sexta-feira, 15 de abril de 2011

Brincar às guerras


― Está muito calor para jogar basquete. Vamos fazer outra coisa ― sugeriu Luke.
Os amigos sentaram-se à sombra do salgueiro a decidir o que fazer.
― Tens mais balões de água? ― perguntou Danny.
― Não ― respondeu Luke. ― Quem me dera ter.
― Podemos jogar jogos de vídeo ― sugeriu Sameer, com um sorriso rápido.
― Não, não podemos ― disse Luke. ― A minha mãe disse que tínhamos de brincar ao ar livre.
― Já sei! ― exclamou Jeff. ― Vamos brincar às guerras!
Luke levantou-se logo.
― Que óptima ideia! ― concordou.
― E se fôssemos andar de bicicleta? ― sugeriu Jen.
― Não, nem pensar ― atalhou logo Jeff. ― A guerra é melhor! Há muito que não brincamos.
E Luke acrescentou:
― Podemos esconder-nos e fazer uma emboscada. Jen, tu és boa a atirar granadas.
Jen sorriu. Luke pegou num pau e traçou uma linha no chão poeirento. De um lado escreveu um grande S e do outro desenhou um I.
― Temos de nos dividir em duas equipas, Soldados e Inimigos.
Depois tirou o boné e pô-lo no meio da linha.
Jen explicou as regras a Sameer:
― Todos temos de pôr alguma coisa dentro do chapéu. Depois despejamo-lo em cima da linha e vemos quem faz de Soldado e quem faz de Inimigo, conforme o sítio onde os objectos caem. Vais ver que o Luke põe a sua placa de identificação militar. Faz sempre isso.
― O que é uma placa de identificação militar? ― perguntou Sameer.
Sameer tinha vindo de um outro país para viver com os tios. Tinha aprendido a jogar basquetebol bem depressa, mas não sabia brincar às guerras. Luke mostrou-lhe uma placa de metal brilhante que tinha ao pescoço.
― É isto. Era do meu tio. Ele já esteve numa guerra a sério e, quando voltou, deu-ma. Os soldados andam sempre com ela. É muito importante.
 Sameer esfregou a placa brilhante com os dedos.
― Não tenho uma igual ― disse.
― Não faz mal. Ninguém tem ― consolou-o Luke. ― Podes pôr outra coisa qualquer no chapéu. A Jen vai colocar uma pedra e o Danny põe um cromo de basebol.
Sameer remexeu no bolso e tirou de lá um pião.
― Posso usar isto?
― O que é isso? ― perguntou Danny.
― É um pião ― respondeu Sameer. ― Vocês não têm disto aqui?
 Tirou um cordel do bolso e continuou:
― Lá no meu país havia muitos.
De repente, o pião rolou aos pés deles. Sameer atirou-o ao ar, apanhou-o a girar e colocou-o no boné de Luke.
― Que espectáculo! ― disse este.
Depois virou o boné com um gesto rápido e anunciou:
― Os Soldados são Danny, Jen e Jeff. Os Inimigos são o Sameer e eu.
Antes mesmo de os outros se terem mexido, Luke correu pela encosta abaixo, gritando:
― Os Inimigos vão para o pinhal. Os Soldados ficam aqui.
Jen queixou-se:
― Não é justo começar a guerra antes de estarmos prontos!
― Como nos preparamos para uma guerra? ― perguntou Sameer, logo que chegaram às árvores.
― Apanha paus para fazerem de armas e pinhas para fazerem de bombas e granadas. Temos de ter um plano de ataque.
Dentro de alguns minutos, o boné de Luke estava cheio de pinhas. Sameer só tinha uma.
― Só tens uma? ― admirou-se Luke.
― Acho que chega.
― Talvez para ti. Quanto a mim, tenciono arrancar-lhes a cabeça!
Sameer deu a sua pinha a Luke e disse:
― Lembrei-me agora de que tenho de ir cedo para casa.
Virou costas e deixou o amigo ali especado.
― Espera! ― gritou Luke. ― Não posso ser o único Inimigo! São muitos contra um!
Mas Sameer já tinha desaparecido.

Quando os miúdos se juntaram de novo na manhã seguinte, o plano de Luke estava pronto. Tinha apanhado montes de pinhas atrás de casa e tinha-as escondido no pátio. Estava ansioso por começar. Comentou para Sameer:
― Quem me dera que houvesse uma guerra para miúdos. Uma guerra a sério.
― E há ― disse o amigo, em voz baixa.
― O quê? Onde? ― quis saber Luke.
― No meu país.
Sameer pegou numa bola de basquete, driblou e encestou.
― No sítio onde vivias? ― perguntou Luke.
― Sim, perto da minha casa verdadeira, antes de vir viver com o meu tio Mustafa. Até participei nela.
― Nela o quê?
― Na guerra.
― Estás a brincar! Nunca nos contaste nada. Tinham meninos-soldados e metralhadoras?
Sameer deixou cair a bola e sentou-se junto de Jen. Embora tivessem brincado bastante juntos este Verão, nenhum deles sabia muito sobre o outro.
― Não gosto de falar sobre isso ― confessou Sameer. ― Eu não era soldado. Ninguém na minha família era. Entrámos na guerra porque fizeram a nossa casa ir pelos ares.
― Quem fez? ― perguntou Jeff.
― Não sabemos. Havia muitos tiros a serem disparados de ambos os lados.
O menino pegara, entretanto, no pião, e começara a enrolar o cordel em torno dele.
― Os meus pais e o meu irmão estavam em casa quando morreram. Como eu estava na escola, salvei-me e vim viver com o meu tio Mustafa.
― Mas, porque atacaram a tua família? ― sussurrou Jen.
― Foi um engano. Não planeavam atacar-nos. O meu tio disse que os morteiros deviam ter atingido outras casas.
Todos olharam para ele. Ninguém sabia o que dizer. Sameer falava de algo que eles nem imaginavam que existisse.
― Foi um erro terrível ― disse Luke, por fim.
Sameer concordou com a cabeça.
― Quem me dera que nunca tivesse acontecido.
Ao ouvir a história de Sameer, Luke teve vontade de chorar. Por momentos, ficou apenas a olhar para o pião do amigo. Depois, foi até à linha divisória que traçara no chão e apagou as letras S e I, bem como a própria linha.
― Não vamos jogar mais? ― quis saber Danny.
― Vamos ― respondeu Luke, pondo o braço em torno de Sameer. ― Vamos jogar basquete.
Depois olhou para os amigos e disse:
― Está muito calor para guerras.

Kathy Beckwith
Playing War
Maine, Tilbury House, 2005
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

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