terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O canhão da paz


Vivia na longínqua Rússia um famoso fundidor de sinos chamado Sergei Vassilevitch Varbaratov. O som dos seus sinos era de tal forma harmonioso que, sempre que tocavam, até os anjos paravam para os escutar.
Sergei Vassilevitch era casado com uma mulher alta e robusta de nome Natalia Sofia e tinham dois filhos. Um chamava-se Leonid Michail e era um rapaz de boa índole. Ainda muito novo, já ajudava na oficina. Em pouco tempo passou a conhecer todos os segredos da arte da fundição de sinos. O outro filho, Vladimir Nikolai Varbaratov, era, no entanto, uma criança singular. Fugia da oficina do pai, metia o nariz em livros poeirentos, misturava-se com os criados e criadas, e fazia todo o tipo de experiências com flores, ervas e verduras nos terrenos do pai. "Se fosse alto e forte como o irmão," suspirava o pai, "ainda podia comprar-lhe uma quinta para ele ganhar a vida…"
Porém Vladimir Nikolai não era alto e forte, mas de compleição frágil, e em nada se assemelhava a um agricultor. Não sabendo o que fazer com o filho mais novo, o pai elevava muitas vezes os olhos ao céu e exclamava:
— Só Deus sabe o que há-de ser do rapaz!
— Santa Bárbara, intercede por ele — acrescentava a mãe, dirigindo-se à padroeira dos sineiros.
Assim ia passando o tempo, e as preocupações de Sergei Vassilevitch cresciam de ano para ano. Certo Inverno, um enviado do Czar chegou a casa de Sergei Vassilevitch: este deveria apresentar-se sem demora no castelo. "De certeza que se trata de uma encomenda para um novo sino", pensou Sergei Vassilevitch. Satisfeito, vestiu a sua bela pele de marta e seguiu no trenó rumo a Moscovo, onde o Czar o esperava em pessoa. Mas desta vez não se tratava de um sino. Pelo contrário, o Czar referiu-lhe um grave problema: os Tártaros atacavam constantemente as aldeias fronteiriças, pilhavam os campos e as pessoas.
— Estão cada vez mais ousados — rugia o Czar. — Não sei como proteger o meu reino.
— A minha arte também não é de grande ajuda neste caso, Meu Senhor — disse Sergei Vassilevitch. — Os sinos anunciam a paz e não a guerra.
— Tens razão — admitiu o Czar — mas diz-se por todo o país que ninguém sabe tanto da arte de fundir metal como tu. Peço-te que me faças um canhão tão grande e poderoso que nenhum na Terra se lhe iguale. Quero colocá-lo no vale por onde entram os Tártaros. Há-de estrondear como um trovão e, como um raio, derrubar os inimigos. À vista das suas balas, os Tártaros serão obrigados a fugir de volta para as montanhas.
— Nunca fiz nenhum canhão, Meu Senhor — objectou a medo Sergei Vassilevitch.
A hesitação do fundidor de sinos não agradou ao Czar.
— Mas posso tentar, seja lá como for — acrescentou Sergei rapidamente ao ver a expressão de descontentamento do Czar.
Passou semanas e semanas a fazer planos juntamente com o filho mais velho. Quando a Primavera chegou, estava preparado. O molde de barro foi cozido e acendeu-se o forno. O minério estava pronto para ser derretido. No dia da fundição, o Czar veio pessoalmente na sua carruagem doirada, acompanhado por alguns generais, ver o que Sergei Vassilevitch projectara.
Com enormes caçarolas verteu-se para dentro da forma uma grande quantidade de minério. Os gases sibilavam ao sair pelas aberturas do cano. Finalmente, ao cabo de muitas horas, o metal arrefeceu e o molde foi cuidadosamente partido. Apareceu então o maior e o mais impressionante cano de canhão que o mundo alguma vez vira. A superfície estava coberta com as mais esplêndidas figuras em relevo. O Czar apreciou minuciosamente aquela obra de arte. O que maior admiração lhe causou foi a imagem de Santa Bárbara. Desenhada na parte de trás do cano, com uma das mãos apoiava-se numa torre, enquanto na outra segurava um ramo em flor.
— Se o canhão não fosse tão urgente por causa da ameaça dos Tártaros — disse o Czar — só por esta imagem de Santa Bárbara teria um lugar de honra no meu castelo. Será baptizado com o nome de Canhão de Santa Bárbara.
— Isso não vai agradar muito a Santa Bárbara, que bem sabe como são amargas as guerras e as mortes violentas — não pôde deixar de murmurar Natalia Sofia.
O cano foi içado com um guindaste e fixado à carreta, à qual foram atrelados dezasseis fortes cavalos, que só ao fim de grande esforço conseguiram pôr aquele monstro em andamento. O Czar voltou-se para Sergei Vassilevitch e disse:
— És um grande mestre da fundição, Sergei Vassilevitch Vabaratov. Criaste uma obra magnífica, por isso quero satisfazer um desejo teu. O que desejares, ser-te-á concedido.
Sergei Vassilevitch reflectiu longamente. O olhar poisou no filho mais novo, Vladimir Nikolai, discretamente afastado.
— Meu Senhor, agradeço-vos essa mercê. Tenho, de facto, um grande desejo. O meu filho Vladimir Nikolai, que ali vedes, não é dotado para a fundição. Não sei bem o que fazer com ele, o que me causa muita pena e aflição. Se o tornásseis coronel do canhão de Santa Bárbara e dos artilheiros, retirar-me-íeis um grande peso.
Os generais que acompanhavam o Czar riram-se daquele desejo.
— O prometido deve ser cumprido — disse no entanto o Czar.
E Vladimir Nikolai foi vestido com um faustoso uniforme e calçado com macias botas de couro. Montado no seu cavalo malhado, parecia mesmo um pequeno coronel. Por sorte, pertencia ao grupo dos artilheiros um velho cabo experiente que percebia do ofício. O canhão foi posto em andamento juntamente com setenta e sete pesadas balas e dois carros a abarrotar de sacos de pólvora. Vladimir Nikolai não se voltou para os pais uma única vez, para que não lhe vissem as lágrimas.
A Rússia é um país vasto como o céu. Só ao fim de muitas semanas é que o grupo chegou com o seu pesado canhão ao vale por onde os Tártaros costumavam passar quando invadiam o país. O canhão foi colocado numa colina suave no meio da erva. Reinava lá do alto como um violento dragão feroz, cintilando ao sol. O cabo mandou construir uma sólida torre onde armazenou os sacos de pólvora e as setenta e sete balas de canhão. Também colocou vigias para darem sinal no caso de se aproximarem grupos de Tártaros.
Vladimir Nikolai não mostrava grande interesse por todas aquelas coisas. Caminhou em volta do canhão, desfazendo a terra escura com os dedos enquanto murmurava para si:
— A terra está repousada e é boa. É terreno ideal para trigo doirado.
Ocasionalmente aparecia um Tártaro, e por vezes dois ou três, montados num pequeno cavalo. O cabo achava, que por tão poucas pessoas, não valia a pena carregar o canhão. Em vez disso, preferia exibi-lo, vangloriando-se:
— Com um único tiro, o canhão de Santa Bárbara mata uma centena de pessoas, ou mais.
Mandou trazer da torre uma das setenta e sete pesadas balas para que a admirassem e lhe tocassem. Os Tártaros, no entanto, não se atreviam a aproximar-se do canhão. Aquela arma admirável impressionava-os imenso e nas suas tendas relatavam pormenorizadamente o que viam. Naquele ano não houve um único ataque em toda a região. Entretanto, os soldados de artilharia tinham cavado uma fonte, construído casas de madeira com cercas coloridas em redor. Embora continuasse a brilhar como ouro puro, o canhão era limpo uma vez por semana. Finalmente todos os trabalhos terminaram. Os artilheiros deitavam-se preguiçosamente ao sol e alguns já tinham ganho barriga. Os dezasseis cavalos também se tinham tornado mais redondos, pesados e preguiçosos.
O Inverno chegou. De repente, Vladimir Nikolai começou a andar numa azáfama. Na aldeia mais próxima encontrara um bom ferreiro ao qual mandou fazer sete arados a partir de sete balas. Para avivar o fogo da forja, o ferreiro espalhava ocasionalmente alguma pólvora pelas chamas, mas apenas o suficiente para não fazer a casa ir pelos ares. O cabo autorizara: setenta balas continuavam a ser suficientes.
Assim que a Primavera afastou o Inverno, Vladimir Nikolai arrancou os soldados da vida ociosa que levavam. Mandou-os atrelar os arados aos cavalos e arar a terra que se estendia até perder de vista. A maioria dos soldados tinha nascido no campo e sabia abrir sulcos em linha recta. A mando do Coronel, espalharam sementes de grãos de trigo cuidadosamente escolhidas. Ao fim de pouco tempo, o canhão encontrava-se no meio de uma ondeante e loura seara. O tempo ajudou Vladimir Nicolai. Em finais de Agosto já a colheita estava concluída e o grão malhado. Mas onde guardar tão abundante colheita? Sem hesitar, Vladimir Nicolai mandou retirar todas as balas da torre e guardou os sacos de pólvora numa barraca de madeira. Em seguida, fez armazenar o cereal na torre.
Os Tártaros vinham cada vez com mais frequência. Durante todo o ano tinham observado o que os soldados faziam. Vladimir Nikolai foi afável. Ofereceu-lhes trigo, pois a colheita fora tão grande que nem em três anos os soldados e os dezasseis cavalos a consumiriam.
— Não querem também semear algum grão? — perguntou certo dia Vladimir Nikolai aos Tártaros que tinham ido buscar alguns sacos de cereal.
— Vamos perguntar — e saíram a galope.
Um dia mais tarde, chegaram muitos desconhecidos montados nos seus pequenos cavalos. O Cabo deu ordem para se carregar o canhão a toda a pressa. Mas, na barraca, a pólvora humedecera e o canhão nunca daria tiro algum. Também não foi necessário. O Príncipe dos Tártaros cavalgava no meio da sua multidão de aparência selvagem, magnificamente vestido com peles e trazendo ao pescoço uma corrente de garras de urso.
Vladimir Nikolai recebeu-o amavelmente, ofereceu-lhe um copo de vinho e perguntou:
— Então, o que tencionam fazer? Também vão arar a terra, semear e colher?
— Gostaríamos de cultivar a terra mas não podemos fazê-lo com as mãos. Não temos arados nem sementes — respondeu o Príncipe Tártaro.
— Isso resolve-se depressa. — prometeu Vladimir Nikolai.
Mandou fundir quarenta e nove balas para fabricar arados. "Agora só fico com vinte e uma balas de canhão e nem uma migalha de pólvora seca," pensou o cabo, muito preocupado. "Esperemos que os Tártaros não nos ataquem." Os Tártaros nem em tal pensavam. Na Primavera, começaram a arar e a semear, e finalmente puderam colher o seu próprio cereal. Mas nas suas tendas não havia lugar para tantos sacos de grão e começaram a construir casas sólidas. Vladimir Nikolai deu ordem aos soldados para os ajudar. Os soldados acabaram por reconhecer que os Tártaros não eram tão assustadores como tinham pensado. Alguns chegaram até a casar-se com bonitas mulheres tártaras.
— Porque é que assaltavam as aldeias? — perguntavam de vez em quando os soldados.
— Foram a fome e a necessidade que nos obrigaram — responderam.
E alguns confessaram que fora também o gosto pela aventura.
Ao fim de três anos, o Czar enviou um mensageiro. Vladimir Nikolai Varbaratov foi promovido a general e recebeu uma medalha de ouro, pois durante todos aqueles anos não chegara a Moscovo uma única queixa de ataques por parte dos Tártaros. Mais tarde, o Czar ordenou que o canhão de Santa Bárbara fosse levado para o seu castelo, onde ainda hoje pode ser visto. Os artilheiros escolheram então Santa Bárbara para sua padroeira, pois um canhão que nunca tenha de disparar balas é o sonho de paz da maioria dos soldados…
O Czar chamou Vladimir Nikolai à corte e nomeou-o seu conselheiro.
Sergei Vassilevitch Varbaratov e a esposa, Natalia Sofia, estavam felizes com os dois filhos e não sabiam de quem estar mais orgulhosos, se do robusto fundidor de sinos, Leonid Michail, se do inteligente fundador da paz, Vladimir Nikolai.
Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, Omnibus, 2004
(Tradução e adaptação)
 
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Leitor do Mês - dezembro 2011

Livro do Mês - janeiro 2012 - "Ivan, o miúdo do circo" (Maria da Conceição Galveia Ferreira)

Mamadou sorri enquanto bebe uma chávena de chá

Fazia-se tarde. O Ano Novo levantou-se, nervoso, e procurou recompor-se a toda a pressa. Como se descuidara tanto? Como fora capaz de deixar o tempo passar assim? Agora, antes de partir, tinha de verificar se tudo estava no seu lugar. Muitas coisas dependiam do seu cuidado.
Apalpou bem o corpo todo e viu que o Outono estava onde sempre esteve, que os álamos sem folhas de Janeiro tiritavam de frio, junto ao ribeiro do vale, e que a erva brotava no prado onde, na Primavera, o vitelinho iria provar o seu sabor acre pela primeira vez.
Não havia um instante a perder!
Alinhou as florestas, inspeccionou os desertos, reviu os oceanos e retocou, com carinho, o bando de pássaros que, no dia 4 de Maio, iria pousar no arame com mofo daquela cerca. Tudo estava pronto excepto ele, que estava atrasado! Sabia bem que, se não chegasse a tempo do encontro com o Ano Velho, o tempo ficaria parado e o ano que agora principiava ficaria todo baralhado.
Ainda não tinha saído quando sentiu um olhar cravado no seu rosto. Apercebeu-se de que alguém o fixava, de que uns olhos pequenos se cravavam com força nos seus, muito maiores. O Ano Novo estava com muita pressa, mas não teve outro remédio senão parar e virar-se para trás. Mas onde procurar?
Examinou a África, que, agora, por alturas de Junho, se encontrava entre um resto de savana ressequida e o início da época das chuvas, este ano um pouco atrasado. E foi lá que viu um menino a olhar para ele, deitado no chão, sem forças para continuar a respirar. Junto dele estavam outras crianças, algumas já de olhos fechados. Perto dali havia tendas de campanha, médicos em rebuliço a calcorrear o pó de um lado para o outro, ouviam-se choros, gritos e via-se uma bandeira com uma cruz vermelha engelhada.
Uma médica, ainda nova, olhava para a criança estendida no chão e, com um gesto de resignação, tomava-lhe o pulso.
— Já não vamos a tempo — disse para o enfermeiro.
— O pai dele morreu, mal aqui chegou — respondeu este.
Ambos evitavam olhá-lo nos olhos e, por isso, a criança olhava para o Ano Novo insistentemente, como se esperasse dele alguma resposta. Mas o Ano Novo não se lembrava de nada e as passadas do Ano Velho soavam já do outro lado das doze badaladas!
Contudo, quando o Ano Novo olhou outra vez para Mamadou — assim se chamava o menino — suspirou. E, enquanto corria para o encontro marcado, o seu suspiro condensou-se em forma de nuvem. O vento pegou nessa nuvem e empurrou-a pelos corredores frios do firmamento. As estações do ano discutiram um pouco até decidirem colocar a nuvem no dia certo. Por fim, o suspiro tornou-se chuva, que começou a cair no campo de milho que o pai de Mamadou iria finalmente colher. O Ano Novo sabia que esse punhado de grão pouco era. Sabia que o pai de Mamadou iria morrer mal chegasse ao campo de refugiados e sabia que Mamadou veria o seu corpo estendido.
Mas, graças a esse pouco milho de Maio, Maria pôde dizer ao enfermeiro:
— Depressa! Ainda vamos a tempo.
E o Ano Novo acabou por ver um brilho nos olhos azuis da médica.
E eu, que acabo de escrever isto, e que sei que o Ano Novo chegou a tempo de encontrar o Ano Velho e que, por isso, este ano não conhecerá nenhum desacerto, sorrio enquanto Maria e Mamadou tomam chá a meu lado. Mamadou ainda fala mal espanhol, mas parece compreender tudo. Maria, a sua nova mãe, diz-lhe algo engraçado e Mamadou sorri, enquanto bebe uma chávena de chá.
José Zafra
Ana Garralón
El gran libro de la Navidad
Madrid, Anaya, 2003
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

Plágio

Plágio... o que é plágio?
  Plágio é o acto de copiar um documento sem a respectiva autorização do autor ou sem referir a fonte. O plágio acontece a toda a hora. Nas universidades, na internet, nas escolas...
   Plágio, além de errado, é crime, e o plagiador pode apanhar uma multa. Até copiar da Wikipédia, uma fonte pública, sem referir a fonte ou dar créditos é considerado plágio!
   Mas o que leva as pessoas a cometer plágio?
   A falta de originalidade ou querer ser reconhecido! Por vezes a inveja também serve de motivo!

   Quando uma pessoa vê o seu trabalho publicado noutro sítio, com os devidos créditos, pode orgulhar-se, pois isso prova que o seu trabalho é um bom trabalho! Mas quando vê o seu trabalho publicado noutro lado sem créditos, uma pessoa fica com o moral em baixo: ver o trabalho a que se tinha dedicado pesquisa árdua ou se tinha feito simplesmente por gozo publicado com outra pessoa a afirmar que o trabalho era seu, deita uma pessoa abaixo, e a parte psicológica dessa pessoa pode ficar muito afectada!
   Por vezes também acontece o plagiador insultar o plagiado, o que é pior!

   A originalidade é algo de que nos podemos orgulhar, é algo que nos leva longe! O plágio, por sua vez, nunca dará frutos, e uma pessoa nunca obterá bons resultados se plagiar!
   Ser original não custa! Seja contra-plágio!

Feito originalmente por uma aluna

Publicada por Biólogas em Viagem à volta da Vida 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

As luzes de Natal


Antes de o meu pai morrer, o Natal era uma época mágica nos longos e escuros invernos de Bathrurst, em New Brunswick. Os dias frios e tempestuosos começavam cedo, logo no fim de setembro. A dada altura, acendiam-se as luzes de Natal e a expectativa crescia. Por alturas da véspera de Natal, o vulgar pinheiro que o meu pai arrastara até nossa casa dez dias antes adquiria uma vida própria, plena de magia e de luz. O seu brilho era de tal forma maravilhoso que conseguia, sozinho, afastar toda a escuridão do inverno.
Na véspera de Natal, pouco antes da meia noite, agasalhávamo-nos bem e íamos à missa do galo. A beleza do som do coro causava-me arrepios e, quando a minha irmã mais velha, que era solista, cantava Noite Feliz, a minha face corava de orgulho.
No dia de Natal de manhã, eu era o primeiro a levantar. Saía da cama atabalhoadamente e descia em direção ao brilho intenso da sala de estar. Embora tentasse manter-me direito, os olhos cheios de sono faziam-me cambalear. Quando entrava na sala, via-me diante do esplendor do Natal. Os meus olhos toldados e cheios de sono criavam uma auréola à volta de cada luz, amplificando-a e aquecendo-a. Após uns breves instantes, esfregava os olhos e via uma infinidade de fitas e laços e um amontoado de presentes coloridos. Nunca me esquecerei da sensação do primeiro vislumbre dessa manhã. Após alguns minutos a sós com a magia do Natal, ia buscar os meus irmãos e juntos acordávamos os nossos pais.
Certa noite de novembro, quando faltava um mês para o Natal, eu estava sentado à mesa da sala de jantar a jogar o Solitário. A minha mãe estava ocupada na cozinha, mas, de vez em quando, aproximava-se da sala de estar para ouvir o seu programa de rádio preferido.
Embora estivesse escuro e frio lá fora, o interior da casa estava agradável. O meu pai tinha-me prometido que à noite jogaríamos as cartas, mas já estava quase na hora de ir para a cama e ele ainda não tinha chegado. Quando o ouvi entrar pela porta da cozinha, levantei-me de um salto e fui ao seu encontro. Embora lançasse um olhar preocupado à minha mãe, o que achei estranho, abraçou-me quando corri para os seus braços. Adorava abraçar o meu pai numa noite de inverno. O casaco grosso e frio comprimia-se contra a minha cara e o cheiro do gelo misturava-se com o cheiro da lã.
Só que desta vez foi diferente. Depois dos segundos iniciais do abraço habitual, o seu corpo começou a ficar hirto. Fiquei um pouco assustado com esta reação anormal e senti-me aliviado quando a minha mãe me arrancou dos braços dele. Naquela altura, não compreendi que o meu pai acabava de sofrer um enfarte. Pediram-me para descer para o quarto de jogos e para brincar com os meus irmãos. Do fundo da escada, vi chegar o médico e o padre. Mais tarde, vi os enfermeiros entrar e depois vi-os sair, transportando uma maca coberta com uma manta vermelha. Não chorei na noite da morte do meu pai, nem no dia do funeral. Não que reprimisse as lágrimas. Simplesmente, não tinha lágrimas para chorar.
Na manhã do dia de Natal, como habitualmente, fui o primeiro a levantar-me. Mas este ano era diferente. A manhã já despontava no céu. Mais acordado do que de costume, desci para a sala de estar. Só me apercebi de que havia algo de estranho quando entrei na sala. Em vez de ficar ofuscado com as luzes brilhantes, conseguia ver tudo com nitidez naquela sala sombria. Conseguia ver o pinheiro, os presentes e até, através da janela, um pouco do exterior. O meu pai já não estava presente para assegurar que as luzes do pinheiro tinham ficado acesas. Quebrara-se a magia do Natal da minha infância.
Entretanto, os anos passaram. Durante a minha juventude, voluntariei-me sempre para trabalhar no Natal. O dia de Natal não era bom, nem era mau. Era mais um dia cinzento de inverno, com a vantagem de receber algum dinheiro extra pelo facto de trabalhar.
Depois apaixonei-me e casei-me. O primeiro Natal do nosso filho foi o melhor que eu tinha tido em vinte anos. À medida que ele foi crescendo, o Natal foi melhorando. Quando a nossa filha nasceu, já recuperáramos algumas tradições familiares e o Natal tornou-se, de novo, uma época maravilhosa. Era divertido esperar pelo Natal, ver a excitação das crianças e, acima de tudo, passar o dia de Natal com a minha família. Na véspera de Natal, continuei a tradição iniciada pelo meu pai e deixava as luzes do pinheiro ligadas naquela noite para que, de manhã, as crianças pudessem viver aquela experiência maravilhosa.
Numa noite de Natal, tinha o meu filho nove anos, a mesma idade que eu tinha quando o meu pai faleceu, enquanto via a missa do galo na televisão adormeci no sofá. O coro cantava lindamente e a última coisa de que me lembro foi de desejar ouvir outra vez a minha irmã a entoar Noite Feliz. Acordei de manhã cedo com o barulho que o meu filho fazia enquanto descia para a sala de jantar. Vi-o parar e olhar o pinheiro, boquiaberto. Então, lembrei-me da minha infância e soube que o meu pai me tinha amado da mesma forma que eu amava o meu filho. Soube que ele tinha sentido por mim uma mistura de orgulho, de alegria e de amor ilimitado. E, naquele instante, soube como me tinha zangado com o meu pai por ele ter morrido e quanto amor tinha escondido durante toda a minha vida por causa desse sentimento de raiva.
Senti-me um rapazinho, cujas lágrimas estavam prestes a brotar, e não havia palavras para exprimir a imensa pena e a alegria irresistível que experimentava em simultâneo. Esfreguei os olhos com as costas da mão para ver melhor. Com os olhos húmidos e a visão toldada, olhei para o meu filho que estava diante do pinheiro. Meu Deus, que pinheiro magnífico! Era o pinheiro da minha infância.
Através das lágrimas, as luzes do pinheiro irradiavam um brilho quente e cintilante. Os amarelos, verdes, vermelhos e azuis, tremeluzentes e suaves, envolveram-nos. Tinham-me sido roubados pela morte do meu pai. Mas, ao amar o meu filho tanto quanto o meu pai me amara, pude ver, uma vez mais, as luzes de Natal. E, a partir desse dia, recuperei toda a magia e alegria do Natal.
Michael Hogan
J. Canfield, M. V. Hansen, J. Matthews, R. Aaron
Chicken Soup for the Canadian Soul
Florida, HCI, 2010
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo de 2012

A Equipa da Biblioteca Escolar e Centro de Recursos Educativos do Agrupamento Vertical de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores deste blogue, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo de 2012.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Angela e o Menino Jesus

Quando Angela, a minha mãe, tinha seis anos, sentiu pena do Menino Jesus que estava no presépio da igreja de Saint Joseph, que ficava perto do lugar onde vivia. Pensava que o Menino tinha frio e perguntava-se por que motivo ninguém lhe punha um cobertor por cima do corpinho nu.
Não que ele parecesse infeliz: sorria para a mãe, a Virgem Maria, para S. José, e para os três pastores com cordeirinhos às costas, que pareciam bem quentinhos nos seus casaquinhos de pele. Mas, mesmo que sentisse frio, nunca se queixaria, porque o Menino Jesus nunca iria querer que a sua mãe se sentisse infeliz. A pequena Angela também sentia frio e fome com frequência, mas nunca se queixava, com medo de que a mãe, os irmãos e a irmã a mandassem parar com a choradeira. Haveria de encontrar uma forma de ajudar o pobre Menino Jesus, sem que ninguém soubesse de nada.
Alguns dias antes do Natal, Angela escondeu-se num confessionário, espreitando, de vez em quando, para ver se a igreja já estava vazia. Mrs Reid e Mr King estavam ajoelhados nos bancos da igreja a rezar, arfando e batendo no peito, e Angela perguntava-se por que razão não iam antes para casa, beber uma boa chávena de chá, bem docinha.
Quando espirrou, os velhotes assustaram-se, por não saberem de onde teria vindo o espirro. Cochicharam um para o outro que devia haver um fantasma na igreja e saíram dali o mais depressa que puderam. A pequena Angela esperou um pouco, para se certificar de que a igreja estava finalmente vazia. Só se ouvia agora o barulho de vozes na rua e os cascos dos cavalos no pavimento.
Pensou no que ia fazer. Sabia, pelo que ouvira nas aulas, que roubar era uma má acção e que podia ser castigada. Podia até ser mandada para a cama sem direito a uma chávena de chá sequer. Se mesmo tirar alguns tostões do porta-moedas da mãe implicava um castigo, qual seria a punição por roubar o Menino Jesus? A própria mãe lhe daria um bom açoite, de certeza; contudo, Angela não queria pensar nisso naquele momento. A única coisa que lhe interessava era tomar conta do Menino antes que ficasse roxinho de frio.
Ficou surpreendida ao ver quão hirto e gelado era, ao invés dos bebés macios da sua rua. Quando o levantou da manjedoura, ele continuou a sorrir para ela, da mesma forma que sorria para a Virgem Maria, para S. José, para os três simpáticos pastores com os cordeirinhos, e para os Três Reis Magos e os seus presentes. Sentiu pena por nunca mais nenhum deles o ir ver de novo; porém, nenhum deles parecia preocupado. De qualquer forma, aquecê-lo era o mais importante e ninguém iria querer negar-lhe essa oportunidade.
Tinha de ser cuidadosa. Não queria que ninguém a visse a transportar o Menino Jesus para casa. Caminhou com rapidez pela nave da igreja e saiu para a rua, onde estava já escuro. Ao longo das ruas, a luz bruxuleante dos candeeiros ajudá-la-ia a esconder-se nas sombras. Fazia frio e os transeuntes não pareciam ter vontade de olhar para uma rapariguinha e para o quer que fosse que ela carregasse. O que as pessoas queiram era ir para casa beber uma boa chávena de chá e aquecer as pernas à lareira.
A dada altura, Angela deteve-se. Como iria levar o Menino Jesus para casa, com todos a olharem e a perguntarem o que era aquilo e o que estava ela a fazer? Não podia entrar pela porta da frente, mas, como havia uma ruela por detrás da casa, podia atirar o Menino para dentro do quintal. Contudo, o muro era demasiado alto. Podia subi-lo, mas teria de o fazer sem o Menino. Disse-lhe então:
— Ajudas-me, meu Menino? Ajudas-me?
E ele ajudou-a, dizendo-lhe, mentalmente, para o atirar por cima do muro e para o ir buscar ao outro lado. Não que fosse fácil. Angela tentou três vezes, antes de conseguir atirar o Menino para o quintal.
Foi então que aconteceu uma coisa horrível. Quando escalou o muro e saltou para o quintal, não havia qualquer sinal do Menino. O que podia ela fazer? Para onde teria ele ido? Angela só tinha seis anos, mas sabia que perder o Menino Jesus era coisa séria. Se não conseguisse encontrá-lo, ele ficaria com frio e começaria a chamar pela mãe. Encontrou-o finalmente. A sua brancura ressaltava da escuridão do quintal da vizinha cega de Angela, Mrs Blake. Debruçada no muro, a menina falou severamente com Jesus. Estava a tentar ajudá-lo e não via maneira de desculpar o comportamento dele, a voar como um pássaro e a cair num quintal onde não devia estar. Disse-lhe:
— Menino Jesus, estou com vontade de te deixar ficar aí.
Mas Angela nunca o faria, porque, se Deus descobrisse, não a deixaria tocar num doce ou num pão com passas durante uma semana inteira.
— Quando te atiro por cima do muro, não deves aterrar no quintal de Mrs Blake. Nem deves voar como se fosses um anjo.
Angela saltou para o quintal da vizinha e foi buscá-lo. Conseguiu lançá-lo, numa só tentativa, para o seu quintal, o que provava que ele a tinha ouvido, apesar de continuar com o mesmo sorriso de sempre. Angela adorava a forma como os bracinhos e as mãozinhas dele se estendiam, tal e qual como quando estava no presépio. Quando ela própria aterrou no chão, disse-lhe que ele era um bom menino, porque era obediente, e abraçou-o para o aquecer naquela noite fria e escura de Dezembro.
Angela quase morreu de susto quando a porta traseira da casa se abriu e o irmão saiu. Pat ia à casa de banho. O rapaz estacou e ficou a olhar para a irmã e para o Menino Jesus. Dado que o irmão era como um bebé ele próprio, e costumava dizer coisas apatetadas, Angela não se preocupou.
— Esse é o Menino Jesus?
— É.
— Mas ele devia estar a dormir no presépio na igreja e tu tem-lo aqui ao frio.
— Estou a aquecê-lo — explicou Angela.
— A mãe dele vai desatar numa gritaria quando vir que ele desapareceu.
— Aposto que não se vai importar, porque também quer que ele esteja quentinho.
— Então está bem.
Pat foi à casa de banho e Angela entrou em casa devagarinho, atravessando o pequeno patamar e subindo as escadas. Parou ao ouvir a voz do irmão.
— Mamã, a Angela tem o Menino Jesus lá em cima.
A mãe disse:
— Oh, filho, isso é que é imaginação. Bebe o teu chá.
— Tem pois. E ele está todo branquinho e a tremer.
— Está bem, Pat. Havemos de falar com ela.
— A mãe dele deve estar a fazer uma algazarra.
— Não canses essa cabecinha, filho.
Angela sabia que não ia conseguir conservar o Menino, durante toda a noite, na cama que partilhava com Aggie, a irmã. Deixá-lo-ia descansar durante algum tempo, quentinho e aconchegado num cobertor, e, quando fossem horas de deitar, pô-lo-ia debaixo da cama, confiando que ele se manteria lá confortável até de manhã.
 A mãe ficou surpreendida por a ver descer as escadas à hora do lanche, em vez de a ver entrar pela porta da frente.
— Estavas a descansar, filha?
— Estava.
Depois do lanche, deixaram-na ficar sentada à lareira, enquanto a família convivia. Queria juntar-se à conversa, mas diziam-lhe sempre que era demasiado pequena e que devia manter-se calada. Afinal, só tinha seis anos. O que teria para dizer que fosse importante? Esta noite, estar em silêncio não incomodava Angela. Tinha um grande segredo: o Menino Jesus estava na sua cama, quentinho e aconchegado. Não que lhe fosse fácil guardar segredos; contudo, se dissesse fosse o que fosse, todos iriam querer vê-lo e brincar com ele, como se fosse uma boneca velha. Angela tivera outrora uma boneca e chorara bastante quando Aggie lhe arrancara a cabeça e se rira.
A família riu de novo quando Pat lhes contou que tinha visto Angela com o Menino Jesus ao colo no quintal das traseiras. Furioso, o rapaz acrescentou:
— E agora tem Deus lá em cima na cama.
A mãe sossegou-o:
— Está bem, filho. Vamos lá todos ver se o Menino Jesus está na cama.
A pequena Angela ficou aterrorizada. O que podia fazer se a família encontrasse o Menino Jesus na cama dela? A mãe decerto lhe daria umas boas palmadas e obrigá-la-ia a ir para a cama sem chá e sem pão.
Seguiu a mãe e os irmãos até ao andar de cima.
O quarto estava escuro, mas podia ver-se o Menino Jesus na cama, com a cabeça na almofada e os braços estendidos, embora não se conseguisse ver o seu sorriso encantador.
— Minha Nossa Senhora! — exclamou a mãe. — Este é o Menino Jesus da igreja de Saint Joseph?
Quando todos disseram "É", Angela ficou calada. A mãe olhou-a de frente.
— Angela, foste tu que puseste o Menino Jesus na cama? Diz a verdade, porque se mentires diante do Menino Jesus cometes o maior pecado do mundo.
A pequena Angela tinha vontade de chorar, mas não o fez. Algo lhe dizia que chorar neste momento não ajudaria muito.
— Fui — respondeu.
— E porque o fizeste?
— Porque ele tinha frio no presépio e eu queria aquecê-lo.
Tom e Aggie desataram a rir, mas a mãe silenciou-os. A pequena Angela reparou que Pat, o motivo de toda aquela confusão, não ria. Pat disse:
— Eu adoro o Menino Jesus. Vou tomar conta dele para que não tenha frio.
— Mas, filho, temos de o levar para junto da sua pobre mãe, a Virgem Maria, que ficou na igreja.
Pat começou a chorar.
— Por favor, mamã, eu consigo aquecê-lo e posso dizer à mãe que ele está a salvo na cama.
Angela tinha vontade de dizer ao irmão que fora ela quem trouxera o Menino Jesus e que o irmão não tinha nada que falar do paradeiro da criança à Virgem Maria.
— Mamã — começou.
— O que foi? — perguntou a mãe, num tom brusco.
— Quero ser eu a aquecer o Menino Jesus. Não quero que o Pat faça nada.
— Ele é teu irmão. E adora o Menino Jesus.
— Pouco me importa.
— De qualquer forma, o Menino Jesus tem de voltar para junto da mãe dele imediatamente.
As lágrimas irromperam dos olhos de Angela.
— Por favor, mamã, por favor…
— Vamos levá-lo de volta, Angela, e temos sorte se o padre não quiser apresentar queixa.
A mãe embrulhou o Menino Jesus no seu melhor xaile e foram todos até à igreja devolver o Menino à Virgem Maria, a S. José, aos pastores dos cordeirinhos quentinhos, e aos Três Reis Magos. Ficaram chocados quando viram a porta da igreja fechada, e ainda mais chocados quando ela se abriu e o Padre Creagh e um polícia saíram de lá de dentro.
 — Virgem Santíssima! — exclamou a mãe de Angela.
— O que é isto? — perguntou o padre.
— É o Menino Jesus — respondeu a mãe de Angela.
— Isso vejo eu — replicou o padre. — Há duas horas que andamos numa aflição em volta do presépio. Quem o levou?
A pequena Angela puxou pela manga do padre.
— Fui eu. Ele estava com frio e eu levei-o para o aquecer.
Padre e polícia entreolharam-se. Este abanou a cabeça.
— Que Deus nos ajude!
Pôs a mão no ombro de Angela e perguntou ao padre:
— Prendemo-la, padre? Pomo-la na cadeia de Limerick?
— Não, não — gritou Pat. — Vocês não podem pôr a minha irmã na prisão. Ela só estava a tentar aquecer o Menino Jesus. Ponham-me antes a mim.
O rapazinho não sabia do que falava e a mãe começou a chorar.
— Oh, Pat — disse, segurando o Menino num braço e aconchegando o filho com o outro. — Eras capaz de fazer isso pela tua irmã?
— Claro que sim. Adoro o Menino Jesus e adoro a minha irmã.
O mais estranho de tudo era que o luar de Dezembro mostrava que as lágrimas também corriam pelo rosto do padre, enquanto o polícia pigarreava e dava um toque no cassetete. O padre entrou na igreja, clareou a garganta e pediu a todos que entrassem.
— Temos de devolver o Menino à sua pobre mãe — disse a Angela.
Subiram pela nave e, quando chegaram junto do gradeamento do altar, o padre pegou no Menino que a mãe de Angela segurava. Deu-o a Angela e conduziu-a até ao presépio.
— Podes voltar a pô-lo na manjedoura — disse, numa voz suave e baixinha.
— Mas ele vai ter frio — objectou Angela.
— Não vai, não — assegurou o padre. — Quando não está ninguém presente, a mãe dele, Nossa Senhora, certifica-se de que ele não passa frio.
— Tem a certeza? — perguntou Angela.
— Claro que tenho — respondeu o padre.
E, quando Angela pôs Jesus de novo no presépio, o Menino sorriu como sempre sorria e estendeu os braços para o mundo.
  
Frank McCourt; Raúl Colón
Angela and the Baby Jesus
London, HarperCollins, 2007
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

Recital de Natal 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Eficiência energética (palestra por Valter Martins)

SeguraNet: Minuto seguro

O SeguraNet tem em curso a publicação de uma série de vídeos sobre a segurança na Internet, produzidos em parceria com a Fundação PT e alojados no portal Sapo Vídeos, da Portugal Telecom. Os vídeos têm a duração de mais ou menos 60 segundos e abordam temas pertinentes para a utilização correta, crítica e esclarecida da web e dos meios tecnológicos.
O público-alvo desta campanha são as crianças, adolescentes, jovens e professores. Poderão ser também úteis para o público em geral.
Os vídeos, em número de quarenta, serão publicados ao ritmo de um por dia, no sítio www.seguranet.pt.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Babushka

Há muitos anos vivia uma velhinha num sítio muito distante. Era rechonchuda e doce como um pudim de Natal e não parava de varrer, limpar o pó e polir, desde o nascer do sol até aparecerem as primeiras estrelas.
Não havia um grão de pó ou uma teia de aranha na sua casa. Ela mantinha-se sempre ocupada, porque havia um lugar vazio no seu coração e ficava triste quando pensava nisso.
Ora, uma bela noite, Babushka estava a polir os castiçais, quando viu uma estrela nova e brilhante cintilar através da janela.
"Olha, os vidros têm uma mancha", disse Babushka. "Só dei por isso agora. Mas que aborrecimento."
A estrela estava escondida por detrás de uma nuvem.Babushka começou a esfregar o vidro. Olhou lá para fora e viu um anjo no jardim.
"Boas novas!", cantou o anjo.
"Se quiseres entrar, tens de limpar os pés", disse Babushka.
O anjo voou para longe.
Bateram à porta. Eram três reis com as suas coroas de ouro.
"Entrem, majestades", disse Babushka, "mas descalcem, por favor, as vossas botas reais."
"Andamos a seguir a estrela", disseram os três, "que nos vai conduzir até ao pequeno novo rei. Gostarias de vir connosco?"
"Eu não tenho tempo para andar a viajar!", disse ela. "Quem é que me lava a louça depois?"
Os camelos dos reis estavam junto do portão.
"Oh!", disse Babushka. "Patas enlameadas a sujarem a minha entrada! Xô! Xô!", disse sacudindo o pano do pó. Os camelos assustaram-se e fugiram a galope para longe, e os reis foram atrás deles. "Vou sentar-me um bocadinho para descansar os pés", disse Babushka, "e depois vou limpar o canário."
Mal se acabara de sentar, começou a cabecear com sono e adormeceu.
O anjo apareceu de novo e cantou uma cantiga que falava de um menino nascido num estábulo e que tinha apenas uma fralda a envolvê-lo. A estrela, saindo de trás da nuvem, atravessou a janela com a sua luz e iluminou em cheio o rosto adormecido de Babushka, que acordou. "Valha-me Deus!", disse. "Um bebé num estábulo todo sujo, cheio de animais, onde nem sequer há um xaile quentinho que o tape? Tenho de me pôr já a caminho."
Numa cesta pôs um pequeno palhaço de brinquedo, um xaile quente e uma garrafa de licor de gengibre para os mais crescidos, e pôs-se a caminho. O céu, iluminado pela estrela como se fosse de dia, estava cheio de anjos, mas Babushka não olhava para cima.
"Toda esta poeira na estrada! Isto é uma vergonha", disse ela.
Babushka viu logo adiante uma mulher e uma menina na berma da estrada. A menina estava a chorar.
"O que se passa, minha querida?", perguntou Babushka.
"Íamos a correr para vermos o novo rei, e ela perdeu a boneca", disse a mãe da menina.
"Pu-la no bolso e ela deve ter caído", disse a menina soluçando.
Babushka tirou o palhaço de brinquedo da cesta e fê-lo dançar. A menina parou de chorar e riu.
"Toma lá, com todo o meu amor", disse Babushka dando-lhe o boneco.
Um pouco mais à frente, Babushka encontrou uma velhinha muito queixosa, caminhando com dificuldade.
"O que se passa, minha querida?", perguntou Babushka.
"Eu gostava tanto de ir ver o menino", disse a velhinha, "mas não posso ir depressa porque me doem muito as pernas."
"Olha", disse Babushka, "toma este licor fortificante, com todo o meu carinho. Vai-te fazer muito bem."
A velhinha bebeu um grande gole e afastou-se a passo rápido com um sorriso no rosto e uma palavra de gratidão nos lábios. Logo a seguir, Babushka encontrou um pastorinho transportando um cordeirinho acabado de nascer. O rapazinho tremia com frio.
"Não consegui acompanhar os outros", disse. "Tenho os braços tão frios que não consigo levar este cordeirinho mais tempo. É um presente para o novo rei recém-nascido."
Babushka aconchegou-lhe o xaile em volta dos ombros.
"Toma isto, com todo o meu amor", disse. "Assim não sentirás frio durante a viagem."
Babushka continuou o seu caminho. A cesta parecia leve como o ar. Parou e olhou Iá para dentro. Estava vazia!
"Oh, minha velha tonta", disse para si mesma. "Tu deste os presentes todos."
Triste, voltou para trás pelo mesmo caminho. "Eu não posso ir saudar o menino sem levar uma prenda", disse.
Foi quando ouviu uma voz a chamar: "Babushka!" Era Maria.
Babushka parou, hesitante. "Eu não trago nenhum presente", disse.
"Faz favor de entrar", disse Maria sorrindo.
Babushka entrou e lá estava o menino envolto no xaile quentinho. O pequeno palhaço estava ao lado dele na manjedoura. José bebia o seu licor fortificante.
"Mas eu dei todas as prendas!", disse Babushka.
"Tudo o que deste com amor deste-o também ao meu filho", disse Maria.
Babushka observou tudo muito bem à sua volta.
"Olhem para estas teias de aranha", disse. "Vou já limpá-las."
Foi então que o menino estendeu os braços e sorriu. Os seus olhos pareciam a noite estrelada e profunda. O seu sorriso era o próprio amor.Babushka sentiu uma estranha sensação que a fez esquecer as limpezas."Gostavas de lhe pegar?", perguntou Maria.
Babushka tomou o menino nos braços.
Rodeada de todos os animais, Babushka fez uma festa no focinho do velho burro cinzento, e o burrinhoencostou-lhe o focinho ao ouvido. O menino ria contente, tal como Babushka.
Ela apertou-o contra si.
"Paz", cantavam os anjos.
Sandra Ann Horn
Babushka
Porto, Campo das Letras, 2002
 A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Concurso Nacional de Leitura 2011/2012


Natal nas trincheiras

A única coisa que separava os dois exércitos, naquela noite fria de Dezembro de 1914, era um pedaço de terra lamacenta chamado Terra de Ninguém. De repente, um cântico rompeu o ar gelado, celebrando o Natal em alemão, e logo um outro se lhe seguiu, em inglês.
Durante algum tempo, os inimigos deixaram de se guerrear e comportaram-se como amigos. Estima-se que, nesta trégua de Natal não oficial, participaram cerca de cem mil soldados.
Foi um momento único na história da humanidade.

Os presentes tinham sido abertos e o jantar acabara. Depois de um longo passeio pelos campos cobertos de neve, o jovem Thomas aconchegou-se junto do avô e disse:
— Avô, este Natal foi o meu preferido. E tu, tens algum Natal favorito?
— Tenho, Thomas — respondeu o avô Francis. — Passei-o muito longe de casa, durante o primeiro Inverno da Grande Guerra.
— Estiveste na guerra, avô? — perguntou a pequena Nora, subindo para o colo dele. — Foste um herói?
O avô sorriu e sugeriu:
— E se começássemos pelo princípio?
As duas crianças aproximaram-se ainda mais dele.
— Foi em 1914. Os meus companheiros e eu estávamos há já várias semanas no campo de batalha. Sentíamo-nos sozinhos e assustados, embora tentássemos ser corajosos. Tínhamos passado um mês longo e frio em trincheiras lamacentas, que eram, naquela altura, a nossa casa.
Sabíamos que não haveria tréguas no combate e que passaríamos o Natal ali mesmo. Aquela véspera de Natal aconteceu numa noite igual à de hoje. Os céus estavam a clarear e a geada cobria a Terra de Ninguém, o campo que nos separava dos soldados alemães.
E ali estávamos nós, diante das trincheiras inimigas, à espera… Aparte as bombas e as batalhas, a guerra consiste em esperar. Esperar para ver quem vai dar o próximo passo. Nessa noite, sentimos que iam ser os Alemães. E tínhamos razão. De repente, uma sentinela fez sinal a pedir silêncio e ficámos todos calados.
Foi então que um som rasgou o frio da noite gelada.
O som provinha do lado inimigo da Terra de Ninguém e um soldado inglês que sabia alemão disse tratar-se de um cântico de Natal. Em breve, todos os Alemães entoavam a mesma canção. Quando terminaram, decidimos responder-lhes com um cântico de Natal que todos conhecíamos.
Depois, os Alemães entoaram "Noite Feliz", ao qual nos juntámos, com a letra cantada em inglês. Foi como se a terra inteira entoasse o mesmo cântico… Nunca pensei que cantar fosse tão sagrado. De repente, a sentinela de vigia gritou:
— Aproxima-se alguém!
E, enquanto apontávamos as espingardas à escuridão de Dezembro, deparámos com algo de extraordinário. Uma figura vinha até nós através da Terra de Ninguém. Numa mão trazia uma bandeira branca, e na outra uma árvore de Natal cheia de velinhas. Era um gesto tão surpreendente e corajoso que não pude deixar de saltar da trincheira e de ir ter com aquele soldado.
Fui o primeiro de muitos. Em breve, todos os soldados de ambos os lados se encontravam fora das trincheiras. Era tudo tão novo e estranho que, no início, estávamos nervosos. Passado pouco tempo, porém, trocávamos já pequenas lembranças – chocolates, conservas de carne, tudo o que pudéssemos partilhar. Quando mostrámos uns aos outros fotografias de casa e da família, deixámos de ser soldados e de ser inimigos. Éramos apenas filhos e pais, longe da família e de casa.
Um dos nossos rapazes trouxe um acordeão e um dos deles começou a tocar violino. E acabámos por improvisar… um baile. Foi uma bela festa de Natal! Mas a alvorada em breve nos anunciou que tínhamos de regressar. Regressar às trincheiras, voltar a esperar. Pensar no que nos tinha acontecido e em qual seria o nosso próximo passo.
Esta é minha recordação favorita de Natal. Hoje sou um homem diferente por causa do rapaz que fui naquela noite.
O avô abraçou os netos com força.
— Será que fui um herói? Penso que, naquela noite, todos fomos heróis.

NOTA HISTÓRICA
Embora este conto seja um relato ficcional, a trégua de Natal de 1914 foi um facto histórico, e teve lugar na linha de batalha entre a costa da Bélgica, a norte, e a fronteira da Suíça, a sul.
Quatro meses antes, no início da Grande Guerra, como a Primeira Guerra Mundial ficou conhecida, milhões de homens por toda a Europa tinham-se alistado em resposta aos apelos dos seus líderes. Muitos achavam que a guerra seria curta e que estaria terminada no Natal. Mas, quando o Inverno começou, milhares de soldados tinham já sido mortos ou feridos e a dura realidade do campo de batalha impôs-se.
Em Dezembro de 1914, as Forças Aliadas (Bélgica, França, e Inglaterra) estavam num impasse com os Alemães, cada um dos lados à espera de que o outro capitulasse. As tropas estavam protegidas por trincheiras cavadas à pressa. Estas valas estreitas, embora mais fundas do que a altura dos soldados, eram parca protecção para o frio invernal.
Entre os dois exércitos havia uma extensão de terreno árido chamada Terra de Ninguém, mais larga do que dois campos de futebol juntos. Nalguns sítios, porém, o intervalo entre as duas facções não excedia os 30 metros. Nestes locais, os inimigos estavam tão perto que conseguiam ouvir-se falar.
Assim tão perto, muito terão pensado no aspecto que teria o inimigo. Estariam satisfeitos por se encontrarem naqueles buracos húmidos, a lutar em nome do Kaiser ou do Rei, ou prefeririam estar em casa? À medida que se aproximava a véspera de Natal, muitos soldados devem ter pensado em casa e na paz. Alguns tinham recebido encomendas da família com ofertas festivas. As próprias famílias reais da Alemanha e da Inglaterra tinham enviado prendas para as suas tropas e a Alemanha tinha mesmo enviado árvores de Natal para os homens que combatiam na frente.
Naquela noite, foram muitos os que quiseram parar de lutar, por breves horas que fosse. Alguns chegaram mesmo a fazer o relato desse evento em diários e cartas.
John McCutcheon; Henri Sørensen
Christmas in the trenches
Atlanta, Peachtree Publishers, 2006
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias