terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os saris da minha mãe


— Quando poderei vestir um sari? — perguntei à minha mãe, saltando para cima da sua cama.

A minha mãe pegou numa mala de couro, dentro da qual guarda todos os seus saris, e que está sempre debaixo da cama. A mala contém o sari de cetim amarelo que ela usou na festa do bebé da Uma Didi, o sari cor de pêssego, que é fino como uma teia de aranha, e o meu favorito, o sari vermelho do seu casamento. Só o vi uma vez, porque está cuidadosamente embrulhado num velho lençol de cama.

— Podes vestir saris quando fores mais velha — disse a minha mãe, abrindo a mala.

— Mas hoje faço sete anos e vamos ter uma festa! Por isso é que estás a usar um sari.

A minha mãe só abre esta mala em dias especiais. A mãe dela, a Nanima, usa um sari todos os dias, mesmo quando dorme. As dobras e os recantos dos saris da Nanima estão cheios de segredos. Neles encontro moedas, alfinetes de segurança, e o seu odor permanente a sabonete de sândalo.

A minha mãe corre o fecho da mala e eu tento absorver todas as cores que ela encerra.

— Ajudas-me a escolher um sari? — pede.

Claro que sim — respondo.

Talvez ela me deixe escolher um também.

— Que tal me fica este? — pergunta, segurando um sari cor de púrpura junto do rosto.

— Oh mãe, pareces uma beringela — rio.

E este?

A minha mãe desenrola um sari de seda preta que brilha como um céu estrelado.

— Esse não, porque já o usaste na festa de anos da Devi Masi.

— Não acredito que te lembres disso tudo!

Mas é verdade que me lembro de todos os saris que a minha mãe usou. Ainda me lembro do sari cor de lavanda, que ela vestiu na festa do Diwali, e do sari cor de magenta com veados bordados, que ela vestiu no dia em que a Nanima nos fez a primeira visita.

A minha mãe fica lindíssima com saris. São tão diferentes das camisolas cinzentas e das calças castanhas que veste todos os dias para ir trabalhar.

— E este? — pergunto, apontando para um sari que nunca tinha visto.

Parece uma bola de fogo laranja e as pontas vermelhas parecem ter sido mergulhadas em tinta vermelha. A minha mãe sorri:

— Usei esse sari no dia em que te trouxemos do hospital. Todos os teus tios e tias vieram dar-te as boas vindas.

— Veste-o hoje outra vez!

A minha mãe desenrola-o e molda-o ao corpo. O sari brilha como o sol poente.

Olho para as minhas roupas e sinto-me desinteressante em comparação.

— Porque não posso usar um sari?

— Os saris são para mulheres adultas. Mesmo que o dobrasses várias vezes, acabarias por tropeçar nele.

— Nunca me deixas fazer nada. Ontem, disseste-me que não podia ir para a escola com sapatos de festa, embora todos os dias calces tacões para ir trabalhar.

— Porque não usas a tua chanya choli? — sugeriu. — Disseste-me que os espelhos da saia te faziam parecer uma princesa.

— Não quero. Já tenho idade para usar um sari. Já não preciso de luz de presença no quarto e consigo servir-me de leite de manhã sem entornar uma gota.

A minha mãe ficou calada durante algum tempo. Depois disse:

— Lembro-me da primeira vez que usei um dos saris da minha mãe. Senti-me tão crescida!

— Por favor, mamã, deixa-me escolher um — sussurro. — Até sei qual quero usar.

— Bem, estás a ficar mais alta e talvez consigamos segurar as dobras com muitos alfinetes. Mas só vestes o sari hoje, porque fazes anos.

— E posso vestir outro quando fizer oito anos? Nessa altura, já serei tão alta como tu!

A minha mãe ri e começa a mostrar-me os saris, um a um. Quando só resta um no fundo da mala, exclamo:

— É esse mesmo! O azul com flores douradas nas pontas.

— Põe-te de pé em cima da cama — pede a minha mãe.

Depois, começa a enrolar o sari em volta do meu corpo. Quando tento ver-me ao espelho, avisa:

— Espera, ainda não estás pronta!

De uma latinha em forma de coração que tem no armário, tira algumas pulseiras em ouro. Coloca seis no meu braço, que caem no chão a tilintar quando o estico.

— Temos de pedir à Nanima que nos envie pulseiras que condigam com este sari — brinca a minha mãe.

— Já posso ver-me ao espelho? — peço.

— Só mais uma coisa — responde a minha mãe, abrindo uma gaveta da cómoda.

Dela retira uma pequena caixa que contém alguns bindis de cores e feitios diferentes. Pega num prateado e coloca-o bem no meio das minhas sobrancelhas.

— Já podes olhar.

Debruço-me sobre o espelho, pegando no sari com cuidado.

— Que tal?

Sinto-me a flutuar num oceano de azul. O material reluzente faz-me brilhar. É tão bonito que digo, dedilhando a borda do sari:

— Acho que estou parecida contigo, mãe!


Pooja Makhijani; Elena Gomez
Mama's Saris
New York, Hachette Book, 2007
(Tradução e adaptação)


* * * * *

GLOSSÁRIO DE PALAVRAS EM HINDI

Bindi – sinal decorativo que as mulheres hindus usam na testa. Antigamente, era sempre um sinal vermelho e simbolizava o estatuto da mulher casada. Hoje em dia, é considerado um acessório de moda e não conhece restrições de cor ou feitio.

Chanya choli – conjunto de saia larga e blusa justa, tradicionalmente usado pelas mulheres dos estados do Gurajat e do Rajastão.

Didi – termo respeitoso usado para com uma irmã mais velha, uma prima, ou uma amiga.

Diwali – significa "fiadas de luzes acesas". É o festival da renovação da vida, o Festival das Luzes, no qual é comum as pessoas usarem roupas novas. É uma altura em que as famílias acendem lâmpadas de azeite e as colocam em torno das casas, para dar as boas vindas ao novo ano.
 
Masi – a irmã da mãe.

Nanima – a mãe da mãe.

Sari – o traje tradicional das mulheres indianas. Um sari é um pano de 6,30m de comprimento e 1,20m de largura, cujos estilo, cor e textura variam muito. Pode também ser dobrado de forma diferente, conforme o estatuto, a idade, a profissão, a religião e a região da mulher.











O Clube de Contadores de Histórias

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Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar




quinta-feira, 1 de outubro de 2009

As sextas-feiras de Nana




As noites de sexta-feira em casa da avó Nana começam logo de manhã cedo na
cozinha. Nós comemos pão com doce de pêssego, que é o nosso preferido.
Nana bebe chá, que está muito quente, e sopra para dentro da taça antiga de porcelana chinesa, fazendo pequenas ondas.
— Hoje não tenho escola! — digo a cantar. — Que sorte que eu tenho!
— Hoje não tens escola! — responde. — Que sorte que EU tenho!
— Agora fala-me da noite de hoje – peço.
— Vem a família toda! Vem para o Sabbath e nós temos muito que fazer!
Nana apressa-se a fazer a cama e a limpar os quartos. Eu estou encarregada de alisar as almofadas.
Nana lava as porcelanas chinesas e passa a ferro os vincos da renda da toalha de mesa.
Eu dobro guardanapos com bordos de renda.
Nana inspecciona se faltam botões no seu vestido de Sabbath, azul marinho, de gola branca e punhos brancos também.
— É altura de fazer a tarte? — pergunto.
— Daqui a pouco, Jennie.
Eu puxo e volto a puxar o lustro a dois candelabros.
— Já é altura agora?
— É – diz Nana, estendendo a massa, e eu deito açúcar nas maçãs para a tarte. Em seguida, ela entrança os challah (Challah – Pão tradicional para o Sabbath e outras festas judaicas.) e mete-os no forno.
Ao meio-dia comemos sandes no parque, perto do rio. Bebemos também uma chávena de cacau.
O céu está cinzento e o vento sopra do rio, levantando-nos o cabelo, e nós dançamos para nos mantermos quentes, com os ponchos vestidos e as luvas calçadas.
Depois, andamos pela cidade de mãos dadas, à procura de flores roxas, que são as nossas preferidas.
— Oh, obrigada! — diz Nana.
— Obrigada — repito, saltitando pelo passeio com as flores.
Quando regressamos a casa de Nana, pomo-las numa jarra alta com água.
— É altura de nos vestirmos? — pergunto.
— Daqui a pouco, Jennie.
Mais para o fim da tarde, a casa está toda esfregada, a sopa de cevada já ferve e os challah estão a arrefecer. O frango aloura no forno e as batatas também.
— Agora já é altura?
— É — diz Nana.
Nós vestimos os nossos vestidos, ambos azul-marinho. Os sapatos também são azuis. Nana põe batom nos lábios, olhando-se ao espelho.
Pomos a mesa, contamos os talheres de prata e as taças da sopa, os copos que cintilam.
Nana pica o frango para ver se está tenro.
Lá fora escurece.
— Nana, olha! Neve!
A campainha da porta toca e a família precipita-se para dentro, abraçando Nana.
Também me abraçam a mim, pincipalmente os meus pais, e eu faço cócegas ao meu irmão bebé, o Lewis, metido no fatinho de bebé.
A campainha toca de novo e entra mais família de rompante. Os tios, as tias e os primos. Toda a gente fala ao mesmo tempo, tiram os sapatos aos pontapés, atiram os
sobretudos para cima das cadeiras.
No forno, a minha tarte já começa a cheirar.
— Já é altura? — pergunto.
— Agora é — diz Nana, e finalmente chega o melhor momento da noite.
Nana acende as velas e os nossos vestidos tocam um no outro; ela murmura orações de Sabbath e todos ficam em silêncio. Até o Lewis.
Daí a pouco, estamos a mastigar os challah e a passar taças de sopa, e todos falam ao mesmo tempo sentados à comprida mesa de jantar.
Lá fora, o vento uiva. A neve levanta-se em lindos rodopios brancos.
Mas aqui dentro as velas tremulam. Um cântico de Sabbath está no ar. É altura da tarte, e nós estamos todos juntos na sexta-feira de Nana.



Amy Hest
The Friday nights of Nana
Cambridge, Candlewick Press, 2001
Tradução e adaptação




O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

Newsletter Qualidade Online - Edição 16





30/09/2009
Portugal recebe evento europeu contra discriminação
DESTAQUE
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Portugal vai receber, de 15 a 18 de Outubro, o evento "Dias da Diversidade", uma iniciativa desenvolvida no âmbito da campanha europeia "Pela Diversidade. Contra a Discriminação" e que decorrerá no centro Comercial Colombo, em Lisboa. Os "Dias da Diversidade" englobam várias iniciativas dirigidas ao público em geral e organizadas em parceria com ONG's, Parceiros Sociais e Organismos Públicos nacionais que trabalham nas áreas da diversidade e discriminação. Para além de Portugal, os "Dias da Diversidade" vão passar por Chipre, Luxemburgo, Hungria e Suécia.
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Teatro Municipal de Faro com Qualidade Certificada por Organismo Internacional
CERTIFICAÇÃO
Imagem vazia padrãoO Teatro Municipal de Faro recebeu a certificação do seu Sistema de Gestão da Qualidade segundo os princípios da norma ISO 9001, conferido pela SGS ICS, organismo líder mundial em certificação. A Entrega do Certificado da Qualidade decorreu recentemente, durante a Sessão Solene do Dia da Cidade de Faro. O Certificado foi entregue por Patrícia Monteiro, do Departamento de Comunicação do Grupo SGS Portugal, a José Apolinário, Presidente da Câmara Municipal de Faro.
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Vinhos de Portugal conquistam mercado Norte-Americano
DESTAQUE
ViniPortugal organiza grandes provas para profissionais


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Reforçar a promoção dos vinhos portugueses no mercado norte-americano. É este o compromisso da ViniPortugal para o programa que arranca nos EUA amanhã. Trata-se de um mercado prioritário para Portugal, constituindo o 4º maior país ao nível das exportações. Uma posição que importa capitalizar, não fosse os EUA o importador líder no mundo dos vinhos.
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I Jornadas Nacionais Água e Juventude
RESPONSABILIDADE AMBIENTAL
Nos dias 3 e 4 de Outubro, na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa (Campus Asprela)




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Porque a água é um bem considerado "ouro azul do século XXI", porque tem mobilizado cada vez mais pessoas para a sua defesa e porque cada um tem uma palavra a dizer sobre os recursos de todos realizam-se no Porto, nos dias 3 e 4 de Outubro, as I Jornadas Nacionais Água e Juventude. O encontro acontecerá na Escola Superior de Biotecnologia, como marco comemorativo do Dia Nacional da Água que se assinala no dia 1 de Outubro.
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SPV anuncia termo do projecto experimental de retoma de plásticos mistos
RESPONSABILIDADE AMBIENTAL
Imagem vazia padrãoA Sociedade Ponto Verde (SPV), entidade responsável pela gestão de resíduos de embalagens em Portugal, decidiu pôr termo à experiência de retoma de plásticos mistos. A decisão de suspensão da retoma deste tipo de plásticos, que se realizava em Portugal desde finais de 2007 a título experimental, decorre da necessidade normal de reavaliação do projecto.
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OSLO VOLTA A CONTRATAR TECNOLOGIA "E-COUNTING" DA INDRA PARA AS ELEIÇÕES PARLAMENTARES DE 2009
DESTAQUE
•    Trata-se do quarto processo eleitoral que a Indra implementa na Noruega com a sua solução de contagem electrónica
•     A solução utiliza scanners de alta velocidade com capacidade para ler 120 boletins por minuto

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O Município de Oslo voltou a seleccionar a Indra para a gestão do processo de escrutínio dos votos das eleições para o Parlamento da Noruega, que decorreram no dia 14 de Setembro, recorrendo novamente ao sistema de contagem electrónica "e-counting", desenvolvido pela Indra.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu, sozinho, no fim do mundo - 2ª parte

… continuação
Quando chegou o Outono, Constantino Brilho tinha terminado a sua estalagem, que ostentava pórticos, torres e espigões. Uma a uma, as folhas caíram das árvores e despenharam-se pela borda do mundo. Gostava de as ver, a rodopiar. Caíam aos meus pés, vindas do céu.
Quando as cores estavam mesmo brilhantes, o Alberto, o Júlio e a Margarida chegaram da cidade. Corremos a estalagem de uma ponta à outra, brincámos com os elevadores, e eles pediram que lhes servissem peru e pastilha elástica no quarto.
Alugámos quatro planadores e atirámo-nos dos rochedos no Fim do Mundo. Gritámos quando sentimos o sangue afluir todo aos nossos pés.
— Nada de lágrimas! — avisou o Sr. Brilho, que estava em terra firme. — Nada de lamúrias! É tempo de divertimento! Senhores e Senhoras, coloquem-se em fila. Saltem hoje e esqueçam o amanhã!
No Inverno, a neve caiu nas árvores, nos rochedos e nos túmulos. Observei os flocos a caírem em silêncio sobre a terra. Um dia, apareceu um trenó, com o Alberto, o Júlio e a Margarida. Cuspimos nas mãos, apertámo-las e piscámos o olho.
Divertimo-nos imenso. Vimos espectáculos de sombras de marionetas à noite, enquanto o vento soprava. Alugámos patins e fizemos figuras de oito nas Cataratas Pataratas e figuras de nove no Lago Conta-Gotas. As pessoas gritavam, enquanto se balançavam nos pinheiros. Os hóspedes patinavam e esquiavam em massa, descendo as encostas aos saltos e deslizando por longas rampas.
— Isto é ou não divertido? — perguntava o Sr. Brilho. — Divertimento a sério. Sentem-se sozinhos, Senhores e Senhoras? Na Estalagem do Brilho, nunca!
O Júlio, o Alberto, e a Margarida voltaram na Primavera. Não se ouvia o vento soprar através dos pinheiros eriçados. O barulho das festas era demasiado alto na floresta. Homens de bigode ensinavam o fox-trot a duquesas e a herdeiras de lavandarias vestidas de seda. Os monstros já não se mostravam quando os relâmpagos surgiam com as chuvas da Primavera. Tinham medo do barulho e das máquinas. O Júlio, o Alberto, a Margarida e eu corríamos pelos caminhos através das florestas, caminhos agora cheios de lixo. Também jogávamos às escondidas.
A cabana onde eu vivia estava rodeada de carrinhos. Já não conseguia encontrar ossos de dinossauros ou moedas de oiro antigas. Os pavilhões e as escadas rolantes tinham-nos coberto.
No Verão, as multidões eram imensas e a estalagem estava aberta para casais em lua-de-mel que vinham em busca do sossego e dos pores do sol de quatro horas. Só que estes mal se viam devido à bruma que cobria o paredão e provinha das luzes artificiais das arcadas.
— Quero ver mais divertimentos! — gritava o Sr. Brilho ao megafone, pendurado num prego que parecia vindo do céu. — Nada de silêncios solenes no Fim do Mundo! Só gargalhadas! E saltos! Senhoras e senhores, recomendo-lhes vivamente as vertigens!
Não dormia há sete dias. Havia sempre alguma coisa para me distrair. Tentei falar com os meus amigos:
— Sabem, estive a pensar…
— Não há tempo para pensar! — interrompeu o Sr. Brilho. — É tempo para se divertirem! Vejam, minha gente, o Fim do Mundo! Que vista magnífica, sublime e resplandecente! Vou construir tudo aquilo que quiserem! Deixem tudo o que estão a fazer! Não há tempo para tristezas ou ideias! Vamos DIVERTIR-NOS! DIVERTIR-NOS sem PARAR!
A Margarida estava toda suada.
— Anda lá! — insistiu comigo.
— Aqui vimos nós! — gritava o Júlio.
— Aqui vamos nós! — ria-se o Alberto, rangendo os dentes e rasgando a camisa nas tropelias.
— Penso que é tempo de ir também — disse para comigo.
Tirei o chapéu de papel da cabeça e as luvas das mãos. Enrolei-as e dei-as ao Júlio.
Depois disse-lhe:
— Tenho de ir embora. Sinto falta do vento.
E fui embora.
Agora vivo sozinho no Topo do Mundo. É uma montanha muito alta. Consigo ver a borda da montanha. Os dias passam-se devagar e bem. Como biscoitos salgados e cartilagens. Limpo as rochas e encontro fósseis. Procuro tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Sento-me no alpendre da minha cabana e escrevo cartas aos meus amigos na cidade, Alberto, Júlio e Margarida. Um dia destes vou visitá-los.
Às tardes, escuto o rumor do vento por entre os ramos dos pinheiros eriçados.
Sinto a suavidade da solidão a cair.
Por ora, sinto-me bem, sozinho, aqui no Topo do Mundo.
FIM
M. T. Anderson; Kevin Hawkes
Me, All Alone, at the End of the World
London, Walker Books, 2007
(Tradução e adaptação)
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Eu, sozinho, no fim do mundo - 1ª parte

Eu vivia sozinho no Fim do Mundo.

Os dias decorriam devagar e bem. Procurava tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Limpava rochas e encontrava fósseis. Reconstituía o esqueleto de monstros enormes com cordel. Jogava à bola até cair de cansaço. Sentava-me e lia. Gostava de ouvir o vento soprar através dos pinheiros eriçados, cujos ramos ondulavam no azul do céu. Comia biscoitos salgados e cartilagens. Ao sol-pôr, tocava melodias para a minha mula ouvir.
Em noites de tempestade, gostava de ficar na minha cabana. Aconchegava-me junto ao fogão e ouvia a chuva e a trovoada. Via os animais de longas caudas, cinco patas, ou bocas beijoqueiras, enfrentarem o trovão. Também nunca tive medo. Adormecia ao som dos seus grunhidos, que mais pareciam barulhos de canalização. Sabia que, de manhã, não haveria vestígios da chuva, excepto um pequeno orvalho nas árvores que ficavam junto dos rochedos desolados. Sentia-me feliz, sozinho, no Fim do Mundo.
Até um dia. Nesse dia, estava eu sentado de cabeça para baixo para que o meu cabelo ficasse completamente de pé, quando vi um homem estranho. Tinha pernas altas, um chapéu de aba larga e uma barba circular. Os seus óculos reflectiam as nuvens.
Montou um cavalete. Tirou um pincel da bota. Pintou o céu e o pinheiro mais solitário. E disse, numa voz que parecia a lã de um carneiro:
— Chamo-me Constantino Brilho e sou visionário profissional.
Olhou-me de alto a baixo e continuou:
— Rapaz, o que fazes o dia inteiro no Fim do Mundo?
— Muitas coisas — respondi.
E contei-lhe dos assobios, do vento e dos pinheiros.
— Só isso? — perguntou, com um ar aborrecido. — Não te divertes? Não tens amigos?
Olhei para os meus pés. Dantes achava que o que fazia era divertido. Agora já não tinha a certeza.
— Penso que as coisas vão mudar bastante por estes lados — disse o Sr. Brilho.
Por cima da pintura do rochedo e do pinheiro solitário, escreveu as palavras: CONSTANTINO BRILHO, VIAGENS MÁGICAS AO FIM DO MUNDO. DIVERTIMENTO GARANTIDO!
Uma semana mais tarde, estava eu a pescar peixes que voavam sobre as cataratas, quando ouvi o ruído de máquinas grandes e homens a darem ordens. Estavam a pavimentar uma clareira. Estavam a abrir valas. E o Sr. Brilho guiava uma visita.
— Aqui — anunciava ele — é o Fim do Mundo. Este é o rochedo. Este é um rapaz local com a sua mula. Vejam como nos olham com um olhar sonhador. E aqui está o local da futura Estalagem do Fim do Mundo.
Fiquei em estado de choque. Tinha-se juntado uma pequena multidão composta por pais e filhos, que me olhavam com curiosidade e fitavam o rochedo embasbacados.
Nem queria acreditar que ele tinha aplanado o terreno.
— Sr. Brilho! — chamei. — Sr. Constantino Brilho!
Apontei para as lajes.
— O que está a fazer? O que fez?
— Trouxe-te uns amigos. Se lhes mostrares a paisagem, dou-te uma moeda de ouro.
— A paisagem? Mas eu vivo numa cabana sozinho. Não quero amigos e não preciso de…
Foi então que olhei para os miúdos que o rodeavam. Sorriam e eram simpáticos. Estenderam as mãos. Um chamava-se Alberto, outro Júlio, e a rapariga chamava-se Margarida. Queriam gostar de mim. E eu queria gostar deles. Sorri.
— Bem — comecei — na realidade…
O Sr. Brilho acenou, encorajador. Perguntei aos miúdos:
— O que querem que vos mostre?
— O que fazes por estas bandas?
Pensei no que fazia: entretinha-me com fósseis, pores do sol, assobios, ouvia os ramos, observava os pinheiros.
Tentei pensar em algo que fosse excitante.
— Bem, se cuspirem no topo da terra, a cuspidela nunca mais pára de dar voltas.
— Isso é o máximo! — exclamaram os miúdos.
Passámos o dia na floresta junto aos rochedos. Cuspimos e batemos palmas. Mostrei-lhes os fósseis. Mostrei-lhes os caminhos. Mostrei-lhes as árvores e as pegadas dos animais rastejantes.
Quando chegou a altura de regressarem à cidade, disseram:
— Não queremos ir embora. Voltaremos no Outono à Estalagem do Fim do Mundo.
continua…
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bom Ano Lectivo 2009/2010


A Equipa da Biblioteca Escolar e Centro de Recursos do Agrupamento de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores e colaboradores deste blogue, um Bom Início de Ano Lectivo 2009/2010.
Não deixem de visitar a BECRE e o blogue. Temos novidades.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A lenda da rosa-de-cristo - 3ª parte

continuação…
Os anjos interromperam imediatamente os seus cânticos e fugiram espavoridos. A luz intensíssima desapareceu de repente, a pesada atmosfera de ouro diluiu-se e a escuridão voltou a descer sobre a floresta. Sentiu-se um frio glacial, as flores começaram a murchar e os animais correram a refugiar-se nas suas tocas. O murmúrio das cascatas suspendeu-se e as folhas tombaram das árvores como uma chuva de cobre.
O coração do abade apertou-se de dor ao pensar: «Os anjos do céu visitaram-me cantando, e um terrível brado afugentou-os». E nesse momento lembrou-se da flor que prometera ao arcebispo. Meteu a mão por entre os musgos para apanhar ainda a última, mas sentiu os dedos gelados, porque a neve voltara a cobrir tudo. Tentou erguer-se, mas não conseguiu, e ficou estendido no chão, hirto. Sobre ele caía a neve, soterrando-o.
O irmão leigo chorou, acusando-se por ter sido o causador da morte do abade, quando ele ia entrar na bem-aventurança. E depois de transportarem o abade para o convento de Ovede, os frades repararam que ele segurava qualquer coisa na mão fechada. E, quando conseguiram abrir-lha, viram que ele apertava com força os bolbos que arrancara dos musgos antes de morrer.
O irmão leigo foi enterrar os bolbos num canteiro do jardim, cuidou muito bem deles e esperou durante o ano inteiro que dessem flor. Passou a Primavera, o Verão e o Outono, e no Inverno, quando todas as outras flores estavam mortas, já tinha perdido a esperança de os ver florir. Mas, quando chegou o Natal, o irmão leigo viu com espanto que os bolbos vindos da floresta estavam cheios de flores brancas e delicadas. E verificou que aquelas flores eram iguais às que o abade João trouxera da floresta de Goinger.
Reunidos os frades em capítulo, todos concordaram que aquelas flores deviam ser mandadas ao arcebispo Absalão para comemorar o milagre.
E quando o irmão leigo foi à presença do arcebispo, estendeu-lhe as flores e disse:
— Estas são as flores que te envia o nosso abade João. São as que ele prometeu colher na noite de Natal, na floresta de Goinger.
E o arcebispo, ao contemplar as flores que em pleno Inverno tinham conseguido brotar da terra gelada e ao ouvir o que o leigo lhe contou, ficou uns segundos em silêncio e depois disse pausadamente:
— O abade João cumpriu a palavra dada, e eu vou cumprir a minha.
E mandou redigir a carta de alforria que libertava o salteador.
O irmão leigo partiu para a floresta e procurou a gruta dos salteadores. Ao encontrá-la, era outra vez noite de Natal e o ladrão veio ao seu encontro e gritou:
— Malditos sejam todos os frades! Por vossa culpa, a floresta este ano não se tornou num Paraíso como era costume em noite de Natal!
— Trago uma mensagem do abade João! — E tirando do bolso a carta de alforria disse-lhe que ele podia ir viver em sociedade com a outra gente. E mostrou-lhe o selo lacrado do arcebispo Absalão.
— De hoje em diante podes passar o Natal com os teus filhos e festejar com eles o nascimento do Menino Jesus, na companhia dos homens de bem, como era desejo do nosso abade João.
E a mulher do salteador disse:
— O abade João cumpriu a promessa. O salteador da floresta cumprirá a sua.
E quando o salteador, a mulher e os filhos abandonaram para sempre a gruta, o irmão leigo ficou a viver nela para o resto da vida, entregue às suas orações, pedindo a Deus que lhe perdoasse a sua pouca fé e dureza de coração.
O irmão leigo arrependera-se de ter pronunciado aquelas palavras malditas na noite dos prodígios a que assistira, mas o certo é que desde essa noite a floresta de Goinger nunca mais festejou o nascimento do Salvador, e de todas as maravilhas que ali se operavam só restou a flor que o abade colhera no último segundo de vida.
Puseram-lhe o nome de rosa-de-cristo, e todos os anos essa planta brota da terra gelada e cobre-se de flores brancas, como se quisesse lembrar o tempo em que floria na floresta de Goinger, em noite de Natal.
FIM
Selma Lagerlöf
Ricardo Alberty;
Maria Isabel Mendonça Soares (org.)
O livro de ouro do Natal
Lisboa, Editorial Verbo, 1978
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Homem na Lua - 40 anos




Apollo 11 foi a quinta missão tripulada do Programa Apollo e primeira a pousar na Lua, em 20 de Julho de 1969. Tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins, a missão cumpriu o objectivo final do presidente John F. Kennedy, que, em discurso ao povo norte-americano em 1962, estabeleceu o prazo do fim da década para que o programa espacial dos Estados Unidos realizasse este feito. Neil Armstrong, comandante da missão, foi o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar.
Composta pelo
módulo de comando Columbia, do módulo lunar Eagle e do módulo de serviço, a Apollo 11, com seus três tripulantes a bordo, foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida, às 13:32 UTC de 16 de Julho, na ponta de um foguete Saturno V, sob as vistas de centenas de milhares de espectadores que lotavam estradas, praias e campos ao redor do Centro Espacial Kennedy e de milhões de espectadores pela televisão em todo o mundo, para a histórica missão de oito dias de duração, que culminou com as duas horas de caminhada de Armstrong e Aldrin na Lua.

Fonte e mais informação
Wikipedia
AFP
CDCC – Universidade de São Paulo

Teorias sobre a não ida do Homem à Lua
A fraude do século

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A lenda da rosa-de-cristo - 1ª parte



A lenda da rosa-de-cristo
Certo dia, a mulher do salteador de estradas, que vivia numa gruta no alto da montanha de Goinger, no meio de uma densa floresta, desceu às terras baixas, acompanhada dos cinco filhos, para pedir esmola pelas aldeias. Quando a mulher do salteador batia às portas das casas, ninguém ousava negar-lhe esmola, porque todos sabiam que, como vingança, o marido viria de noite pegar fogo aos campos e aos pomares.
E foi durante uma dessas visitas pelas aldeias que a mulher do salteador e os filhos chegaram ao convento de Ovede, habitado por uns santos frades. À volta do convento corria um alto muro, e a mulher viu uma porta meio-aberta. Dirigiu-se para lá, seguida dos filhos, e entrou sem pedir licença a ninguém. Era no Verão, e a mulher encontrou-se num lindo jardim, cheio de flores de toda a espécie. Ficou tão embevecida que começou a caminhar pelas alamedas para admirar mais de perto aquela maravilha.
Ao fundo do jardim estava um irmão leigo que trabalhava no convento como jardineiro, e quando viu a mulher do salteador e os cinco filhos avançou para correr com
eles.
— Toca-me, se te atreves! — gritou a mulher do salteador.
— Isto é um convento de frades — disse-lhe o irmão leigo — e deves saber que não é permitida a entrada a mulheres.
Mas a mulher do salteador não fez caso e continuou a passear por entre os canteiros de rosas, hissopos e madressilvas. Então o irmão leigo avançou para ela e quis expulsá-la à força. Mas a mulher do salteador começou aos gritos e arranhou-o e mordeu-o, ajudada pelos filhos. O pobre irmão leigo desatou a correr para o convento, em busca de reforços, mas no caminho esbarrou com o velho abade João, que acudira a ver o que se passava no seu jardim.
O irmão leigo contou-lhe o que se passava, mas o abade censurou-o por ter usado de violência e proibiu-o de ir buscar reforços. E, apesar de velho e fraco, avançou para a mulher do salteador, que continuava a admirar o jardim. O abade João amava mais o seu jardim do que todas as coisas terrenas, e pensou que ela queria admirar as flores por nunca ter visto outras tão bonitas. E perguntou-lhe, com suavidade:
— Gostas do meu jardim?
E a mulher respondeu-lhe com mau modo:
— A princípio pareceu-me um lindo jardim, mas agora vejo que não se compara
com outro que eu conheço. Se vocês o vissem, arrancavam todas estas flores e atiravam--nas fora, como se fossem ervas ruins.
— Deve ser bonito o teu jardim, lá no alto da floresta selvagem, onde nunca entra o Sol — disse o irmão jardineiro, a rir.
— Pois eu juro que estou a dizer a verdade, e vocês, que são homens santos, deviam saber que, na noite de Natal, a floresta de Goinger se transforma num jardim que parece o Paraíso, para festejar o nascimento do Salvador. E aparecem flores tão lindas que nem nos atrevemos a tocar-lhes.
O irmão leigo riu ainda com mais vontade:
— Não percebo por que razão Nosso Senhor Jesus Cristo havia de festejar o seu
nascimento num sítio onde vivem só ladrões, como tu e o teu marido!
— É pena — gritou a mulher — tu não teres coragem para subir lá acima à floresta, na noite de Natal, para saberes que eu falo verdade.
O irmão leigo ia responder, mas o abade fez-lhe sinal para que se calasse. Porque o abade João sempre ouvira contar desde pequeno que a floresta se cobria de maravilhas na noite de Natal. E sempre desejara ver esse prodígio. Então pediu à mulher para o deixar ir visitar a gruta dos salteadores na noite de Natal. E se ela lhe mandasse um dos filhos como guia, jurou que iria só, montado num cavalo, prometendo que nunca os denunciaria e que, pelo contrário, os recompensaria como pudesse.
A princípio a mulher recusou, pensando que se tratava de uma cilada, mas depois, na ânsia de provar que o seu jardim era muito mais bonito do que o do convento, disse:
— Mas só podes ir acompanhado por uma pessoa. Eu ficaria muito desiludida se nos armasses uma cilada, porque te considero um santo homem.
A mulher saiu, seguida pelos filhos, e o abade João ordenou ao irmão leigo que não contasse a ninguém aquela conversa. Mas aconteceu que daí a dias chegou o arcebispo Absalão de Lund, e passou uma noite no convento. E foi o próprio abade que lhe falou no salteador que vivia escondido no alto da floresta, e pediu-lhe uma carta de alforria, para que ele pudesse voltar a viver honradamente entre os homens.
O arcebispo Absalão respondeu que era perigoso deixar um ladrão viver entre pessoas honestas e que era melhor deixá-lo onde estava. Então o abade contou-lhe o que
sucedia todos os anos na floresta em noite de Natal. E terminou:
— Se a graça de Deus se manifesta assim a esses desgraçados, é porque não os acha assim tão maus, e não somos nós quem pode negar-lhes a clemência humana.
Mas o arcebispo encontrou uma boa resposta:
— Prometo-lhe que, no dia em que me trouxer uma flor desse tal jardim de Natal na floresta de Goinger, lhe dou uma carta de alforria para o salteador que vive afastado de Deus.

continua………
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

A lenda da rosa-de-cristo - 2ª parte

continuação…
O abade João prometeu que lhe traria a flor, e na véspera de Natal pôs-se a caminho da floresta de Goinger, levando como única companhia o irmão leigo que tratava do jardim. Um dos filhos do salteador corria à sua frente para lhes indicar o caminho. E, conforme subiam, iam vendo as aldeias muito atarefadas nos preparativos para a festa do Natal. O abade picava esporas ao cavalo, porque estava certo de que lá em cima, na montanha, ia assistir a uma festa mais bonita do que todas as outras.
O irmão leigo suspirava e pedia ao abade que voltasse para trás, porque estava convencido de que tudo aquilo não passava de uma cilada, mas o abade não lhe dava ouvidos e continuava a cavalgar. Começavam agora a escalar a encosta e entravam na floresta selvagem e solitária. O caminho era cada vez mais difícil, coberto de pedras e de agulhas de pinheiro. Quanto mais subiam, mais o frio apertava, porque o chão da floresta
aparecia coberto por uma espessa camada de neve.
Atravessaram estreitas gargantas e bosques de vegetação espessa. E quando chegou o pôr do sol, o garoto parou numa clareira rodeada de árvores frondosas. Ao fundo da clareira erguia-se uma rocha escarpada, com uma pequena porta feita de tábuas toscas. O rapazinho correu a abrir a porta e viu-se uma profunda gruta desconfortável. A mulher do salteador estava acocorada junto de uma fogueira mesmo no centro da gruta, e junto às paredes nuas viam-se catres feitos de ramos de pinheiro e musgo. E num desses catres estava o salteador a dormir.
— Entrem — disse a mulher do salteador, sem se levantar. O abade João entrou na caverna, e o irmão leigo seguiu-o, preocupado. Os filhos do salteador estavam sentados em volta de um grande caldeirão onde se via uma sopa aguada.
— Chega-te para o pé do lume, abade João — disse a mulher — e se trouxeram farnel é melhor comerem-no, porque a nossa comida não deve agradar-vos. E se estiverem cansados, estendam-se ali sobre aqueles ramos de pinheiro.
Deitaram-se o abade João e o irmão leigo e, cansados como estavam, depressa adormeceram profundamente. Quando o irmão leigo acordou, viu o abade sentado junto do lume, a comer o seu farnel e a conversar com a mulher do salteador, que tinha acordado também. O abade João falava dos preparativos de Natal que vira durante a viagem.
— É uma pena os teus filhos não poderem andar também a brincar nas ruas da aldeia como as outras crianças e não receberem as prendas do Natal — disse o abade. E, de repente, o salteador ergueu o punho e gritou:
— Maldito frade! Vieste cá para me roubares os filhos com essas falinhas mansas?
Não sabes que sou um condenado e não posso sair da floresta?
Mas o abade fitou-o calmamente e disse:
— Já pedi ao arcebispo Absalão uma carta de alforria com o teu perdão.
— Nunca ninguém perdoará a um salteador de estradas! — gritou o bandido.
— Mas, se o arcebispo me conceder uma carta de alforria, prometo nunca mais roubar nem sequer uma galinha!
Nisto, a mulher do salteador pôs-se de pé e disse:
— Estamos para aqui a conversar e esquecemo-nos de ir à floresta ver o que lá se passa. Já ouço os sinos do Natal a tocarem ao longe.
Todos se puseram de pé e saíram da gruta a correr. Mas a floresta continuava mergulhada na escuridão e no silêncio, e o frio era muito intenso. Depois de os sinos terem tocado durante algum tempo, desceu inesperadamente do céu um raio de luar por entre os ramos das altas árvores. E tudo ficou outra vez no escuro. Daí a pouco a luz voltou de novo, como se tentasse romper as trevas. Avançava como uma espécie de nevoeiro luminoso e a pouco e pouco a noite deu lugar a um pálido amanhecer.
Então o abade viu a neve retirar-se de repente, como se fosse um tapete puxado por alguém, e começaram a surgir plantas da terra. Os fetos ergueram os seus ramos encaracolados como báculos; a urze apareceu por entre as rochas, e a giesta surgiu pavoneando as flores amarelas. Por toda a parte surgiam plantas, lucilando ao luar, como que feitas de cobre e prata.
O abade João sentiu o coração bater com mais força ao assistir ao despertar da floresta. De repente, a luz começou a diminuir e o abade receou que tudo voltasse às trevas.
Mas surgiu uma nova onda de luz que se derramava sobre a floresta. E, agora, ouvia-se o murmurar dos riachos e o chalrar das cascatas. E as árvores ficavam revestidas de folhas, como se um bando de borboletas tivesse vindo pousar sobre os ramos nus. Não eram só as flores e as árvores que tinham acordado. Os cruza-bicos começaram a saltitar de ramo em ramo, e os pica-paus martelavam nos troncos duros. Um bando de estorninhos descansou no alto de um abeto e seguiu viagem. Quando outra vaga de luz inundou novamente a floresta, começaram a florir as groselhas e os murtinhos.
Bandos de gansos bravos e de grous atravessaram o céu, os tentilhões construíam os ninhos e os esquilos jogavam às escondidas por entre as ramagens.
Tudo aconteceu tão de repente que o abade João não teve tempo de reflectir acerca do milagre que presenciava. Outra vaga de luz trouxe o cheiro de campos lavrados de fresco. Ouvia-se ao longe o tilintar dos chocalhos das vacas e dos carneiros. Os pinheiros e os abetos cobriram-se de pinhas vermelhas que pareciam forradas de seda. O zimbro encheu-se de bagas que mudavam de cor a cada instante. E flores silvestres atapetavam o chão como uma alcatifa de mil cores. O abade João curvou-se para colher uma flor de morangueiro e, enquanto se endireitou, a flor transformou-se em fruto na sua mão.
A raposa saiu da toca seguida da sua ninhada de raposinhos. O mocho, que havia pouco tinha começado a sua caçada nocturna, surpreendido por tanta luz, regressou ao seu esconderijo no escuro. E foram surgindo novas marés de luz e de ar quente, e agora ouviam-se os patos grasnar para os lados dos pântanos. O pólen das flores pairava no ar como uma poalha dourada e surgiam de toda a parte borboletas, que pareciam lírios a voar. Uma colmeia de abelhas, no buraco de um velho carvalho, estava tão cheia que o mel escorria pelo tronco abaixo. Pelas escarpas, as roseiras trepavam ao desafio com as amoras silvestres e, lá no alto, apareciam flores enormes, como caras a espreitar.
Foi então que o abade João se lembrou da flor que prometera ao arcebispo. Mas cada flor que surgia era mais bela do que a anterior, e ele queria colher a mais bela de todas.
As vagas de luz e de calor seguiam-se umas às outras e a atmosfera estava tão densa que parecia feita de ouro coalhado. «Não sei o que a próxima onda de luz possa trazer de mais belo e deslumbrante», pensou o abade João. Mas a luz continuava a aumentar, e ele apercebeu-se de que qualquer coisa ainda distante se ia aproximando. Sentiu-se rodeado por uma atmosfera sobrenatural e, a tremer, esperou. Desceu sobre a terra um profundo silêncio, os pássaros emudeceram, os raposinhos e os esquilos pararam de brincar e até as flores deixaram de crescer nos cálices. Era tal a sensação de bem-aventurança que o abade João julgou que o coração lhe parava. A sua alma sentia ânsias de entrar na eternidade.
Ouviram-se então, ao longe, uns sons de harpa, acompanhados de coros celestiais. O abade juntou as mãos e ajoelhou com a face banhada por um resplendor de glória. Nunca esperara sentir neste mundo a bem-aventurança do além.
Outro tanto não sentia o irmão leigo, que ficou furioso, porque no seu jardim do convento, por mais cuidados que tivesse, não conseguira nunca ter flores tão lindas. E não percebia como é que Deus desperdiçava tantas maravilhas para as oferecer àquela família de ladrões que nem sequer respeitavam os seus mandamentos. «Isto não pode ser obra de Deus — pensou — pois que se apresenta a pessoas tão ruins. Isto é obra do diabo, que nos faz ver o que não existe. Não sairemos salvos deste bruxedo e cairemos no abismo!»
Agora as hostes dos anjos tinham-se aproximado tanto que o abade sentia o esvoaçar das suas asas e via-lhes as sombras luminosas. O irmão leigo também os via, mas continuava convencido de que tudo aquilo era obra do demónio, para o perder, mais ao abade, em plena noite de Natal. E então gritou tão alto que a voz ecoou no fundo da floresta:
— Arreda, demónio! Volta para o inferno que te enviou!
continua…
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Gripe A

gripe A

Rede de Bibliotecas Escolares - Newsletter n.º 5


Rede de Bibiotecas Escolares
Portal da Educação


Newsletter 05

Ab Initio

É preciso ter a consciência dos desafios que a sociedade da informação coloca às bibliotecas, destacadamente o ambiente digital que hoje avança inexoravelmente como uma onda que vai progredindo a uma velocidade cada vez maior e que é preciso acompanhar para não soçobrarmos nela.

Editorial

Maria Teresa Calçada - Coordenadora do Programa da Rede de Bibliotecas Escolares

Candidaturas RBE: 13 anos a construir bibliotecas

Apesar das correntes pedagógicas, que desde meados do século XX, propunham novos modelos de aprendizagem, é sobretudo a partir dos anos 80 que, em Portugal, estratégias de ensino assentes na ideia de construção do conhecimento e de promoção de autonomia dos aprendentes ganham nova expressão.

A auto-avaliação da biblioteca escolar

A escola da Sociedade do Conhecimento tem que lidar com os desafios que as tecnologias da informação colocam às atitudes, hábitos e comportamentos informacionais dos jovens. Estes desafios decorrem de renovadas formas de acesso, uso, produção e comunicação do conhecimento, que permeiam diferentes niveis de acção: da aprendizagem formal à informal, ao lazer e à intervenção social.

Documentaliste dans l'Education nationale en France : un statut d'enseignant, des fonctions hybrides et une identité incertaine

Les CDI sont largement intégrés dans le paysage éducatif des établissements du 2° degré en France (collège et lycée), car depuis 1989, il est acquis que chaque établissement scolaire en est doté. Créée en 1974, la structure CDI coïncide avec l'émergence de nouvelles démarches pédagogiques, favorisant le travail autonome sur documents, et avec l'instauration du collège unique et donc l'arrivée d'un public scolaire plus diversifié.

Bibliotecas Escolares numa Plataforma Moodle? Porquê e para quê?

Será que as Bibliotecas escolares podem ser, na escola, algo próximo das "novas praças públicas" de que fala Talscott (2008) - "locais de encontro movimentados onde os consumidores regressam para usufruir de experiências enriquecedoras e envolventes. Afinal as relações são a única coisa que não se pode transformar num produto"

Onde a leitura também se enreda

Temos por vezes a impressão que nos confrontamos com o fim de uma ilusão. Acreditámos que para pôr toda a gente a ler, para resolver os problemas da leitura e da literacia, seria suficiente a alfabetização e a melhoria da oferta de recursos de leitura.

Biblioteca 2.0

O contributo da biblioteca escolar (BE) pode ser estruturado em dois grandes eixos. O primeiro será o ensino da literacia da informação, isto é, o desenvolvimento da capacidade de transformar a informação em conhecimento, pois é reconhecido por todos que a abundância de informação e a facilidade de acesso à mesma não garante indivíduos mais bem informados; o segundo eixo de acção da BE será a promoção da transversalidade dos saberes, gerindo a inovação e a mudança, e contrariando a progressiva segmentação, simplificação e descontextualização dos recursos de informação disponíveis on-line.

Redes locais de bibliotecas: construção de parcerias

No actual contexto de uma sociedade da informação, onde emergem novos paradigmas educacionais, e onde a amplitude das mudanças tecnológicas, a disseminação da informação, o desenvolvimento do digital, das redes físicas e virtuais favorecem a expansão das sociedades em rede, a consolidação de redes locais de bibliotecas afigura-se como imprescindível. Neste sentido, e no âmbito dos pressupostos do programa Rede de bibliotecas Escolares, apresentamos uma reflexão sobre dinâmicas colaborativas subjacentes à criação de Redes Locais de Bibliotecas, fazendo sobressair a importância do envolvimento das entidades locais em benefício de uma efectiva parceria. Motivo pelo qual, o texto que se apresenta, é também o resultado de opiniões escritas de alguns intervenientes nesses processos.

Fórum RBE

Reportagem fotográfica do Fórum RBE - 26 de Junho de 2009

A nossa biblioteca

Os alunos da Escola EB 2,3 de São Pedro do Sul apresentam a sua visão da biblioteca da escola.