quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A aldeia das flores

O professor Miranda
A aldeia das Flores, apesar de não ser grande e de a maior parte das casas serem velhas, feitas em grandes pedras sobrepostas e enegrecidas pelo tempo, era muito conhecida.
Ninguém sabia explicar a razão da aldeia se chamar das Flores.
Talvez fosse por ter muitas árvores, umas velhas e já frondosas, outras novas e ainda pequenas, mas todas floridas na primavera, com flores de várias cores e vários tamanhos. Ou, quem sabe, por a maior parte das casas terem vaso s, às vezes, panelas de ferro já velhas, ao pé das portas e das janelas. Ninguém sabia explicar. Mas uma coisa era certa: desde sempre, do tempo das pessoas mais velhinhas, aquela terra de sol, mas também de muita neve, se chamou a aldeia das Flores.
A escola primária da aldeia ficava na Bouça das Giestas. A toda a volta havia canteiros para as flores. A rapaziada não se cansava de plantar bolbos, semear, mondar, regar. Tinham gosto em fazer aquele trabalho, não fossem habi tantes da terra das Flores! Quem ensinava na escola era a Da Maria, uma senhora um pouco gorda, que de ano para ano foi ficando mais idosa, lentamente, quase sem ninguém notar. Foram muitos os anos, mais de trinta, em que a Da Maria ensinou naquela escola. Uma escola velhinha, onde todas as carteiras eram remendadas.
Mas um dia, a senhora já de cabelos brancos como neve, anunciou com voz fraca:
No próximo ano, já não serei a professora desta escola... Estou cansada, estou velha... O Estado deu-me a reforma...
E assim foi. Com uma lágrima, com muitas lágrimas, a Da Maria despediu-se daquela casa velha, com pouca luz, onde ensinara meninos durante mais de trinta anos.
Alguns desses meninos cresceram e já estão casados e com filhos. A Da Maria costumava dizer, quando os seus alunos lhe iam mostrar um bebé agarrado à chupeta:
Ai, estou velha!...
Não diga isso, Da Maria!
Mas ela bem sabia que lhe diziam aquelas palavras para serem amáveis. Sentia-se envelhecer. Foi a Da Maria para sua casa. Toda a gente dizia que era difícil haver uma professora tão amiga dos alunos e perguntavam:
Como será a nova professora? Como será ela?...
Mas ninguém sabia explicar.
♥♥♥♥
Foi num domingo à tarde. Era o primeiro dia de setembro.
As pessoas reuniam-se no Largo da aldeia, sentadas nas pedras que por lá havia espalhadas. As mulheres remendavam roupas, os homens fumavam e falavam do tempo e das colheitas. As crianças jogavam à macaca, ao rou-rou:
Rou-rou
galinha choca
já'cordou
quantos ovos ela pôs
como o diabo levou!
um... dois... três...
E contavam até vinte. Enquanto um dizia "rou-rou", os outros meninos escondiam-se. ...dezanove... vinte!... Rou-rou, já VOUUUUUU! Só o senhor Jerónimo, o marido da Da Maria, fumava cachimbo e lia o jornal, muito atento. Quando era notícia importante lia-a em voz alta, vagarosamente, pa ra que todos pudessem perceber.
Naquela tarde de setembro, o senhor Jerónimo disse:
Ouçam, ouçam! Escutem o que vem aqui, no jornal:
A VILA TEM MAIS UMA FÁBRICA. ABRE BREVEMENTE
— A Vila?
Sim, respondeu o senhor Jerónimo, ora escutem! E leu: "A Vila tem mais uma fábrica.
Pouco tempo falta para a Vila acordar com mais uma chaminé a deitar fumo. O senhor Presidente da Câmara da Vila disse ao nosso jornal:
"Queremos que a Vila seja cada vez mais uma terra de progresso, uma terra civilizada, para o bem de todos nós."
O senhor Presidente pensa que a fábrica abre muito em breve. Afirmou:
"Só faltam os esgotos. Mas amanhã mesmo começar-se-á a abertura duma rota que levará esses esgotas para o rio das Flores, junto à aldeia das Flores".
Mas isso é formidável! A Vila fica bem pertinho da nossa aldeia!
Que engraçado! O jornal fala do nosso rio...
E outros comentários as pessoas fizeram, uns, na esperança de arranjar trabalho, outros, por gostarem de ver o nome da Vila, da aldeia das Flores e do rio, naquele jornal de muitas notícias. Estavam bastante animados quando, no Largo da aldeia, apareceu um carro de aluguer. Dentro do carro, além do senhor Zéo motorista vinha um senhor que ninguém conheceu. Tinha barbas compridas e usava óculos.
Evidentemente que a conversa acabou, as pessoas ficaram caladas, tentando reconhecer aquele sujeito que tinha saído do carro e ajudava o senhor Zé a tirar as malas. Viram-no pagar. Certamente deu uma gorjeta, porque o senhor Zé começou a rir, agradeceu muito, meteu-se no carro, acelerou e em breves instantes desapareceu. Com as malas na mão, e eram muitas, o senhor passou as mãos pelas barbas e dirigiu-se ao grupo ali reunido:
Boa-tarde. É aqui a aldeia das Flores, não é verdade?
É sim. Adiantou-se o senhor Jerónimo.
— Bem, é que eu sou o novo professor da escola desta terra...
Todos, mas todos ao mesmo tempo, deram um salto.
Sou sim. Chamo-me Miranda, professor Miranda.
Depois foi uma grande confusão para arranjar um quarto para o novo professor...
Sabe, senhor professor, aqui não há quartos. O melhor é ir alugar um na Vila. Consta que lá há. E dos bons!...
Obrigado. Mas, se fosse possível, eu gostaria de ficar nesta aldeia...
E quem terá um quarto?
— Eu não! Ainda precisava de mais dois...
Tenho uma ideia, disse o senhor Jerónimo, vamos falar com a senhora Juliana e o Ti Carvalheira. Talvez aluguem aquela casinha pintada de azul que tem um quarto e uma sala pequena.
E até tem luz elétrica! lembrou uma velhinha.
A senhora Juliana e o Ti Carvalheira aceitaram a proposta.
Porque não?! Se o senhor professor quer ficar ao pé de nós, cá o receberemos com muito gosto!
Os rapazes pararam as brincadeiras e ajudaram a levar as malas.
Mais tarde veio uma camioneta de carga com muitos caixotes e embrulhos para o professor Miranda. Alguns eram pesados e foram os homens que pegaram neles às costas. "Que irá aqui dentro, que pesa mais que ferro?!...", perguntaram os homens para os seus botões. Os meninos e as meninas correram a avisar os companheiros que não estavam no Largo. Alguns andavam com as cabras e as ovelhas no pasto.
Ei, ei! Temos um professor novo!
Um professor?!... Uma professora!
Não, um professor, até tem barbas compridas. UM PRO-FE-SSOR!
É novo?
Claro que é. E tem uns óculos grandes. Vocês hão de ver!...
♥♥♥♥
No primeiro dia de aulas, muito antes da hora, lá estavam os alunos, curiosos por ouvir o novo professor, que também apareceu bem cedo. Contou uma história com tantas aventuras como nunca tinham ouvido! Foi uma maravilha! A Da Maria era uma boa senhora, ensinava aquelas coisas da escola, mas o professor Miranda sabia contar histórias! A rapaziada ficou contente e, daí em diante, todos os dias vinham em grandes correrias, a ver quem chegava primeiro à escola.
As pessoas da aldeia das Flores comentavam:
Quem diria que era tão amigo das crianças?!...
E dizem que sabe contar cada história mais bonita!!!...
E fazem passeios, recolhem tudo que podem. Até pedras levam para a escola!...
Pedras?!... Para quê?
O meu Chico diz que é para fazerem experiências, jogos, eu sei lá!
No nosso tempo não era assim...
Os tempos são outros... Você já reparou na sala da escola, já espreitou lá para dentro?
Eu não!
Então vá lá, e veja como aquela sala está mudada! Têm desenhos e pinturas a cobrir as paredes, flores por todo o lado eu sei lá quantas coisas mais!...
Olhe que um dia hei de passar por lá!
Ó comadre, você já reparou?
O quê?
Olhe, uma noite fui com o meu marido, o Joaquim, levar uma saca de milho ao moinho...
Sim.
Era quase meia-noite quando saímos de casa, toda a gente dormia...
Pois. Temos de nos deitar cedo, cansados como andamos. Noutras terras há cinemas e televisão para as pessoas se divertirem. Mas nós aqui, nesta aldeia, nã o temos nada...
Escute comadre! Só havia uma única luz acesa. E sabe onde?... Em casa do senhor professor Miranda!...
E então?!
Então?!... Quando viemos do moinho, ainda a luz estava acesa!
Lá se esqueceu de apagar a luz...
Qual quê! Ao outro dia, quando o sino grande da torre da igreja bateu duas horas da manhã, eu disse: "Joaquim, vamos ver se a luz do quarto do senhor professor está acesa?"
Fomos espreitar e lá estava o quarto todo iluminado! E a noite seguinte a mesma coisa. E na outra. E na outra.
Porque será? Porque será?'
Os meninos que andavam por perto ficaram entusiasmados com aquilo que ouviram.
Porque será que o professor fica com a luz acesa?
Sei lá! Se calhar esquece-se de a apagar...
Não pode ser! Tu nunca reparaste que ele, antes de sair da escola, vai sempre ver se fica tudo arrumado?
Lá isso é. Então porque será?!...
E se um de nós lhe perguntasse?
— Boa ideia!
♥♥♥♥
Uma tarde, depois de tudo estar arrumado, o Tónio, antes que o professor desse as aulas por terminadas, perguntou;
Senhor professor, há um mistério que ainda ninguém conseguiu descobrir!
Tinha o Tónio acabado de falar, quando se fez um grande silêncio. Podia-se ouvir uma mosca a voar.
Mistério?! -perguntou o professor.
Sim respondeu o Tónio Todas as pessoas da aldeia cismam por que razão o senhor professor fica com a luz acesa até quase ser dia...
O professor passou a mão pelo cabelo branco e sorriu:
Ai sim!
Pois é...
Acho que podes descobrir esse mistério se quiseres visitar o meu quarto. Quando te apetecer aparece por lá!
Já os meninos regressavam a suas casas e o Tónio a matutar: "Que haverá no quarto do professor?!..." E diziam-lhe os colegas:
Então Tónio, quando é que lá vais?
Se fosse eu, ia lá hoje mesmo!
Havia de abrir bem os olhos e descobrir esse mistério!
Se tu descobrires avisa a gente!
A solução estava no quarto. E o que estaria no quarto?
Nesse dia, quando a noite veio, por sinal uma linda noite, com uma grande lua, o Tónio comeu o caldo à pressa, poisou a malga e disse:
Mãe, eu vou falar com o senhor professor.
A mãe ficou admirada.
Ó filho, é noite, amanhã tens tempo...
O Tónio mentiu:
Mas o senhor professor disse para eu lá ir hoje mesmo!
Não te esqueças de limpar as chancas antes de entrares recomendou a mãe.
Numa grande corrida, as chancas que trazia calçadas a fazerem barulho nas pedras, o Tónio atravessou a rua estreita e daí a momentos parou à porta do professor. A luz estava acesa. Puxou o lenço do bolso e limpou o nariz. Bateu à porta.
Ouviu passos. A porta abriu-se. O professor Miranda apare­ceu.
Olá, és tu! Entra, entra...
Quando chegaram ao quarto o Tónio arregalou os olhos. Tanta coisa bonita! Nas paredes, pinturas de paisagens, meninos e cavalos. O que ele mais admirou, foi um quadro de um barco de velas brancas a navegar no azul do mar. O Tónio nunca tinha visto o mar. Encostado às paredes, estantes repletas de livros. Livros de muitas formas e feitios. Havia‑os também espalhados pelo chão. Numa mesa que servia de secretária, uma máquina de escrever e muitas folhas dispersas.
Nunca tinha visto tanto livro! E quadros bonitos!
O professor sorria.
— Então, rapaz?!...
Mas o Tónio não disse nada. O professor perguntou:
Já descobriste?
O quê, senhor professor!?
O tal "mistério"...
— Ah! Eu... eu...
Não?! Então vou tentar ajudar-te! Eu gosto muito de ler e escrever. Ora, como sóà noite é que tenho tempo...
Põe-se a ler...
Claro continuou o professor Miranda de noite, quando não há praticamente barulho, fico aqui entregue aos meus livros, lendo ou escrevendo...
E o senhor professor escreve todas as noites?
Sim, quase todas.
E porquê?... Tem assim tanta coisa para contar todos os dias?!
Tenho!
Escreve cartas?
Poucas. Não é isso que escrevo.
Então?!... Tónio estava intrigado.
Escrevo!...
Redações?
Mas o professor disse que escrevia histórias.
Histórias?! Então aquelas...
Estás a pensar bem. Aquelas histórias que vos conto na escola, sou eu quem as invento e escrevo.
Ah! É por isso que fica toda a noite com a luz acesa!...
Ora vês! Já descobriste o "mistério" da luz acesa no meu quarto!
O Tónio riu-se. Depois o professor Miranda dirigiu-se a uma das estantes.
Olha, disse o professor, vês aqui estes livros?
— Vejo!
Os que estão neste cantinho, fui eu que os escrevi.
A sério?! O senhor... o senhor é um escritor? perguntou o Tónio embasbacado.
Porque estás tão espantado? Como imaginavas tu um escritor?
Sei lá. Eu pensava que um escritor era assim um homem muito alto, muito sério, sempre fechado num quarto, a escrever, a escrever.
Tónio sentia-se viajar sobre as nuvens. Nunca poderia imaginar que o professor Miranda escrevesse livros. Porque ele nem era muito alto e falava com todas as pessoas da aldeia. Também não estava fechado no quarto. Era afinal uma pessoa igual às outras. E ele a pensar que os escritores viviam nas grandes cidades, e afinal, à beira dele, estava um escritor!
Lembrou-se de fazer uma pergunta:
Senhor professor, um livro custa muito a fazer?
Claro, tudo demora o seu tempo. Há muito trabalho a fazer. Olha, escrever uma história é quase como pegar num arado. Neste caso é a caneta. Escrever é lavrar um campo que não está cultivado. Lavra-se, grada-se, semeia-se, sacha-se, arrenda-se, rega-se. E lentamente a história vai ficando com forma, vai crescendo, amadurecendo. Num campo, depois do milho estar maduro, é que se corta e se recolhe.
Assim é uma história: ao fim de muito tempo e de muita canseira é que está terminada. Depois, vai para a tipografia, para as máquinas de impressão. E, finalmente, aparece o livro.
Nunca tinha pensado nisso, senhor professor!
Então o professor perguntou:
Queres levar um livro para leres?
Quero.
O professar entregou-lhe um livrinho.
Lê-o Tónio, fui eu que o escrevi.
O Tónio veio com o livro apertado ao peito, radiante. E só perto de casa é que se lembrou que não tinha agradecido ao professor. Quando entrou na cozinha, a mãe, que estava a fiar lã, ao vê-lo, ficou aflita:
Que tens filho?
Não tenho nada, minha mãe!
Mas a mãe conhecia muito bem o filho. Sentia que tinha havido qualquer coisa que o impressionara.
Que foi? Que te aconteceu?
Então ele disse:
Ai minha mãe, se visse tantos livros como eu vi no quarto do professor!... E sabe? Foi ele quem escreveu este que trago aqui! Emprestou-mo!
Como a mãe não sabia ler, o Tónio abriu o livrinho na primeira página e começou a ler em voz alta:
Era uma vez... O menino deu um salto no banco em que estava sentado: Mas nós já conhecemos esta história. Não se lembra de eu lha ter contado?
Sim, sim disse a mãe, que nunca parava de fiar mas lê-a, que é muito bonita.
O Tónio leu naquela noite as histórias todas.
A mãe a ouvir, ambos maravilhados.
Mas na casa do Tónio não havia luz elétrica. 
Apenas um candeeiro a petróleo alumiava o pequeno quarto.
A candeia ficou sem petróleo. 
A luz começou a tremelicar.
A mãe disse:
Filho, vamos dormir. A luz está a acabar...
António Mota
A Aldeia das Flores
Porto, Edições Asa, 1999
 
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

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