quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Criança Misteriosa

Era uma vez um senhor do campo chamado Thaddeus de Brakel. Tinha herdado do pai a pequena propriedade de Brakelheim e aí vivia muito sossegado, amado por todos, numa casa pequena mas confortável, com a mulher, o filho Félix e a filha Christlieb.
Uma certa manhã, a família levantou-se muito cedo. A mulher de Sir Thaddeus fez um grande bolo cheio de amêndoas e uvas. Sir Thaddeus vestiu o seu melhor casaco verde, e Félix e Christlieb vestiram as suas melhores roupas, pois iam chegar uns nobres visitantes: o Conde Cyprian de Brakel, primo de Sir Thaddeus, mais a sua mulher e filhos.
Estava um dia lindo, e Félix e Christlieb tinham pena de não poderem ir brincar para a floresta. Em vez disso, tinham de ficar em casa à espera dos visitantes.
Chegaram por fim, numa carruagem luxuosa. O Conde e a sua família tinham maneiras polidas e vestiam roupas caras: o pequeno Hermann usava calças compridas, um chapéu com uma pena e trazia consigo uma curta e cintilante espada, e a saia da irmã Adelgunde tinha muitos laços e fitas.
Infelizmente, os quatro primos não se entendiam muito bem. Os filhos do Conde eram atrevidos e arrogantes. Sabiam tudo sobre história, geografia, zoologia e até sobre astronomia, e gostavam de exibir os seus conhecimentos, enquanto Félix e Christlieb, que tinham crescido livres na floresta, sentiam-se desajeitados e constrangidos diante deles. A Condessa ficou espantada com tal ignorância, e o Conde prometeu a Sir Thaddeus e à mulher enviar um tutor para transmitir um pouco de saber aos seus filhos, dizendo-lhes que tal não lhes custaria absolutamente nada.
Em seguida, o cocheiro entrou com duas grandes caixas. Adelgunde e Hermann entregaram-nas a Christlieb e Félix.
– Aqui tens alguns brinquedos, meu querido primo! – disse Hermann ao primo, fazendo-lhe uma vénia.
Félix ficou atrapalhado, sem saber o que dizer, assim como a irmã, que estava mais perto do choro do que do riso. Apesar disso, a caixa que Adelgunde lhe oferecera cheirava tão bem, que parecia estar cheia de guloseimas. Sultão, o fiel cão de Félix, começou a ladrar e a saltar, e Hermann, que estava muito amedrontado, correu até à outra ponta da sala e começou a soluçar.
– Ele não te faz mal! – disse Félix ao primo. – Não é preciso gritares dessa maneira. – É só um cão e, mesmo que ele te atacasse, tens uma espada, não tens?
Mas Hermann continuou a soluçar até à chegada do cocheiro, que pegou nele ao colo e o levou para a carruagem. Adelgunde também começou a chorar sem razão aparente. Depois, o mesmo fez a pobre Christlieb, e foi ao som de três crianças a chorar que os nobres visitantes partiram.
Mal a carruagem partiu, Sir Thaddeus despiu o seu belo casaco verde e vestiu o de todos os dias. Passou um pente sobre o cabelo e deu um grande suspiro.
– Meu Deus, obrigado por tudo! – disse.
As crianças também despiram os seus belos fatos, sentindo-se libertas e felizes.
– Vamos até à floresta! – gritou Félix.
– Não querem ver os presentes? – perguntou a mãe. Christlieb, que estivera a observar curiosamente as caixas, achou boa ideia, mas Félix não estava assim tão certo.
– Huh! – disse. – Como é que o primo pode ter trazido alguma coisa engraçada? Ele só fala de leões, ursos, elefantes, e depois tem medo do Sultão! A chorar e a soluçar escondido debaixo da mesa, e com uma espada!
– Oh, Félix, meu querido, vamos dar uma espreitadela às caixas! – disse Christlieb.
Félix, que fazia tudo para lhe agradar, concordou. A mãe abriu as caixas e – bem, queridos leitores, só desejo que todos tenham a sorte de ter tantos presentes maravilhosos da vossa família e amigos, no Natal ou no vosso aniversário! Lembram-se de como gritaram de alegria ao verem uns lindos soldadinhos ou os divertidos bonecos mecânicos com um realejo? As bonecas bem vestidas e os coloridos livros de desenho? Pois foi como Félix e Christlieb se sentiram diante daquelas caixas a abarrotar de brinquedos maravilhosos e de guloseimas.
– Oh, que maravilha! – gritavam eles, batendo palmas.
O brinquedo de que Félix mais gostou foi de um forte caçador que levantava a espingarda e apontava para um alvo, quando se lhe tocava nas costas do casaco. A seguir, o melhor foi um pequeno boneco que se inclinava e tocava uma linda melodia numa harpa. Havia uma pistola, uma faca de caça, ambas feitas de madeira e pintadas de prateado, assim como um boné de hussardo e um cartucho de uma pequena espingarda. Quanto a Christlieb, estava fascinada com uma linda boneca e um conjunto de panelas e sertãs. As duas crianças esqueceram-se completamente da ida à floresta e brincaram com os brinquedos novos até serem horas de deitar.
No dia seguinte, tiraram novamente os brinquedos das caixas para brincarem. Lá fora, na floresta, o sol brilhava, os pássaros cantavam e, de repente, Félix gritou:
– Oh, Christlieb, lá fora é mais divertido! Podemos levar os brinquedos!
No entanto, os brinquedos, comparados com as belezas da Natureza, não eram tão interessantes, e as crianças ficaram impacientes e brincaram tão desajeitadamente com eles, que alguns se partiram, incluindo o caçador e o tocador de harpa.
– Vamos fazer uma corrida! – disse Félix.
– Oh sim! – exclamou Christlieb. – E a minha boneca também vai!
E assim, cada um agarrou num braço da boneca e desataram a correr pelo meio dos arbustos, descendo a colina até chegarem a um lago rodeado por altos juncos, onde Sir Thaddeus por vezes caçava patos bravos.
– Porque não paramos um pouco? – perguntou Félix. – Talvez eu mate um pato, como o pai. Afinal até tenho uma pistola!
Mas Christlieb gritou:
– Oh, a minha boneca! O que aconteceu à minha boneca?
Claro que a boneca estava em mau estado. Durante a corrida, as crianças tinham-se descuidado. As roupas estavam espalhadas pelos arbustos e a boneca tinha as pernas partidas. A sua bonita cara de cera estava feita em pedaços.
– A minha boneca! – gemeu Christlieb. – A minha boneca!
– Bem, já vês as coisas estúpidas que os primos nos deram! – disse Félix.
– A tua boneca nem serve para fazer uma corrida connosco. Vá lá, dá cá a boneca!
Triste, Christlieb entregou-lhe a boneca toda estragada, e não conseguia parar de chorar.
– Oh, não! – disse, quando ele a atirou para o lago.
– Anima-te! – consolou-a Félix. – Não chores por causa de uma boneca tão estúpida! Se eu apanhar um pato, dou-te as penas mais bonitas das asas!
Nesse momento surgiu um ruído vindo dos juncos e Félix apontou a sua pistola de madeira, mas baixou-a quase de imediato.
– Sou maluco – disse. – É preciso pólvora e balas para carregar uma pistola e eu não tenho nem uma coisa nem outra, e mesmo que tivesse, como é que ia carregar uma pistola de madeira? A faca de caça também não serve. Não corta! Digo-te uma coisa – o Primo Baggy Breeches está a gozar comigo! Os brinquedos parecem muito bons mas não prestam para nada!
E dizendo isto, Félix atirou ao lago a pistola, a faca e os cartuchos. Quando regressaram a casa, a pobre Christlieb ainda chorava pela boneca e Félix estava de muito mau humor. Quando a mãe lhes perguntou:
– Mas onde estão os vossos brinquedos, meninos?
Félix contou como ele e Christlieb tinham sido enganados pelo caçador, pelo tocador de harpa, pela pistola, a faca e a boneca.
– Meu Deus! – disse a mãe pausadamente. – Vocês não sabem brincar com coisas tão bonitas e frágeis como aquelas!
Contudo, Sir Thaddeus disse:
– Deixa as crianças. Fico contente por vê-las livres daqueles brinquedos que só as baralhavam!
E nem a mãe nem as crianças perceberam o que é que Sir Thaddeus pretendeu dizer!
No dia seguinte, Félix e Christlieb foram bem cedo para a floresta. A mãe disse-lhes que não regressassem muito tarde, pois tinham de estudar alguma coisa, para não se sentirem tão envergonhados quando o tutor chegasse.
– Vamos brincar enquanto podemos! – disse Félix e, começaram a brincar às caçadinhas. Pouco tempo depois, estavam cansados e mudaram de brincadeira. Nada corria bem. O boné de Félix voou e ele apanhou-o com agilidade e endireitou-o. Christlieb tirou alguns espinhos da saia e deu um pontapé num tronco.
– É melhor irmos para casa – disse Félix, de mau humor. Mas, em vez disso, sentou-se à sombra de uma grande árvore e a irmã fez o mesmo. Aí ficaram ambos a olhar tristemente para o chão.
– Oh, mano – suspirou Christlieb – se ao menos ainda tivéssemos aqueles brinquedos tão bonitos!
– Não serviriam para nada – murmurou Félix. – Íamos partir os bonecos outra vez! A mãe tinha razão, Christlieb. Não havia nada de errado com aqueles brinquedos. Nós é que somos tão ignorantes que nem soubemos brincar com eles!
– Sim – concordou Christlieb. – Se fôssemos espertos como os nossos primos, tu ainda tinhas o caçador, o tocador, e aquela linda boneca não estaria agora no fundo do lago! Oh, por que é que somos tão desajeitados e ignorantes?
Começou a soluçar e Félix juntou-se a ela. Choraram ambos bem alto, lamentando-se:
– Se não fôssemos tão ignorantes!
De súbito, pararam de chorar e entreolharam-se espantados.
– Estás a ver aquilo, Christlieb? – perguntou Félix.
– Estás a ouvir aquilo, Félix? – perguntou Christlieb.
continua na próxima semana
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 19 de maio de 2009

"Nascem Nuteixos", na BECRE, com Helena Tapadinhas




"A Poesia está na Escola ...e em toda a parte" - Declamação de Poesia e debate


No próximo dia 25 de Maio, pelas 10.30, vamos ter na nossa BECRE o artista Afonso Dias, que nos trará uns belos momentos de poesia.
O tema será "A Poesia está na Escola ...e em toda a parte" e inclui duas sessões, de uma hora cada. Depois da sessão de declamação, seguir-se-á a sessão de debate.
Esta actividade, que conta com o apoio da Direcção Regional de Educação do Algarve, pretende dar a conhecer a poesia portuguesa, desenvolver o gosto pela leitura e sublinhar o carácter lúdico e estético da literatura.
Mais informação em DREAlg

Newsletter n.º 4 - Rede de Bibliotecas Escolares



Rede de Bibiotecas Escolares
Portal da Educação


Newsletter 04

Editorial

O número 4, agora publicado, está sistematizado em três áreas diferentes: uma dedicada aos Artigos de fundo, outra reservada às boas práticas que devem ser destacadas e que designámos por Dossier e uma terceira que veiculará as Notícias e os eventos da actualidade.

Miguel Real - Escritor e professor na biblioteca da escola

A biblioteca na escola é para alguns, mais do que um espaço de trabalho, um lugar natural para "estar". Luís Martins, Miguel Real (1) na actividade de escritor, associa o seu gosto pelo ensino e pela relação com os jovens, com a paixão pela leitura, pelos livros e pela escrita. Mais razões para sentir a BE como o local primeiro do seu "prazer" na escola? Oiçamos, então, este professor escritor, amante da arte de ensinar e dos livros.

Professor bibliotecário: uma função especializada - um cargo

Vai cumprir-se este ano um dos objectivos consignados, desde o início, no Programa da Rede de Bibliotecas Escolares - a criação da figura de professor bibliotecário.

Competências do Professor-bibliotecário no processo de auto-avaliação da biblioteca escolar

No âmbito da acção de formação Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares (Setembro - Dezembro 2008) foi desenvolvida uma actividade de auto-avaliação de competências dos participantes aplicada à área da avaliação organizacional. Pretendia-se que a reflexão fosse acompanhada de evidências que ilustrassem a existência das competências. Alguns dos relatos apresentados constituíram excelentes narrativas das várias fases de adaptação a novas competências ligadas ao desempenho em contexto biblioteconómico...

Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil - O caminho faz-se caminhando!

Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil nasceu em 1996 com a inauguração da Biblioteca Municipal e foi-se construindo com as 11 Bibliotecas Escolares do 1º, 2º e 3º Ciclos e Secundária que hoje existem, completando-se com a abertura da Biblioteca Pública Alberto Martins de Carvalho. A Formação de todos os intervenientes, a Organização das Bibliotecas e a Promoção da Leitura têm sido as preocupações dominantes ao longo do percurso, que deu, recentemente, mais um passo com a publicação do Portal da RBCA e o Catálogo Concelhio.

Moche à leitura - um projecto aLer+

O projecto aLer+/ Escolas Leitoras, lançado em Junho de 2008 pelo Plano Nacional de Leitura (PNL) e Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), resulta da parceria com o National Reading Trust do Reino Unido, em especial com o programa Reading Connects e conta, ainda, com o apoio Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, da Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular e da Fundação Calouste Gulbenkian.Neste artigo é feito um breve roteiro do projecto "Moche à Leitura" do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares (Escola EB 2,3/S Dr. Daniel de Matos).

Aprender com a Biblioteca

Reflexão sobre o papel da biblioteca escolar e do professor bibliotecário no processo de ensino aprendizagem.

Catálogos em linha das bibliotecas escolares

O catálogo de uma biblioteca é um instrumento essencial na perspectiva da constituição e da gestão do fundo documental e na óptica dos utilizadores. Sem ele, os utilizadores, mesmo numa biblioteca de acesso livre, organizada tematicamente, correm o risco de ignorarem uma parte considerável dos títulos que ela dispõe, ficarem sujeitos à bibliografia sumária indicada pelos professores ou à opinião dos elementos da equipa da biblioteca (professores e funcionários).

Bibliotecas Escolares: estado da arte

Dados preliminares referentes à base de dados das escolas integradas na Rede de Bibliotecas Escolares e que se encontravam em funcionamento no ano lectivo 2007/08


recebido por http://www.rbe.min-edu.pt/

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De que estiveram a falar?

