sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lëila

 
Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-‑lhe Leïla a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não sabe como acalmar a natureza selvagem da filha.
Leïla tem seis irmãos. Slimane é o mais velho. É o filho preferido do xeque Tarik. Só ele sabe como acalmar Leïla quando ela se irrita, quando se exalta. Só ele a faz rir quando está sombria e triste. E todos os dias Leïla acompanha Slimane através do oásis.
Certa manhã, quando as últimas estrelas se extinguem, Slimane deixa o acampamento. Monta o cavalo do pai e atravessa o deserto, procurando novas pastagens. Lá do alto de uma duna, Leïla e o pai acenam a Slimane que se afasta. Mas os dias passam e Slimane não regressa.
Tarik parte à procura do filho. Avança de duna em duna, de oásis em oásis. Leïla acompanha-o. Os pastores dizem-lhes que viram o cavalo branco, no horizonte, mas que este não levava cavaleiro algum.Os mercadores, com os seus camelos carregados de mercadoria, falam dos grandes espaços que atravessaram. Dizem a Tarik:
— Só Alá sabe onde se encontra o teu filho.
Então, Tarik compreende que o filho foi engolido pelas areias, como já acontecera a tantos Beduínos. E diz a Leïla que não voltará a ver Slimane. Leïla chora e grita. Ninguém pode levar-lhe o irmão, nem mesmo Alá!
Por fim, Tarik consegue acalmá-la. Regressam, vagarosamente, ao acampamento. Tarik fica em silêncio. Durante vários dias, permanece sentado na entrada da tenda, não tocando sequer nas deliciosas refeições que lhe oferecem os seus servidores. Leïla vagueia pelo oásis, como cega. Ao fim de sete dias, Tarik sai da tenda. Junta o seu povo e diz-lhe:
— A partir de hoje, qualquer um de vós que pronuncie o nome de Slimane será severamente punido. Quero esquecer!
O seu olhar é duro e frio. Todos os Beduínos baixam a cabeça. Sentem-se mal, mas ninguém ousa falar. Leïla também ouve a decisão do pai. Mas, apesar disso, todos os dias, sempre algo lhe fala de Slimane. Quando vê as crianças a brincar, lembra-se dos jogos que Slimane lhe ensinava. Quando passa pelas mulheres, recorda as histórias que lhes contava Slimane. Ao encontrar os pastores a guardar os rebanhos, pensa no pequeno cabritinho negro que o irmão adorava. A cada recordação Leïla quer gritar o nome de Slimane. Mas cala-se. E cada vez se torna mais selvagem e mais violenta. Os Beduínos afastam-se quando ela passa. Leïla sente-se mais só do que nunca.
Um dia, Leïla vê os irmãos fazerem um jogo que Slimane lhes ensinara. Então, sem pensar, diz-‑lhes:
— Slimane não jogava assim.
Os irmãos detêm-se de imediato, olhando-a com ar assustado. Ela tinha quebrado o silêncio.
Leïla vai visitar as mulheres à tenda e começa a contar-lhes uma história — uma daquelas que Slimane lhes contava. A mãe de Leïla protesta, angustiada:
Pára, Leïla, se o teu pai ouve...
Pouco a pouco, as mulheres foram-se calando para ouvir, a sorrir e com um ar sonhador, a história de Leïla. Mas esta apercebe-se do ar inquieto da mãe. Queria fazer-lhe compreender... Mas só consegue gritar:
Tenho de falar dele, tenho mesmo!
E sai a correr.
Leïla vai juntar-se aos pastores da montanha que, ao ouvirem o nome interdito, fogem. Mas Leïla vai atrás deles.
Fala-lhes do amor que o irmão sentia pelo pequeno cabrito negro. Pouco a pouco, os pastores aproximam-se dela. Quanto mais Leïla fala de Slimane, mais ele lhe parece próximo e presente. Agora sente-se em paz. Em breve todos a ouvem, a sorrir. É como se Slimane vivesse de novo entre eles.
Certa noite, um dos pastores mais jovens aproxima-se da tenda de Leïla. Chama-a:
Anda, vem ver como o cabrito de Slimane cresceu.
Abre-se o pano da tenda e é Tarik que aparece. O seu olhar é mais gelado do que a aurora do deserto. As suas palavras ferem como o sabre mais cruel.
— Pastor, proibi que pronunciassem o nome do meu filho. Mas tu desobedeceste. Expulso-te deste oásis. Não voltes mais.
O pastor afasta-se, chorando. Os Beduínos baixam os olhos em silêncio. Estão infelizes. Têm medo. Afastam-se de Leïla, deitando-lhe um olhar de reprovação. Leïla quer gritar: “Slimane!”, mas guarda para si as palavras que lhe afloram aos lábios. Sente que a raiva aumenta. Sufoca. A sua paz é destruída. Parece que Slimane se afasta uma vez mais.
Na manhã seguinte, muito cedo, Leïla decide falar com o pai. Tarik está sentado na tenda, pensativo. Leïla aparece bruscamente à sua frente. Fala em voz baixa e reprimida:
— O pai não irá roubar-me o meu irmão. Não deixarei que o faça....
Tarik lança-lhe um olhar ameaçador mas Leila não lhe dá tempo para falar. Continua:
Consegue ver o rosto de Slimane? Ouve a sua voz?
Tarik fica petrificado de espanto. Diz a tremer:
Não, não consigo. Apesar disso, fico horas e horas no deserto.
Os olhos de Tarik enchem-se de lágrimas. Leïla diz-lhe docemente:
Sei de uma maneira, pai, ora ouça...
Então Leïla começa a falar de Slimane. Como ele passeava com ela e o que dizia; como brincava e o que contava. Como a acalmava ou a fazia rir quando ela se irritava. Fala-lhe de alegria, de ternura e de vida... Quando acaba, diz:
Pai, já consegue ver-lhe o rosto? Ouve agora a sua voz?
Tarik baixa a cabeça e, pela primeira vez desde há algum tempo, sorri.
Está a ver — murmura Leïla — Slimane pode ainda viver entre nós.
Por algum tempo Tarik fica sonhador. Depois, volta-se para Leïla:
Diz ao meu povo que venha juntar-se aqui.
Quando os Beduínos se reúnem em volta de Tarik, este declara:
A minha filha Leïla soube trazer-me de volta o meu filho Slimane. Por isso, daqui em diante, chamar-lhe-eis Leïla – a mais sábia. Quero que o seu nome e o de Slimane sejam honrados em todos os acampamentos do deserto.
Dias mais tarde, o jovem pastor expulso regressou ao oásis.
E Slimane viveu de novo no coração de todos aqueles que dele se recordavam.
Sue Alexander
Leïla
Porto, Ed. Edinter,1989
(Adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

Concurso/Prémio Apetece-me

Livro do mês - fevereiro/março 2012 ("Eclipse" - Stephenie Meyer)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Violeta

Aqueles dois nem sequer reparam que Klaus abrira a porta da sala.
Então é aqui que está Niki, escondida atrás de umas costas altas e de uns braços compridos e verdes!
— O namorado da nossa filha tem uns braços de aranha! — costuma dizer o pai. E também diz: — Há três meses que traz vestida a mesmíssima camisola verde! Se calhar só a tira quando ela se desfizer!
— Deixa a Niki em paz — a mãe tenta acalmá-lo. — Tu não percebes! A Niki está apaixonada. O Bruno não tem de te agradar!
— Agradar!?! Deixa-me rir. Até fico cheio de comichão de cada vez que o vejo. Alto como a Torre Eiffel e magro como um esparguete! E é de uma coisa assim que a minha filha gosta? De um Bruuuno!!
“Será que o pai iria gostar mais da Violeta?”, pensa Klaus, à porta da sala.
Ele não se atreve a entrar e ir à prateleira buscar o livro sobre aviões, pelo menos enquanto os dois estiverem enrolados um no outro. Verde-aranha com pintas cor-de-‑laranja. As pintas cor-de-laranja são da t-shirt da Niki.
Porque é que Klaus tem de pensar agora mesmo na Violeta? E porque é que fica com o coração aos pulos? Aquilo ali, no sofá, à frente dele, não tem nada a ver com ele e com Violeta. Ou será que tem? Klaus ainda não beijou Violeta. Beijou, sim. Uma vez num jogo. Como multa, Klaus tinha de dar três beijos na cara de alguém. Claro que não foi escolher o Pedro ou o Martim e muito menos a Helga. Foi a Violeta quem recebeu os três beijinhos minúsculos. E logo de seguida, ficaram os dois vermelhos que nem tomates. Toda a gente se riu!
— O Klaus está apaixonado pela Violeta! — gritaram.
Deixá-los rir!
Estar apaixonado não tem graça nenhuma. É bonito, mas não é engraçado, pensa Klaus, porque Violeta se ofende muito depressa. E quando ela olha para ele só de relance, durante as aulas e depois no intervalo também… até dói! De cada vez que ele olha para Violeta e ela desvia o olhar, Klaus sente uma pontada lá no fundo… Mas agora, há já algum tempo que andam os dois bem, e Klaus tenta não fazer nenhuma asneira que possa zangar Violeta.
Klaus queria ir buscar o livro. Niki e Bruno ainda não repararam nele. Estão abraçados um ao outro e baloiçam-se levemente de um lado para o outro como se se tentassem adormecer mutuamente. Têm os olhos fechados. Estão em silêncio.
“Se calhar”, pensa Klaus, “quando se está mesmo apaixonado não se deve falar. O não falar significa precisamente gosto de ti.”
A dado momento, Niki abre os olhos mas só vê o seu Bruno. Não vê Klaus à porta.
A irmã e o namorado olham-se nos olhos, em silêncio. Continuam a não falar. “Hmm”, pensa Klaus, “eu e a Violeta também fazemos isso. Por acaso, este também é o nosso jogo. Olhamo-nos nos olhos muito tempo e tentamos adivinhar a cor dos olhos do outro porque ela muda ligeiramente todos os dias. Se há sol, se chove, se está claro ou escuro. Se é de manhã, ao meio-dia ou à tarde.”
Violeta acha que Klaus tem os olhos castanhos. Cor de café com leite. Klaus diz que tem olhos pretos. Como café sem leite.
— E os teus são azuis — diz depois Klaus. — Como a minha caneta.
— Não! Não gosto dessa comparação! — Violeta faz uma cara de ofendida e fulmina Klaus com o olhar. — Diz uma coisa mais bonita!
— Azul como o lago de Constança. — Klaus já lá tomou banho.
Violeta fica satisfeita com o lago, mesmo não o conhecendo. O azul de um lago é bonito.
— Como estes dois demoram! — suspira Klaus, apoiando-se na outra perna.
Então, quando se está apaixonado é assim… Agarramo-nos bem. Balançamo-nos de um lado para o outro. Fechamos os olhos por muito tempo. E, depois, abre-se os olhos mas não se pode olhar para mais lado nenhum a não ser para a pessoa que está à frente. A mão esquerda de Bruno percorre suavemente a mão direita de Niki, sobe pelo braço e volta a descer devagar. Também durante muito tempo.
Violeta iria achar isto estúpido. E Klaus, para falar a verdade, também. Já não aguenta muito mais tempo na soleira da porta. Klaus não gosta de ficar a olhar para namorados. Envergonha-se um pouco, mas não sabe bem porquê. Está um tanto agitado, mas não sabe muito bem porquê.
Vira as costas aos dois, mas choca contra a porta. Bum!
— Olha lá, miúdo, tu por acaso andas a espionar-nos?! — ouve-se a voz arranhada de Bruno.
— Há quanto tempo estás aí? — pergunta Niki, sentindo-se atingida.
Klaus encolhe os ombros. Será que deve dizer: “Há uma eternidade”?
— Já posso ir buscar o meu livro?
— Pensei que o teu irmão não estivesse cá hoje!
Bruno levanta-se.
— Da próxima vez que pensares que ele não está em casa, no teu lugar eu ia ver primeiro se, por acaso, não estará metido nalguma gaveta!
A voz de Bruno soa bastante desagradável. Niki também se levanta e segura o namorado pelo braço, mas Bruno solta-se.
— Não me sinto bem aqui! — diz. — Tchau!
E vai embora. Nem sequer se torna a virar para Niki. Já não a olha mais nos olhos. Nem muito, nem pouco. Absolutamente nada.
Com Violeta é muito mais bonito. Eles acenam sempre com a mão um ao outro quando vão para casa, depois da escola, e se separam na paragem do elétrico. Pelo menos, nos dias em que Violeta não tenta olhar de relance para Klaus.
Depois, Violeta sorri.
Um sorriso muito amoroso e Klaus consegue ver-lhe os olhos, mesmo que já esteja muito escuro. Brilham, azuis como o lago de Constança. Continuam a brilhar mesmo quando Klaus já está do outro lado da rua, e ele até consegue sentir‑lhes ainda o brilho, muito depois de ter dobrado a esquina.



Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

Leitor do Mês - janeiro 2012

Campanha "Papel por Alimentos" (Banco Alimentar)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A tecedeira dos cabelos negros


Noite de Outono.
Sem um grito
Um corvo passa.
Kishi
Há muito, muito tempo, na cidade de Quioto, vivia um samurai que estava casado com uma mulher bela, de bom coração, que era, além disso, uma excelente tecedeira.
Quis o destino que o samurai perdesse o lugar que ocupava: o seu senhor morreu e ele ficou a ser um guerreiro sem emprego, um ronin[i]. [ii]Embora amulher vendesse os tecidos, o dinheiro não chegava. Não viviam na pobreza, mas já não podiam manter o mesmo estatuto. Cheio de vergonha, o samurai desesperava-se.
Um belo dia embalou os seus haveres e pôs os sabres à cintura.
— Vou-me embora — disse ele à mulher. — Isto não é vida para um homem como eu! Não suporto esta desonra. Arranja outro marido, que eu vou procurar a sorte noutras paragens.
Lavada em lágrimas a mulher suplicou:
— Peço-te que não me abandones. Hei-de tecer ainda mais e vender cada vez mais!
Mas o samurai tinha o coração fechado. A mulher chorava, com os longos cabelos negros a flutuar sobre os ombros, mas ele apertou as sandálias, montou o cavalo e partiu sem olhar para trás.
Foi até uma cidade longínqua, onde por fim entrou ao serviço de um novo senhor. Graças às suas qualidades, rapidamente se fez notado e em pouco tempo passou a ser um dos mais próximos servidores do amo. Ora, este tinha uma filha, mimada e egoísta. “Se casar com ela, pensou o samurai, está feita a minha fortuna”. Assim, levado pelo interesse, fez-lhe a corte e soube cair-lhe em graça. O casamento foi motivo de grandes festas. Depois tudo voltou ao normal, como dantes.
A nova mulher passava o tempo diante do espelho, a depilar as sobrancelhas e a provar inúmeros vestidos de alto preço, enquanto o samurai servia o senhor e se cobria de glória nos campos de batalha, graças ao sabre, à lança e ao arco. Também acompanhava a esposa quando esta se fazia levar de liteira de loja em loja para comprar tecidos, vestidos, enfeites e jóias. De pé, na rua, ao lado dos carregadores, irritava-se com a vaidade e a futilidade das suas ocupações. E não encontrava alegria naquela vida de rico com que tanto sonhara.
Vinha-lhe cada vez mais à lembrança a sua primeira mulher. De noite, via o seu lindo rosto, os olhos meigos a brilhar de afecto por ele, os seus longos cabelos pretos caídos sobre os ombros. Ouvia o bater do tear onde ela tecia os maravilhosos tecidos. Estendia para ela os braços e acordava destroçado, sentindo um enorme tédio por tudo aquilo que o rodeava.
Ao fim de algum tempo, os sonhos passaram a assaltá-lo durante o dia. Enquanto esperava que a esposa terminasse as suas eternas compras, o rosto da primeira esposa aparecia diante dele, com o seu sorriso, os traços finos, as mãos delicadas, a cabeleira preta. Aquelas imagens voltavam e perturbavam-no cada vez com mais frequência, ressuscitando-lhe o amor e o desejo. Durante a noite, lágrimas amargas cobriam-lhe os olhos. Agora sabia que, obcecado pelo sucesso, tinha cometido uma loucura. Rejeitara quem o amava e que ele amava também, sacrificara-a à busca de riqueza e de poder. Totalmente consciente desse facto, decidiu abandonar aquela existência artificial, voltar para a verdadeira mulher e pedir-lhe perdão.
Uma noite, montou o cavalo e tomou o caminho de Quioto.
Após vários dias de viagem, chegou à cidade um pouco antes da meia-‑noite. Meteu por ruas escuras, desertas como túmulos e, com o coração a palpitar, dirigiu-se para a sua antiga morada. Entrou no pátio. As ervas estavam altas. À luz do luar, verificou que o papel de parede estava rasgado nalguns sítios. “Sim, disse a si mesmo, a vida não foi fácil para ela, mas agora que regressei, vou remediar tudo. Sim, tudo irá correr bem”.
Prendeu o cavalo, subiu os degraus, descalçou as sandálias, empurrou a porta e entrou. Percorreu as divisões da casa, e depois ouviu o bater regular do tear. O coração do samurai deu um pulo. Abriu uma última porta. A sua mulher estava sentada diante do grande tear, vestida com um vestido remendado, os belos cabelos negros caídos em cascata sobre os ombros e as costas. Voltou-se e viu-o. Um sorriso luminoso iluminou o seu belo rosto pálido. Correu para o marido que a tomou logo nos seus braços.
— Perdoa-me, — disse ele a chorar — perdoa-me, fui um tolo. Mas vou recuperar o tempo perdido, juro-te!
— Chiiiuuu! — murmurou ela, também em lágrimas, — chiiiuuu! Isso agora já não importa. As minhas orações foram ouvidas. Voltaste. Anda, vem!
Passaram a noite a conversar, a rir e a chorar, abraçados, enquanto as velas ardiam e se iam extinguindo. Até que o samurai acabou por adormecer, vencido pelo sono. De manhã, os raios do sol despertaram-no. Abriu os olhos. O astro brilhava mesmo em frente, através dos buracos do telhado: uma grande parte, apodrecida, tinha caído. Esfregou os olhos, mas não estava a sonhar. O sol batia-lhe em cheio. Estupefacto, olhou em volta.
Havia bolor em tudo, no papel rasgado das paredes e nas traves caídas. No chão de madeira carcomida cresciam ervas. Via-se no meio da sala um tear partido. Ao lado estava a mulher deitada, de costas para ele, os seus finos ombros envoltos num quimono remendado, os longos cabelos caídos pelas costas até ao chão. Segurando-a pelos ombros, virou-a para si e… foi apenas um esqueleto o que viu. Há muito, muito tempo que a sua querida mulher tinha morrido de desgosto, de solidão e de saudade.
Rafe Martin
« Les cheveux noirs » in 10 contes du Japon
Paris, Castor poche Flammarion, 2000
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias


[i] Ser ronin consistia em viver peregrinando, ocupando-se de pequenos serviços, normalmente
em troca da refeição do dia e da prática das artes samurai.

Novidades - Fevereiro 2012 (1)

 
Monopoly(em Portugal, Monópolio; no Brasil, Monopoly ou Banco Imobiliário) é um dos jogos de tabuleiro mais populares do mundo, em que propriedades como bairro, casas, hotéis, empresas são compradas e vendidas, em que uns jogadores ficam "ricos" e outros vão à falência.




Crepúsculo (Twilight, no original) é um livro sobre vampiros da autoria de Stephenie Meyer. Publicado originalmente em capa dura, em 2005, este livro é o início da saga Crepúsculo, onde Bella Swan é apresentada ao leitor, como uma estudante que se muda de Phoenix, Arizona, para Forks, Washington, colocando sua vida e de sua família em risco ao apaixonar-se pelo vampiro Edward Cullen.
O romance ganhou diversos prêmios, incluindo o "Top 10 Livros para Jovens Adultos" da American Library Associatio, entrar na lista de Best sellers do New York Times e Best selling de 2008, no USA Today.



Quando a arte do ilusionismo dava os últimos passos, um mágico "entertainer", afastado dos palcos da cidade, vê-se obrigado a apresentar o seu "show" num dos “pubs” da costa ocidental escocesa, onde encontra Alice, uma jovem inocente, que mudará para sempre a sua vida… "O Mágico" é uma comovente carta de amor de um pai para a sua filha. http://cinema.sapo.pt/filme/lillusionniste/detalhes#sinopse

"Kodak, para mais tarde recordar"

Aconteceu o que há muito era esperado. A Kodak, empresa que tornou a fotografia num fenómeno de massas há mais de cem anos, apresentou hoje um pedido de falência voluntária perante um tribunal de Nova Iorque.

Com este passo, a Kodak pretende reforçar a liquidez nos Estados Unidos e no exterior, rentabilizar a propriedade intelectual não estratégica e resolver a situação dos passivos, concentrando-se nos negócios mais competitivos. Um último esforço para se salvar.

Fundada em 1888 e com sede em Rochester (Nova Iorque), este não parecia um cenário possível para a mesma Kodak que durante anos dominou o mercado nas áreas da fotografia e do cinema. Os tempos mudaram. Quando George Eastman - jovem modesto que começara a trabalhar aos 14 anos para cuidar da mãe, viúva, e de duas irmãs - se interessou pela fotografia, desbravando um caminho onde foi pioneiro, as pessoas renderam-se a uma novidade que lhes transformou os "retratos" numa coisa fácil e acessível.

"Você aperta o botão, nós fazemos o resto" foi o slogan criado pelo próprio fundador e, de facto, a essência de um negócio que floresceu anos a fio, ditando as regras. Os problemas começaram na década de 1980, quando os filmes fotográficos da Kodak começaram a perder terreno face à concorrência estrangeira, tendo a empresa de lidar logo em seguida com o aparecimento da fotografia digital (Kodak foi a inventora da máquina digital mas nunca capitalizou essa nova tecnologia) e dos smartphones.

Em busca de alternativas viáveis, a companhia voltou-se para os químicos, produtos de limpeza e equipamentos médicos, antes de finalmente se decidir pela exploração das impressoras comerciais, via em que se concentrou nos últimos cinco anos, embora sem o sucesso economicamente necessário para retirar a empresa de aflições.

Ao escolher tentar vingar num mercado saturado e difícil de romper, a Kodak caminhou de prejuízo em prejuízo até lhe sobrar um grande problema final, sobretudo depois de em 2011 a estratégia de negociar patentes e licenças ter deixado de garantir a entrada de dinheiro.

De nada serviu tentar a venda das suas patentes digitais em agosto passado. Os potenciais compradores adivinhavam um pedido de insolvência e, assim sendo, preferiram esperar para ver.

A Kodak, que vale agora pouco mais de 90 milhões de euros, quando em 2004, estava valorizada em mais de 23 mil milhões de euros, vivia desde o início do ano sob a ameaça de expulsão de Wall Street, por parte do operador da Bolsa de Nova Iorque, o New York Stock Exchange, que tinha dado à empresa seis meses para recuperar a cotação das suas ações. Para as 19 mil pessoas que a companhia emprega, o futuro é incerto.

A estrela de Erika

Nota da autora
Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na beira de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika.
Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou-nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, eu disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta. Depois, contou-nos a sua história…
♦♦♦♦
Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.
Nasci em 1944. Não sei o dia. Não sei como me chamava ao nascer.
Não sei em que cidade nem em que país nasci. Não sei se tive irmãos ou irmãs.
O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto. Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto. Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?
Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos? De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro? Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.
Pergunto-me onde estaria exatamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer? Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse: "Desculpa. Desculpa. Desculpa."? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mola humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?
Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir.
A minha mãe atirou-me pela janela do comboio. Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.
Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim.
Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.
Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada. A minha árvore lançou raízes. A minha estrela ainda brilha.
Ruth Vander Zej/Roberto Innocenti
L'étoile d'Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2000
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Novidades na BECRE (Janeiro2012)

O jogo é um clássico jogo de família. Fala dos nossos navegadores, das nossas conquistas e dos nossos feitos. Cada jogador leva a sua frota a bom porto, descobrindo locais espalhados pelo mundo todo, trazendo bens preciosos para a coroa: ouro, açúcar, pimenta, enfim, um sem número de opções.
  








Na época de Brejnev, Andreï Filipov era o maior maestro da União Soviética e dirigia a célebre Orquestra de Bolshoï. Mas após ter recusado separar-se dos seus músicos judaicos, entre os quais o seu melhor amigo Sacha, foi afastado em plena glória. Trinta anos mais tarde, ele trabalha todos os dias no Teatro de Bolchoï mas… como empregado de limpeza. Uma noite, quando Andreï fica a tratar das limpezas até tarde, dá de caras com um fax endereçado à direcção do Teatro – um convite do Teatro de Châtelet para que a Orquestra de Bolshoï vá tocar a Paris. Subitamente, Andreï tem uma ideia louca: porque não reunir os seus antigos companheiros, que hoje em dia vivem de pequenos trabalhos e dirigi-los em Paris, fazendo-os passar pela orquestra de Bolchoï? É a oportunidade tão aguardada de, finalmente, se vingarem…





Livro - Guinness World Records 2012
Transbordando de recordes novos e sensacionais
O que há de novo nesta edição?
Incrível! Mais de 1 milhão de recordistas mundiais!
Impressionante! 4 mil recordes mundiais, novos, atualizados e clássicos!
Chocante! Mais de 900 fotos incríveis e jamais publicadas no GWR!
Surpreendente! Mais de 100 temas e tópicos diferentes!
Tudo isso num livro fantástico!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Caixa da Liberdade

 
Em meados do século XIX, havia quatro milhões de escravos nos Estados Unidos. Os escravos eram propriedade dos donos, como se fossem mesas, vacas, ou carroças. Os historiadores pensam que entre 60.000 e 100.00 escravos recuperaram a liberdade através do Caminho-de-Ferro Clandestino.
O Caminho-de-Ferro Clandestino não era um verdadeiro caminho-de-ferro. Era um conjunto de rotas que os escravos seguiam quando fugiam para Norte. Escondiam-se em carroças, andavam a cavalo, caminhavam centenas de quilómetros através de florestas e pântanos, atravessavam rios caudalosos no Verão e superfícies geladas no Inverno. Eram ajudados por "chefes de estação" e "cobradores" que os escondiam e auxiliavam ao longo da fuga.
Quando Henry Brown entrou na sua "Caixa da Liberdade", acreditava que esta o transportaria para um mundo seguro. Levou com ele uma ferramenta para abrir buracos na caixa para respirar, um pouco de água e alguns biscoitos. Quando chegou a Filadélfia, vindo de Richmond, na Virgínia, tinha percorrido uma distância de 560 quilómetros em 27 horas.
A sua história foi objeto de notícia na América e na Europa. Henry nunca encontrou a mulher e os filhos. Em 1850 foi para Inglaterra e há quem diga que voltou a casar. Mas o que é certo é que Henry "Box"[1] Brown se tornou um dos fugitivos mais célebres do Caminho-de-Ferro Clandestino – o homem que "encomendou" a sua liberdade.
▲▲▲▲▲
Henry Brown não sabia a idade. Era um escravo, e os escravos não podiam saber quando faziam anos. Trabalhava, juntamente com os seus irmãos e irmãs, na casa grande da plantação, onde vivia o dono. Este sempre fora bondoso para com eles. Mas a mãe de Henry sabia que esta situação podia mudar. Um dia, comentou com o filho:
― Vês aquelas folhas a esvoaçar? Foram arrancadas das árvores, tal como os filhos dos escravos são arrancados às suas famílias.
E uma bela manhã, o patrão mandou chamar Henry e a mãe. Ambos subiram a escadaria larga que conduzia ao quarto. O dono estava na cama e só a sua cabeça emergia do edredão. Estava muito doente e pediu-lhes que se aproximassem. Como alguns escravos estavam a ser libertados pelos donos, o coração de Henry bateu com força. Talvez o dono o fosse libertar. Porém, o patrão disse:
― Tens sido um bom trabalhador, Henry. Vou dar-te ao meu filho. Deves obedecer-lhe e nunca contar mentiras.
Henry acenou com a cabeça, mas não agradeceu. Agradecer seria mentir.
Na tarde desse mesmo dia, Henry viu um pássaro voar bem alto para longe das árvores. "Um pássaro livre! Um pássaro feliz!", pensou. Depois, despediu-se da família. Quando olhou para os campos, as folhas rodopiavam ao vento.
O rapaz foi trabalhar para a fábrica do novo patrão e trabalhava bem. Mas isso não o impedia de gritar com ele, e de o ameaçar com um bastão:
― Não rasgues essa folha de tabaco!
Se os escravos cometessem algum erro, o patrão batia-lhes.
Henry sentia-se só. Mas, um dia, conheceu Nancy, que andava às compras para a patroa. Puseram-se a conversar, enquanto caminhavam juntos, e concordaram em voltar a encontrar-‑se. O rapaz tinha agora vontade de cantar, embora os escravos não se atrevessem a cantar na rua. Em vez disso, trauteou disfarçadamente a caminho de casa.
Meses mais tarde, Henry pediu a Nancy que se casasse com ele. Depois de os patrões de ambos concordarem, os jovens casaram-se. Em breve nasceu um filho, e depois outro, e logo outro. Henry sabia que tinham sorte em viverem juntos, apesar de terem patrões diferentes. Mas Nancy preocupava-se, porque o seu dono tinha perdido muito dinheiro. Um dia confessou ao marido:
― Temo que ele venda os nossos filhos.
Henry ficou muito calado. Nessa manhã trabalhou arduamente, tentando esquecer o que a mulher lhe dissera. Mas, de repente, o seu amigo James entrou na fábrica e sussurrou-lhe:
― A tua mulher e os teus filhos acabam de ser vendidos no mercado de escravos.
― Não! ― gritou Henry.
De repente, não conseguia mexer-se, nem pensar, nem trabalhar.
― Mexe esse tabaco! ― gritou o patrão, empurrando-o com o bastão.
Enquanto mexia as folhas de tabaco, o seu coração remexia no peito. À hora de almoço, foi ao centro da cidade. Viu um grupo de escravos atados uns aos outros e o novo dono a gritar com eles. Henry procurou a família.
― Pai! Pai! ― ouviu chamar.
Foi então que viu os filhos desaparecerem ao longe na rua. Onde estaria Nancy? Viram-‑se ao mesmo tempo, mas era tarde demais. Depois de limpar as lágrimas, Henry deu-se conta de que também ela desaparecera.
Henry deixou de cantar e até de trautear. Ia trabalhar e, à noite, comia e ia para a cama. Tentou lembrar-se dos tempos felizes que passara, mas só conseguia ver as carroças a transportarem para longe todas as pessoas que amava. Sabia que não voltaria a ver a família.
Passaram-se muitas semanas. Certa manhã, Henry ouviu um pequeno pássaro cantar e viu-o voar em direção ao céu. E pensou que podia ser livre. Mas como? Quando pegou numa caixa de madeira, soube a resposta.
Pediu a James e ao Dr. Smith para o ajudarem. O Dr. Smith era um branco que pensava que a escravatura estava errada. Encontram-se num armazém vazio no dia seguinte, pela manhã. Henry transportava uma caixa.
― Irei como encomenda para um lugar onde não haja escravos! ― anunciou.
James olhou para a caixa e depois para Henry.
― E se tossires e alguém te ouvir?
― Taparei a boca e terei esperança ― respondeu Henry.
O Dr. Smith escreveu na tampa da caixa:
Para: William H. Johnson
Arch Street
Filadélfia, Pensilvânia.
Henry seria entregue a amigos na Pensilvânia. O médico também escreveu na caixa, em maiúsculas:
ESTE LADO PARA CIMA.
TRATAR COM CUIDADO.
Henry precisava de uma desculpa para ficar em casa, ou o patrão pensaria que ele tinha fugido. James lembrou-lhe o dedo magoado. Mas o amigo sabia que não era desculpa suficiente. Abriu, então, uma garrafa de ácido.
― Não! ― gritou James.
Henry deitou o ácido na mão e sentiu que a queimadura penetrava nos ossos. Agora o patrão deixá-lo-ia ficar em casa! O Dr. Smith pôs-lhe uma ligadura e concordaram em encontrar-se na manhã seguinte, às quatro horas. Ainda o sol não se erguera, e já Henry se enfiava na caixa.
― Estou pronto! ― anunciou.
James pregou a tampa da caixa e, juntamente com o Dr. Smith, levou-a para a estação. O empregado do caminho-de-ferro virou a caixa e pregou um papel no fundo. O médico pediu aos carregadores que tivessem cuidado, mas ninguém lhe prestou atenção e atiraram a caixa para o vagão das mercadorias.
Passaram-se horas, durante as quais Henry foi novamente levantado e atirado, ficando de cabeça para baixo. Ouviu ondas a bater. Devia estar a bordo do navio que ia para Washington, D.C. O barco navegava devagar, mas o escravo ainda estava virado ao contrário. O sangue subiu-lhe à cabeça, as faces ficaram afogueadas, os olhos doíam-lhe, e pensou mesmo que a cabeça ia rebentar. Mas nem se atrevia a mexer, com medo de que alguém pudesse ouvi-‑lo.
― Estou cansado de estar de pé! ― disse uma voz.
― Porque não nos sentamos nesta caixa? ― sugeriu uma outra.
Henry nem conseguia respirar. Será que estavam a falar da sua caixa? Sentiu-se empurrado. A caixa raspou o convés do navio. Viraram-no para o lado direito e para o esquerdo. De repente, sentiu-se virado para cima.
― O que pensas que está aqui dentro? ― perguntou um dos homens.
― Correio, acho ― respondeu o outro.
"Sou correio, sou, mas não do tipo que imaginam", pensou Henry.
Quando a viagem terminou, a caixa foi levada para fora do navio e colocada numa carruagem de comboio. Desta vez, seguiram as instruções. Henry adormeceu ao som das rodas do comboio. Acordou com uma pancada forte.
― Henry, estás bem? ― perguntou uma voz.
― Estou ― respondeu.
 A tampa foi levantada. O escravo estirou os braços, levantou-se e deparou com o sorriso de quatro homens.
― Bem-vindo a Filadélfia!
Henry sabia agora que fazia anos a 30 de Março de 1849, o seu primeiro dia de liberdade.
A partir desse dia, também ganhou outro nome: todos passaram a chamar-lhe Henry "Box" Brown.
Ellen Levine; Kadir Nelson
Henry's freedom box – A true story from the Underground Railroad
New York, Scholastic, 2007
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias



[1] "Box" significa "caixa", em Inglês. (N.T.)

Art Club Dom Paio

Resultados Concurso Nacional de Leitura 2011/2012 (1ª fase)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As rosas dos meus tapetes

Para um jovem refugiado que vive com recordações de perda e de terror, o tempo é medido em termos do próximo balde de água, do próximo pedaço de pão, e da próxima chamada para a oração. Aqui, onde tudo — paredes, chão, pátio — é feito de lama, o coração de um rapazinho ainda consegue ansiar por liberdade, independência e segurança. E aqui, onde a vida é extremamente frágil, é a necessidade que cria a força para resistir. Mas a força para sonhar vem do interior.
 É sempre o mesmo. Os jactos já me viram. Estou a correr demasiado devagar, porque tenho de puxar pela minha mãe e pela minha irmã. O terreno é traiçoeiro, cheio de crateras de bombas, e a minha mãe e a minha irmã impedem-me de avançar. Fui atingido em cheio. Quando estou prestes a morrer, ou pouco depois de ter morrido, acordo.
Abençoada escuridão. Demoro algum tempo a aperceber-me de que estou na nossa casa de lama, no campo de refugiados. A salvo. Ouço a respiração suave da minha mãe e da minha irmã perto de mim. Um galo canta. É madrugada. Talvez seja melhor levantar-me e ir buscar água antes que se forme uma fila junto ao poço.
Quando regresso com o balde pesado, vejo que a minha respiração forma nuvens. A asa de plástico crava-se na palma da minha mão e isso faz-me parar e descansar várias vezes.Quando chego a casa, lavo a cara. Um hábito inútil, já que aqui as paredes são de lama, o chão é de lama e até o pátio é de lama. É impossível mantermo-nos limpos.
Acordo a minha mãe antes de ir rezar à mesquita. Quando regresso, o pequeno-almoço está pronto. Como a minha irmã Maha ainda está a dormir, como o meu pedaço de pão e bebo o meu chá sossegado. Depois, dou-lhe um beijo na cara e vou para a escola.
Quando regresso a casa para almoçar, a cabana já está varrida. Como devagar, cortando o pão em pedaços, para o fazer durar mais. A Maha engole a porção dela e olha fixamente para a minha.
— Não — diz a minha mãe com severidade.
Mas, quando ela vira costas, dou uns bocadinhos à minha irmã. Terei de apertar a minha faixa um pouco mais.
O muezzin volta a chamar para a oração. Saio para a rua estreita, esquecendo-me de ter cuidado. Um carro passa rente a mim e buzina com força. Neste lugar, as pessoas conduzem como se os demónios as perseguissem, sem prestar atenção a quem cruzam no caminho. Penso na Maha. Ainda bem que está a salvo em casa.
Depois das orações vem a minha parte favorita do dia. Vou aprender a arte de tecer tapetes. Quando teço, posso fugir dos jactos, dos pesadelos, de tudo. Como se, com as minhas mãos, criasse um mundo que a guerra não pode atingir. Um paraíso como aquele em que o meu pai está.
O meu pai era um agricultor, sempre à mercê do tempo ou de alguém que lhe viesse roubar a terra e as culturas. Mas eu hei-de ter uma arte que ninguém poderá roubar. Enquanto for forte e válido, a minha família nunca passará fome.
Primeiro, tenho de praticar. Alguém longe daqui possibilita a minha formação. Sou uma criança apadrinhada. Um filho adoptivo. Até me tiraram uma fotografia. Em breve serei um mestre artesão e o dinheiro do meu padrinho já não será necessário.
Cada cor que uso tem um significado especial. Os fios que cercam a moldura na qual todos os outros fios são entrelaçados são brancos, como a mortalha em que embrulhámos o corpo do meu pai. O preto é para a noite que nos esconde dos olhos inimigos. O verde é a cor da vida. O azul é para o céu, que estará, um dia, livre de jactos. Como tudo no campo é de um castanho sujo, nunca uso o castanho nos meus tapetes.
A minha cor favorita é o vermelho. É a cor das rosas. Nunca cultivei flores. Cada pedaço de terra tem de produzir comida. Por isso, faço com que haja muitas rosas nos meus tapetes. Teço padrões intrincados de rosas, todos ligados entre si. Um jardim de beleza rodeado por uma fronteira, uma parede. Uma parede em torno de um pequeno pedaço de paraíso.
Estou tão concentrado a tecer que não ouço a respiração ofegante do rapaz que entrou na sala. É o silêncio que me desperta. Ergo os olhos e vejo toda a gente a olhar para mim. Aconteceu algo de terrível.
— É a tua irmã. Foi atropelada por um camião.
Ponho-me em pé de um salto e espalho mil fios pelo chão. Um amigo diz que os apanhará por mim. Agradeço-lhe com um aceno e corro pela porta fora. O rapaz diz-me que a Maha está na clínica e que a minha mãe está com ela. Estão a operá-la para tentar salvar-lhe as pernas. Quando chego à clínica, a minha mãe está histérica, porque quer ir ter com a filha. Há pessoas que a impedem e oiço gritos. São os meus gritos. A minha mãe vira a cabeça e o seu olhar é quase desumano. Como quando o meu pai morreu.
Tenho de ser forte. Não posso chorar. Com gentileza, afasto-a um pouco, dizendo-lhe que pode atrapalhar. As minhas palavras surtem efeito. Coloca a cabeça no meu ombro e dou-me conta do quanto cresci. É uma altura estranha para reparar em coisas como esta. Peço à minha mãe que vá para casa e que reze pela segurança da Maha. Quando houver notícias, irei dar-lhas. Como não consigo ficar quieto, ando de um lado para o outro. Depois rezo, lembrando-me do conselho que dei à minha mãe. Rezo pela Maha e pela minha mãe. Depois rezo pelo meu padrinho que paga a operação da minha irmã e nem sequer o sabe. Sinto-me melhor depois de rezar.
O médico aparece finalmente, com um olhar cansado. As notícias são boas: a minha irmã vai ficar bem. Tem as pernas partidas, mas vai conseguir andar de novo. Não em breve, mas um dia. Um sentimento de alívio inunda-me a face como chuva bem-vinda. Corro para casa para contar as novidades à minha mãe, que chora de alegria. Jantamos pão e água. A minha mãe corta o pão em três pedaços antes de se lembrar de que hoje somos só dois. Dá-me a parte da Maha e eu devolvo-lhe metade. Comemos em silêncio. Cada bocadinho de pão atravessa-se na minha garganta e não há água que chegue para ajudar-me a engolir. 
Exausto, deito-me no tapete de palha que faz de cama. Sem a Maha, a casa está demasiado silenciosa. Tenho muitas saudades dela e fico acordado durante muito tempo. À noite, quando sonho, sonho novamente com jactos a rasgar o tecido do céu. Mas, desta vez, a minha mãe e a minha irmã correm comigo e não me detêm. Porque, ao correr, encontramos um espaço, do tamanho de um tapete, onde as bombas não nos podem atingir.
E dentro desse espaço há rosas.
Rukhsana Khan
The Roses in my Carpets
Ontario, Fitzhenry & Whiteside, 2004
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias