quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A nossa terra é sagrada

Carta do Chefe índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta do Governo norte-americano de comprar grande parte das terras da sua tribo Duwamish, oferecendo em contrapartida a concessão de uma reserva.
Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-los?
Para o meu povo, não há um pedaço desta terra que não seja sagrado. Cada agulha de pinheiro cintilante, cada rio arenoso, cada bruma ligeira no meio dos nossos bosques sombrios são sagrados para os olhos e memória do meu povo.
A seiva que corre na árvore transporta nela a memória dos Peles-Vermelhas, cada clareira e cada insecto que zumbe é sagrado para a memória e para a consciência do meu povo. Fazemos parte da terra e ela faz parte de nós. Esta água cintilante que desce dos ribeiros e dos rios não é apenas água; é o sangue dos nossos antepassados.
Os mortos do homem branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da Terra que é Mãe. Fazemos parte dela. E a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos.
As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família. Se vendermos esta terra, não ireis, decerto, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada. Como poderei dizer-vos que o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai...
Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, trazem até nós os peixes… E, além do mais, cada reflexo nas claras águas dos nossos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes. Sim, Grande Chefe de Washington, os nossos rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.
Se vos vendêssemos a nossa terra, teríeis de recordar e de ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E é por isso que devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a um outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã mas como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.
Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe interessa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua Mãe Terra e o seu Irmão Firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem tal como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devora a terra, deixando atrás de si um completo deserto.
Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do homem pele-vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.
O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me: que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou o diálogo nocturno das rãs em redor de uma lagoa? Sou um pele-vermelha e não consigo entender. Nós preferimos o suave murmúrio do vento sobre a superfície de um lago, e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.
Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido desta terra, quando a sua sombra não for mais do que uma lembrança, como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos esta terra como uma criança ama o bater do coração da sua mãe.
Se decidisse aceitar a vossa oferta, teria de vos sujeitar a uma condição: que o homem branco considere os animais desta terra como irmãos.
Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecer, abandonados nas pradarias, mortos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, que apenas matamos para sobreviver.
Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. Se tudo desaparecer, o homem pode morrer numa grande solidão espiritual. Todas as coisas se interligam. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos sobre a terra: que a Terra é nossa Mãe e que tudo o que lhe acontece a nós acontece aos filhos da terra.
Se o homem cuspir na terra, cospe em si mesmo. Sabemos que a terra não pertence ao homem, mas que é o homem que pertence à terra. Os desígnios terrenos são misteriosos para nós. Não compreendemos por que os bisontes são todos massacrados, por que são domesticados os cavalos selvagens, nem por que os lugares mais secretos dos bosques estão impregnados do cheiro dos homens, nem por que a vista das belas colinas está guardada pelos "filhos que falam".
Talvez um dia sejamos irmãos. Logo veremos. Mas estamos certos de uma coisa que talvez o homem branco descubra um dia: o nosso Deus é um mesmo Deus. Agora podeis pensar que Ele vos pertence, da mesma forma que acreditais que as nossas terras vos pertencem. Mas não é assim. Ele é o Deus de todos os homens e a sua compaixão alcança por igual o pele-vermelha e o homem branco.
Esta terra tem um valor inestimável para Ele e maltratá-la pode provocar a ira do Criador. Que é feito dos bosques profundos? Desapareceram. Que é feito da grande águia? Desapareceu também. Mas o homem não teceu a trama da vida: isto sabemos. Ele é apenas um fio dessa trama. E o que faz a ela fá-lo a si mesmo.
Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um fio e está a desafiar a desgraça se ousar destruir essa rede. Tudo está relacionado entre si como o sangue de uma família. E, se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos. Assim se acaba a vida e só nos restará a possibilidade de tentar sobreviver.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Dia Mundial da Música


"Porque a Música penetra mais fundo na alma humana."
PLATÃO

2 Milhões de história humana desenvolveram olhos com pálpebras, mas ouvidos sempre abertos. É o primeiro dos sentidos que desenvolvemos, pois ao 3.º mês de concepção já o bebé tem o seu aparelho auditivo acabado. É pelos ouvidos que tomamos o primeiro contacto com o mundo exterior, e é pelos ouvidos que se conhecem pai e mãe com as vozes que inundam o caldo do ventre materno. A poesia dos sons embala-nos desde o berço, amniótico ou de palhinha, seja por caixas de música electrónicas, ou pela voz emocionada de mães e avós.

Não importa procurar definir o que é, porque para cada um de nós a Música é sempre alguma coisa. Diferente dum esquimó para um filarmónico português, é certo, mas permitindo a comunicação entre cristãos e muçulmanos, africanos e americanos, profissionais e amadores, crianças e avós. Mesmo em povos para os quais não existe a palavra Música, e são muitos, tal é o lugar indissociável que tem nas funções que lhes dão o nome, estrutura muitos dos rituais comunitários e atravessa todo o sistema educativo. Porquê educar pela e com a Música? Platão, muito antes de qualquer técnica de marketing ou investigação musicoterapeutica, responde de forma simples: Porque a Música penetra mais fundo na alma humana.

Porque muito antes de os homens organizarem os sons, os sons organizaram os homens.
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Hoje, não deixe de ouvir um tema musical que lhe seja particularmente querido. Mas não o faça colocando o CD e lendo o jornal ou fazendo o jantar ou uma outra coisa qualquer. Sente-se só para ouvir. E se tiver coragem, o melhor mesmo é cantar uma canção. Para si ou para quem lhe estiver mais próximo.

