhão de pessoas, que tornavam as ruas pejadas de gente, e onde não há atropelos, as zaragatas são de imediato sustidas pelos populares, os beligerantes rapidamente selam a paz com mais um copo e uma pancada de alho-porro de amizade.

O S. João do Porto é uma festa onde ricos e pobres convivem uma noite de inteira fraternidade e onde a festa é constante. Nos bairros, a festa continua e as comissões organizadoras de cada uma mantém o baile animado até altas horas da madrugada. No tempo áureo do alho-porro quem chegasse ao Porto vindo de fora, estranharia o odor espalhado pela cidade...efectivamente ela cheirava a alho.

Nos dias de hoje, o S. João espalhou-se pela cidade, além do seu palco tradicional, estendeu-se até a Ribeira, às Praias da Foz, à Boavista e por aí fora. Vai as discotecas, aos pubs e bons restaurantes. Tornou-se mais cosmopolita e em alguns casos mais selectivo. Modernizou-se, sofisticou-se e de certa forma, acompanhou os tempos, até penso que se tornou mais jovem.

Mas muita da tradição ainda se mantém: Em barracas ou espalhados pelo chão lá estão os manjericos (Planta tradicional do S. João), as tendas das fogaças, as farturas, o algodão doce, as pipocas, as barracas da sardinha assada e dos comes e bebes. Os matraquilhos, os carrosséis, as pistas dos carros. As tendas de venda das louças de barro, das cutelarias, o tiro-ao-alvo e as tômbolas.

Durante toda a noite, centenas de balões são lançados e muito fogo-de-artifício particular é queimado, pela meia-noite o tradicional fogo-de-artifício da Câmara Municipal, faz sempre furor pela sua beleza. No fim e já alta madrugada é ver os foliões procurarem as padarias onde o pão acabado de fazer e ainda quentinho vai confortar as barrigas para um merecido descanso.

A História de um Feriado
(Texto original, publicado na Revista Ponto de Encontro de Julho de 2001)

Os festejos de S. João na cidade do Porto são já seculares e a origem desta tradição cristã remonta mesmo a tempos milenares. Mas foi só no século XX que o 24 de Junho passou a ser feriado municipal na Invicta, proporcionando um merecido dia de folia a milhares de tripeiros. E tudo graças a um decreto republicano e a um referendo aos portuenses, promovido pelo Jornal de Notícias.

A história é curiosa e mostra o protagonismo que, já na altura, a Comunicação Social tinha no modus vivendi urbano. Estávamos em Janeiro de 1911 e a República Portuguesa dava os primeiros passos. A monarquia tinha sido destronada apenas três meses antes, com a revolução de 5 de Outubro de 1910.

O Governo Provisório da República assumia a governação do país e, desde logo, começava a introduzir mudanças na sociedade portuguesa que espelhavam, muito naturalmente, os ideais da nova ordem republicana. Numa tentativa de implementar a nova ordem junto da população, o Governo Provisório redefiniu os dias feriados em Portugal.

Por decreto, a República instituiu como feriados nacionais o 31 de Janeiro (primeira tentativa - falhada - de revolução republicana, em 1891, no Porto), o 5 de Outubro (instauração da República) e o 1º de Dezembro (restauração da independência em 1640), para além do Natal e do Ano Novo. Mas o mesmo decreto impunha, a cada município do país, a escolha de um dia feriado próprio: "As câmaras ou commissões municipaes e entidades que exercem commissões de administração municipal, proporão um dia em cada anno para ser considerado feriado, dentro da area dos respectivos concelhos ou circumscripções, escolhendo-os d'entre os que representem factos tradicionaes e característicos do município ou circumscripção".

E foi com este propósito que a Comissão Administrativa do Município do Porto reuniu a 19 de Janeiro de 1911. Segundo o relato do Jornal de Notícias, o "velho e conceituado republicano, sr. Henrique Pereira d'Oliveira" logo sugeriu a data de 24 de Junho para feriado municipal. O facto não causa espanto. Afinal de contas, o S. João era, já na altura, uma festa com longa tradição na cidade do Porto.

A primeira alusão aos festejos populares data já do século XIV, pela mão do famoso cronista do reino, Fernão Lopes. Em 1851, os jornais relatavam a presença de cerca de 25 mil pessoas nos festejos sanjoaninos entre os Clérigos e a Rua de Santo António e, em 1910, um concurso hípico integrado nos festejos motivou a presença do infante D. Afonso, tio do rei (a revolução republicana apenas se daria em Outubro).

Referendo popular
Contudo, a sugestão de Henrique d'Oliveira de eleger o S. João como feriado municipal da Invicta foi contestada por outros membros da Comissão Administrativa do Município do Porto, que mostraram opiniões diversas. Foi então que "o sr. dr. Souza Junior lembrou, inspirado n'um alto princípio democrático, que não devia a Commissão deliberar nada sem que o povo do Porto, por qualquer forma, se pronunciasse em tal assumpto".

Para solucionar o imbróglio, o Jornal de Notícias dispôs-se a organizar um surpreendente referendo popular para escolher o feriado municipal. Logo no dia 21 de Janeiro, somente dois dias após a reunião da Comissão Administrativa, foi colocado na primeira página do jornal o anúncio da "Consulta ao Povo do Porto", explicando toda a situação e a forma de participação. As pessoas teriam que enviar, até ao dia 2 de Fevereiro, "um bilhete postal ou meia folha de papel dentro de enveloppe" para a redacção do jornal, com a indicação do dia de sua preferência. E, para recompensar o trabalho dos leitores, o Jornal de Notícias oferecia "dez valiosos premios" - o mais valioso era de 10 mil réis, cerca de cem escudos - a serem sorteados de entre todos aqueles que votassem no dia eleito.

Nos dias seguintes, o Jornal de Notícias fez o relato diário da emocionante votação. A vitória foi quase só discutida entre o dia de S. João, já com larga tradição na cidade, e o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, a que não será alheio o facto de a cidade do Porto ser considerada "a capital do trabalho".

No dia 22 de Janeiro já se davam conta dos primeiros resultados: "a votação de hontem, que foi grande, dá maioria ao 1 de Maio, seguido pelo 24 de Junho (S. João) e N. S. Conceição [8 de Dezembro] ". No dia 24 - o Jornal de Notícias não foi publicado no dia 23, segunda-feira, porque o matutino encerrava ao domingo! -, deu-se uma reviravolta nos resultados: o 24 de Junho trocava de lugar com o 1º de Maio, ficando na posição de mais votado. Porém, a 25, num dia em que "a votação cresceu imenso", o 1º de Maio quase passava novamente para a liderança da votação.

Mas foi no dia 26 de Janeiro que o resultado da votação começou a ficar definido, ao que muito se deve a forte participação popular do dia anterior, como relata o Jornal de Notícias desse dia: "Só hontem vieram tantos votos como em todos os dias anteriores. O dia de S. João tem enorme maioria. O dia 1 de Maio já está muito em baixo". E, a 27, o próprio jornal já dava como certo o vencedor: "Positivamente o dia mais votado é o de S. João. O dia 1 de Maio fica muito para trás. Augmenta bastante o de N. S. Conceição". Durante os dias seguintes foram publicados os resultados provisórios diários, sem que tivesse havido alterações de maior no sentido de voto dos portuenses.

Até que, a 4 de Fevereiro de 1911, foram publicados os totais finais da consulta popular: o dia 24 de Junho foi o mais votado, com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com 3075 votos, o dia de Nossa Senhora da Conceição, com 1975 votos, e o dia 9 de Julho, com oito. "Ficou, pois, vencedor o dia de S. João que é aquele que o povo do Porto escolhe para ser o de feriado municipal".

Só não se sabe se o vencedor do sorteio chegou a receber os seus 100 escudos, pois registada só ficou a promessa de que "o sorteio dos 10 prémios a que esta consulta dá lugar far-se-á em um dos próximos dias"...

Texto originalmente publicado na revista "Porto de Encontro", Julho de 2001.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Verão

 
O verão começou agora!
Em 2012 o solstício de verão ocorre no dia 21 de junho às 0h09m. Este instante marca o início do verão no hemisfério norte, estação mais quente do ano. Esta estação prolonga-se por 93,65 dias até ao próximo equinócio que ocorre no dia 22 de setembro de 2012 às 15h49m.
Os instantes estão referenciados à hora legal.
 
Solstícios: pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de verão e mínima no solstício de inverno. A palavra de origem latina (Solstitium) está associada à ideia de que o Sol devia estar estacionário, ao atingir a sua mais alta ou mais baixa posição no céu.
 
O verão do hemisfério norte é chamado de "verão boreal", e o do hemisfério sul é chamado de "verão austral". O "verão boreal" tem início com o solstício de verão do hemisfério norte, que acontece cerca de 21 de junho, e termina com o equinócio de outono nesse mesmo hemisfério, por volta de 23 de setembro. O "verão austral" tem início com o solstício de verão do hemisfério sul, que acontece cerca de 21 de dezembro, e finda com o equinócio de outono, por volta de 20 de março nesse mesmo hemisfério.
 
O verão é uma das quatro estações do ano. Neste período, as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. Geralmente, o verão é também o período do ano reservado às férias. O período das férias de verão ou o período em que uma pessoa passa fora de sua casa, geralmente em uma casa de praia, no verão, é conhecido como veraneio.
 
Nos tempos primitivos, era comum dividir o ano em cinco estações, sendo o verão dividido em duas partes: o verão propriamente dito, de tempo quente e chuvoso (geralmente começava no fim da primavera), e o estio, de tempo quente e seco palavra da qual deriva o termo "estiagem". Atualmente usa-se o termo "estio" para um período de seca e também como um sinónimo para verão.
Fonte e mais informação

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do hotel para um campo de refugiados: a nova vida de um sabonete

