quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vergonha


Uma tarde de Primavera. O largo da estação do comboio. Um grupo de homens a beber cerveja em frente de um quiosque. Não há mais ninguém. Um homem desce de um autocarro. Tem uma mala na mão, passa pelos outros homens e entra no edifício da estação. O átrio está quase vazio.
O funcionário encontra-se na bilheteira.
— Um bilhete para o aeroporto de Frankfurt, por favor.
— Ida e volta?
— Não, só ida.
— Tem cartão de desconto?
— Sim, para a segunda classe.
— Nove euros e vinte.
O homem desliza uma nota de dez euros para a caixa que se encontra por baixo do vidro. O empregado imprime o bilhete e entrega-o através da caixa, juntamente com os oitenta cêntimos de troco. O homem recolhe o bilhete e o dinheiro. Procura o painel de informações electrónico e vê que o comboio para Frankfurt é um dos próximos a chegar. Vai parar no cais número três. Desce as escadas onde está sentado um grupo de jovens. Também há alguns cães. Uma rapariga levanta-se e dirige-se a ele:
— Tens uma moeda?
O homem, que ainda leva o troco na mão, entrega-o à rapariga.
— Obrigada.
O homem segue então pela passagem subterrânea e sobe as escadas para a plataforma número três. O cais onde se encontra está praticamente vazio, assim como o cais em frente. Os quiosques estão fechados, não se vêem funcionários da estação, apenas alguns passageiros andam por ali, sozinhos. O altifalante anuncia a passagem de um alfa pendular. No mesmo instante, passa uma seta prateada. Por alguns segundos toda a estação da pequena cidade estremece. O homem percorre a plataforma de uma ponta à outra. Depois, o altifalante anuncia a entrada do inter-regional de Stralsund para Frankfurt. O comboio chega. Uma porta abre-se diante do homem. Desce uma senhora com uma expressão indignada que exclama:
— Parece impossível! Que vergonha!
O cobrador desce pela porta do vagão-restaurante, que se encontra entre a 1ª e a 2ª classe. Dirige-se ao homem e pergunta-lhe:
— Tem bilhete para a 1ª classe?
— Não, para a 2ª.
— Então, suba lá mesmo no fim, por favor.
— Como?
— Sim, lá ao fundo. Vá depressa para a última carruagem.
— Mas porquê?
— Acredite que é melhor para si.
— Mas não vou conseguir chegar a tempo.
— Vai, sim, nós esperamos. Aqui à frente já não há lugar.
— Muito bem. Obrigado pelo conselho — responde o homem.
Puxa os rodízios da mala e corre para a última carruagem, arrastando a mala atrás de si. Os outros passageiros já subiram. Volta a encontrar a senhora que, ao chegar ao cimo das escadas e ao reparar no homem, repete novamente:
— É uma vergonha! Uma autêntica vergonha!
A senhora faz sinal na direcção do comboio. O homem olha e vê, atrás da janela da carruagem, um grupo de skinheads. Uns estão sentados, os restantes encostados à janela. Alguns têm latas de cerveja na mão. Um skinhead, a rir-se, aponta para o homem. Um segundo tenta abrir a janela, mas não consegue. Cospe, com raiva, contra o vidro, na direcção do homem e da senhora, e o cuspo fica a deslizar.
— No seu lugar, não apanhava esse comboio.
— Mas então, perco o meu voo? — diz o homem.
Olha indeciso para a carruagem. A senhora meneia a cabeça, pega na mala e desce as escadas. Ouve o comboio pôr-se em andamento e diz para si, a meia voz:
— Quem semeia ventos…

Karlhans Frank (org.)
Menschen sind Menschen. Überal.
München, C. Bertelsmann Verlag, 2002
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

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