O Sétimo Selo - José Rodrigues dos Santos



LIVRO DO MÊS
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Sinopse:
Um cientista é assassinado na Antárctica e a Interpol contacta Tomás Noronha para decifrar um enigma com mais de mil anos, um segredo bíblico que o criminoso rabiscou numa folha e deixou ao lado do cadáver: 666.
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O mistério em torno do número da Besta lança Tomás numa aventura de tirar o fôlego, uma busca que o levará a confrontar-se com o momento mais temido por toda a humanidade: o apocalipse. De Portugal à Sibéria, da Antárctica à Austrália, O Sétimo Selo transporta-nos numa empolgante viagem às maiores ameaças que se erguem à sobrevivência da Humanidade.
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Baseando-se em informação científica actualizada, José Rodrigues dos Santos volta com este emocionante romance aos grandes temas contemporâneos, numa descoberta que poderá abalar a forma como cada um de nós encara o futuro da humanidade e do nosso planeta.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A gaivota que não queria ser

Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.
Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.
— Também há quem as cozinhe com ervilhas
— interrompeu-a uma gaivota trocista.
Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.
Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: "Gaivota estufada", "Gaivota de cabidela", "Gaivota guisada com batatas"…
Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.
A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.
As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.
Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.
Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o mar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
"Afinal, sempre tenho alguma utilidade", pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.

António Torrado
http://www.historiadodia.pt/

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Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Blog da BECRE Dom Paio Peres Correia - 1º Aniversário


Hoje fazemos um ano. O primeiro de muitos mais.
Contamos sempre com a colaboração de todos, claro, para fazermos sempre melhor.
No dia 27 de Outubro, em simultâneo com as actividades do Mês das Bibliotecas, iremos assinalar este primeiro aniversário.
Haverá surpresas. Não faltes.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Morreu Richard Wright, teclista dos Pink Floyd


O teclista Richard Wright, um dos membros fundadores dos Pink Floyd, faleceu, no passado dia 15, de cancro, aos 65 anos, informou o seu porta-voz.

Wright, também conhecido por Rick Wright, nasceu em Londres em 1943 e entrou para os Pink Floyd em finais dos anos 60, participando no primeiro álbum do grupo, "The Piper at the Gates of Dawn", em 1967, com Syd Barrett, Roger Waters e Nick Mason.

David Gilmour juntou-se à banda em 1968 e Barrett saiu pouco tempo depois.
Com esta nova formação, os Pink Floyd atingiram um dos pontos mais altos da sua carreira em 1973, ao lançarem o álbum "The Dark Side Of The Moon", no qual Rick Wright teve uma importante prestação e que se manteve na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos durante mais de um decénio.

Com a "impressão digital" de Roger Waters bem evidente, "The Wall", de 1979, foi outro dos grandes êxitos do grupo.

Rick Wright afastou-se, por essa altura, Waters sairia também, algum tempo depois, mas o teclista regressou em 1987, participando a partir de então noutros álbuns, nomeadamente em "The Division Bell", e em tournées do grupo.

Os Pink Floyd voltaram a reunir-se em 2005, pela primeira vez em 24 anos, no concerto Live 8 em Hyde Park em Londres.

Fonte
LUSA

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Ferradura

Era uma vez uma velha ferradura.
Um senhor encontrou-a, levantou-a do chão e meteu-a no bolso do sobretudo.
É para dar sorte — disse o senhor de si para si, muito convencido do que dizia.
Quando chegou a casa e a mulher foi pendurar o sobretudo no cabide é que foram elas.
Tens o sobretudo tão pesado, homem — intrigou-se ela.
O senhor explicou o porquê:
É para dar sorte.
Se dá sorte, não sei — repontou a ela. — O que sei é que o peso da ferradura rompeu o bolso do sobretudo. Tirá-la de dentro do forro vai ser o cabo dos trabalhos.
O senhor, pacientemente, recuperou a ferradura do sobretudo, que foi para coser, e pendurou-a num prego atrás da porta.
É para dar sorte.
No dia seguinte, ia ele a entrar em casa com a mulher, e a porta não se abriu. Porque seria, porque não seria…
Tiveram de entrar em casa, a muito custo, por uma janela.
A ferradura tinha caído e entalara-se em cunha na porta, impedindo-a de abrir-se.
Estou a ver que a ferradura só dá trabalhos — comentou a mulher.
O senhor não ligou e foi meter a ferradura numa gaveta:
É para dar sorte.
Passado tempo, a mulher veio mostrar-lhe umas camisas todas manchadas:
Puseste a maldita da ferradura na gaveta, encheu-se de ferrugem e deu cabo destas camisas. As melhores que tinhas…
Então o senhor aborreceu-se. Estava desiludido com a ferradura, que só o metera em trabalhos.
Vou desfazer-me do raio da ferradura. Para dar sorte… — e atirou-a pela janela.
Por pouca sorte, a ferradura foi bater no capot de um automóvel que ia a passar. Pior seria se tivesse acertado em alguma cabeça. Mesmo assim amolgou o automóvel.
Veio o automobilista pedir explicações:
Quem é o animal que anda a atirar os sapatos para o meio da rua?
O senhor que achara a ferradura teve de pedir muitas desculpas e pagar uma indemnização, para que o caso ficasse por ali. E para que a história acabasse aqui.
António Torrado

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Bom Ano Lectivo 2008/2009

A Equipa da Biblioteca e Centro de Recursos do Agrupamento de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores e colaboradores deste blogue, um Bom Início de Ano Lectivo 2008/2009.
Não deixem de visitar a BECRE e o blogue. Temos novidades.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

"Harry Potter e o Príncipe Misterioso" (trailer do novo filme)



O filme baseado no livro Harry Potter and the Half-Blood Prince, ("Harry Potter e o Príncipe Misterioso" em Portugal, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe" no Brasil), vai estrear em Portugal no dia 20 de Novembro.


O BiblioFilmes Festival apresenta, principalmente aos fãs dos filmes de Harry Potter, o primeiro trailer oficial do novo filme da saga.




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quarta-feira, 23 de julho de 2008

A ponte

Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.
Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:
Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.
Pedro respondia:
— Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.
Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama, um ao outro.
Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.
Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.
"Ah!", pensou Max. "Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!"
Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.
Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado. Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.
A pedra parecia uma pequena ilha.
"Ah!", pensou Max. "Isso também eu sei fazer!" E colocou o seu tijolo na água.
Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.
E assim foram construindo uma passagem sobre a água.
Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.
Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?

N. Oettli

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

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Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

Delfins acabam ao fim de 25 anos!


Delfins acabam ao fim de 25 anos!


No ano em que celebram 25 anos de carreira, os Delfins decidiram colocar um ponto final com um concerto marcado para 31 de Dezembro de 2009, em local a anunciar...

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domingo, 6 de julho de 2008

A criança mais carinhosa









O amor é tudo.
É a chave da vida, e são as suas influências
que movem o mundo.

Ralph Waldo Trine







Escritor e conferencista, Leo Buscaglia contou que uma vez lhe pediram que fosse júri de um concurso. O objectivo do concurso era encontrar a criança mais carinhosa. Quem ganhou foi um menino de quatro anos, cujo vizinho do lado era um homem idoso que perdera recentemente a mulher. Ao ver o homem a chorar, o rapazinho entrou no quintal dele, subiu-lhe para o colo e ficou ali sentado. Quando a mãe lhe perguntou o que dissera ao vizinho, o rapazinho respondeu:
— Nada, só o ajudei a chorar.
Ellen Kreidman




Canja de galinha para a alma
Mem Martins, Lyon Edições, 2002



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Leitora do Ano - Tatiana Machado 8ºA

sábado, 28 de junho de 2008

A raposa


Era uma vez um pescador que ia apanhar lenha pela costa do mar, e encontrou um tubarão metido numa rede. O tubarão, mal o viu, disse-lhe:
— Ó bicho-homem, tiras-me desta rede?
O homem teve pena do tubarão e tirou-o da rede. Mas o tubarão, que havia uns poucos de dias que estava preso na rede, tinha fome e botou-se ao homem para o comer. O homem disse-lhe, muito aflito:
— Ó tubarão, então eu tirei-te da rede e tu agora queres comer-me?
O tubarão respondeu-lhe:
— Como, porque tenho fome.
O homem disse-lhe:
— Pois não me comas sem primeiro tomarmos três conselhos, dos três primeiros fôlegos vivos que encontrarmos. Se todos tiverem a mesma opinião, está o juramento aprovado. E se um disser uma coisa e dois outra, a maioria é que vence.
Mas o tubarão não queria largar o homem, e não largou, mas sempre com ele agarrado.
Chegaram à areia de terra e avistaram um burro velho, e perguntaram-lhe:
— Ó burro, por bem fazer, mal haver?
Responde o burro:
— Sempre foi e há-de ser.
Perguntou o homem:
— Porque dizes tu isso?
— Porque eu quando era burro novo, meu amo até numa rede me trazia por via das moscas; quando ele ia a cavalo, eu ia todo contente a saltar. Hoje que me acho burro velho, botou-me à margem. Pagou-me o bem com o mal.
Diz o tubarão:
— Vês, homem, o primeiro já está a meu favor.
Daí a bocado, passa um galgo também velho. Diz o homem:
— Ó galgo, por bem fazer, mal haver?
O galgo respondeu:
— Sempre foi e há-de ser.
Diz o homem:
— Porque dizes tu isso?
— Porque quando eu era galgo novo, meu amo ia para o monte à caça, e eu corria aquela toda sobre a caça. Tinha-me o meu amo tanto amor, que não me dava por dinheiro nenhum. Agora estou cansado e velho, e meu amo, para me não matar, botou-me para o monte, cheio de pancada, e aqui está como ele me pagou o bem com o mal.

O tubarão abriu a boca para comer o homem. O homem disse:
— Alto lá, que ainda falta um.
Nisto, aparece uma raposa. Diz o homem:
— Ó comadre raposa, por bem fazer, mal haver?
Diz a raposa:
— Não, que eu não posso lavrar a sentença sem ver o crime.
Responde o homem:
— Então como é que se há-de agora formar o crime?
Responde a raposa:
— Torne o tubarão para a rede.
O tubarão, isso não queria, mas não teve remédio e sempre foi. O homem, mal o viu lá, ainda o segurou mais do que ele estava.
A raposa então disse:
— Agora salte o homem cá para terra.
A raposa voltou-se para o tubarão e disse-lhe:
Por bem fazer, mal haver,
Sempre foi e há-de ser;
Quem quiser fugir que fuja,
Que eu assim vou fazer.
Depois, o homem fugiu para um lado, a raposa para outro, e o tubarão ficou preso dentro da rede.
Depois a raposa foi pôr-se adiante num caminho a fingir-se morta.
O pobre homem, que andava apanhando a lenha, encontrou a raposa e disse:
— Ah! coitadinha, pobre raposa, ainda agora me valeste, quem te mataria?
Nisto pegou nela e tirou-a do caminho, não viesse algum carro que a traçasse.
A raposa levantou-se, sem o homem ver, e foi pôr-se outra vez mais adiante, fingindo-se morta outra vez.
O homem ainda teve pena dela e tornou-a a arredar do caminho. Mas ela tornou a ir deitar-se outra vez no caminho mais adiante.
O homem à terceira vez disse:
— Que diabo, tanta raposa! — E pegou num cipó e pegou a dar na raposa. Diz a raposa:
— Vês, homem, em que instante pagas o bem com o mal? Por bem fazer, mal haver.


O Mar na cultura popular portuguesa
Lisboa, Terramar, 1998

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Boas Férias!!!


A Equipa da Biblioteca e Centro de Recursos do Agrupamento de Escolas Dom Paio Peres Correia deseja a toda a comunidade escolar e seus familiares, a todas as BECRE's e a todos os utilizadores e colaboradores deste blogue, umas Boas Férias Grandes, e para o ano há mais.
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Premiados da Biblioteca

S. João



João Batista nasceu na cidade de Judá, quando os pais, Zacarias e Isabel, já eram idosos. Ele era um filho muito desejado, uma vez que Isabel era estéril e Zacarias, mudo. Ambos eram de estirpe sacerdotal. Isabel haveria de dar à luz um menino, cujo nome significaria "Deus é propício". Assim foi avisado Zacarias pelo Anjo Gabriel que o visitou anunciando a chegada do tão esperado herdeiro.
No ano 27, João apareceu como profeta e quando iniciou sua pregação muitos chegaram a acreditar que ele era o próprio Messias. Vestia-se como os sábios eremitas essênios da época, os quais usavam uma túnica grosseira feita de pele de camelo atada a um cinto de couro (representação da liberdade, da escolha do destino de cada um), e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Para que se salvassem do pecado, as pessoas recebiam, por intermédio desse profeta, a ablução nas águas do rio Jordão (acto comum entre os essênios), prática chamada de baptismo, razão por que passou ele a ser conhecido como João Batista.
Fazia seus sermões e muitos eram aqueles que o ouviam e acompanhavam. Ele afirmava que o Reino de Deus estava próximo, baptizava a todos e pedia que repartissem seus alimentos e roupas com os mais pobres. Chegou a baptizar o próprio Cristo, embora se achasse indigno até mesmo de lhe desatar as sandálias.
No momento em que Jesus saiu da água, na cerimónia do baptismo, abriu-se sobre Ele uma nuvem e o Espírito Santo se manifestou através de uma pomba, não como uma pomba real, mas uma visão, algo muito pessoal entre Deus e Jesus. Jesus, então o definiu: "Ele é mais do que um profeta. Jamais surgiu entre os nascidos de uma mulher alguém maior que João Batista".
Foi depois do baptismo que Jesus entendeu que começava então sua verdadeira missão. Passados de alguns meses, João foi preso mas, mesmo no cárcere, acompanhava os trabalhos de Jesus, fazendo perguntas por intermédio de mensageiros (Lucas 7, 19-29). Morreu degolado sob o governo do rei Herodes, por defender a moralidade e os bons costumes, por isso é reconhecido nos dias de hoje como um dos Santos mais populares em todo o mundo cristão. O dia 24 de Junho foi consagrado a S. João pois crê-se que ele nasceu nesta data.
São João é o santo que mais se festeja na Europa, sendo também o padroeiro de muitas terras em Portugal e no Brasil.
Há inúmeras tradições associadas às festas de S. João que variam de terra para terra, de região para região, havendo mesmo quem considere que a noite de S. João é uma noite mágica, propícia a milagres e adivinhações. Enfim, o imaginário à volta da figura deste santo é riquíssimo e variado.

Fonte: www.infonet.com.br

domingo, 22 de junho de 2008

Coisas do Arco-da-Velha



Significado
Coisas inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis.

Origem
A expressão tem origem no Antigo Testamento; arco-da-velha é o arco-íris, ou arco-celeste, e foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: "Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra." (Génesis 9:16)
Arco-da-velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à Lei Divina. Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades mágicas do arco-íris - beber a água num lugar e enviá-la para outro, pelo que velha poderá ter vindo do italiano bere (beber).

Porreiro, pá!...

A História da Rosa


Sabes, meu filho, não há rosas sem espinhos. Pois é, concordei eu. Mas nem sempre foi assim. Sabias? Isso já não, confessei. É verdade meu filho, tempos havidos, as rosas não tinham espinhos, como qualquer outra flor. A velhota despertara-me a curiosidade. Queres saber o que se passou entretanto? Claro, queria mesmo. Então escuta com atenção.
Como te disse, tempos houve em que as rosas não tinham espinhos. Aqui na Serra, também não havia tanta flor, tudo estava coberto de matagal e os lobos eram mais do que os espinheiros. A Natureza tem muita força, ela rege a vida do Universo, predestina tudo, a vida dos animais, das plantas e dos homens. Um dia, por desígnios seus, apareceu uma bela rosa, uma rosa mais bela do que qualquer outra, crescendo sozinha no meio do mato. As abelhas e as mariposas logo levaram a notícia em todas as direcções e nunca mais a rosa deixou de ser visitada por verdadeiros enxames desses simpáticos insectos. Talvez por isso, quem sabe, mas não lhe podemos levar muito a mal, tornou-se um poucochinho vaidosa. Fechando os olhos à beleza que a rodeava – a Serra é muito bela, não achas? – fechando os olhos à beleza que a rodeava, ia eu dizendo, a rosa nem sequer se apercebeu de que quase junto ao caule, nascera e crescia um gordo cacto. Esta planta é muito humilde, talvez por se considerar feia e horrível, com os seus picos sempre espetados contra inimigos, uns verdadeiros e outros imaginários. O cacto desta história sentia-se ainda mais humilde e triste por ter uma vizinha que não lhe ligava. Viveram assim durante muito tempo as duas plantas: uma lá no alto, vistosa, a outra rente ao chão, modesta. Mas, um dia, ah!, aconteceu uma coisa de pasmar. Sofria-se nesse momento uma pavorosa seca. A nossa rosa, porém, mantinha o viço como se todos os dias fosse regada. As raízes continuavam a sentir o subsolo húmido e a criar seiva para a flor permanecer de pé e não desmaiar de cor. Como era possível tal coisa? Apenas porque o cacto tinha no interior um reservatório de água e, de quando em vez, libertava alguma dessa água para a terra. Mas, como era modesto e tímido, nada confessava desse seu gesto. Por essa ocasião, conta-se, um homem perdeu-se na serra e, vagueando, vagueando, quase morto de sede, abeirou-se do sítio onde viviam a rosa e o cacto. Ao ver este, como era viajado e conhecedor, recordou sabedorias antigas, e pegando numa faca de mato arrancou-o, abriu-o ao meio e bebeu a água muito fresquinha. Desta forma, o homem ganhou novas forças e salvou-se de uma morte certa. O pobre cacto, esse, coitado, morreu. Mas a rosa aprendeu a lição; se aprendeu! Desde logo suspeitou se ainda estava viva, ao cacto o devia. Fora dele, sem dúvida, a água que impedira que ela murchasse e secasse. Teve por isso de reconhecer: nem só a beleza é coisa importante. Afinal, o cacto, a cuja presença nunca ligara, salvara a vida de um homem. E então chorou, arrependida, por não ter tido tempo, ocupada com a sua beleza como sempre estivera, de reconhecer e dar valor ao vizinho. Debruçou-se a seguir sobre os seus restos, num abraço de despedida. Disse-te há pouco, a natureza é cheia de desígnios e só ela os entende. Nós não podemos nada contra ela. Pois sucedeu uma coisa inesperada: ao dar-se aquele abraço, os picos do cacto espetaram-se no caule da rosa. Não, não, ela não sentiu dor nenhuma. A flor até ficou reconhecida por isso ter sucedido. Era a última homenagem prestada à valente planta. E aqui tens: a partir desse dia as rosas passaram a nascer com espinhos.

Gorjão Duarte
A Minha Amiga Serra
Lisboa, Livros Horizonte, 1990

sábado, 21 de junho de 2008

Entrega de Certificados de Frequência aos alunos do 9º ano

A entrega dos certificados esteve a cargos das professoras Fátima Veríssimo (Coordenadora da Biblioteca Escolar) e Anunciação Simões (Presidente do Conselho Executivo).

Ninguém quis deixar de receber o seu.


Aqui o 9ºB e o professor David Barbosa numa pose "para mais tarde recordar".

21 de Junho - Início do Verão


O Verão é uma das quatro estações do ano. Neste período, as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. Geralmente, o verão é também o período do ano reservado às férias.
O Verão do hemisfério norte é chamado de "Verão boreal", e o do hemisfério sul é chamado de "Verão austral". O "Verão boreal" tem início com o solstício de Verão do Hemisfério Norte, que acontece cerca de 21 de Junho, e finda com o equinócio de Outono nesse mesmo hemisfério, por volta de 23 de Setembro. O "Verão austral" tem início com o solstício de Verão do Hemisfério Sul, que acontece cerca de 21 de Dezembro, e finda com o equinócio de Outono, por volta de 20 de Março nesse mesmo hemisfério.
Nos tempos primitivos, era comum dividir o ano em cinco estações, sendo o verão dividido em duas partes: o verão propriamente dito, de tempo quente e chuvoso (geralmente começava no fim da primavera), e o estio, de tempo quente e seco — palavra da qual deriva o termo "estiagem". Actualmente, usa-se a palavra "estio" como sinónimo raro para verão.
Fonte
Wikipedia
.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Exposição

a ponte - grupo de artistas...http://art-in-tavira.com/

exposição

exposição inaugural dos artistas que constituem o grupo 'A Ponte'

junho 20 - julho 11

mercado da ribeira tavira

Junte-se a nós para a inauguração -

6ª - feira 20 de junho às 19.00H

sábado, 14 de junho de 2008

Comemoração dos 120 Anos do Nascimento de Fernando Pessoa



Tudo o que faço ou medito

Fica sempre na metade.

Querendo, quero o infinito.

Fazendo, nada é verdade.

Fernando Pessoa


Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários. Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes. De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade. Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool. Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes. Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença. A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos. A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar. Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida. Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos. De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana. Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflecte inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com um certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo. Figura cimeira da literatura portuguesa e da poesia europeia do século XX, se o seu virtuosismo é, sobretudo inicialmente, uma forma de abalar a sociedade e a literatura burguesas decrépitas (nomeadamente através dos seus «ismos»: paúlismo, interseccionismo, sensacionismo), ele fundamenta a resposta revolucionária à concepção romântica, sentimentalmente metafísica, da literatura. O apagamento da sua vida pessoal não obviou ao exercício activo da crítica e da polémica em vida, e sobretudo a uma grande influência na literatura portuguesa do século XX. Existe presentemente, em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa, instalada na última morada.

Fonte:
www.astormentas.com

Prémios Nobel de 2008



Nomes dos laureados anunciados em Outubro

Os nomes dos laureados dos Prémios Nobel de 2008 serão anunciados entre 6 e 13 de Outubro, anunciou a Fundação Nobel.

O Prémio Nobel da paz, o mais prestigioso, é anunciado em Oslo, a 10 de Outubro.

Apesar dos nomes dos candidatos propostos para esta recompensa serem guardados secretamente pelo comité sueco do Nobel, os que propõem os nomes ao organismo podem tornar pública a sua escolha.

Para já, sabe-se que a lista de candidatos ao Nobel da Paz é composta por 197 nomes de pessoas e organizações, o segundo maior número da história para este prémio desde 2005, em que havia 199 candidatos.

Entre os candidatos, figuram o nome do presidente da Argélia, Abdelaziz Buteflika, proposto pelos deputados e ministros do país, e o do ex-chanceler alemão Helmut Kohl, proposto pelo ex-presidente russo Mikhal Gorbatchev, que em 1990 foi o vencedor do prémio.

Segundo os observadores, o comité pode dar especial atenção este ano aos defensores dos Direitos Humanos na China e na Birmânia, após as recentes acções repressivas demonstradas pelas autoridades destes países.

A "época" do Nobel inicia-se a 06 de Outubro com a atribuição do Nobel da Medicina, seguindo-se o da Física a 7, o da Química a 8, e o da Economia a 13.

Tal como já vem sendo tradição, a Academia sueca anunciará mais tarde a data do anúncio do prémio Nobel da Literatura.

O vencedor do prémio Nobel recebe 1,07 milhões de euros, sendo a soma repartida caso haja vários vencedores.


Lusa

Conjugação


Professor:
- Joaquim, diga o presente do indicativo do verbo caminhar.
.
Aluno:
- Eu caminho... ah... ...tu caminhas... ah...ele caminha...
.
Professor:
- Mais depressa !
.
Aluno:
- Nós corremos, vós correis, eles correm!

À grande e à francesa


Significado
Viver com luxo e ostentação.

Origem
Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

Um tostão para o Santo António


Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.
Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:
Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes...

António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994


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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Santo António de Lisboa

Ao assinalar-se mais uma noite de Santo António, aqui vai um brevíssimo resumo da vida desse grande português que é reconhecido e celebrado um pouco por todo o mundo.

Fernando de seu nome de baptismo, Santo António de Lisboa, ou Santo António de Pádua, nasceu por volta de 1195, em Lisboa, e morreu a 13 de Junho de 1231, em Pádua, na Itália. Aos vinte anos professou a vida religiosa entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Ordenado sacerdote em 1220, fez-se frade franciscano no eremitério de Santo Antão dos Olivais, partindo depois para Marrocos em missão de apostolado aos muçulmanos. Foi dos mais categorizados representantes da cultura cristã no período de transição da pré-escolástica para a escolástica. Figura notável pela sua erudição, impôs-se também pelo exemplo na pregação solene e doutrinal, na discussão com os hereges e no ensino nas escolas conventuais. Por isso, é ainda hoje considerado uma das personalidades franciscanas mais significativas. Foi canonizado pelo papa Gregório IX, em 30 de Maio de 1233. Em Pádua foi erigida uma conhecida basílica em sua memória, e lá se encontram as suas relíquias.



Fonte:
Santo António de Lisboa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Então eu seria uma criança feliz

Então eu seria uma criança feliz
Se à segunda-feira se pudesse correr livremente pelos prados
e as flores desabrochassem numa explosão de cor…
Se à terça-feira se contemplasse o céu
no seu mistério de um azul sem fim…
Se à quarta-feira se retirassem as máscaras
e a verdade brotasse…
Se à quinta-feira a alegria entrasse nos corações…
Se à sexta-feira todos se dessem as mãos…
Se ao sábado os pais contassem aos filhos histórias de encantar…
Se ao domingo a beleza do silêncio se renovasse em cada ser…
Então eu seria uma criança feliz,
e a minha canção voaria por sobre as casas,
dançaria entre os ramos das árvores,
e à hora do crepúsculo repousaria sobre os mares do mundo,
tornada canção de embalar,
a encher de paz e de ternura os sonhos das crianças.
Anónimo
.
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Prémios Trailer de Livros - 4 novas nomeações


Nomeados

- Trailer Rhys Hughes in Lisbon, livro Uma nova história universal da infâmia ("A new universal history of infamy") do autor Galês Rhys Hughes

- Trailer do livro "Futebol: sol e sombra", de Eduardo Galeano

- Trailer do livro "O pássaro pintado" de Jerzy Kosinski

- Trailer do livro "Criaturas da noite" de Lázaro Covadlo


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A Portuguesa

Alfredo Keil



O primeiro elemento da família Keil veio para Portugal em meados do séc. XIX. Chamava-se Johan Christian Keil, alemão de Hanover, exilado político, que em 1839 se estabeleceu em Lisboa, como alfaiate, aí passando a residir. Casado com Maria Josefina Stellpflug, de origem alsaciana, deram origem a uma família de artistas em várias áreas, principalmente na música e pintura. Deste casamento nasceu, no palácio de Barcelinhos, em 1850, aquele que viria a ser filho único do casal, Alfredo Cristiano Keil.

Mestre alfaiate Christian Keil possuía duas alfaiatarias na Rua Nova do Almada e viria a ser o alfaiate do rei D. Luís e de boa parte da aristocracia e burguesia rica lisboeta. Porém a sua clientela estendia-se a outros países. Muitos clientes vinham a Lisboa mandar fazer os seus fatos, visitar a cidade e ficariam amigos deste alemão emigrado e bem relacionado. Johan Keil rapidamente se liga à alta finança internacional, investe em diversas Bolsas e adquire uma fortuna considerável, nomeadamente em títulos e imóveis a render, em Lisboa.

O filho pôde assim ter urna educação de menino rico sem qualquer limitação nos seus estudos e viagens. Desde muito novo que Alfredo Keil mostrou um talento invulgar para a música, tendo, aos 12 anos, escrito a sua primeira peça musical com o título Pensé Musicale, que dedicou à mãe.

Estudou no Colégio de Santo António e, em 1858, já tinha lições de música com António Soller. Em 1860, com apenas 10 anos, frequentava o colégio Britânico na Rua Vale de Pereiro, em Lisboa. Teve lições de piano com o famoso pianista húngaro Oscar de La Cinna. Em 1869 viajou com o pai pela Europa, passando por Madrid, Paris, Genebra, Zurique, visitando museus e monumentos e acabando por ficar em Nuremberga, para frequentar a Academia Real de Belas Artes. A Guerra franco-prussiana, em 1870, força-o a regressar a Portugal, onde frequenta então aulas de pintura com Miguel Luppi. Teve ainda como professores de música, António Soares e Ernesto Vieira, e aulas de desenho com o professor Joaquim Prieto, da Academia Real de Belas Artes.

Em 1878 Keil concorreu à exposição de Paris com a tela “Melancolia”, que lhe valeu uma Menção Honrosa, e em 1879, recebeu a Medalha de Ouro na Exposição no Rio de Janeiro. Expôs também em Madrid com grande sucesso.

Fernando Pamplona, no Dicionário de Pintores e Escultores, refere-se nestes termos à pintura de Alfredo Keil: «o seu romantismo discreto, amável, sem exageros é temperado pelo clima realista da pintura do tempo.» E elogia a «sensibilidade de contemplativo em que se adivinha a influência de Corot». Maria Luísa Bártolo, por sua vez, dirá que Alfredo Keil tem uma «maneira delicada de tratar as figuras femininas, nos pormenores do adorno, na suavidade cálida do interior.»

Alfredo Keil casou, em 1876, com Cleyde Maria Margarida Cinatti, filha de um arquitecto e cenógrafo muito famoso na época, de nome Giuseppe Luigi Cinatti. O casal teve quatro filhos – Joana, Paulo, Guida e Luís. Joana morreu criança; Paulo morreu já adulto, sem filhos, Guida, que cursou Belas Artes e foi autora da obra «Carolina Coronado, poetisa romântica» (1960), tinha uma personalidade forte, para urna menina da sua época. Foi protagonista de uma aventura amorosa que parecia saída da pena de Camilo Castelo Branco, quando decide deixar marido e dois filhos para ir viver com o homem que amava.

Curioso que o seu divórcio foi o primeiro após a implantação de República. Viria depois a casar com o amor da sua vida – Francisco Coelho do Amaral. O primeiro filho, Francisco Keil do Amaral, nasceu em Abril de 1910 e deu origem a uma “dinastia” de arquitectos de renome, que ainda são vivos. Francisco Keil do Amaral (pai) é marido da grande pintora e ilustradora Maria Keil, nascida em 1914.

O quarto filho de Alfredo Keil, Luís, seguiu também na senda das artes tendo sido Conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, Director do Museu dos Coches e Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas Artes. Morreu tragicamente com a mulher e a única filha num desastre de automóvel, em 1947. E assim Alfredo Keil teve dos dois casamentos como descendente apenas a filha Guida.

Em 1874 já Alfredo Keil recebera duas medalhas por trabalhos de pintura expostos na Sociedade Promotora de Belas Artes, a que se somaram nos anos seguintes mais prémios, nomeadamente com as telas com os temas “Sesta” e “Meditação”. Este quadro viria a ser adquirido pelo Rei D. Luís.

Em 1883 sobe ao palco, no Teatro Trindade, a sua ópera cómica em um acto, “Susana”, escrita em em italiano, e em 1884 escreve a cantata “Pátria”, seguindo-se, em 1885, o poema sinfónico “Uma Caçada na Corte” e, em 1886, “As Orientais”.

Inspirada no poema de Almeida Garrett, em Março de 1888, estreia-se a ópera cm quatro actos, “Dona Branca”, dedicada ao rei D. Luís. Teve trinta representações de enorme sucesso e direito a reposição no ano seguinte. Esta ópera, também em italiano, foi igualmente aplaudida do outro lado do Atlântico, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro.

Os quadros de Keil foram expostas em mais de uma dezena de Exposições da Sociedade Promotora de Belas-Artes e é impossível enumerar todos os prémios que recebeu.

Entretanto, na então chamada África Portuguesa, em finais do século XIX, havia graves conflitos com a Grã-Bretanha e o caso do “Mapa cor-de-rosa” que correspondia à perca de uma larga fatia do território português no continente africano, entre Angola e Moçambique, veio a desembocar, em 1890, no chamado “Ultimato inglês”. É então que Alfredo Keil, animado de sentimentos patrióticos, compõe a marcha “A Portuguesa” – ao som da qual, no ano seguinte, os revoltosos de 31 de Janeiro proclamaram a República no Porto.

Porém foi preciso aguardar mais uns anos para que o ciclo do regime monárquico desse lugar à República, a 5 de Outubro de 1910. Até esse dia, “A Portuguesa” esteve proibida de ser tocada em público. Depois, em 1911 é adoptada pela nova Constituição como Hino Nacional da República Portuguesa.

Alfredo Keil, que viajava muito e passava temporadas em Itália, a pátria da ópera, conseguia dividir o seu tempo entre a pintura e a composição musical.

Em 1893, foi cantada, em Turim a sua ópera “Irene”, baseada na lenda de Santa Iria. O sucesso foi enorme e o rei Humberto de Itália condecorou o compositor. Esta ópera foi, três anos mais tarde, levada à cena no Real Teatro de São Carlos de Lisboa.

Alfredo Keil trocava correspondência com compositores consagrados de outros países, nomeadamente Verdi e Massenet. Numa carta enviada a Verdi, o compositor português anexa a sua partitura de “Dona Branca” e Verdi respondeu-lhe, em Dezembro de 1890. O grande compositor escreve «Sei que a sua ópera teve um sucesso excelente no seu país e isso vale mais que uma crítica a frio de um compositor». Já Massenet, mais entusiasmado, tece-lhe rasgados elogios. Como vemos Alfredo Keil é um compositor à altura dos maiores do seu tempo.

A ópera de Alfredo Keil que mais tempo perdurou no tempo foi sem dúvida “Serrana”, a primeira com libreto em português, inspirada num romance de Camilo Castelo Branco, composta entre 1895 e 1899 e estreada com sucesso no Teatro São Carlos, em Março de 1899. É a sua peça musical mais conhecida, exceptuando “A Portuguesa”, e, no século passado, foi levada à cena mais onze vezes.

Diogo de Macedo coloca a obra de Alfredo Keil no período neo-romântico e diz que ele foi um pioneiro do “nacionalismo musical”.

Como pintor, Alfredo Keil deixou mais de 2000 obras, entre telas e desenhos, Como conhecedor de arte foi um grande coleccionador. Adquiriu telas de pintores como Lucca Giordano e diz-se que talvez possuísse um Brueghel. A sua colecção de instrumentos musicais antigos (cerca de 500) encontra-se no Museu da Música, em Lisboa.

Este autor, multifacetado legou-nos também obras escritas, contos e romances dos seus verdes anos e estudos como “Breve História dos Instrumentos de Música Antigos e Modernos” (1904), Colecções e Museus de Arte em Lisboa (1905), “Breve Notícia da Colecção Keil” de 1905 e um livro editado postumamente, “Tojos e Rosmaninhos”.
A 4 de Outubro de 1907, três anos e um dia antes de ser proclamada a República, Alfredo Keil morre, em Hamburgo, vítima de doença. Contava apenas 57 anos e deixou inacabada a ópera “Índia”, que começara a compor para as comemorações da chegada de Vasco da Gama à Índia.


Fonte
O Leme

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Hino Nacional "A Portuguesa"





A Portuguesa, que hoje é um dos símbolos nacionais de Portugal (o seu hino nacional), nasceu como uma canção de cariz patriótico em resposta ao ultimato britânico para que as tropas portuguesas abandonassem as suas posições em África, no denominado "Mapa cor-de-rosa".
Em Portugal, a reacção popular contra os ingleses e contra o governo português, que permitiu esse género de humilhação, manifestou-se de várias formas. "A Portuguesa" foi composta em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil, e foi utilizada desde cedo como símbolo patriótico mas também republicano. Aliás, em 31 de Janeiro de 1891, numa tentativa falhada de golpe de Estado que pretendia implantar a república em Portugal, esta canção já aparecia como a opção dos republicanos para hino nacional, o que aconteceu, efectivamente, quando, após a instauração da República a 5 de Outubro de 1910, a Assembleia Nacional Constituinte a consagrou como símbolo nacional em 19 de Junho de 1911 (na mesma data foi também adoptada a bandeira nacional).
A Portuguesa, proibida pelo regime monárquico, que originalmente tinha uma letra um tanto ou quanto diferente (mesmo a música foi sofrendo algumas alterações) — onde hoje se diz "contra os canhões", dizia-se "contra os bretões", ou seja, os ingleses — veio substituir o Hymno da Carta, então o hino da monarquia.
Em 1956, existiam no entanto várias versões do hino, não só na linha melódica, mas também nas instrumentações, especialmente para banda, pelo que o governo nomeou uma comissão encarregada de estudar uma versão oficial de A Portuguesa. Essa comissão elaborou uma proposta que seria aprovada em Conselho de Ministros a 16 de Julho de 1957, mantendo-se o hino inalterado deste então.
Nota-se na música uma influência clara do hino nacional francês, La Marseillaise, também ele um símbolo revolucionário (ver revolução francesa).
O hino é composto por três partes, cada uma delas com duas quadras (estrofes de quatro versos), seguidas do refrão, uma quintilha (estrofe de cinco versos). É de salientar que, das três partes do hino, apenas a primeira parte é usada em cerimónias oficiais, sendo as outras duas partes praticamente desconhecidas.
A Portuguesa é executada oficialmente em cerimónias nacionais, civis e militares, onde é prestada homenagem à Pátria, à Bandeira Nacional ou ao Presidente da República. Do mesmo modo, em cerimónias oficiais no território português por recepção de chefes de Estado estrangeiros, a sua execução é obrigatória depois de ouvido o hino do país representado.
A Portuguesa foi designada como um dos símbolos nacionais de Portugal na constituição de 1976, constando no artigo 11.°, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa (Símbolos nacionais e língua oficial):
"2. O Hino Nacional é A Portuguesa."
A Portuguesa
Data: 1890 (com alterações de 1957)
Letra: Henrique Lopes de Mendonça
Música: Alfredo Keil

I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu, jucundo,
O oceano, a rugir de amor,
E o teu Braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Data: 1890 (versão original)
Letra: Henrique Lopes de Mendonça
Música: Alfredo Keil

I
Herois do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memoria,
Oh patria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira,
À luz viva do teu céo!
Brade a Europa á terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o teu sólo jucundo
O Oceano, a rugir de amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar!

III
Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do resurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injurias da sorte.
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões marchar!!

Fonte
Wikipedia
Biblioteca Nacional Digital

A Bandeira Nacional