A propósito do Dia Mundial do Refugiado, dia 20 de Junho
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— Já lavaste as mãos?
— Lavaste as mãos antes de começar a comer?
— Lavaste as mãos quando vieste da escola?
— E não te esqueças de usar o sabonete!
Quantas vezes não ouvimos as nossas mães repetirem estas frases vezes sem conta?
Chegámos até a odiar o sabonete, que nos atrasava para o lanche, com aquele bolo de que tanto gostávamos, ou nos fazia perder tempo quando, ansiosos, só queríamos pegar no pão e começar a ler o livro que tínhamos trazido da biblioteca ou que um colega nos emprestara. Ou que nos picava nos olhos quando a mãe, zangada por não lavarmos a cara, no-la segurava com firmeza e, com gestos decididos, nos esfregava a cara, as orelhas, e o pescoço com o sabonete e a toalha molhada.
Mais tarde, era o cheiro do sabonete que nos fazia lembrar os ralhos da mãe, o lanche engolido à pressa nas tardes solarengas para não interromper demasiado tempo do jogo de futebol com os amigos. Para não falar no cheiro da mãe, da avó, da tia que nos visitava sempre pela Páscoa. E o cheiro a lavado, depois do banho? E quem não se lembra dos que eram guardados nas gavetas e que perfumavam os lençóis e a roupa interior?
O sabonete, odiado e amado, entrou de tal forma no nosso quotidiano que passou a banal, e do qual quase nem nos apercebemos. O ato de lavar as mãos está automatizado: abrir a torneira, molhar o sabonete, esfregar, secar. Já nem sabemos porque lavamos as mãos.
Mas… será assim em todo o mundo? Infelizmente, não é. Nos países menos desenvolvidos, o sabonete é um bem de luxo e o ato de lavar as mãos, que pode salvar tantas vidas, principalmente de crianças, não está ao alcance de todos.
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O ato de lavar as mãos, que até teve direito a dia mundial, 15 de Outubro, pode salvar a vida de milhares de crianças e adultos. Em países menos desenvolvidos de África, Ásia e América Latina, onde nem toda a gente tem acesso a sabão, a taxa de mortalidade por diarreia, febre tifoide, cólera, infeções respiratórias é elevadíssima. Em situações de catástrofes naturais ou em campos de refugiados, onde as condições de higiene são deficientes, as condições para a propagação de vírus aumenta perigosamente. Inacreditavelmente, a lavagem das mãos antes da preparação e ingestão de alimentos, após o uso dos sanitários, e, muito importante, durante o parto, reduz significativamente a taxa de mortalidade e a propagação dos vírus.
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Que o diga Derreck Kayongo, que, pela janela do jipe, vai olhando a paisagem do Quénia que desliza à sua volta. Nascido no Uganda e com uma infância agitada, é com emoção que acompanha pessoalmente a entrega de uma carga peculiar. O seu e os jipes que o seguem estão carregados com cinco mil barras de sabonete que irão ser entregues em diversos orfanatos e organizações não-governamentais que trabalham com refugiados. Sabonete que provavelmente vai salvar da morte centenas de pessoas.
Derreck mal pode esperar pela primeira paragem. A cabeça começa a encher-se de recordações da infância e os olhos de lágrimas. Uma vida e uma infância estável no Uganda abruptamente interrompida pela tomada de poder do ditador Idi Amim e o começo da guerra com a Tanzânia, que obrigou a família a refugiar-se no Quénia durante alguns anos. Primeiro a mãe e as irmãs e, cerca de um ano mais tarde, o resto da família abandona a casa e o país. Foi o início de uma vida difícil. Um novo país, novos costumes, uma nova língua. Derreck, que até ali só conhecia as preocupações típicas de uma criança saudável, deparou-se repentinamente com uma realidade assustadora: a de milhares de pessoas que não têm nada, des de casa, comida, sabão para tomar banho. A sua família era mais uma das centenas de refugiados.
Nestas circunstâncias, as condições de higiene têm um papel fundamental. Dadas as condições de vida, a má nutrição e a falta de higiene, as epidemias e as doenças propagam-se facilmente e a morte é inevitável. Conscientes disso, cada sabonete recebido pela família era religiosamente guardado após ser utilizado.
Derreck não esquece a tristeza que sentiu quando soube que o seu amigo Balondemu tinha morrido. Na sua cabeça ressoam as lágrimas silenciosas das mães que viam os filhos morrer de cólera ou febre tifoide. A mãe dele obrigava os filhos a lavar as mãos com frequência, mas nem todas as pessoas podiam fazê-lo e nem todas sabiam que aquele gesto podia salvá-las. Aluno aplicado, teve a sorte de ter acesso à escolaridade. Quando terminou a universidade no Quénia partiu para os Estados Unidos da América, onde a primeira noite contribuiu decididamente para fortalecer a sua vontade de ajudar a lutar contra a pobreza.
No quarto do hotel deparou com três sabonetes: um para a cara, outro para as mãos, e um último para o corpo. Perplexo, Derreck desembrulhou o primeiro e cheirou-o. Resolveu guardar os outros na bagagem. No dia seguinte, ao voltar ao quarto, encontrou mais três sabonetes, que rapidamente se juntaram aos que estavam na mala. E assim sucessivamente. Ao fim de alguns dias, com a consciência pesada, desceu à receção.
— Venho devolver os sabonetes. Lamento, mas não tenho dinheiro para os pagar.
— Não se preocupe — tranquilizou-o o rececionista. — Todos os hóspedes têm direito a três sabonetes por dia. E podem levá-los para casa. Aliás, é o que muitos fazem.
Derreck não podia crer no que estava a ouvir.
— E… o que fazem aos que sobram? — perguntou atónito.
— Por razões de higiene vão para o lixo.
Ficou perplexo. Como era possível deitar fora uma preciosidade daquelas?
De volta ao quarto, pegou num pequeno sabonete e ficou a pensar nas duas realidades tão distintas que acabava de confrontar: no Uganda, onde havia um sabonete por casa, e que era usado por todos, até pelas visitas. Isso, quando havia possibilidades financeiras para o comprar. Num país onde os salários são tão baixos, o preço do sabonete era elevado e, comprá-lo, um luxo, que podia muito bem ser adiado. E ali estava ele num país onde havia mais do que um sabonete por pessoa, até para as diferentes partes do corpo, que ia para o lixo no dia seguinte. Os números começaram a galopar na sua cabeça. Quantos sabonetes eram desperdiçados ao fim do dia? Só naquele hotel? E em todos os hotéis dos EUA… da Europa… do mundo?
Lembrou-se de todas as crianças que conheceu enquanto viveu no Quénia e de muitas outras que viviam nas mesmas condições e cujas vidas podiam ser salvas se tivessem um sabonete na mão. Aquele resto de sabonete. De repente, uma cadeia de palavras apareceu-lhe em mente: Hotel-sabonete-higiene-refugiados. Telefonou ao pai para lhe contar o que acabara de acontecer. E foi com a ajuda deste que começou o seu projeto Global Soap Project, iniciado anos mais tarde, em 2009, e que o levava agora naquela viagem de regresso ao Quénia.
A ideia de Derreck fora reutilizar os restos de sabonetes que só são usado uma vez, e simplesmente derretê-los, esterilizá-los, convertê-los numa nova barra e fazê-los chegar às populações necessitadas – sem custos para estas.
Começou por apresentar a sua ideia aos hotéis, o que levou meses. Foram raras as recusas. Usando os conhecimentos do pai, que trabalhou numa fábrica de sabão no Uganda, começou por fazer este trabalho na cave da sua casa, em Atlanta. Comprou uma pequena máquina de fazer sabão, e com a ajuda da família, depois de separados por proveniência, os sabonetes eram lavados para retirar as impurezas, derretidos e transformados em novas barras.
Pouco a pouco, o projeto foi crescendo e ganhando dimensão. A cave tornou-se demasiado pequena para tanto trabalho. E o número de doadores e de voluntários foi também aumentando.
Derreck consegue fazer chegar os seus sabonetes onde eles são precisos, contactando diretamente as instituições no terreno; da Ásia à América Latina, passando por África, já distribuiu mais de cem mil sabonetes em mais de dez países. Quando saiu o primeiro carregamento para o Quénia, Derreck fez questão de acompanhá-lo pessoalmente. Quer ser ele a entregar os sabonetes às crianças que vivem como ele viveu.
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— Derreck, estamos quase a chegar.
O motorista arranca-o das suas recordações.
— Preparado?
Derreck há muito que sonha com este momento mas nunca conseguiu preparar-se realmente. A emoção de voltar àquele país que o acolheu durante a guerra, de ver as crianças sorridentes que os esperam e de saber que vão beneficiar com aquela carga, fez com que chorasse o caminho todo.
E ali estava ele, a distribuir sabonetes; a distribuir vida e esperança àquelas crianças que agradecem com um sorriso radiante, assim que desenterram o nariz da barra branca de sabonete que lhes foi depositada nas mãos. Depois pedem-lhe que lhes conte a história dos sabonetes. Já a contou milhares de vezes mas nunca se cansa. Ele, que foi uma daquelas crianças, teve uma ideia e concretizou-a. Graças ao seu passado, que não quis esquecer, e à sua determinação.
Por vezes, são as coisas mais simples, aquelas a que raramente damos valor, que podem fazer a diferença. Como no caso de um banal sabonete usado que ia para o lixo.
I. Birnbaum
A partir de: http://www.globalsoap.org
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias