quarta-feira, 7 de maio de 2008

Dom Paio na Lua


Pois é, o nosso blog vai andar na Lua.
Segundo Cathy Peddie, Gestora de Projecto para o LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) na Nasa, “a missão LRO é o 1º passo nos planos da Nasa para fazer regressar os humanos à Lua em 2020”.

A Nasa convida as pessoas de todas as idades a juntarem-se à viagem da exploração lunar com esta fantástica oportunidade de podermos enviar os nossos nomes a bordo da nave Lunar Reconnaissance Orbiter (Reconhecimento da Órbitra Lunar) ou LRO.

Podes colocar a tua informação em http://lro.jhuapl.edu/NameToMoon, imprimir um certificado e ter o teu nome numa base de dados que irá para um microchip que será integrado na nave. A data limite para submeteres o nome termina a 27 de Junho de 2008.

Embora não tenhamos conhecimento de mouros na Lua, o nosso patrono, D.Paio Peres Correia, já está preparado para ser lançado na Lua e fazer parte da nova onda de exploradores lunares (Date: May 07, 2008 Certificate No: 651841).

Mais informação e Biblioteca Lunar em Biliofilmes.


Cidade dos Poços


Esta história representa para mim o símbolo da corrente que une as pessoas através da sabedoria dos contos. Contou-ma uma paciente que a tinha ouvido, por sua vez, da boca de um ser maravilhoso, o padre crioulo Mamerto Menapace. Assim como a reproduzo agora, ofereci-a uma noite a Marce e a Paula.

Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos... mas afinal poços.
Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior...
Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade...
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo. Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo...
A princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra.
Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo... encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores...
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
Não é nenhum milagre — respondeu o Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de coisas...
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar...
E também começou a escavar...
E também chegou à água...
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado...
Que vais fazer quando a água acabar? — perguntavam-lhe.
Não sei o que se passará — respondia ele. — Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma...
Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.
Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar...

Jorge Bucay
Contos para pensar
Cascais, Editora Pergaminho, 2004
.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Força...


O vento, lá fora, tenta, com toda a sua força,
desafiar as árvores.
O sol, ainda meio adormecido, tenta, com toda a sua força,
levantar-se para um novo dia.
A lua, já cansada, tenta, com toda a sua força,
abandonar aos poucos o céu.
As estrelas, já deixando de brilhar, tentam, com toda a sua força,
limpar o céu.
O mar, cansado, tenta, com toda a sua força,
agitar o seu imenso corpo.
A Terra, quase sem vida, tenta, com toda a sua força,
manter-se.
A chuva, exausta, tenta, com toda a sua força
continuar sem cessar.
O Sorriso tenta, com toda a sua FORÇA,
não se perder.
Os crentes tentam, com toda a força,
Manter a Fé.
Os peregrinos tentam, com toda a sua força,
não quebrar a promessa.
As nuvens tentam, com toda a sua força,
libertar-se de cada gota que nelas se acumula.
As flores tentam, com toda a sua força,
não perder a vivacidade.
O arco-íris tenta, com toda a sua força,
não perder as suas preciosas cores.
As palavras tentam, com toda a sua força
não se perder.
O Amor tenta, com toda a sua força,
lutar pela sua Alma Gémea.
A luz tenta, com toda a sua força,
iluminar o caminho de quem se perdeu.
O universo tenta, com toda a sua força,
manter-se bem firme.
Os soldados tentam, com toda a sua força,
sobreviver.
Os pincéis tentam, com toda a sua força,
pintar mais uma tela.
O gelo tenta, com toda a sua força,
não derreter.
A água tenta, com toda a sua força,
não se esgotar.
Os corações tentam, com toda a sua força
continuar a bater.
O fogo tenta, com toda a sua
não se apagar.
Os doentes tentam, com toda a sua força,
curar-se.
O SIM tenta, com toda a sua força,
não se tornar num Talvez.
A saudade tenta, tenta com toda a sua força,
fazer-se sentir.
A beleza tenta, com toda a sua força,
não desaparecer.
As recordações tentam, com toda a sua força,
não cair no esquecimento.
Os perfumes tentam, com toda a sua força,
não perder o seu aroma.
A tristeza tenta, com toda a sua força
tornar-se intensa.
A coragem tenta, com toda a sua força,
lutar para poder voltar.
A alegria tenta, com toda a sua força
fazer-se sentir.
A solidão tenta, com toda a sua força,
ficar só.
As pegadas tentam, com toda a sua força,
ficar marcadas na areia.
A Esperança tenta, com toda a sua força,
não se perder.
O vento, o sol, a lua, as estrelas, o mar, a Terra, a chuva, o Sorriso, os crentes, os peregrinos, as nuvens, as flores, o arco-íris, as palavras, o Amor, a luz, o universo, os pincéis, o gelo, a água, os corações, o fogo, os doentes, o SIM, a saudade, a beleza, as recordações, os perfumes, a tristeza, a coragem, a alegria, a solidão, as pegadas, a Esperança, todos eles têm um objectivo em comum: Salvar-se. E para isso, reúnem TODA A SUA FORÇA, esperando que um dia, a própria Vida os saiba recompensar de todo este esforço.

Soraia Lázaro (9ºA)

domingo, 4 de maio de 2008

Dia da Mãe

As mais antigas celebrações do Dia da Mãe remontam às comemorações primaveris da Grécia Antiga, em honra de Rhea, mulher de Cronos e Mãe dos Deuses. Em Roma, as festas comemorativas do Dia da Mãe eram dedicadas a Cybele, a Mãe dos Deuses romanos, e as cerimónias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos antes do nascimento de Cristo.

Durante o século XVII, a Inglaterra celebrava no 4º Domingo de Quaresma (40 dias antes da Páscoa) um dia chamado “Domingo da Mãe”, que pretendia homenagear todas as mães inglesas. Neste período, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões. No Domingo da Mãe, os servos tinham um dia de folga e eram encorajados a regressar a casa e passar esse dia com a sua mãe.

À medida que o Cristianismo se espalhou pela Europa passou a homenagear-se a “Igreja Mãe” – a força espiritual que lhes dava vida e os protegia do mal. Ao longo dos tempos a festa da Igreja foi-se confundindo com a celebração do Domingo da Mãe. As pessoas começaram a homenagear tanto as suas mães como a Igreja.

Nos Estados Unidos, a comemoração de um dia dedicado às mães foi sugerida pela primeira vez em 1872 por Julia Ward Howe e algumas apoiantes, que se uniram contra a crueldade da guerra e lutavam, principalmente, por um dia dedicado à paz.

A maioria das fontes é unânime acerca da ideia da criação de um Dia da Mãe. A ideia partiu de Anna Jarvis, que em 1904, quando a sua mãe morreu, chamou a atenção na igreja de Grafton para um dia especialmente dedicado a todas as mães. Três anos depois, a 10 de Maio de 1907, foi celebrado o primeiro Dia da Mãe, na igreja de Grafton, reunindo praticamente família e amigos. Nessa ocasião, a sra. Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos, que deviam ser usados por todos, e que simbolizavam as virtudes da maternidade. Ao longo dos anos enviou mais de 10.000 cravos para a igreja de Grafton – encarnados para as mães ainda vivas e brancos para as já desaparecidas – e que são hoje considerados mundialmente com símbolos de pureza, força e resistência das mães.

Segundo Anna Jarvis seria objectivo deste dia tomarmos novas medidas para um pensamento mais activo sobre as nossas mães. Através de palavras, presentes, actos de afecto e de todas as maneiras possíveis deveríamos proporcionar-lhe prazer e trazer felicidade ao seu coração todos os dias, mantendo sempre na lembrança o Dia da Mãe.

Face à aceitação geral, a sra. Jarvis e os seus apoiantes começaram a escrever a pessoas influentes, como ministros, homens de negócios e políticos com o intuito de estabelecer um Dia da Mãe a nível nacional, o que daria às mães o justo estatuto de suporte da família e da nação.
A campanha foi de tal forma bem sucedida que em 1911 era celebrado em praticamente todos os estados. Em 1914, o Presidente Woodrow Wilson declarou oficialmente e a nível nacional o 2º Domingo de Maio como o Dia da Mãe.

Hoje em dia, muitos de nós celebram o Dia da Mãe com pouco conhecimento de como tudo começou. No entanto, podemos identificar-nos com o respeito, o amor e a honra demonstrados por Anna Jarvis há 96 anos atrás.
Apesar de ter passado quase um século, o amor que foi oficialmente reconhecido em 1907 é o mesmo amor que é celebrado hoje e, à nossa maneira, podemos fazer deste um dia muito especial.

E é o que fazem praticamente todos os países, apesar de cada um escolher diferentes datas ao longo do ano para homenagear aquela que nos põe no mundo.
Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no 1º Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo.
No Brasil, o Dia das Mães é celebrado no segundo domingo de Maio, conforme decreto assinado em 1932 pelo presidente Getúlio Vargas.
Em Israel o dia da mãe deixou de ser celebrado, passando a existir o dia da família em Fevereiro.

Concurso de "Filmes com Energia" feitos por telemóvel


"O BiblioFilmes recomenda este novo concurso de vídeos que também poderá ter excelentes participações e ser muito importante para todos nós: O concurso é realizado através do YouTube e é intitulado Filmes com Energia: Luzes, Câmara, Telemóveis em Acção! O portal infanto-juvenil e "canal oficial" da energia ABCDaEnergia.com (uma verdadeira e virtual biblioteca da energia) criou um concurso de..."


Também podes ver o filme norte-americano Comédia passada na Biblioteca

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Vídeo da Biblioteca Municipal de Murça também venceu


..."O podium virtual vai para o vídeo nº 11, da Biblioteca Municipal de Murça, que acabou também num honroso 2º lugar na votação popular (apesar de durante vários períodos da votação ter estado no 1º lugar, no que foi uma emocionante troca de lugares com o vídeo n.º6 “Aprendendo com a leitura”, que acabou vitorioso)."...

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Laura Flor



– Laura Flor, vem cá!
A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.
Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.
Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.
– Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!
– Pois é! Ela tem os olhos em bico!
– diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.
Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.
Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.
A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.
As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.
Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.
– Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora...
– E nunca mais os viste?
– Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta... Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.
Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.
- Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro...
–...?
– Porque não arranjaram aquele cano... É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro...
– …
– ... nem tenho dinheiro para comprar outro...

Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.
A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.
– Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas...
Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.
Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim...
Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.
E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.

Matilde Rosa Araújo
As botas de meu pai
Lisboa, Livros Horizonte, 1977

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Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

Alunos vão estudar Harry Potter



Alunos vão estudar Harry Potter


..."Os alunos serão assim obrigados a saber a história de ‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’, de discorrer sobre a intriga, as personagens e o estilo da linguagem usada por Rowling – recentemente descrito por um juiz como uma algaraviada! Terão ainda de escrever uma história de 800 palavras inspirada na aventura do jovem feiticeiro."...


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quinta-feira, 1 de maio de 2008

Dia da Espiga


“Da Páscoa à Ascensão, quarenta dias vão”

O fenómeno de revitalização vegetativa, em que a natureza após a longa letargia invernal acorda, desabrochando numa sinfonia de vida, constituiu sempre para as populações arcaicas, um momento mágico e determinante da visão cósmica da existência. Momento aguardado com a ansiedade das perspectivas de novas colheitas mas, igualmente despoletador de dúvidas acerca da sua efectiva realização, este é o tempo em que chega a Primavera. Tempo sagrado, como todos os tempos de transição, nele se efectuavam, em épocas passadas, diversos cerimoniais cujas funções exprimiam a comemoração festiva do eclodir primaveril e, algumas vezes até, rituais de expulsão simbólica do Inverno que terminava. Neste sentido, realizaram-se durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, grandiosos festivais florais em que jovens nubentes se espalhavam pelos campos e, em alegre convívio cantavam e dançavam, e se enfeitavam com verduras e flores, num ritual ancestral de que o nosso “dia da espiga” constitui herdeiro directo, embora minorado.

Poder-se-á dizer, então, que fazendo parte deste ciclo festivo da Primavera, a Quinta-Feira da Ascensão, ou “da espiga”, corresponde à cristianização de um complexo de festividades pagãs ligadas à celebração e consagração da natureza. De facto para as sociedades primitivas, a regeneração vegetal, de que a agricultura é função, está dependente, em grande parte, das boas ou más vontades divinas e, em última instância, da maior ou menor fertilidade da terra-mãe. Não é portanto de admirar que este tempo vital, expresso no renascer das plantas, no desabrochar das árvores e na proliferação das flores e frutos, desencadeasse grandes manifestações de alegria, em que jovens se dirigiam para os campos, para aí, em comunhão com a natureza, festejarem e, naturalmente, adquirirem também eles as energias fecundantes que nesta altura fluíam em profusão. Denomina-se ainda "Quinta-feira de Espiga" ou "Dia da Espiga", a quinta-feira assinalada no calendário cristão como da Ascensão, em que a Igreja comemora a ascensão de Jesus Cristo ao Céu.

Mas o “dia da espiga” era também o “dia da hora”. Herdeiro de simbolismos primevos, este era um tempo particularmente sagrado. Um tempo por muitos considerado “o dia mais santo do ano”, em que se não devia trabalhar e em que “nada bulia”, em que as transgressões referentes ao trabalho se revelam estranhamente ineficazes, quando não se manifesta até outro tipo de sanção mais radical.
Avultava, aí, uma hora em que as coisas possuíam especiais valências e singulares transcendências... o meio-dia! Essa é a hora em que os “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam” configurando assim, devotadamente, o sinal da cruz”! De sacralismo tão intenso que, como se cré, na zona do Vale do Tejo, nem os “passarinhos vão ao ninho”!
Ao meio-dia se deviam, então, colher as ervas que iam ser utilizadas na farmacopeia popular durante todo o ano. Ao meio-dia se deviam preferencialmente colher os diversos raminhos que no seu conjunto constituíam a “espiga”, temporalidade que por razões funcionais foi, em muitas zonas, caindo em desuso.
É um tempo prodigioso, eivado de proibições e obrigações. Nalgumas aldeias acreditava-se que não se podia, nesse dia, cozer pão. Noutras, pelo contrário, o pão cozido era sagrado, mantendo-se incorrupto até ao ano seguinte. Em Alenquer, por exemplo, o leite ordenhado nesse dia não se vendia, dava-se, já que a realização de negócios, mesmo os mais simples, constituía mau presságio.

Em casa “a espiga” era, e é, guardada atrás da porta ou junto da imagem de particular devoção. A mera existência numa habitação desse simples raminho, constitui poderoso e multifacetado amuleto. Para dar saúde, alegria e abundância e, especialmente, para que nessa casa nunca faltem os indispensáveis azeite e pão!
Aliás, o seu sentido propiciatório era, em tempos idos, evidente e diversificado. Quando das trovoadas, um bocado posto a arder à lareira afastava os raios e oferecia protecção eficaz contra a tormenta. A este tempo estavam ainda ligadas as oferendas das “primícias” e as “benções dos campos”, nos nossos dias, por razões funcionais, de contornos institucionais mais ou menos litúrgicos e de temporalidade mais variada. Em muitas zonas do país, costumavam-se soltar, durante a missa, grupos de andorinhas que, paciente e delicadamente, se tinham apanhado nos dias anteriores, adornadas as mesmas com coloridas fitinhas e lacinhos vermelhos.

Enfim, sejam ou não vistos, hoje, numa perspectiva canónica, fazendo ou não parte do imaginário popular, estas tradições que comemoram o desabrochar da Primavera são sempre tempos especiais na temporalidade mística das populações rurais mediterrâneas e, na sua coexistência com o sacralismo da terra-mãe, hierofania exemplar da sua relação com a esfera do sagrado.É o milagre da vida, que se renova periódica e inexoravelmente todos os anos. Da terra prenhe eclodem os frutos naturais. Semente divina, condição de sobrevivência, dádiva da fertilidade que as massas urbanas apenas, hoje, apreciam à distância!

Tradicionalmente, neste dia, em várias localidades, colhe-se a espiga de trigo, o elemento mais simbólico.
Compõem igualmente o ramo, um malmequer, uma papoila, um ramo de oliveira, um ramo de parreira e um pé de alecrim.
Simbologia associada a cada elemento:
Espiga – Pão
Malmequer – Ouro e prata
Papoila – Amor e vida
Oliveira – Azeite e paz
Videira – Vinho e alegria
Alecrim – Saúde e força
Nalgumas regiões fazem-se também ramos com espigas de trigo, rosmaninho, malmequeres brancos e amarelos, papoilas e folhagem de oliveira.

1º de Maio – Dia do Trabalhador

O Dia do Trabalhador é celebrado anualmente no dia 1 de Maio em numerosos países do mundo, sendo feriado em Portugal, no Brasil, assim como em muitos outros países. No Brasil também chamado Dia do Trabalho, para que ironize-se que no Dia do Trabalho não se trabalha. O correcto é Dia do Trabalhador.

História
Em 1886 realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América. Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias e teve a participação de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio da polícia que começava a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais.

A 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de 8 horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adopta o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países. Apesar de até hoje os estadunidenses se negarem a reconhecer essa data como sendo o Dia do Trabalhador, em 1890 a luta dos trabalhadores estadunidenses conseguiram que o Congresso aprovasse que a jornada de trabalho fosse reduzida de 16 para 8 horas diárias.

Dia do Trabalhador em Portugal
Em Portugal, só a partir de Maio de 1974 (o ano da revolução do 25 de Abril) é que se voltou a comemorar livremente o Primeiro de Maio e este passou a ser feriado. Durante a ditadura do Estado Novo, a comemoração deste dia era reprimida pelas polícias. O Dia Mundial dos Trabalhadores é comemorado por todo o país, sobretudo com manifestações, comícios e festas de carácter reivindicativo, promovidas pela central sindical CGTP-Intersindical (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical) nas principais cidades de Lisboa e Porto, assim como pela central sindical UGT (União Geral das Trabalhadores). No Algarve, é costume a população fazer pic-nics e são organizadas algumas festas na região.

Dia do Trabalhador no Brasil
Até o início da Era Vargas (1930-1945) certos tipos de agremiação dos trabalhadores fabris eram bastante comuns, embora não constituíssem um grupo político muito forte, dada a pouca industrialização do país. Esta movimentação operária tinha se caracterizado em um primeiro momento por possuir influências do anarquismo e mais tarde do comunismo, mas com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, ela foi gradativamente dissolvida e os trabalhadores urbanos passaram a ser influenciados pelo que ficou conhecido como trabalhismo.
Até então, o Dia do Trabalhador era considerado por aqueles movimentos anteriores (anarquistas e comunistas) como um momento de protesto e crítica às estruturas sócio-económicas do país. A propaganda trabalhista de Vargas, subtilmente, transforma um dia destinado a celebrar o trabalhador no Dia do Trabalhador. Tal mudança, aparentemente superficial, alterou profundamente as actividades realizadas pelos trabalhadores a cada ano, neste dia. Até então marcado por piquetes e passeatas, o Dia do Trabalhador passou a ser comemorado com festas populares, desfiles e celebrações similares. Actualmente, esta característica foi assimilada até mesmo pelo movimento sindical: tradicionalmente a Força Sindical (uma organização que congrega sindicatos de diversas áreas, ligada a partidos como o PTB) realiza grandes shows com nomes da música popular e sorteios de casas próprias e similares.
Aponta-se que o carácter massificador do Dia do Trabalhador, no Brasil, se expressa especialmente pelo costume que os governos têm de anunciar neste dia o aumento anual do salário mínimo.

Dia do Trabalhador em Moçambique
Durante o período colonial (até 1975), os Moçambicanos estavam isentos de celebrar o 1º de Maio em virtude do regime colonial Português. No entanto, houve manifestações de trabalhadores Moçambicanos, em Particular em Lourenço Marques (actual Maputo), contra o modo de relações laborais existente naquele período.
Após a Independência Nacional, o Dia do Trabalhador é celebrado anualmente em Moçambique, e com o passar dos anos, com as reformas políticas, económicas e sociais que o País sofreu a partir de finais da década de 80, registou-se um crescimento do Movimento sindical em Moçambique. A Primeira instituição sindical no País foi a Organização dos Trabalhadores Moçambicanos (OTM), que veio depois a impulsionar o surgimento de novos movimentos sindicais, cada vez mais específicos de acordo com os sectores de actividade.

O Dia do Trabalhador no mundo
Alguns países celebram o Dia do Trabalhador em datas diferentes de 1 de Maio:
Austrália: A data de celebração varia de acordo com a região: 4 de Março na Austrália Ocidental, 11 de Março no estado de Vitória, 6 de Maio em Queensland e Território do Norte e 7 de Outubro em Canberra, Nova Gales do Sul (Sydney) e na Austrália Meridional.
Estados Unidos da América: Celebram o Labor Day na primeira segunda-feira de Setembro.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

Poesia Palaciana

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
.

Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Cantiga_Sua_Partindo-se"

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um amigo verdadeiro

Sempre que Rogério sai de casa, esquece-se de alguma coisa. Quando se lembra, já é tarde demais.
E o que é que Rogério faz? Absolutamente nada. Só pensa: "Ainda bem que tenho o João".
O João é o seu melhor amigo, um amigo a sério, um amigo com quem se pode contar.
O Rogério sabe muito bem o que é um amigo com quem se pode contar. Sempre que ele se esquece de alguma coisa, é o João que o livra de apuros. O Rogério vai para a escola sem sapatilhas.
– Logo vi que ias esquecer-te! – diz o João, tirando um par de meias grossas do saco de ginástica, que entrega ao Rogério.
O Rogério chega ao parque sem bola.
– Logo vi que ias esquecer-te!
O João tem escondida atrás das costas a sua própria bola, que lhe estende.
O Rogério vai com o João à feira popular e não leva dinheiro na carteira.
– Logo vi que ias esquecer-te! – E como não se pode andar no carrocel sem pagar, o João tira uma moeda do bolso.
E é assim dia após dia: o Rogério esquece-se sempre de alguma coisa, o João, nunca… ou será que não?
Não. O João esquece-se sempre dos lápis de cera. Não adianta esforçar-se por fazer a pasta a tempo e horas. Quando chega a aula de desenho, o João não tem os lápis de cera na pasta.
O Rogério sabe que o João se esquece sempre deles, e por isso ele, Rogério, pode esquecer-se de tudo o que há no mundo, só não se esquece dos lápis de cera.
Estão na aula de desenho. O Rogério tira os seus lápis da pasta e põe-nos em cima da carteira. O João volta a ficar corado de vergonha porque deixou os lápis em casa, no quarto.
Então, o Rogério sorri e tira da pasta outra caixinha de lápis de cera, que pousa em cima da carteira do João.
– Logo vi que ias esquecer-te! – diz ele a sorrir.

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
Texto adaptado

.

Mais em
Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

Dia Mundial Mundial do Livro - 23 de Abril

Tal como prometido para assinalar o Dia Mundial do Livro, o escritor João Aguiar veio fazer-nos uma agradável visita (o senhor que está ao lado do escritor não é o seu guarda-costas, é o senhor da ASA Editores).



A nossa BECRE estava cheia e, com muita pena nossa, tiveram de ficar alguns de fora. Não desanimem, para a próxima serão os primeiros. Havemos de ter mais actividades destas.

Esperou atenta e pacientemente pelas perguntas de todos.


E foi esclarecedor e alegre nas suas respostas. Merece um abraço!



Para devolvermos a atenção, oferecemos ao escritor um livro que nos conta a história de uma outra importante cidade costeira, que já existiu por aqui, antes de Tavira, no séc I d.c., "Balsa".



Autografou-nos livros, marcadores, folhas de papel, e até um guião que um grupo de alunas do 8º A escreveu a partir de um dos seus livros.





No final, e como não podia deixar de ser, os alunos do 9ºE brindaram-nos com o seu profissionalismo e com um delicioso lanche volante.


Liberdade


"A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida."
Miguel Cervantes



"Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros."
Françoise Sagan

25 de Abril de 1974 - 34º aniversário


O 25 de Abril de 1974, o princípio de uma nova era


Em 2008 comemora-se o trigésimo quarto aniversário do 25 de Abril de 1974, data que marcou o início de uma nova era, de um novo Portugal. Pelo menos foi essa a intenção de quem esteve na base do Movimento dos Capitães de Abril que lideraram a “Revolução dos Cravos”. Hoje em dia discute-se muito, duvidando-se até, acerca do sucesso da revolução. Trouxe-nos liberdade? Trouxe liberdade a mais? Democracia? Autoritarismo? Desobediência? Desrespeito?
Em termos históricos 34 anos constituem pouco tempo para fazer-se uma avaliação profunda sobre as consequências da revolução, mas há de facto aspectos inquestionáveis.
O 25 de Abril de 1974 terminou com um regime ditatorial. O Estado Novo, personificado por António de Oliveira Salazar e continuado por Marcello Caetano, foi um regime castrador das liberdades fundamentais de todos os portugueses. Um regime extremamente autoritário, absolutista, violento e que defendeu o “isolamento” cultural de Portugal.
O crime mais punido era o de ter ideias livres e contrárias ao governo. O direito à contestação e à diferença eram severamente punidos. A guerra colonial, que cerceou a vida a milhares de jovens, era obsoleta e sem fim à vista. Os jovens tinham de fugir do país para não serem castigados.
Irrita-me profundamente ouvir a frase que muitas vezes se repete, principalmente quando o povo está descontente com a governação do país: “No tempo de Salazar é que era!”. O direito à indignação é legítimo e até necessário. Só com o confronto de ideias e opiniões é possível melhorar os nossos governantes e consequentemente as suas políticas. Para além disso cada país apenas tem aquilo que merece ou escolhe. Somos nós quem votamos naqueles que “supostamente” nos representam. Por isso mesmo a única forma de dar a volta é utilizar o nosso direito ao voto livre. Porque é isso que se pretende: o voto livre.
Para votarmos em consciência e para podermos filtrar tudo aquilo que nos é “impingido” nas campanhas políticas, é absolutamente necessário investirmos na nossa formação, aprofundando os nossos conhecimentos e insistindo na nossa capacidade crítica. Por isso mesmo é fundamental que nós, professores, trabalhemos com os alunos essas competências. Fazer-lhes compreender que é necessário investir na aquisição de informação, mas também fazer com que percebam que é fundamental saber utilizar essa mesma informação. O futuro do país não se resolve com o “empinanço” de matéria, mas sim com a criação de futuros adultos com capacidade crítica e argumentativa, que não tenham receio de intervir, que saibam intervir e que não tenham medo de assumir as suas opções.
Deixo-vos um texto de Daniel Sampaio que elucida bem um sentimento com o qual me identifico.


Farto de Salazar


Estou mesmo farto de Salazar. Durante toda a minha juventude ansiei pelo seu fim. Tudo começou há muito tempo. Talvez quando eu tinha doze anos e o meu irmão me explicou Humberto Delgado, numa inesquecível conversa sobre a democracia. Ingénuo, eu acreditava na vitória do General Sem Medo: com tanta gente a seu lado, como poderia perder as eleições? Foi aí que comecei a detestar Salazar.
Com quinze anos aderi à ilegal Comissão Pró-Associação dos Liceus, participei em muitas reuniões clandestinas e vi ser proibido um jornal escolar chamado “Perspectiva”, que elaborei com o Ruben de Carvalho e mais alguns amigos. Com dezasseis anos, a minha conferência no Pedro Nunes sobre Albert Camus foi autorizada à última hora, graças ao pedido da mãe de um colega: parece que o orador não era de confiança e o romancista não agradava ao regime.
Com dezoito anos entrei na Faculdade de Medicina de Lisboa. Participei, ao longo do curso, em todas as greves e manifestações contra Salazar e não me deixei seduzir pela “primavera marcelista”. Adiado do serviço militar para fazer a especialidade de Psiquiatria, o dia 25 de Abril de 1974 salvou-me da guerra colonial e foi dos mais felizes da minha vida.
Por tudo isto, estou farto. Depois de livros sobre Salazar que ocultaram com intenção o lado mais terrível do regime, após um concurso televisivo onde se esconderam as atrocidades da ditadura, chegámos ao embelezamento físico da personagem: a imagem “modernizada” de Salazar aparece-nos em cada esquina. Agora surge de cabelo colorido e aspecto tranquilo em cartazes por toda a cidade, numa propaganda de um concurso qualquer. Competição e cartazes legítimos e oportunos, a aproveitar a “onda salazarista”, mas que a mim causam más recordações e vontade de retratar o homem de outro modo: vestido de cinzento, de chapéu negro enterrado na cabeça e botas-de-elástico, afinal a face visível do que ele sempre foi.
O problema será só meu, que protesto contra o embelezamento de tão desagradável pessoa? Julgo que não: é tempo de aproveitarmos a oportunidade e explicar aos mais novos quem foi Salazar. O livro “Vítimas de Salazar”, de João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha (Esfera dos Livros) deveria ser ensinado em todas as escolas e publicitado por todo o lado: mostra bem como foi o regime de Salazar, um dos períodos mais negros da nossa história. Precisamos demonstrar aos nossos filhos e netos como o medo dominava e a liberdade não existia, uma guerra incompreensível matava muita gente e o país estava triste e atrasado. Sigo o livro citado e leio: a censura, as escutas telefónicas e as violações do correio, os informadores da PIDE/DGS, a tortura (”meia dúzia de safanões dados a tempo a essas criaturas sinistras”, dizia Salazar, a querer esconder a “estátua”, a privação do sono e o isolamento dos presos políticos), a farsa dos julgamentos e as medidas de segurança, a darem cobertura legal a prisões prolongadas dos opositores do regime; os saneamentos na função pública e os campos de concentração como o Tarrafal; a guerra de África e os seus massacres; a repressão sobre os estudantes (eu aluno do liceu a espreitar o meu irmão nos plenários de 1962, depois a fugir das cargas policiais…); acima de tudo, as mortes de que Salazar foi o grande responsável: Catarina Eufémia, Alfredo Dinis, José Dias Coelho, Manuel Fiúza, Humberto Delgado, Ribeiro dos Santos, só para citar alguns mais conhecidos.
Por isso eu digo: mostrem o Salazar que pretendem branquear, a democracia em que vivemos dá essa possibilidade e por isso aproveitem bem. Para quem estiver, como eu, farto de tanta propaganda, uma frente de esclarecimento deve ser posta em marcha: com respeito pelas opiniões alheias (o que faltava ao homem de Santa Comba), é imperioso que informemos toda a gente - distraída ou inebriada pela atraente publicidade - de quem foi Salazar na realidade.
Pela verdade. Pela memória das suas vítimas. Pelo direito à informação dos mais novos, que a continuar assim deixarão de perceber por que motivo se fez o 25 de Abril.


Crónica do Daniel Sampaio na “Pública”

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um simples caderno?

As rodas giravam mas enterravam-se cada vez mais fundo na areia, e o carro não saía do sítio. O motor acelerou e acabou por parar de vez.
A pele muito escura de Mumo brilhava com o suor. Saímos do carro. Os pés enterraram-se até aos tornozelos na areia escaldante. Todas as tentativas para empurrar o carro eram inúteis.
— A que distância estamos do Centro das Missões? — perguntou Willi.
— Dois quilómetros, talvez três — respondeu Mumo.
— Foi sorte o carro não se ter avariado há duas horas atrás — pensou Willi em voz alta. — Eu vou buscar ajuda. Em que direcção fica o Centro?
Mumo estendeu o braço numa direcção qualquer.
Eu só via areia até perder de vista, e alguns espinheiros.
— É melhor irem os dois — disse eu. Tinha muito medo que Willi se perdesse naquela imensidão de areia.
— Queres ficar a guardar o carro sozinha? — perguntou Mumo num tom duvidoso.
— Guardar de quem? — perguntei-lhe a rir. Quem iria assaltar um carro em pleno deserto do Koroli?
— Há muitas pessoas, muitas tribos diferentes, todas muito pobres aqui, em North Horr — disse Mumo com ar sério.
Sentei-me na areia e encostei-me contra a porta do carro. Pelo menos assim estava um pouco mais protegida do vento quente que me fustigava o braço com minúsculos grãos de areia cortantes. Com os olhos, seguia os dois, que, afundados na areia e curvados para se protegerem do vento, se iam afastando, cada vez mais pequenos, até acabarem por se diluir no calor tremeluzente.
Antes que tivesse tempo de me assustar com a solidão daquele ermo, os dois pontos distantes tornaram a aumentar de tamanho. Os homens já estariam de volta? Mas afinal não eram dois, não! Três, quatro, cinco pontos foram crescendo na minha direcção. A ajuda que procurávamos estaria afinal tão perto?
Levantei-me. Os olhos ardiam-me por causa da areia, do vento e do sol incandescente. Seria alguma assombração?
Os pontos transformaram-se em formas, e as formas, em crianças a correr. Crianças que corriam na minha direcção e cada vez em maior número!
Em pouco tempo vi-me rodeada por um bando de crianças nuas, semi-nuas, embrulhadas em trapos, crianças grandes e pequenas. Algumas traziam bebés às costas, outras arrastavam crianças mais pequenas pela mão. Todas de olhos encovados e corpos famintos. Nenhuma se acercou mais de cinco metros.
Fixavam-me, espantadas e de boca aberta, sem um único sorriso para a curiosa aparição que eu devia ser para elas.
Mulheres adultas, com os panos das suas vestimentas ondulando ao vento, aproximavam-se, mais lentas do que as crianças. Também elas eram magras, algumas velhas, outras novas, mulheres grávidas, mulheres com bebés ao peito e de todos os tons de pele, desde castanho "café com leite" até preto escuro. Ficaram em silêncio atrás das crianças e olhavam-me também fixamente.
"Mas que rico encontro!", pensei eu.
Encostei-me ao jipe. A chapa quente do carro queimava-me a pele através da camisa. E assim ficámos a olhar fixamente uns para os outros, calados e imóveis: mulher branca olha para pretos e pretos olham para mulher branca.
— Olá! — disse eu, quando não aguentei mais.
Ninguém respondeu. Ninguém se mexeu um milímetro sequer, ou mostrou uma cara simpática.
A ideia de que os dois homens poderiam demorar horas até regressarem com ajuda encheu-me de medo. Será que tinha de ficar horas a olhar para os nativos e a ser observada fixamente por eles? Não ia aguentar.
Fiz uma nova tentativa. Com cuidado, acocorei-me, como os africanos fazem. Os meus olhos estavam agora ao nível dos das crianças que se encontravam mais perto de mim. Comecei a cantar: "Todos os patinhos sabem bem nadar…" procurando olhá-las nos olhos.
De repente, as mulheres recuaram. Ocorreu-me a ideia absurda de que teriam pensado que eu queria enfeitiçar as crianças. Mas um dos meninos aproximou-se e estendeu o bracinho magro na minha direcção. Eu segurei-o, com cuidado, e comecei a contar os dedos: "Este é o mindinho…" A criança recolheu o braço, assustada.
Da última fila, alguém empurrava e furava para passar. Uma menina com cerca de doze anos conseguiu por fim chegar à frente e perguntou-me timidamente, em inglês, se estava a cantar canções infantis. Eu acenei que sim, aliviada, e perguntei se podíamos conversar um pouco em inglês. Ela acenou igualmente. Em seguida virou-se para as mulheres e disse-lhes algo em Suahili[1] que, aos meus ouvidos, soou como se estivesse a acalmá-las.
Isto encorajou-me a fazer-lhe mais perguntas. Se ia à escola das Missões? Acenou que sim, com orgulho. Depois, perguntou-me de onde vinha e pareceu traduzir a minha resposta às mulheres.
O gelo estava quebrado. As mulheres murmuraram alguma coisa e, de repente, vi-me cercada por elas.
— Há muita água no teu país? — quis saber a menina. — E árvores verdes?
Acenei que sim e comecei a falar. Falei das nossas montanhas e dos lagos, das nossas crianças, e de como todas eram obrigadas a ir à escola. A menina traduzia, palavra a palavra, e as crianças e as mães estavam espantadas e incrédulas.
Com os dedos, desenhei na areia montanhas, vacas, árvores, e a forma das nossas casas, mas o vento forte depressa apagava os meus desenhos.
Levantei-me e meti o braço pela janela do carro. Sabia que tinha um caderno e um marcador na minha carteira. Tirei as duas coisas mas tive de as segurar no ar, acima da cabeça. Os africanos, grandes e pequenos tinham-se, entretanto, acercado de tal forma contra mim, que mal me podia mexer.
Depois de ter pedido um pouco de espaço, abri o caderno em cima do capot escaldante do carro. Mais uma vez, desenhei montanhas, lagos, árvores, vacas e casas.
As crianças treparam para cima do carro, empurravam-me, penduravam-se em mim. Todas queriam ver e tocar no papel branco e macio.
Deitada de barriga para baixo no tejadilho do carro, a minha intérprete via tudo do alto, fazia-me perguntas e pedia-me para desenhar as respostas e levantar o caderno, para todos poderem ver aquelas coisas maravilhosas e inacreditáveis.
— És professora? Vens para aqui? Vais ficar aqui, connosco? Trouxeste um caderno desses para cada um de nós?
As perguntas choviam de todos os lados. Envergonhada, tive de responder não a todas.
Um barulho ao longe fez-me erguer a cabeça. Da direcção em que Mumo e Willi haviam desaparecido aproximava-se um jipe. A nossa ajuda estava a chegar.
Dei o caderno à menina, que me olhou radiante com os seus grandes olhos, mas ainda antes de ter podido dizer thank you, cerca de trinta ou quarenta pares de mãos estenderam-se e tentavam apanhá-lo. A preciosidade acabou por ser conquistada por um rapazinho.
Protestei com veemência mas ele não ligou às minhas palavras. Subiu para um monte de areia, chamou as crianças com o braço e com os dedos ágeis tirou os agrafos do caderno.
Como rei que distribuía as riquezas do seu reino, distribuiu ele as folhas brancas e lisas.
Não estava à espera disto. Emudecida, compreendi. Estava a zelar para que todos tivessem uma parte do tesouro. Sorria, orgulhoso, com o marcador enfiado no cabelo encarapinhado.
Como o caderno era grosso, quando o jipe chegou, já quase todas as crianças tinham uma folha na mão.
— Estás bem? — perguntou Willi, preocupado, ao ver-me no meio daquela multidão. Limitei-me a acenar com a cabeça.
Enquanto os homens prendiam o cabo no nosso carro, atei rapidamente o meu lenço à volta da cabeça da minha pequena intérprete.
— Vais voltar? — perguntou-me, no momento em que eu entrava para o carro.
— Vamos tentar — prometi-lhe.
Durante a viagem até North Horr — eram mesmo só dois quilómetros — contei a Willi a minha aventura.
— Nem quero pensar no meu cesto de papéis lá de casa — terminei.
— Vais ver que havemos de arranjar forma de lhes enviar cadernos e lápis. — disse Willi para me consolar.
E assim fizemos.


Brigitte Meissel
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

[1] Língua oficial da Tanzânia

João Aguiar na nossa BECRE

O escritor João Aguiar vem visitar-nos no Dia Mundial do Livro, dia 23 de Abril, brindar-nos com uma palestra e responder às tuas perguntas (e talvez até assine um livrito ou outro que tenhas lá na estante).

João Aguiar

João Aguiar nasceu em Lisboa em 1943. Licenciou-se em jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas, após ter frequentado os dois primeiros anos do curso de Filosofia da Universidade Clássica de Lisboa. Em 1976 regressou a Lisboa trabalhando na rádio, na imprensa escrita e em televisão. Foi coordenador da equipa do programa infantil da RTP, Rua Sésamo.
Iniciou a sua carreira literária aos quarenta anos e o seu primeiro romance foi A Voz dos Deuses (1984), um dos livros mais vendidos em Portugal nos últimos anos. Tem escrito, sobretudo, romances históricos.
Na sua vasta obra contam-se também vários guiões para programas de televisão e argumentos cinematográficos. É também autor da colecção juvenil O Bando dos Quatro.
Em 1995 recebeu o Prémio Eça de Queirós.
Da sua obra literária destacam-se os seguintes títulos:
A Voz dos Deuses (1984; 20 edições, além de uma edição do Círculo de Leitores)
O Homem sem Nome (1986; 10 edições)
O Trono do Altíssimo (1988; 5 edições)
Os Comedores de Pérolas (1992; 11 edições)
A Hora do Sertório (1994; 4 edições)
A Encomendação das Almas (1995; 4 edições)
Navegador Solitário (1996; 4 edições)
Inês de Portugal (1997; 5 edições)
O Dragão de Fumo (1998; 2 edições)
A Catedral Verde (2000)
Diálogo das Compensadas (2001)
Uma Deusa na Bruma (2003)
O Sétimo Herói (2004)
Em televisão participou em diversas actividades, donde se destacam:
A Marquesa de Vila Rica (Guião e diálogos), 1990 RTP
Os Melhores Anos I e II (Guião e diálogos), 1990 RTP
Rua Sésamo (Coordenação) RTP
O Rosto da Europa (Texto, diálogos e co-autoria) 1994 RTP
.
23 de Abril, Dia Mundial do Livro, na nossa BECRE (ver aqui)

Júri do Concurso de Vídeos BiblioFilmes


O Júri do concurso de vídeos BiblioFilmes, Livros Bibliotecas, Acção! irá atribuir um dos prémios, intitulado Prémio Júri (existe ainda o vencedor da Votação Popular).

Membros do Júri
Galeno Amorim, do Brasil, responsável pela Agência de notícias Brasil Que Lê
Dra. Teresa Silveira, Bibliotecária
Dra. Helena Magalhães, Professora
João Carlos, aluno 12º ano
Helena Isabel, aluna universitária
Dr. Pedro Vasconcelos, representante do El Corte Inglés
Dr. Nelson Lage, representante do Gabinete do Coordenador Nacional da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico

Critérios de Avaliação sugeridos ao Júri
Originalidade e criatividade, 20%
Mensagem clara e cumprimento dos objectivos do concurso (mostrar como gostam de ler, de uma biblioteca e/ou de um livro), 40%
Entretenimento do filme (Dá vontade de continuar a ver? Dá vontade de dar a conhecer aos amigos?), 20%
Inspirador (dá vontade de visitar uma biblioteca ou ler um livro?), 20%
O vencedor na categoria será, preferencialmente, decidido por consenso dos elementos do Júri. Caso contrário, será por maioria.
A Organização definiu, para eventual desempate, que a decisão de cinco elementos terá uma percentagem de 18% cada um, sendo que o voto dos dois alunos corresponde a 10%.
Cada elemento do Júri deverá elaborar e entregar à Organização uma tabela de análise dos vídeos, indicando por ordem decrescente quais os vídeos que considera mais merecedores de ganharem, visando chegar-se ao vencedor da edição 2008 do concurso BiblioFilmes, a anunciar no dia 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, comemorado também na nossa BeCRE (ver programa aqui).

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Auto da Índia - Gil Vicente




Foi hoje, no auditório da nossa escola. A ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve) apresentou-nos o Auto da Índia, de Gil Vicente.

Concurso de Fotografia

O Concurso de Fotografia, organizado pela professora Isabel Macieira, foi bem sucedido. Os prémios - vouchers para aulas de kitesurf , oferecidos pelo professor Fernando Gonçalves, menções honrosas e diplomas de participação - foram atribuídos a todos os níveis de ensino e a alunos do Ensino Especial, com excepção do 7º ano, pelo professor Luís Macieira, na BECRE da nossa escola.
Um dos prémios foi atribuído por votação online, através da plataforma Moodle.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Herói da Holanda

A Holanda é um país em que a maior parte do território fica abaixo do nível do mar. Enormes muralhas, chamadas diques, são o que impede o mar do Norte de invadir a terra, inundando-a completamente. Há séculos que o povo se esforça para manter as muralhas resistentes, para que o país continue seco e em segurança. Até as crianças pequenas sabem que os diques precisam de ser vigiados constantemente e que um buraco do tamanho de um dedo pode ser extremamente perigoso.
Há muitos anos, vivia na Holanda um menino chamado Peter. O pai era uma das pessoas responsáveis pelas comportas dos diques. A sua função era abri-las e fechá-las para que os navios pudessem sair dos canais em direcção ao mar aberto.
Numa tarde do início do Outono, tinha Peter oito anos, a mãe chamou-o quando ele estava a brincar:
“— Vem cá, Peter. Vai levar estes bolinhos ao teu amigo cego, ao outro lado do dique. Se andares depressa e não parares pelo caminho para brincar, ainda estás de volta antes de escurecer.”
O menino gostou da tarefa e partiu feliz da vida. Ficou um bom tempo com o seu amigo cego, falando-lhe do passeio e do sol e das flores e dos navios lá do mar. De repente, lembrou-se que a mãe lhe dissera para voltar antes de escurecer; despediu-se do amigo e tomou o rumo de casa.
Quando passava pelo canal, percebeu como as chuvas tinham feito subir o nível da água e como estavam a bater com força contra o dique, e pensou nas comportas do pai.
“Ainda bem que elas são tão fortes! Se se partissem, o que seria de nós? Estes lindos campos ficariam inundados. O meu pai diz sempre que as águas estão "zangadas". Parece que ele acha que elas estão zangadas por ficarem presas tanto tempo.”
O menino parava a cada passo para apanhar umas florzinhas azuis que cresciam à beira do caminho, ou para escutar o barulhinho dos coelhos a correr pela relva. Mas, muitas vezes, sorria ao pensar no seu amigo cego, que tão poucos prazeres tinha e tanto apreciava as suas visitas.
De repente, percebeu que o Sol estava a pôr-se e que escurecia rapidamente. “A minha mãe vai ficar preocupada”, pensou ele, já a correr para chegar depressa a casa. Nesse momento, ouviu um barulho. Parecia água a respingar! O menino parou e foi procurar de onde vinha. Encontrou um buraquinho no dique, por onde estava a correr um fio de água.
Qualquer criança na Holanda morre de medo só de pensar num vazamento dos diques. Peter compreendeu imediatamente o perigo. Se a água passasse por um qualquer buraco que fosse, de pequeno ele logo se tornaria grande, e todo o país seria inundado. O menino percebeu de imediato o que deveria fazer. Largou as flores, desceu a encosta lateral do dique e mete o dedo no furo.
A água parou de vazar! E Peter ficou a pensar com os seus botões:
“As águas zangadas vão ficar presas. Posso contê-las com o meu dedo. A Holanda não vai ser inundada enquanto eu estiver aqui.”
Correu tudo bem no início, mas depressa escureceu. O menino começou a gritar bem alto:
“— Socorro! Alguém que venha até aqui!”
Mas ninguém ouviu, ninguém veio ajudá-lo.
Estava a arrefecer cada vez mais, o braço começou a doer-lhe e a ficar dormente. Peter voltou a gritar:
“— Será que ninguém vem? Mãe! Mãe!”
Mas ela já tinha procurado o menino muitas vezes desde que o Sol se fora, olhando pelo caminho do dique até onde a vista alcançava, e decidira voltar para casa e fechar a porta, achando que ele tinha resolvido passar a noite com o amigo cego, e estava disposta a ralhar-lhe no dia seguinte de manhã, por ele ter ficado fora de casa sem a sua permissão.
Peter tentou assobiar, mas os dentes batiam de frio. Pensou no irmão e na irmã, aconchegados no calor das suas camas, e no pai e na mãe. “Não posso deixá-los afogar-se. Tenho de aguentar até que alguém venha, mesmo que passe a noite inteira.” A Lua e as estrelas brilhavam, iluminando o menino encostado a uma pedra junto ao dique. A cabeça pendeu-lhe para o lado, os olhos fecharam-se-lhe, mas Peter não adormeceu, pois tinha de esfregar a mão que estava a deter o mar zangado.
“Custe o que custar, hei-de conseguir!”, pensava ele. E passou a noite inteira ali, contendo as águas.
De manhã bem cedinho, um homem a caminho do trabalho achou ter ouvido um gemido enquanto passava por cima do dique. Inclinou-se na borda e encontrou o menino agarrado à parede da muralha.
“— O que aconteceu? Estás magoado?”
“— Estou a conter a água do mar!”
gritou Peter “Mande vir ajuda!”
O alerta foi dado imediatamente. Chegaram várias pessoas com ferramentas e arranjaram o furo. Peter foi levado para casa, ao encontro dos pais, e rapidamente todos ficaram a saber que naquela noite, ele lhes tinha salvo a vida. E, até hoje, ninguém se esquece do corajoso pequeno herói da Holanda.

http://www.inkdotbebe.com.br/

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Primeiro levaram os negros


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Agora estão a levar-me a mim
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo


Bertolt Brecht

sexta-feira, 4 de abril de 2008

ACTA – Auto da Índia

No próximo dia 11 de Abril, sexta-feira, vamos ter no Auditório da nossa escola a ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve). Esta companhia vai apresentar-nos o Auto da Índia, de Gil Vicente.
Será uma actividade dividida em duas sessões, uma de manhã (10.20) e outra de tarde (14.45) e será dinamizada pelo Grupo de Língua Portuguesa do 3º ciclo, apresentada em exclusivo para as turmas do 9º ano.

Este clássico da literatura dramática portuguesa será apresentado numa feição didáctica e pedagógica de forma a servir os objectivos escolares. Num exercício de razoabilidade, pretende-se que ao fazer-se uso dos recursos da elaboração cénica se faça também uso daqueles outros recursos afectos ao ensino do texto dramático, como tratando-se de uma "aula dramatizada". O espectáculo é seguido de debate com os discentes.

Para mais informações, consulta o programa definitivo, afixado em vários locais da nossa escola.

O Tesouro do Baobá

Num dia de grande calor, um lebrão parou à sombra de um baobá, sentou-se na erva e, contemplando ao longe a restolhada sob o vento a soprar, sentiu-se infinitamente bem.
"Baobá", pensou ele, "como é leve e fresca a tua sombra ao braseiro do meio-dia!"
Levantou o focinho para os ramos poderosos. As folhas estremeceram, felizes, devido aos pensamentos simpáticos que se lhes dirigiam. O lebrão riu-se, vendo-as contentes. Ficou calado por uns instantes e depois, piscando o olho e batendo com a língua, tomado de malícia jovial, disse:
"A tua sombra é boa, é claro, seguramente melhor do que o teu fruto. Não quero maldizer, mas o que me pende sobre a cabeça tem todo o ar de um odre de água morna."
O baobá, despeitado de ouvir assim duvidar dos seus sabores depois do elogio que lhe abrira a alma, entrou no jogo. Deixou cair o fruto num tufo de erva. O lebrão farejou-o, provou-o, achou-o delicioso. Depois devorou-o, lambeu o focinho e balançou a cabeça. A grande árvore, impaciente por ouvir o seu veredicto, susteve a respiração.
"O teu fruto é bom" admitiu o lebrão.
Depois sorriu, retomou a alegria impertinente e acrescentou:
"Seguramente é melhor do que o teu coração. Perdoa-me a franqueza: o coração que bate em ti parece-me mais duro do que uma pedra."
O baobá, ouvindo estas palavras, sentiu-se invadido por uma emoção que jamais experimentara. Oferecer a este pequeno ser as suas belezas mais secretas, Deus do céu, era seu desejo, mas, assim de repente, que medo tinha de as descobrir! Lentamente entreabriu a casca. Então apareceram colares de pérolas, panos bordados, sandálias finas, jóias de ouro. Todas estas maravilhas que enchiam o coração do baobá escorreram em profusão diante do lebrão, cujo focinho tremeu e cujos olhos se arregalaram.
"Obrigado, obrigado. És a melhor e a mais bela árvore do mundo" disse ele, rindo como uma criança satisfeita e apanhando febrilmente o magnífico tesouro.
Voltou a casa com as costas dobradas por todos esses bens. A mulher acolheu-o, pulando de alegria. Aliviou-o depressa de tão belo fardo, vestiu panos e sandálias, ornou o pescoço de jóias e saiu para o mato, impaciente de ser admirada pelas companheiras.
Encontrou uma hiena. Esse cadáver, ofuscado pelas invejáveis riquezas que passavam por si, foi imediatamente à toca do lebrão e perguntou-lhe onde tinha encontrado aqueles ornamentos soberbos com que se vestia a esposa. O outro contou-lhe o que tinha dito e feito à sombra do baobá.
A hiena correu para lá com os olhos inflamados, ávida dos mesmos bens. Jogou o mesmo jogo. O baobá, que a alegria do lebrão tinha verdadeiramente rejubilado, de novo se agradou de dar a sua frescura, depois a música da sua folhagem e o sabor do seu fruto, finalmente a beleza do seu coração.
Mas, quando a casca se abriu, a hiena atirou-se às maravilhosas oferendas como sobre uma presa e, escavando com unhas e dentes as profundezas da velha árvore para dela ainda arrancar mais coisas, pôs-se a resmungar:
"E nas tuas entranhas o que há? Também quero devorar as tuas entranhas! Quero tudo o que tens até às tuas raízes! Quero tudo, ouves?"
O baobá, ferido, dilacerado, tomado de medo, guardou os seus tesouros, e a hiena, insatisfeita e furiosa, voltou de mãos vazias para a floresta. Desde esse dia que procura desesperadamente oferendas ilusórias nos animais mortos que encontra, sem nunca ouvir a brisa singela que acalma o espírito. Quanto ao baobá, já não abre a ninguém o seu coração. Tem medo. É preciso compreendê-lo: o mal que lhe fizeram é invisível, mas incurável.
Em verdade, o coração dos homens é semelhante ao desta árvore prodigiosa: cheio de riquezas e benefícios. Porque se abrirá tão pouco, quando se abre? De que hiena se lembrará?

(recriação de Henri Gougaud)
A Árvore dos Tesouros
tradução de Maria do Rosário Pedreira

O Leão, o Urso e a Raposa


terça-feira, 1 de abril de 2008

Esperando


Esperando que tudo se resolva,
Esperando que a chuva passe,
Esperando que o tempo pare,
Esperando que o Sol ilumine o céu,
Esperando que a Lua fique iluminada,
Esperando que as estrelas se tornem em pequenos desejos concretizados,
Esperando que acabem com as confusões,
Esperando que Alguém seja feliz,
Esperando o Sol se deitar,
Esperando ouvir a Lua dizer "Tem calma, tudo se resolve.",
Esperando arranjar forças para continuar com a "guerra",
Esperando que o tempo passe rápido,
Esperando que o Amor vença,
Esperando que o Ódio morra,
Esperando que a Amizade ilumine o mundo,
Esperando que consiga ser mais feliz,
Esperando que ponha o Medo de lado,
Esperando e nada mais…

Soraia Lázaro
9º A

terça-feira, 25 de março de 2008

Subir pelo lado que desce

Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.
Ouvindo esta frase, imaginei qualquer pessoa nessa acrobacia que as crianças fazem ou tentam fazer: escalar aqueles degraus que nos puxam inexoravelmente para baixo. Perigo, loucura, inocência, ou uma boa metáfora do que fazemos diariamente?
Poucas vezes me deram um símbolo tão adequado para a vida, sobretudo naqueles períodos difíceis em que até pensar em sair da cama dá vontade de desistir. Tudo o que quereríamos era taparmos a cabeça e dormirmos, sem pensarmos em nada, fingindo que não estamos nem aí...
Porque Tanatos, isto é, a voz do poço e da morte, nos convoca a cada minuto para que, enfim, nos entreguemos e acomodemos. Só que acomodar-se é abrir a porta a tudo aquilo que nos faz cúmplices do negativo. Descansaremos, sim, mas tornando-nos filhos do tédio e amantes da pusilanimidade, personagens do teatro daqueles que constantemente desperdiçam os seus próprios talentos e dificultam a vida dos outros.
E o desperdício da nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto.
Não que não tenhamos vontade ou motivos para desistir: corrupção, violência, drogas, doença, problemas no emprego, dramas na família, buracos na alma, solidão no casamento a que também nos acomodamos... tudo isso nos sufoca. Sobretudo, se pertencermos ao grupo cujo lema é: Pensar, nem pensar... e a vida que se lixe.
A escada rolante chama-nos para o fundo: não dou mais um passo, não luto, não me sacrifico mais. Para quê mudar, se a maior parte das pessoas nem pensa nisso e vive da mesma maneira, e da mesma maneira vai morrer?
Não vive (nem morrerá) da mesma maneira. Porque só nessa batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, podemos também saborear a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios.
Mesmo que pareça quase uma condenação, a ideia de que viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce é que nos permite sentir que afinal não somos assim tão insignificantes e tão incapazes.
Então, vamos à escada rolante: aqui e ali até conseguimos saltar degraus de dois em dois, como quando éramos crianças e muito mais livres, mais ousados e mais interessantes.
E porque não? Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos ainda uma vez... recomeçar.

Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005

O Leão e o Rato


segunda-feira, 24 de março de 2008

Helen, A menina do silêncio e da noite


Helen, a menina do silêncio e da noite

Esta é uma história verdadeira.

Há cem anos, na América, nascia uma menina loira. O pai e a mãe estavam muito felizes.

Chamaram-lhe Helen Keller. Helen é um bonito nome.

Por volta dos dezoito meses, Helen adoeceu. E, quando ficou boa, os pais aperceberam-se de que ela já não via nem ouvia nada. Tinha-se tornado cega e surda.

Entretanto, crescia, brincava, comia e corria, como as outras crianças; só que não se lhe podia explicar, dizer ou mostrar nada.

Nós que vemos, sabemos que o céu é azul, vemos o sorriso da Mamã e do Papá, vemos os animais e tudo o que se passa em nossa casa, lá fora, na rua, nos campos e por todo o lado.

Helen não via nada.

Nós que ouvimos, ouvimos a voz dos nossos pais, ouvimos baterem à porta, ouvimos o ruído dos carros e ouvimos música.

Helen não ouvia nada.

Em todo o lado, ouvimos sempre qualquer coisa, mesmo à noite, quando dormimos.

Quando se é surdo, não se compreende o que dizem as pessoas, por que é que se riem, por que se zangam, por que falam.

Não podemos repetir as palavras, para aprender o nome das coisas.

Não podemos falar para perguntarmos o que queremos.

E, sobretudo, não temos palavras para pensar.

Os que são apenas cegos têm ouvidos para ouvir e perceber o que se passa à sua volta.

Os que são apenas surdos, têm olhos para ver e compreender o que se passa ao seu redor.

Mas ser ao mesmo tempo surdo e cego, é terrível! É como se estivéssemos sempre sós no silêncio e na noite.

Helen estava assim, completamente só no silêncio e na noite.

Os pais não sabiam o que fazer para lhe explicar as coisas. Muitas vezes Helen enfurecia-se e partia tudo o que encontrava, rasgava as roupas, comia com as mãos e atirava o prato ao chão; batia na irmã mais nova e gritava.

Então os pais choravam porque não sabiam o que fazer para lhe ensinar o que ela não sabia, e para lhe fazer compreender que a amavam muito.

Helen estava muito triste. Muitas vezes, ficava sentada no chão e chorava o dia inteiro. Helen estava só no silêncio e na noite e sentia-se muito infeliz.

Os pais deixavam-lhe fazer tudo o que ela queria. Nunca a castigavam, e Helen era ainda mais infeliz.

Quando fez sete anos, os pais tiveram uma boa ideia: pediram a uma professora para vir morar com eles. Chamava-se Ann Sullivan e tinha dezoito anos. Já tinha sido cega, mas fora operada e agora via.

Estava decidida a ajudar crianças cegas.

Conhecia muitos jogos para cegos. Mas Helen era cega e surda, e Ann não sabia se conseguiria vir a "falar" com Helen.

A princípio, Helen era muito mazinha com a sua professora e não queria aprender nada. Não gostava de ser mandada porque estava habituada a fazer tudo o que queria.

Mas Ann era muito paciente. Ensinou-lhe muitas coisas: enfiar pérolas, tricotar e coser. Separar os objectos redondos dos quadrados, e os duros dos moles. E, pouco a pouco, Helen tornou- -se gentil e asseada. Não se podia servir dos olhos nem dos ouvidos, mas tentava compreender muitas coisas com as mãos. E foi com as suas mãos que Helen aprendeu a falar.

Um dia, Ann, tocando-lhe nas mãos, fê-la compreender, enfim, que lhe ensinava, deste modo, o nome das coisas. Percebeu, assim, que tudo tinha um nome: as coisas, os animais, as pessoas.

Aprendeu o seu nome, "Helen", e "Papá" e "Mamã" e "Professora". E quando Helen tocava com as suas mãos nas do pai, dizendo Papá, ele chorava de alegria. Era formidável.

Então, Helen aprendeu a ler seguindo com os dedos as letras para os cegos. E, mais tarde, conseguiu falar com a sua voz; mas era muito difícil, porque não ouvia o que dizia.

Helen era muito inteligente e aprendia depressa. Queria saber tudo. Foi à escola com Ann, que a acompanhava para todo o lado e lhe dizia, com as mãos, tudo o que diziam as professoras. E Helen fazia os trabalhos de casa na sua máquina de escrever. Tornou-se tão inteligente que passou num exame difícil em que nenhuma rapariga do seu país tinha conseguido passar.

Helen tornou-se célebre e todos queriam conhecê-la.

Viajou muito. Foi a todos os países explicar às pessoas que era preciso ocuparem-se das crianças surdas e cegas, porque elas também podiam compreender, aprender como ela, e serem felizes.

Helen sabia que tinha tido muita sorte: tinha uns pais que a amavam, e que haviam podido pagar uma professora só para ela. E, sobretudo, tinha Ann, que era muito inteligente e paciente.

Helen gostaria que todas as crianças cegas e surdas fossem ajudadas e amadas como ela foi.

Agora, graças a Helen Keller e a Ann Sullivan, sabemos ocupar-nos melhor de crianças que não vêem e que não ouvem.

Anne Marchon

Helen, a menina do silêncio e da noite

Desabrochar – Editorial, 1988