O João espera pela mãe à porta de casa sentado no banco azul. Uma hora e dez. Quando ainda há meia hora olhara para o relógio, eram uma hora e cinco. A mãe nunca chega a casa antes das duas e cinco, isso quando vem cedo. Esquecera-se das chaves.
Passa a D. Joana:
— Então, João, ficaste fechado cá fora?
João faz um aceno de cabeça, delicadamente.
Passa o Dr. Gerardo:
— Então, não te deixam entrar?
João sorri delicadamente.
Passa a D. Gertrudes:
— Oh! Não me digas que a mãe ainda não chegou!
Quando vê o casal Meireles aparecer ao longe, João levanta-se, pega na pasta e muda--se para o banco do parque de estacionamento, do outro lado.
Talvez seja mesmo isso que em breve vai acontecer: ele fechado cá fora e eles, dentro casa, não deixam entrar. Logo se verá na próxima semana… A mãe tem um namorado. Há três anos que o pai morreu, tinha o João treze anos na altura; e agora a mãe arranjou um namorado.
Falara-lhe dele. Não é de cá, conhecera-o na casa de repouso depois da operação, na Primavera. Vem visitá-los na próxima semana e vai ficar instalado no escritório. Como quase não é usado desde que o pai morreu, põe-se lá uma cama.
— É só por dez dias — dissera a mãe.
Chega um carro de mobílias e estaciona com dificuldade num dos lugares vagos. Dois homens fortes saem a abanar os talões de entrega. Um deles vem direito a João:
— Há por aqui algum restaurante? É que nos enganámos no caminho e perdemos o almoço.
— Lá em cima, na povoação. Aqui, não.
— Ah, então vamos ter de comer aqui mesmo. Podemos? — pergunta o segundo. Sentam-se e começam a tirar umas sandes do saco da merenda.
A D. Julieta sai do carro com os dois filhos pequenos. Depois, é a enfermeira do 1º andar que regressa na sua motorizada. Em seguida, um carro que João não conhece estaciona no lugar do Engº Florismundo.
"Espero que o engenheiro não venha", pensa João. "Ele faz sempre um pé-de-vento... Até já chegou a chamar a polícia por invasão de propriedade. Oh, e que venha!" pensa João logo a seguir. "Ao menos havia alguma animação para ajudar a passar o tempo…"
Não é que o escritório seja um lugar sagrado, não é disso que se trata. João tem medo das mudanças, de… mas de que é que ele tem medo afinal?
— Não vou mentir-te — dissera a mãe — por isso quero dizer-te que gosto dele, do Bernardo. Gostava que tudo corresse bem, que tu gostasses dele. E acho que ele vai agradar-te — acrescentou.
"Espero bem que não", pensara João. "Espero que não dê certo. Espero que seja um mau tipo sobre quem não seja difícil decidir se gosto ou não."
A pequenita da D. Julieta aproxima-se dele. A bola saiu fora do parque infantil e João devolve-lha.
A menina agradece e vai embora a correr.
Os dois homens também vão. Chega agora um homem com uma pasta, senta-se no banco — Bom dia! — e começa a escrevinhar num bloco de papel. Talvez seja algum empregado de caixa.
João falara neste assunto a Geraldo. Em sigilo absoluto! Geraldo é um bom amigo e não é nada infantil quando o assunto são coisas sérias.
— Que idade tem a tua mãe? — perguntara o Geraldo.
— Trinta e seis ou trinta e sete.
— É óbvio — dissera o Geraldo. — Tens de entender. Com essa idade uma mulher ainda…
Fizera uma pausa e dera a entender o resto da frase com um sinal de cabeça cauteloso e aí João compreendera. Sem qualquer pré-aviso, pregou-lhe uma bofetada. Geraldo ficara terrivelmente assustado mas por pouco tempo… e reagira logo.
O empregado de caixa também foi embora e o dono do carro desconhecido atravessou o parque de estacionamento. "Ah", pensa o João. "O Engº Florismundo já não vai ter de se aborrecer. O senhor já vai sair."
Mas o homem não se vai embora. Veio só deixar uma coisa no carro e pegar outra. Um livro de bolso, pelos vistos. Olha em volta e encaminha-se para o banco de João. Senta-se na outra ponta sem uma palavra, de costas voltadas para ele. Tem um casaco de ganga e umas calças de veludo.
Pela maneira como se sentou e começou a ler sem fazer caso nenhum de João nem do que está à sua volta, não parece ser lá muito simpático.
Passa-lhe um pensamento maldoso pela cabeça. "Talvez se zangue", pensa João e maldosamente diz-lhe:
— Peço desculpa, mas estacionou num lugar reservado.
— E o que é que tem? — responde o outro sem se voltar.
— Só estou a dizer isto porque o dono do lugar pode fazer uma cena desagradável… Já chegou até a chamar a polícia…
Nesse momento o outro volta-se completamente e olha para João. Tem um bigode esquisito, olhos escuros com rugas à direita e à esquerda. Em vez de responder, aponta para o olho esquerdo de João e pergunta:
— O outro também?
João não percebe imediatamente mas depois acena com a cabeça.
— Sim, um pouco — a estalada de João não tivera o mesmo resultado que o soco de retaliação de Geraldo.
— E qual foi o motivo?
— Foi… foi por assuntos particulares.
— Ah, estou a perceber.
"Não percebes nada", pensa João.
— Para dizer a verdade, não estou a perceber nada — disse o homem. — Mas também não tem importância. — Depois sorriu e continuou:
— Andamos nós para aqui a fazer manifestações em favor da paz e, nos miúdos, as brigas continuam à larga. O que é que achas? O que pensas?
João encolhe os ombros.
— Não, a sério! O que é que pensas disto? Um — e encolhe os ombros — é muito pouco.
— Não sei — responde João. — Acho que um simples olho negro ainda não é sinónimo de guerra.
— Um olho negro não é sinónimo de guerra — repete o outro pensativamente. — Mas talvez comece por aí. Tenho certas dúvidas sobre a relação entre as brigas de escola e os movimentos pacifistas. Ainda não pensei bem no assunto mas acho que se devia reflectir a sério sobre isso, devia sim.
Reclina-se para trás e estica as pernas.
— Estou a falar a sério — acrescenta. — Claro que não só as brigas de escola mas as disputas das crianças no dia-a-dia, não achas?
João quer voltar a encolher os ombros, mas não o faz.
— Podes encolher os ombros à vontade — disse o homem. — Eu também não sei. Devia começar-se já em criança.
"Mais um maluco", pensa João.
Calam-se por um momento e o homem continua:
— Quanto ao lugar de estacionamento, claro que o dono ou inquilino, ou o que for, está no seu direito. Eu sou é demasiado preguiçoso para o ir tirar agora. Quando o dono vier ainda estou a tempo. Ou achas que ele também faz queixa por se desgastar o lugar?
— É bem capaz disso! — diz João a rir.
— Bem, ainda tenho de esperar mais um pouco. Não está ninguém na casa para onde quero ir.
João faz um aceno de cabeça.
O homem torna a virar-se para ele e olha mais de perto o olho negro com interesse.
— Doeu?
— Mais ou menos.
— Levaste pontos?
— Uhm.
— Uma vez, também fiz uma rachadela aqui — e apontou para a sobrancelha do olho direito.
— Mas não se vê nada — observa João.
— E na altura até cheguei a levar pontos.
— O outro também? — pergunta João atrevidamente.
O homem ri e bate com a mão no joelho.
— Não vais acreditar. Não havia mais ninguém! Eu vou pela sala às escuras à procura da porta da sala, às apalpadelas de braços esticados.
Estende os braços e fecha os olhos, provavelmente para mostrar como estava escuro como breu.
— E avanço, pé ante pé, a porta deve ser já aqui… E era, mas estava aberta. Eu passei-
-lhe com os braços de um lado e do outro e bati com a cabeça directamente na esquina da porta.
— Que mau! — disse João a rir-se.
— E tu ainda te ris? — disse o outro. — Que rapaz tão sem coração!
Nesse momento, a mãe entra no parque de estacionamento, passa pelo banco e olha. João levanta-se e diz:
— Adeus!
O desconhecido levanta-se e diz:
— Adeus!
A mãe sai do carro e sorri incrédula:
— Porque é que…
— Acabámos uma hora mais cedo… — responde João.
— Eu vim três dias mais cedo… — responde o desconhecido.
Mais tarde, num almoço feito à pressa a mãe pergunta:
— Sobre o que é que estiveram a conversar?
— Sobre o movimento de paz e cabeças rachadas — responde Bernardo.
A mãe está muito admirada.
— Uma coisa é esquisita — diz ela. — Vocês viram fotografias um do outro. Deviam ter-se reconhecido.
— O olho negro dele mudou-o muito — disse Bernardo.
— E o senhor… E na fotografia tu não tens bigode! — disse João.
Mais tarde, cada um vai tratar das suas coisas. Bernardo põe as camisas dentro do armário e pensa "Espero que ele perceba que gosto dele."
A mãe telefona à amiga para desmarcar o jantar e, enquanto espera que ela atenda, pensa "Parece que eles afinal… espero que dê certo. Esperemos."
João procura um lugar na sua colecção de minerais para o cristal que Bernardo lhe trouxe (Encontrei-o eu mesmo. Um dia mostro-te o lugar!). Claro que ele tinha de lhe oferecer alguma coisa. Precisava de se pôr nas minhas boas-graças.
Precisava mesmo?
João não se sente feliz. Não se sente feliz porque é tudo muito pouco claro, novo, diferente, ameaçador ou pelo menos emocionante, e tão rápido. No meio de todos estes pensamentos obscuros lembra-se – só por um instante – da história da porta aberta.
"Uma coisa ele não é", pensa João. "Um mau tipo!"
Em baixo, no parque estacionamento, o Engenheiro Florismundo, de pé em frente do carro desconhecido, escreve, por esta vez, uma carta muito pouco delicada, que prende no limpa pára-brisas.
Hans Domenego
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
Tradução e adaptação
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 12 de maio de 2009

"Nascem Nuteixos", Dra Helena Tapadinhas

No dia 19 de Maio, vamos receber na BECRE da nossa escola a Dra Helena Tapadinhas, que nos vai brindar com o conto Nascem Nuteixos, actividade promovida pela Direcção Regional de Educação do Algarve, no âmbito do PREEA (Programa Regional de Educação Ambiental pela Arte).
Informação complementar aqui.
.
Esta actividade será dividida em duas sessões
14.00 h - 5ºs anos
15.00 h - 6ºs anos
.
As turmas apresentarão ainda, com a colaboração dos respectivos professores, actividades no âmbito da poesia e de exposição de trabalhos.

BiblioFilmes


I and I Bob Marley. Escrito por Tony Medina e ilustrado por Jesse Joshua Watson.
O livro é um tributo multifacetado à lenda da música internacional que nos transporta à Jamaica de Bob Marley (dia 11 Maio faz 28 anos que morreu), enquanto os poemas dão vida novamente à sua viagem de rapaz ao verdadeiro ícone em que se tornou.

in Bibliofilmes

domingo, 10 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Leitor do Mês (Abril/09)

Livro do Mês (Maio/09) - "A Casa das Bengalas", de António Mota

A conversa com o demónio


O homem olha o entardecer na linda praia, ao lado da sua mulher, durante umas merecidas férias. Tudo parece absolutamente no seu lugar, e de repente, do fundo do seu coração, surge uma voz simpática, companheira, mas com uma pergunta difícil:
"Você está contente?".
"Sim, estou", responde.
'Então olhe com cuidado à sua volta".
"Quem é você?".
"Sou o demónio. E você não pode estar contente, porque sabe que, cedo ou tarde, a tragédia pode aparecer e desequilibrar o seu mundo. Olhe com cuidado à sua volta e entenda que a virtude é apenas uma das faces do terror".
E o demónio começa a mostrar tudo o que está a acontecer na praia.
O excelente pai de família que neste momento arrumava as coisas e ajudava os filhos a colocar um agasalho, que gostaria de ter um caso com a secretária, mas estava aterrorizado com a reacção da mulher.
A mulher, que gostaria de trabalhar e ter a sua independência, mas estava aterrorizada com a reacção do marido.
As crianças que se comportavam bem, com terror dos castigos.
A moça que lia um livro, sozinha numa barraca, fingindo displicência, enquanto a sua alma se aterrorizava com a possibilidade de nunca encontrar o amor da sua vida.
O rapaz com a raquete a exercitar o corpo, aterrorizado pelo fato de precisar de corresponder às expectativas dos seus pais.
O velho que não fumava e não bebia dizendo que tinha mais disposição agindo assim, quando na verdade o terror da morte sussurrava como o vento nos seus ouvidos.
O casal que passou a correr, espalhando com os pés a água da arrebentação, o sorriso nos lábios, e o terror oculto a dizer que iam ficar velhos, desinteressantes, inválidos.
O homem que parou a sua lancha à frente de todos e acenou com a mão, sorrindo, queimado do sol, sentindo terror porque podia perder o seu dinheiro de uma hora para a outra.
O dono do hotel que veio cumprimentar os hóspedes no momento em que o sol se escondeu, tentando deixar todos contentes e animados, exigindo o máximo dos seus contabilistas, com o terror na alma porque sabia que – por mais honesto que fosse – os homens do governo descobriam sempre as falhas que desejassem na contabilidade.
Terror em cada uma daquelas pessoas na linda praia, no entardecer de tirar o fôlego. Terror de ficar sozinho, terror do escuro que povoava a imaginação de demónios, terror de fazer qualquer coisa fora do manual de bom comportamento, terror do julgamento de Deus, terror dos comentários dos homens, terror da justiça que punia qualquer falta, terror da injustiça que deixava os culpados soltos e ameaçadores, terror de arriscar e perder, terror de ganhar e ter que conviver com a inveja, terror de amar e ser rejeitado, terror de pedir aumento, de aceitar um convite, de ir para lugares desconhecidos, de não conseguir falar uma língua estrangeira, de não ter capacidade de impressionar os outros, de ficar velho, de morrer, de ser notado por causa dos seus defeitos, de não ser notado por causa das suas qualidades, de não ser notado nem pelos seus defeitos nem pelas suas qualidades.
"Espero que isso o deixe mais tranquilo". terminou o demónio. "Afinal, você não está sozinho com os seus medos".
"Por favor, não vá embora sem antes ouvir o que tenho a dizer", respondeu o homem. "Temos uma capacidade incrível para detectar dores, remorsos, feridas – ou terror, como você prefere. Mas uma vez, o meu pai contou-me a história de uma macieira que, de tão carregada de maçãs, não conseguia deixar que os galhos cantassem com o vento. Alguém que passava perguntou porque é que ela não procurava chamar a atenção, como todas as outras árvores. 'Os meus frutos são a minha melhor propaganda', respondeu a macieira.
Claro que não sou diferente de ninguém, e o meu coração abriga muitos medos.
Mas, apesar de tudo, os frutos da minha vida falam por mim, e, se algum dia acontecer uma tragédia, eu sei que não passei a minha vida sem arriscar".
E o demónio, decepcionado, partiu para tentar assustar outras pessoas mais fracas.
Paulo Coelho
(adaptação)
Viva, 26 Junho 2007
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 5 de maio de 2009

Vasco Granja (1925-2009)

Morreu Vasco Granja, célebre divulgador de BD


Morreu Vasco Granja, célebre divulgador de BD
Responsável pela divulgação de milhares de obras de banda desenhada e de cinema de animação junto de sucessivas gerações de pessoas, Vasco Granja faleceu ontem de madrugada, na sua residência, em Cascais. Contava 83 anos.
A televisão tornou o rosto de Vasco Granja familiar para milhões de pessoas. No entanto, apesar de ter conduzido na RTP mais de um milhar de programas dedicado à animação, o seu interesse por esta arte surgiu muito tempo antes, quando lia as revistas "O Mosquito" e "Tic-Tac" e passava horas nos cineclubes.
A paixão foi alimentada pelo facto de ter acumulado vários empregos ligados à área: trabalhou numa casa de fotografia, numa tabacaria ou Armazéns do Chiado e, finalmente, na livraria Bertrand, onde permaneceu quase trinta anos e dirigiu a revista "Tintin".
Apesar da histórica ligação à RTP, na qual colaborou entre 1974 e 1990, a verdade é que a maioria destes programas, intitulados "Cinema de animação", terá sido apagada dos arquivos da televisão pública.
Parte do sucesso do programa deveu-se ao esforço de Vasco Granja em mostrar a animação que havia para lá das portas do castelo de Walt Disney. Foi desse modo que deu a conhecer personagens como Bugs Bunny e a Pantera Cor-de-Rosa, mas também histórias de bonecos de plasticina, sombras chinesas ou com ursos de peluche animados, a maioria das quais provenientes da então pujante cinematografia de animação do Leste da Europa.
A sua faceta de divulgador foi ainda mais notória na banda desenhada, devendo-se ao seu esforço continuado a publicação de "Corto Maltese", de Hugo Pratt, pela Bertrand.
Cinéfilo apaixonado e militante do Partido Comunista, Vasco Granja foi detido duas vezes pela PIDE por organizar sessões de cinema, muitas delas com filmes que ia buscar por conta própria às embaixadas em Lisboa.
Da sua actividade consta também o papel determinante no arranque do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que o homenageou com um troféu de honra em 1996, bem como a frequência dos festivais de BD no estrangeiro ou a organização dos ciclos de cinema de animação, dois dos quais para os detidos na Cadeia do Linhó.
O corpo do divulgador de BD estará em câmara-ardente a partir das 18.30 horas de hoje na capela da Damaia, na Amadora. O funeral realiza-se hoje às 15 horas, rumo ao cemitério de Rio de Mouro, Sintra, onde o corpo será cremado.
in Jornal de Notícias

Vasco Granja (Campo de Ourique, 10 de Julho de 1925 - Cascais, 4 de Maio de 2009) foi um apresentador de televisão português, reconhecido pelo seu grande contributo para a divulgação da animação e da banda desenhada em Portugal.
De seu nome completo Vasco de Oliveira Granja, nasceu a 10 de Julho de 1925, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa em Portugal, vindo a falecer em Cascais, na madrugada do dia 4 de Maio de 2009. Estudou na escola 12 do Bairro Alto, em Lisboa, e na Escola Industrial Machado de Castro, a qual abandonou após uma reprovação na disciplina de álgebra, no quarto ano.
Aos 15 anos de idade, encontrou o seu primeiro emprego, nos Armazéns do Chiado. Era responsável pelas amostras de seda que eram oferecidas às clientes. Algum tempo mais tarde, foi transferido para o departamento de publicidade, quando notaram que tinha um grande gosto pela leitura. Pintava cartazes com anúncios para as montras.
Como o ordenado não era suficiente, mudou de emprego, tendo ido trabalhar para a Foto Áurea, na Rua do Ouro, em Lisboa, estabelecimento esse que hoje já não existe. Nessa altura, visitava com frequência a Biblioteca Nacional, que estava aberta aos jovens. Interessava-se já por museus, pintura e pelo desporto, tendo sido sócio do Benfica durante algum tempo.
Durante a sua infância, apaixonou-se pelo cinema. Como na altura não existia classificação etária nos cinemas, percorreu todos os que existiam em Lisboa.
Casou-se com Maria Inácia, uma jovem de família oriunda do Ribatejo, que conheceu num baile em Lisboa. Tiveram uma filha e duas netas.
No decorrer dos anos 50, durante o regime fascista em Portugal, associou-se ao movimento cineclubista. Em Lisboa, participava no aluguer de salas e na projecção de filmes obtidos através das embaixadas, em formato de 16 milímetros. Os filmes tinham sempre que passar pela censura. Apesar disso, conseguiam mostrar filmes do
neo-realismo italiano. Em 1952, foi detido pela PIDE, em consequência do dinheiro dos bilhetes para os filmes se destinar a financiar o movimento de resistência ao regime do Estado Novo. Esteve preso durante seis meses, na prisão do Aljube.
Em 1960, esteve presente no festival de animação de
Annecy, em França, a representar Portugal. Durante essa viagem, a primeira fora do seu país, ganhou uma nova paixão pela animação. O cineasta canadiano de animação Norman McLaren tornou-se o seu maior ídolo. Viria a conhecê-lo pessoalmente.


Vasco Granja esteve ligado ao PCP e participou na festa do jornal do partido, a festa do Avante.
Durante os anos 60, foi novamente detido pela
PIDE, devido à sua ligação na altura ao Partido Comunista Português, mais concretamente à célula comunista dos cineclubes. Esteve preso durante 16 meses, tendo cumprido parte desse tempo em Peniche. Na prisão, foi submetido a várias torturas físicas e psicológicas, como a tortura do sono.
Em 1974, deu início a um novo programa de televisão, denominado "Cinema de Animação", na RTP, que viria a durar 16 anos, com mais de mil programas transmitidos. Nesses programas, dava a conhecer a animação de todo o mundo, desde aquela que era realizada nos países do leste da Europa, até à proveniente da América do Norte. Pretendia, com o seu programa, divulgar, para além da própria animação, uma mensagem de paz, que considerava estar presente em muitos dos filmes da Europa de Leste que transmitia.
Ainda em 1974, foi membro do júri do Festival Internacional de Banda Desenhada de
Angoulême.
Em 1975, criou um curso de cinema de animação, a partir do qual viria a nascer a Associação Portuguesa de Cinema de Animação.
Em 1980, foi membro do júri da quarta edição do Animafest, o Festival Mundial de Animação de Zagreb, realizado na então Jugoslávia. Participara já como observador neste festival na edição de 1974, logo após o 25 de Abril.
Permaneceu na RTP até 1990.
Teve uma breve aparição no programa humorístico de televisão
Herman Enciclopédia, em 1998, durante a qual parodiava os seus próprios programas sobre animação.
A
Festa do Avante de 2006, organizada pelo Partido Comunista Português, contou com a sua participação na selecção de filmes de animação de diversas origens, com particular destaque para películas oriundas da antiga Checoslováquia.
in
Wikipedia

domingo, 3 de maio de 2009

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa


Opinião
Editorial: O dia da mãe de todas as liberdades

03.05.2009 - 17h02 Nuno Pacheco
Hoje, data em que se assinala o Dia da Mãe, celebra-se também o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que é, em sentido lato, a mãe de todas as liberdades. Larry Kilman, num editorial publicado no site da WAN (World Association of Newspapers), recordava ontem essa verdade elementar, que é partilhada por muitos: "Sem o direito a informar e a expressar-se livremente, ninguém poderá reclamar outros direitos.

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"Claro que a data é, quase sempre, usada para acertar contas no relatório sinistro das perdas: de direitos e de vidas. E o que devia ser pretexto para indignação acaba por, infelizmente, como sucede com a repetição mecânica do número de mortos nas guerras, pretexto para amolecer a capacidade de revolta. É diferente saber, num dado momento, que um jornalista foi abatido a sangue-frio quando empunhava uma câmara ou um microfone do que ver tal morte diluída nas estatísticas. E, nestas, sabe-se agora que em 2008, só em matéria de jornalistas assassinados, o Iraque levou a dianteira, com 14 mortos, seguido do Paquistão (sete), da Índia (sete) e das Filipinas (seis).

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Mas não se calam os jornalistas apenas matando-os e, por isso, todos os anos há uma lista de detenções que alastra pelo mundo. É outra frente de combate. Em 2008, foram detidos 673 jornalistas e, em Dezembro, 125 continuavam nas prisões, sujeitos a penas variáveis. A maior parte das detenções deu-se, sem surpresa, em África, mas os países onde os jornalistas mais continuam a cumprir penas de prisão são a China (28), Cuba (21), Birmânia (14) ou a Eritreia (13), isto para não falar de países como a Coreia do Norte, onde a imprensa livre é proibida. Há um dado novo: os blogers passaram a integrar, também, a lista dos perseguidos. O que torna óbvio que os ataques à liberdade de imprensa visam, em primeiro lugar, a liberdade de expressão de todos os cidadãos.

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Mas se os regimes corruptos, ditatoriais ou repressivos são os inimigos crónicos da liberdade de informar, será que ganharam um "aliado" temporário na crise económica? Outro relatório anual, o da Freedom House (ver pág. 16), garantia ontem que sim, afirmando que, "tanto nos países ricos, como nos países pobres, as pressões sobre a liberdade dos media crescem de todos os lados e estão a ameaçar cada vez mais os ganhos consideráveis do último quartel do século XX". Isto num quadro global em que apenas 17 por cento dos habitantes da Terra contam com imprensa livre e em que, pelo sétimo ano consecutivo, a liberdade de imprensa no mundo continuará a regredir.

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Mas há quem defenda que, mais do que a crise ou do que as pressões para garantir a difícil sustentabilidade dos media nestes tempos difíceis, será o mau jornalismo o principal coveiro do jornalismo tout court. O acesso gratuito e irrestrito à informação como ideal veio favorecer a circulação (na Internet, em ecrãs públicos, em folhas que se fazem passar por jornais) de coisas que, a coberto de informar, por vezes não passam de propaganda ou mera difusão de interesses particulares. Se a defesa do jornalismo, apesar da crise, das contenções, das reestruturações mais duras, não passar em simultâneo pela aposta intransigente na qualidade jornalística, então algo falhará no processo. E amanhã, a par dos que não têm liberdade de imprensa, estarão muitos que julgam tê-la sem na verdade a ter. Nessa altura, o mundo estará ainda mais pobre. E mais submisso.

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Dia da Mãe


As mais antigas celebrações do Dia da Mãe remontam às comemorações primaveris da Grécia Antiga, em honra de Rhea, mulher de Cronos e Mãe dos Deuses. Em Roma, as festas comemorativas do Dia da Mãe eram dedicadas a Cybele, a Mãe dos Deuses romanos, e as cerimónias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos antes do nascimento de Cristo.
Durante o século XVII, a Inglaterra celebrava no 4º Domingo de Quaresma (40 dias antes da Páscoa) um dia chamado “Domingo da Mãe”, que pretendia homenagear todas as mães inglesas. Neste período, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões. No Domingo da Mãe, os servos tinham um dia de folga e eram encorajados a regressar a casa e passar esse dia com a sua mãe.
À medida que o Cristianismo se espalhou pela Europa passou a homenagear-se a “Igreja Mãe” – a força espiritual que lhes dava vida e os protegia do mal. Ao longo dos tempos a festa da Igreja foi-se confundindo com a celebração do Domingo da Mãe. As pessoas começaram a homenagear tanto as suas mães como a Igreja.
Nos Estados Unidos, a comemoração de um dia dedicado às mães foi sugerida pela primeira vez em 1872 por Julia Ward Howe e algumas apoiantes, que se uniram contra a crueldade da guerra e lutavam, principalmente, por um dia dedicado à paz.
A maioria das fontes é unânime acerca da ideia da criação de um Dia da Mãe. A ideia partiu de Anna Jarvis, que em 1904, quando a sua mãe morreu, chamou a atenção na igreja de Grafton para um dia especialmente dedicado a todas as mães. Três anos depois, a 10 de Maio de 1907, foi celebrado o primeiro Dia da Mãe, na igreja de Grafton, reunindo praticamente família e amigos. Nessa ocasião, a sra. Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos, que deviam ser usados por todos, e que simbolizavam as virtudes da maternidade. Ao longo dos anos enviou mais de 10.000 cravos para a igreja de Grafton – encarnados para as mães ainda vivas e brancos para as já desaparecidas – e que são hoje considerados mundialmente com símbolos de pureza, força e resistência das mães.
Segundo Anna Jarvis seria objectivo deste dia tomarmos novas medidas para um pensamento mais activo sobre as nossas mães. Através de palavras, presentes, actos de afecto e de todas as maneiras possíveis deveríamos proporcionar-lhe prazer e trazer felicidade ao seu coração todos os dias, mantendo sempre na lembrança o Dia da Mãe.
Face à aceitação geral, a sra. Jarvis e os seus apoiantes começaram a escrever a pessoas influentes, como ministros, homens de negócios e políticos com o intuito de estabelecer um Dia da Mãe a nível nacional, o que daria às mães o justo estatuto de suporte da família e da nação.
A campanha foi de tal forma bem sucedida que em 1911 era celebrado em praticamente todos os estados. Em 1914, o Presidente Woodrow Wilson declarou oficialmente e a nível nacional o 2º Domingo de Maio como o Dia da Mãe.
Hoje em dia, muitos de nós celebram o Dia da Mãe com pouco conhecimento de como tudo começou. No entanto, podemos identificar-nos com o respeito, o amor e a honra demonstrados por Anna Jarvis há 96 anos atrás.
Apesar de ter passado quase um século, o amor que foi oficialmente reconhecido em 1907 é o mesmo amor que é celebrado hoje e, à nossa maneira, podemos fazer deste um dia muito especial.
E é o que fazem praticamente todos os países, apesar de cada um escolher diferentes datas ao longo do ano para homenagear aquela que nos põe no mundo.
Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no 1º Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo.
No Brasil, o Dia das Mães é celebrado no segundo domingo de Maio, conforme decreto assinado em 1932 pelo presidente Getúlio Vargas.
Em Israel o dia da mãe deixou de ser celebrado, passando a existir o dia da família em Fevereiro.

Mais informação e actividades
Wikipedia
Minerva
Dia da Mãe
Educom
Vários sites

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A ovelha generosa

Era uma ovelha muito generosa. Sabem o que é ser generoso? É gostar de dar, dar por prazer. Pois esta ovelha era mesmo muito generosa. Dava lã.
Dava lã, quando lhe pediam.
Vinha uma velhinha e pedia-lhe um xailinho de lã para o Inverno. A ovelha dava.
Vinha uma menina e pedia-lhe um carapuço de lã para ir para à escola. A ovelha dava.
Vinha um rapaz e pedia-lhe um cachecol de lã para ir à bola. A ovelha dava.
Vinha uma senhora e pedia-lhe umas meias de lã para trazer por casa. A ovelha dava.
— Ó ovelha, não achas demais? Xailes, carapuços, cachecóis, meias... É só dar, dar...
— Não se ralem — respondia a ovelha. — Vocês não aprenderam na escola que a vaca dá leite e a ovelha dá lã? É o que eu estou a fazer.
Apareceu a Dona Carlota, muito afadigada:
— Eu só queria um novelozinho para fazer um saco para a botija. Ainda chega?
Pois claro que chegava. A ovelha, a dar nunca se cansava.
Veio a Dona Firmina, muito preocupada:
— Eu só queria um novelozinho para uma pega para a cozinha. Ainda chega?
Pois claro que chegava. A ovelha a dar nunca se cansava.
Veio a Dona Alda, muito atarantada:
— Eu só queria um novelozinho para acabar uma manta. Ainda chega?
Pois claro que chegava. A ovelha, a dar nunca se cansava.
E eram coletes, camisolas, golas, golinhas, luvas... que a gente até estranhava que a lã se lhe não acabasse. A ovelha sorria e tranquilizava:
— Não acaba. Nunca acaba. Conhecem aquele ditado: "Quem dá por bem, muito lhe cresce também"? Pois é o que eu faço.
E a ovelha generosa lá foi atender uma avó, que precisava de um novelo para um casaquinho de bebé, o seu primeiro neto que estava para nascer...
António Torrado
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar