Mostrar mensagens com a etiqueta Recebido por e-mail. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Recebido por e-mail. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Vale da Neblina

Numa terra longínqua havia uma bela cidade. Ficava escondida num vale profundo, sempre coberta de neblina.
Ninguém no vale tinha subido as encostas da montanha para ver o que havia para além dela. Nem nunca tinham visto o sol a brilhar no céu, lá bem no alto. A lua e as estrelas eram-lhes de todo desconhecidas. E nunca nenhum viajante tinha alguma vez chegado com notícias.
Os mais velhos da cidade diziam "Nada pode ser mais belo que o nosso vale, portanto, não pode haver nada fora dele." E os pais explicavam aos filhos " Temos tudo o que precisamos. Não há necessidade de procurar fora seja o que for."
As crianças acreditavam neles e, quando cresciam, diziam a mesma coisa aos seus filhos e netos. E assim se passaram anos e séculos.
♥♥♥
Mesmo às portas da cidade vivia um homem idoso com o seu neto.
Quando as pessoas passavam por eles exclamavam "Olhem, é ali que vive o Stefan com o seu avô velho e tonto."
Porque, uma ocasião, o idoso tinha afirmado que, por detrás das montanhas, havia um outro mundo, brilhante e cheio de cor… Desde então, chamaram-lhe louco e acabou por ser expulso da cidade.
Um dia, o avô de Stefan disse-lhe "Estou demasiado velho para subir de novo. Talvez um dia, quando fores suficientemente crescido, possas descobrir o teu próprio caminho até ao topo da montanha e ver o brilho da luz, tal como eu o vi, uma certa vez."
Nessa noite Stefan permaneceu acordado. Sabia que o avô estava a dizer a verdade. E queria prová-lo a toda a gente. Decidiu assim pôr-se a caminho até ao topo da montanha.
A floresta estava muito escura, mas Stefan continuou corajosamente. Através das árvores, podia ouvir o rio impetuoso, um mocho a piar e os lobos a uivar. E pensou que o rio estaria a dizer-lhe "Não continues, é uma perda de tempo." O mocho na árvore parecia piar "Não há nada para além do vale." Os lobos pareciam uivar "Se continuares, vais morrer". Stefan estava muito assustado mas, mesmo assim, continuou a andar noite fora.
À medida que subia, a neblina tornava-se cada vez mais fina. Por fim, deu por si já no cume da montanha e, pela primeira vez na vida, viu o sol nascer sobre a terra, enchendo o mundo de luz e cor. E Stefan conseguia ver como as nuvens pairavam em baixo, enchendo o vale. Apenas as torres mais altas do palácio espreitavam através da neblina.
Stefan apressou-se a voltar à cidade e foi falar com a Assembleia dos Mais Velhos.
"Vi um mundo cheio de luz e cor para além da montanha, " disse-lhes.
Alguém gritou "Não liguem, é apenas o Stefan. Enlouqueceu como o avô!"
E toda a gente se riu.
Stefan ficou zangado. "Mas vocês também o poderão ver, do topo da torre mais alta do palácio!"
"É proibido subir às torres," gritaram os mais velhos. "Os soberanos antigos diziam que era perigoso. Ninguém está autorizado a subir até lá."
"Disparate!" gritou Stefan, enquanto corria em direção à porta da torre mais próxima e começava a subir as escadas. Movimentava-se muito rapidamente e depressa desapareceu.
Os mais velhos lançaram-se atrás dele, aos gritos "Chamem a guarda! Detenham-no!"
Os guardas apressaram-se no seu encalço, escadas acima. "Volta para trás," berravam eles, "ou fechar-te-emos na prisão." Os mais velhos seguiam atrás, tão rapidamente quanto podiam. Stefan viu que eles não conseguiriam apanhá-lo e continuou sempre, sempre a subir, até que chegou mesmo ao cimo da torre.
Quando os guardas e os mais velhos chegaram ao topo e olharam em volta, gritaram de surpresa: "Ah! Oh! Ah! Oh!" De tal modo ficaram admirados com a luz e a cor sobre toda a terra!
Afinal, Stefan e o avô sempre tinham razão!
Stefan correu para casa ao encontro do avô, para lhe contar tudo o que tinha acontecido. O avô olhou para ele com orgulho e alegria.
A partir desse dia, muitos habitantes partiram para explorar o que estava para além das montanhas. Aprenderam coisas sobre o mundo lá fora, cheio de sol. Descobriram outras cidades e outras gentes e falaram a todos do seu vale da neblina.
Em breve vieram viajantes de muito longe para ver a beleza da cidade da bruma.
♥♥♥
Lá no alto da montanha, onde o sol e a neblina se encontram, vivem agora Stefan e o seu avô, numa pequena casa.
Mas, atualmente, quando as pessoas por ali passam, param e dizem "Olhem, é ali que vive o Stefan com o seu sábio avô."
Arcadio Lobato
The Valley of Mist
Edinburgh, Floris Books, 2000
(Tradução e adaptação)

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Beethoven

Beethoven
O génio da música
Estava um silêncio fora do habitual no pátio das galinhas e Cecily Fischer, a irmã do padeiro, olhou à sua volta desconfiada. Nesse momento, as galinhas começaram a cacarejar de medo. Cecily atravessou depressa o terreiro e escancarou a porta do galinheiro.
— Ludwig! Ora bem! Agora sei quem é que tem andado a roubar-me os ovos!
— Não, não, Menina Fischer — mentiu o rapazinho. — O Kaspar atirou o meu lenço aqui para dentro e eu vim buscá-lo!
Ludwig van Beethoven vivia com o seu pai, mãe e os dois irmãos, Kaspar e Nikola, na casa do padeiro, no nº 934 da Rheingasse, em Bona, na Alemanha. Em 1774, era um rapazinho todo enxovalhado, de quatro anos de idade, com cabelo despenteado e unhas sujas. Ludwig ia à escola com os seus irmãos mas detestava as aulas. Estudava Francês, Italiano e Latim, mas tinha notas muito baixas. Na Matemática, era tão fraco na multiplicação que, se tinha de calcular quantos eram três vezes quatro, escrevia três quatros e adicionava-os!
O Kaspar e o Nikola eram muito bons alunos. Mas, quando se tratava de Música, ninguém era tão brilhante aluno como Ludwig! Quando começou a tocar cravo era tão pequeno que tinha de se pôr de pé num banco para chegar ao teclado. Também aprendia a tocar violino. O seu pai, Johann, era cantor. Foi ele quem lhe deu as primeiras lições, mas era muito severo: ao chegar a casa, já tarde na noite, ia tirar Ludwig da cama para praticar. E quando este tentava tocar de memória, o pai ficava muito zangado!
— Que asneirolas estúpidas estás para aí a arranhar? — gritava. — Toca pela pauta, caso contrário nunca serás um músico a sério!
Por vezes, quando o pai estava com visitas, Ludwig aproximava-se à socapa do cravo e tocava alguns acordes. Nessas ocasiões, Johann perdia as estribeiras:
— O que estás aqui a fazer? Vai-te embora se não queres levar um puxão de orelhas!
Mas até mesmo o seu mal-humorado pai tinha de admitir que o filho estava a fazer grandes progressos. Em pouco tempo, o rapazinho já andava a aprender a tocar viola e órgão. E já era muito melhor músico do que ele! Quando fez sete anos, o pai decidiu que era chegada a altura de Ludwig dar o seu primeiro concerto. Ouvira contar como, alguns anos antes, Leopold Mozart tinha levado em digressão Wolfgang, o seu filho genial, que tinha dado uma série de concertos.
— Ludwig também há de ganhar dinheiro! — disse ele.
O concerto realizou-se em 26 de Março de 1778. Todos os anúncios diziam que o rapaz tinha apenas seis anos de idade. Johann mentiu quanto à idade do filho para que as pessoas pensassem que Ludwig era tão esperto como Wolfgang Mozart.
*
Johann estava a fazer um buraco num ovo! Ludwig fez uma careta de nojo enquanto observava o pai a sorver o ovo cru e depois comer duas ameixas secas!
— Vai cantar hoje à noite — pensou Ludwig.
O seu pai comia sempre ovo cru e ameixas secas antes de cantar.
— Dá-me frescura à voz! — dizia ao seu jovem filho.
Quando começou a crescer, Ludwig apercebeu-se de que quase toda a gente que ele conhecia estava ao serviço do Arcebispo de Colónia. A vida no palácio do Arcebispo era muito faustosa, porque o Arcebispo era uma pessoa importante. Foi um dos poucos "Eleitores" que escolheram um novo imperador quando morreu o velho. Adorava boa comida, a caça e a música. O Eleitor tinha a sua própria orquestra. O avô de Ludwig tinha sido o seu kappelmeister — mestre de capela — o chefe dos músicos da corte. O sonho de Johann era que Ludwig viesse também a ser kappelmeister.
Quando Ludwig tinha dez anos, Christian Gittlob Neefe passou a ser o novo organista do Eleitor. Este óptimo músico apercebeu-se de que Ludwig era um génio com necessidade de um professor calmo e compreensivo que o animasse a compor. O senhor Neefe não tardou a declarar que o rapaz era "um jovem génio de talento muitíssimo promissor. Certamente tornar-se-á um outro Wolfgang Mozart se continuar como começou!". E assim o Senhor Neefe nomeou Ludwig seu organista assistente.
*
— É altura de ir para o andar de cima, Mamã!
Os meninos estavam todos excitados. Era o aniversário da mãe e todos os anos o celebravam com um concerto. Enquanto a Mãe estava a descansar, punham uma cadeira especial debaixo de um dossel e decoravam-na com folhas e flores. Por volta das dez horas estava toda a gente pronta e os músicos começavam a afinar os seus instrumentos.
— Já aí vem! Todos calados!
A Mãe desceu as escadas. Estava linda. Johann conduziu-a à sua cadeira especial. Os músicos começaram a tocar e o som da música maravilhosa espalhava-se pela vizinhança. Após o concerto, comeram e beberam. Depois, todos tiraram os sapatos e dançaram em meias, para não incomodar os vizinhos que estavam a dormir.
*
Ludwig estava sentado à janela do seu quarto, que dava para o terreiro. À sua frente encontravam-se os manuscritos das suas primeiras composições musicais importantes. Eram três sonatas para cravo. Tinha-as trabalhado durante várias semanas, reescrevendo longas passagens até finalmente se dar por satisfeito. Escreveu a dedicatória: A Sua Eminência o Arcebispo Eleitor de Colónia, meu gracioso Soberano, composto por Ludwig van Beethoven, aos onze anos de idade.
*
— Tragam-me a lista de todos os músicos da minha orquestra!
Em 1784, havia um novo Eleitor em Bona. O Arquiduque Maximiliano era irmão do Imperador. Era um homem muito gordo que gostava de boa comida e de boa música.
— O que é isto? Johann van Beethoven tem uma voz já muito gasta! Dizes que o seu filho Ludwig é ainda jovem, mas muito capaz. Toca órgão, é? Estou desejoso de o ouvir a tocar!
Ludwig já não andava todo enxovalhado! Agora que era músico da corte, tinha de parecer muito arranjado e limpo. Usava uma casaca elegante, calções pelos joelhos, meias de seda, sapatos com laçarotes e um colete bordado com bolsos, que apertava com cordão de oiro genuíno. Tinha o cabelo aos caracóis dos lados e rabo-de-cavalo atrás. Até tinha uma espada num cinto de prata, que usava em ocasiões especiais.
Aos 16 anos, o Senhor Neefe decidiu que ele iria estudar com Mozart em Viena. Após uma longa viagem, Ludwig Beethoven chegou a Viena em 7 de Abril de 1787. Alguns dias mais tarde encontrou-se com Mozart, que o convidou a tocar. Ludwig sentou-se ao cravo e tocou maravilhosamente. Mas Mozart não parecia muito impressionado.
— Bom, preparou bem essa peça — disse, num tom bastante frio.
— Posso fazer muito melhor do que isto! — gritou Ludwig.— Dê-me uma melodia e mostrar-lhe-ei o que posso fazer com ela!
Os dedos de Ludwig voavam sobre o teclado. Estava a tocar para o grande Wolfgang Mozart. Transbordava de inspiração. A melodia simples que Mozart lhe sugerira tornou-se uma obra-prima quando Beethoven a transformou numa composição maravilhosa. Mozart estava enlevado. Por fim, foi ter com uns amigos que estavam na sala ao lado.
— Aquele é Ludwig van Beethoven — disse. — Um dia, todo o mundo falará dele.
Ludwig van Beethoven tornou-se um dos compositores mais importantes de todo o mundo. Compôs mais de 600 peças, incluindo 9 sinfonias, cinco concertos para piano, um concerto para violino, uma ópera, 32 sonatas para piano e muitos quartetos de cordas, trios e obras de música coral. Mas Beethoven compôs muitas destas obras-primas depois de ficar surdo. Entre as suas composições encontram-se a "Sonata ao Luar", a Sinfonia "Pastoral" (nº6) e o "Hino da Alegria", da sua Sinfonia nº 9.
Ludwig van Beethoven morreu em 1827.
Ann Rachlin; Susan Hellard
Beethoven
Porto, Campo das Letras, 1997
(Adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Enviado do Céu

Passei por um período em que achava que toda a gente se aproveitava de mim, e não me sentia nada contente. Parecia que todas as pessoas a quem decidira mostrar amabilidade ultrapassavam os seus limites. Lutava contra a ideia de que estava a praticar o bem só porque Deus dizia que era isso que devíamos fazer, mas, se o meu coração não ficava feliz, estaria realmente a fazer um favor a Deus? Não estaria a minha má atitude a anular o bem?
Tinha passado muitas horas e gasto muitos dólares com crianças desfavorecidas do nosso bairro, mas, a certa altura, a avó dessas crianças, com quem elas viviam, pareceu querer aproveitar-se de mim. Senti-me irritada com ela e com o facto de os netos não parecerem ser uma prioridade na sua vida. Recebera um telefonema seu, quando o Natal se aproximava, em que me falara de uma menina que ela conhecia e que não ia ter um bom Natal, pedindo-me que lhe comprasse alguma coisa.
Fiquei a matutar naquele pedido. Não suportava o seu atrevimento de me telefonar e pedir que fizesse alguma coisa por alguém que eu nem sequer conhecia. «Eu já não fazia o bastante pelos netos? Teria ainda de me ocupar de outra pessoa?» E nem sequer tinha muito dinheiro.
Uns dias mais tarde, enquanto fazia compras, vi uma caixa com duas bonecas, uma com cabelo escuro e outra com cabelo claro. Pensei na referida menina. Comprei a caixa porque me pareceu muito barata, mas não me senti contente. Atirei-a para o carrinho, resmungando, mal-humorada, levei-a para casa e embrulhei-a. Um pouco antes do Natal, entreguei-a à avó, e nunca mais ouvi nada acerca das bonecas. Tanto quanto sei, a rapariga nunca as recebeu, ou a avó disse-lhe que era uma oferta sua.
Quando eu era pequena, não me deixavam ver a minha avó paterna, que nunca deixava de nos comprar presentes de Natal e de os entregar à minha avó materna. A minha avó materna mudava os nomes das etiquetas, para dizer que eram dela. Quando atingi a idade adulta, descobri que a minha boneca preferida na infância fora oferecida pela minha outra avó. Tinha a certeza de que se tratava de uma situação semelhante. «Bem», pensei, «vamos ver o que acontece.» E assim fiz.
♥♥♥
Cerca de um ano e meio depois deste episódio, passeava com o meu cão quando vi uma menina com uns sete anos a brincar num pátio.
Quando passei por ela, gritou:
— Eu conheço esse cão!
Disse-lhe que vivia ao virar da esquina e que, às vezes, passava por ali com ele. Ocorreu-me que ela talvez conhecesse as crianças do meu bairro. Diziam-me sempre que tinham uma amiga chamada Joan (não é o seu verdadeiro nome), que vivia no nosso quarteirão. Perguntei à menina se o seu nome era Joan.
— Não, esse é o nome da minha avó — respondeu.
Então fez-se-me luz. Perguntei-lhe se conhecia Aaron, Nick e Melanie, e ela respondeu afirmativamente. Fiquei mais curiosa e interroguei-me se não seria a menina desconhecida para a qual comprara as bonecas. Perguntei-lhe em seguida:
— Não no Natal passado, mas no anterior a esse, recebeste duas bonecas?
— Oh, sim, Lucy tem cabelo claro e Debbie tem cabelo escuro. Agora estão a dormir lá dentro — replicou.
— Foi só isso que recebeste nesse ano? — perguntei.
— Creio que recebi outras coisas, mas não me lembro — disse ela.
— Quem te deu as bonecas? — perguntei.
— A avó do Aaron — respondeu.
Ah, ah! Era isso... a avó ia ficar com os louros. Para provar a mim mesma que estava certa, perguntei:
— Ela disse quem é que tas ofereceu?
E então Deus, de um modo misterioso, mostrou-me que aquilo que dou nunca é demais – mesmo se o fizer com um coração amargurado.
Fiquei com um nó na garganta quando a menina me respondeu:
— Ela disse que tinha sido um anjo.


Mickey Bambrick
Jack Canfield, Mark Victor Hansen
Canja de galinha para a alma – O tesouro do Natal
Mem Martins, Lyon Edições, 2002
(Adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Tomás aprende a ler

Tomás sabia fazer uma vala com troncos de árvore ou cozinhar uma tortilha, mas não sabia ler. Fazia uma mesa de uma árvore e um xarope da sua seiva, mas não sabia ler. Tomás sabia tratar dos tomates, dos pepinos e das maçarocas de milho, mas não sabia ler. Conhecia as pegadas dos animais e os sinais das estações do ano, mas não conhecia as letras nem as palavras. Um dia disse ao seu irmão, José:
— Quero aprender a ler.
— Já estás velho para isso, Tomás — respondeu-lhe José. — Tens filhos e netos e sabes fazer quase tudo.
— Mas não sei ler — insistiu Tomás.
— Já que queres, então aprende! — disse José.
— Quero aprender a ler — disse Tomás a Júlia, sua mulher.
— És um homem maravilhoso, tal como és — respondeu Júlia, fazendo-lhe uma festa.
— Mas ainda posso ser melhor — replicou ele.
— Então aprende! — disse a mulher, a sorrir, enquanto tricotava. — Assim, poderás ler para mim.
— Quero aprender a ler — disse Tomás ao seu velho cão pastor.
O cão fitou-o e depois deitou-se no tapete a seus pés. Tomás começou a pensar: "Como é que vou aprender a ler? O meu irmão não me pode ensinar. A minha mulher não me pode ensinar. Este cão velho também não me pode ensinar. Como é que eu vou aprender?" Pensou durante algum tempo até que, por fim, sorriu.
No dia seguinte, levantou-se ao nascer do sol e fez o trabalho da quinta. Depois do trabalho, lavou a cara e as mãos, penteou o cabelo e a barba, e vestiu a sua camisa preferida. Comeu umas torradas e preparou uma sandes. Depois, despediu-se de Júlia com um beijo e saiu de casa. Pelo caminho encontrou um grupo de meninos e meninas que, à sombra das árvores, se dirigiam para o mesmo local. Quando as crianças entraram na escola, Tomás entrou também. Ao vê-lo, a Professora Garcia sorriu.
— Quero aprender a ler — disse Tomás.
Ela indicou-lhe um lugar vago e ele sentou-se.
— Meninos e meninas — anunciou a professora — hoje temos um novo aluno.
Tomás começou pelas letras e seus sons. Alguns meninos ajudaram-no. No recreio, sentou-se debaixo de uma árvore e ensinou algumas crianças a imitar o canto do melro e o grasnar do ganso. E contou-lhes histórias.
Depressa Tomás aprendeu palavras. Todos os dias copiava os exercícios no caderno, com esmero. Gostava muito que a professora ou as crianças mais velhas lessem em voz alta, na aula. Por vezes, desenhava enquanto ia ouvindo. Tomás ia aprendendo, mas também ensinava. Ensinou os meninos a talhar madeira com uma navalha. E a professora aprendeu com ele a fazer compota de maçã e a assobiar.
Ao fim de algum tempo, Tomás já era capaz de juntar palavras e escrever histórias sobre como salvara um pequeno esquilo, como tomara um banho no rio e como conhecera a sua mulher.
À noite, Júlia ficava a vê-lo fazer os exercícios na mesa depois da ceia.
— Quando é que vais ler para mim? — perguntava-lhe.
— Quando chegar a ocasião — respondia o marido.
Um dia, Tomás trouxe da escola um livro de poemas que falava de árvores, nuvens, rios e gazelas velozes, e guardou-o debaixo da almofada. Nessa noite, quando Júlia e ele foram para a cama, pegou no livro.
— Ora escuta — pediu.
E leu um poema sobre pétalas suaves e o doce perfume das rosas e outro sobre ondas que se esbatiam na orla do mar. Terminou a leitura com um poema de amor.
Júlia olhou o marido nos olhos.
— Oh, Tomás! — disse. — Também quero aprender a ler.
— Amanhã, depois do pequeno-almoço, querida! — respondeu ele a sorrir, apagando a luz.

Jo Ellen Bogart
Tomás aprende a leer
Barcelona, Editorial Juventud, 1998
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Os doze irmãos


Em tempos idos, pensava-se que cada um dos Doze Dias de Natal, de 26 de Dezembro a 6 de Janeiro, funcionava como um prenúncio do que os doze meses do ano seguinte viriam a ser. As pessoas analisavam o tempo meteorológico desses doze dias e faziam previsões, jogos, trocavam histórias, e divertiam-se, com o intuito de que o novo ano fosse benéfico.
Esta história da República Checa recorda-nos que cada mês do ano é especial, e que o conjunto dos doze meses formam o círculo, ou ano. A mudança das estações reflete o ciclo da existência humana, começando pelo início da vida (solstício de inverno), e passando pela infância (primavera), a idade adulta (verão), a maturidade (outono), a velhice e a morte (de novo o inverno).
O destino das duas irmãs da história recorda-nos também que uma vida que respeita a Natureza contém as suas próprias recompensas, enquanto uma vida que a desrespeita pode acarretar consequências desastrosas.
* * *
Numa floresta longínqua, viviam uma viúva e duas raparigas. Uma era a sua filha, Holena, e a outra era a sua enteada, Marusha.
Holena era feia e mimada, enquanto Marusha era bonita e tinha de desempenhar as tarefas todas. Era ela quem ia ao poço, todas as madrugadas, buscar água, quem esfregava e cozinhava, e quem fiava e tecia até ao anoitecer.
À medida que as raparigas iam ficando mais velhas, a reputação de Marusha como jovem bela e trabalhadora ia crescendo, enquanto a reputação de Holena como moça indolente aumentava. Em breve a viúva deu-se conta de que, a não ser que a enteada saísse de casa, ninguém iria casar com a preguiçosa Holena. Num dia de inverno rigoroso, a madrasta chamou Marusha e disse-lhe:
— A tua irmã quer violetas. Vai buscar-lhe algumas.
Era sua intenção que a enteada fosse devorada pelos lobos esfaimados que costumavam errar pela floresta.
— Mas onde vou eu encontrar violetas em pleno inverno? — exclamou Marusha, enquanto a empurravam para fora de casa, envergando ela apenas um fino vestido.
A tremer, devido ao vento agreste do norte, Marusha caminhou até ao cair da noite, cheia de medo do uivar dos lobos, que pareciam aproximar-se cada vez mais. Estava quase a desistir da busca, a deitar-se na neve e a adormecer para sempre, quando se apercebeu do cintilar de uma luz no cimo da colina. Então, cambaleou até à luz acolhedora na esperança de encontrar abrigo.
Contudo, quando Marusha atingiu o cume da encosta, recuou, espantada. A cena com que deparou era diferente de tudo o que presenciara até então, e parecia uma história dos tempos antigos.
Diante dela ardia uma enorme fogueira. À volta, sentados em silêncio num círculo de doze pedras, doze homens fitavam-na. Também eles não se pareciam com nenhum homem que Marusha vira antes. Três eram idosos, com longas barbas brancas, e vestiam de azul-‑escuro. Os três vestidos de púrpura eram de meia-idade e outros três vestiam de escarlate. Os três mais jovens vestiam de branco e verde. Na pedra maior de todas, estava sentado o mais velho de todos, com um bordão na mão.
Marusha fez-lhe uma vénia respeitosa e pediu:
— Por favor, senhor, será que posso aquecer-me junto da fogueira?
O velho respondeu numa voz grave:
— Quem és tu, minha filha, e porque caminhas pela floresta à hora a que os lobos vagueiam?
Marusha falou-lhe das violetas e o velho disse:
— Vieste ter ao lugar certo, pois somos os Doze Irmãos do ano. Eu sou Janeiro, chefe de todos os outros. Não posso dar-te violetas, mas o meu irmão Março pode.
O velho Janeiro levantou-se e cedeu o lugar a um dos jovens de branco e verde. Mal este se sentou no lugar do chefe, a neve em torno deles derreteu. Despontaram, então, árvores e violetas.
— Depressa, leva-as contigo! — ordenou o jovem Março, com uma voz tão penetrante como o vento.
A rapariga colheu as violetas e, depois de lhe agradecer, correu de volta para casa.
A viúva olhou, incrédula, para as flores de cor púrpura que a enteada trazia nas mãos.
— Onde encontraste violetas em Janeiro? — quis saber.
— Acolá, na colina — respondeu a rapariga.
Uns dias mais tarde, a viúva tentou um novo estratagema. Desta vez disse:
— A tua meia-irmã precisa de morangos. Vai e não voltes sem eles!
E empurrou Marusha para fora de casa, sem que esta tivesse os sapatos calçados. A madrasta achava que, apesar de ter sido possível encontrar algumas violetas por entre a neve, não haveria decerto morangos nenhuns.
E a rapariga regressou para junto das figuras silenciosas que circundavam a fogueira na colina. Os Doze Irmãos escutaram em silêncio o seu pedido e, de novo, o velho Janeiro pediu a um irmão mais jovem que tomasse o seu lugar. Mal Junho, vestido de escarlate, se sentou no lugar do chefe, espalhou-se pela colina um Verão glorioso. As abelhas começaram a zumbir em torno das flores brancas dos morangueiros, que logo desabrocharam e originaram frutos maduros.
— Leva os que quiseres — disse Junho, soltando uma gargalhada alegre.
Marusha colheu os frutos e agradeceu a Junho a sua bondade. Quando regressou a casa, deu os morangos a Holena, que os comeu avidamente.
— E, já agora, onde encontraste estes? — perguntou a viúva, com o olhar desconfiado.
— Sob as árvores do abrigo da montanha — foi tudo o que Marusha lhe respondeu.
Alguns dias mais tarde, Holena pediu maçãs à mãe, que enviou a enteada em busca delas, sem sequer um lenço para proteger-lhe a cabeça. O vento soprava ainda mais fortemente e a neve estava cheia de cristais de gelo. À medida que caminhava com custo, Marusha tentava não prestar atenção aos olhos brilhantes dos lobos por entre as árvores escuras. Quando chegou ao topo da colina, pela terceira vez, pediu de novo ajuda aos Doze Irmãos. E, de novo, Janeiro cedeu o seu lugar, desta vez ao magnífico Setembro, vestido de púrpura. De repente, ei-los rodeados pelo Outono. As folhas ficaram de cor laranja, amarela e vermelha, e uma macieira carregou-se de frutos.
— Abana-a, minha filha — encorajou-a Setembro, com um sorriso doce e uma voz madura.
Marusha abanou a árvore e caíram duas maçãs perfeitas. Depois de agradecer a Setembro a sua amabilidade, a rapariga levou as maçãs para casa. Holena engoliu as maçãs num ápice e pediu mais, pois tinha-as achado ainda mais deliciosas do que os morangos. Enquanto a viúva congeminava novas formas de se livrar da enteada, Holena pediu à mãe:
— Mãe, empresta-me o teu melhor casaco de pele e as tuas luvas. Tenho a certeza de que a Marusha guarda a maior parte da fruta para ela e quero ir procurar o seu esconderijo.
Depois de muito protestar, a viúva acabou por aceder ao desejo da filha. Holena embrulhou-se no casaco de pele com carapuço e saiu de casa. A arfar, e com o nariz vermelho do frio, atingiu, por fim, o topo da colina. Sem sequer cumprimentar os Doze Irmãos, ou pedir-lhes permissão, aproximou-se da fogueira para se aquecer.
O velho Janeiro perguntou:
— Quem és tu, minha filha, e o que queres de nós?
Holena sacudiu a cabeça e respondeu:
— O que eu quero não é da tua conta, velho tonto!
Janeiro, com a barba branca cheia de gelo, levantou-se, zangado, e lançou um grito que mais parecia o prolongamento dos ventos sibilantes do inverno. Holena caiu de costas, aterrorizada. Mal o velho volteou o seu bordão em torno da cabeça da rapariga, começaram a cair enormes flocos de neve. Holena fugiu do círculo de pedras e foi em busca do lugar de onde viera. Mas os flocos tinham coberto as suas pegadas e ela não conseguia encontrar o caminho. Enquanto fugia da raiva do velho, a neve ia-se acumulando em seu redor. Acabou por cair num buraco fundo, que a soterrou.
Em casa, a viúva aguardava, cada vez mais ansiosa, o regresso da filha. Vestiu o seu segundo melhor casaco de pele, calçou as segundas melhores luvas, e foi em busca de Holena. Como a fúria de Janeiro ainda não tinha abrandado, a tempestade de neve durou a noite inteira e nunca mais ninguém viu a viúva ou a filha.
Marusha continuou a ser diligente: fez o jantar, deu de comer à vaca e encheu o fuso de linha. Quando a madrasta e a meia-irmã não voltaram à noite, foi à janela ver o tempo: a neve tinha cessado e as estrelas cintilavam no céu limpo, no silêncio da noite. Curiosamente, não sentia medo ou solidão, porque sabia que os Doze Irmãos tomavam conta do ano.
Viveu sempre com as bênçãos deles no seu coração e, quando se casou e foi mãe, ensinou os filhos a ver cada mês como um tio, com diferentes prendas para oferecer, e a agradecer sempre as graças próprias de cada estação do ano.
Caitlín Matthews; Helen Cann
Fireside Stories
Bath, Barefoot Books, 2007
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mãos de mãe

Noite após noite, a minha mãe vinha aconchegar-me, mesmo quando eu já deixara há muito de ser criança. Tal como outrora, inclinava-se sobre mim, afastava o meu cabelo comprido e beijava-me a testa.
Não me lembro de quando o gesto das suas mãos a afastar o meu cabelo começou a irritar-me. Mas aborrecia-me deveras que ela passasse as mãos ásperas e gastas pelo trabalho sobre a minha pele macia. Uma noite gritei, zangada:
Não faças mais isso! As tuas mãos são muito ásperas!
A minha mãe não disse nada, mas nunca mais aquele gesto de amor rematou os meus dias. Continuei acordada muito tempo depois de ter proferido aquelas palavras, que agora me perseguiam. Contudo, o orgulho abafou a consciência e não consegui dizer-lhe o quanto lamentava tê-las proferido.
Os anos foram passando, sem que a memória daquela noite se apagasse. O incidente, que ora parecia recente ora se afigurava longínquo, nunca me saiu da mente e eu comecei a ter saudades daquele gesto que reprimira.
Hoje a minha mãe já ultrapassou os setenta anos e as mãos que outrora achei tão ásperas ainda trabalham para mim e para os meus. É ela que tem sido a nossa médica, ao procurar no armário o remédio para aliviar uma dor de estômago ou de um joelho ferido dos mais novos. É ela que faz o melhor frango frito do mundo, que tira as nódoas das calças de ganga como eu nunca consegui, que ainda insiste em servir gelado a qualquer hora do dia ou da noite. Ao longo dos anos, as mãos da minha mãe trabalharam durante horas incontáveis, muito antes de haver máquinas de lavar e tecidos resistentes que não engelham.
Agora, os meus filhos já são crescidos e independentes e o meu pai já faleceu. Em ocasiões especiais, vou passar a noite com ela.
E foi assim que, numa véspera do Dia de Ação de Graças, quando eu começava a adormecer no quarto da minha infância, senti uma mão conhecida, que passava, hesitante, pelo meu rosto, para afastar o cabelo da minha testa. Quando um beijo, sempre igualmente gentil, pousou no meu sobrolho, recordei, pela milésima vez, a noite em que a minha voz jovem e ríspida soara indignada:
Não faças mais isso. As tuas mãos são muito ásperas!
Então, segurando a mão da minha mãe, disse-lhe o quanto lamentava aquela noite. Pensei que, como eu, ela se lembrasse... Mas a minha mãe não sabia do que eu estava a falar, pois há muito que tinha esquecido e perdoado.
Naquela noite, adormeci profundamente grata pela presença da minha mãe e pelo carinho das suas mãos.
E a culpa que eu tinha carregado durante tantos anos desvaneceu-se.
Louisa Godissart McQuillen
Jack Canfield, Mark Victor Hansen
A Second Chicken Soup for the Woman's Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1998
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O problema

 
Era uma vez um lavrador. Embora trabalhasse noite e dia, nunca conseguia deixar de ser pobre. De cada vez que começava a sentir que estava a tirar o melhor partido de uma situação, tudo acabava sempre por falhar. Se num ano havia seca, no outro havia cheia. Se num ano os rebanhos adoeciam, no ano seguinte os lobos dizimavam-nos. Se num ano o preço do cereal descia, no ano seguinte o rei subia os impostos.
Certo dia, o lavrador estava sentado num tronco, cabisbaixo e desesperado. De repente, apareceu uma estranha e grotesca criatura a dançar, a cantar e a rir à volta do lavrador. Os pelos que lhe cobriam o corpo estavam emaranhados, os olhos selvagens faiscavam e tinha os dentes pretos. O cheiro que exalava quase fez o lavrador chorar.
— Quem és tu?
— Eu, bom homem, sou o teu problema. Só passei por aqui para ter a certeza de que eras o mais infeliz possível!
— Monstro! Então é por tua causa que nunca coisa alguma me corre bem?
— Pois é! Eu sou o teu azar, a tua desgraça. Sem mim, serias um homem com sorte.
Rápido como o vento, o pobre homem agarrou o seu problema pelo pescoço e amarrou-o com cordas fortes. Em seguida, abriu uma cova bem funda e atirou a sua desgraça lá para dentro. Tapou-a com pedras e regressou a casa.
No dia seguinte, a sorte começou a mudar. As ovelhas deram à luz gémeos, as vacas começaram a dar duas vezes mais leite, as culturas cresciam mais depressa e mais alto do que nunca, e as árvores estavam carregadas de frutos. Todos os comerciantes queriam comprar os seus produtos e toda a gente vinha adquirir os seus legumes, frutos e animais. Em poucas semanas, o homem, que fora tão pobre, estava rico.
O lavrador tinha um vizinho que habitualmente era bem-sucedido. Este homem rico sempre olhara com desdém para o lavrador e ridicularizara o seu trabalho. Agora via que o lavrador estava quase tão rico como ele e, ainda por cima, em tão pouco tempo. Um dia, não conseguiu aguentar mais a curiosidade e foi visitá-lo.
— Parabéns, vizinho, pela sua recente boa sorte. Devo dizer que estou admirado com a rapidez com que conseguiu fazer prosperar esta quinta. Qual é o segredo?
— É simples. Encontrei a raiz do meu infortúnio. O meu problema veio vangloriar-‑se da minha má-sorte e eu apanhei-o. Enfiei-o num buraco fundo, que cobri com pedras, um buraco que fica na minha pastagem. Essa é, sem dúvida, a razão pela qual finalmente tive sorte, depois destes anos todos de trabalho e fracasso.
O lavrador rico não gostou que o vizinho tivesse finalmente triunfado na vida. Naquela mesma noite, rastejou até ao buraco onde o problema do vizinho estava enterrado. Durante toda a noite levantou as pesadas pedras e cavou a terra até encontrar o problema. Desamarrou-o e pô-lo em liberdade.
— Muitíssimo obrigado — gritou o problema. — O senhor é um verdadeiro amigo.
— Agora — disse o homem rico — podes voltar a atormentar o teu antigo dono outra vez.
— Não, não, não! — gritou o problema. — Aquele homem tratou-me muito mal e atirou-me para dentro deste buraco. Mas o senhor foi tão amável em libertar-me! Vai ser um amo muito melhor. Vou ficar consigo para sempre.
Assim foi e assim devia ser.
Dan Keding
Stories of Hope and Spirit
Little Rock, August House Publishers, 2004
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ah-nuld, o macaco

Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.
Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.
Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.
Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bandode vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.
Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 1 metro de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.
Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.
Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.
Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.
O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.
A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho. Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse "Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te." Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer "Eu amo-te". Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.
Josh Cohen
Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman
Chicken soup for the nature lover's soul
Florida, HCI, 2004
(Tradução e adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A árvore generosa

 
Era uma vez uma árvore… que amava um menino.
E todos os dias o menino vinha, juntava as suas folhas e com elas fazia coroas, imaginando ser o rei da floresta.
Subia o seu tronco, balançava-se nos seus ramos, comia as suas maçãs, brincavam às escondidas e quando ficava cansado, dormia à sua sombra. O menino amava aquela árvore… como ninguém.
E a árvore era feliz.
Mas o tempo passou. O menino cresceu.
E a árvore ficava muitas vezes sozinha.
Um dia o menino veio e a árvore disse-lhe:
— Anda, menino. Anda subir o meu tronco, balançar-te nos meus ramos, comer maçãs, brincar à minha sombra e ser feliz.
— Já sou muito crescido para brincar — disse o menino. — Quero comprar coisas e divertir-me. Quero dinheiro. Podes dar-me algum dinheiro?
— Desculpa — disse a árvore. — Eu não tenho dinheiro. Só tenho folhas e maçãs. Leva as minhas maçãs, menino. Vende-as na cidade. Então terás dinheiro e serás feliz.
E assim, o menino subiu o tronco, colheu as maçãs e levou-as.
E a árvore ficou feliz.
Mas o menino ficou longe da árvore durante muito tempo...
E a árvore ficou triste outra vez.Até que um dia o menino regressou e a árvore, estremecendo de alegria, disse:
— Anda, menino. Anda subir o meu tronco, balançar-te nos meus ramos e ser feliz.
— Estou muito ocupado para subir a árvores — respondeu o menino. — Eu quero uma casa para viver. Quero uma mulher e filhos. Para isso preciso de uma casa. Podes dar-me uma casa?
— Eu não tenho casa — disse a árvore. — A floresta é o meu abrigo. Mas corta os meus ramos e constrói a tua casa. Então serás feliz.
O menino assim fez.
Cortou os ramos e levou-os para construir uma casa.
E a árvore ficou feliz.
Mas, uma vez mais, o menino separou-se da árvore e quando voltou, a árvore sentiu-se tão feliz que mal conseguia falar.
Anda, menino sussurrou ela.Anda brincar.
Estou velho e triste demais para brincar explicou o menino.Quero um barco que me leve para bem longe daqui. Podes dar-me um barco?
— Corta o meu tronco e faz um barco — disse a árvore. — Assim poderás viajar para longe… E ser feliz.
O menino cortou o tronco, fez um barco e partiu.
E a árvore ficou feliz…
Mas não muito.
Muito tempo depois, o menino voltou novamente.
— Desculpa, menino — disse a árvore. — Nada mais me resta para te dar. As maçãs já se foram.
Os meus dentes são fracos demais para maçãs explicou o menino.
Já não tenho ramos lamentou a árvore.
Também já não tenho idade para me balançar em ramos respondeu o menino.
Não tenho tronco para subires continuou a árvore.
Estou muito cansado para isso disse o menino.
Desculpa suspirou a árvore. Gostava de ter algo para te oferecer... mas nada me resta. Sou apenas um velho toco. Desculpa...
Já não preciso de muita coisa acrescentou o menino. Só um lugar sossegado onde me possa sentar e descansar. Sinto-me muito cansado.
Pois bem respondeu a árvore, endireitando-se o mais possível. Um velho toco é ótimo para te sentares e descansar. Anda, menino. Senta-te. Senta-te e descansa.
E foi o que o menino fez.
E a árvore ficou feliz.
Shel Silverstein
A Árvore Generosa
Figueira da Foz, Bruaá editora, 2009
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Ovo


Nasruddin ganhava a vida a vender ovos.
Um belo dia passou alguém pela sua loja e disse: «Adivinhe o que trago na mão».
«Dê-me uma pista, pelo menos», disse Nasruddin.
«Pois dou-lhe várias e até muitas», disse o outro. «Tem forma de ovo, tamanho de ovo, aparência de ovo; tem cheiro de ovo, tem gosto de ovo e, por dentro, é branco e amarelo. É líquido antes de cozido… E é a galinha que o põe!»
«Ahaaa! Já sei!», exclamou Nasruddin: «É uma espécie de bolo!»
Quantas vezes também nós não entendemos o óbvio!
Falta-nos talvez a simplicidade e a atenção plena ao presente.
Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998
(Adaptação)
A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

quinta-feira, 29 de março de 2012

O tesouro do peregrino

Ao início da manhã, a aldeia de In-Amènas não tinha ainda retomado as suas atividades habituais: alguns camponeses altivos, envoltos nos seus bournous (mantos de lã com capucho), falavam em voz alta, bebendo chá de menta.
Um grupo de homens em pé rodeava dois jogadores de dominó que dispunham lentamente as suas pedras numa pequena tábua oscilante. Um nómada que transportava vários feixes de raízes secas esperava pacientemente um eventual comprador… Os camelos, habituados ao grande erg (deserto de areia), e nervosos por se encontrarem num local fechado, rodeado de arcadas, soltavam roncos insuportáveis.
Nas casas baixas de paredes sem janelas, ouvia-se de vez em quando o barulho de um tear. Na parte inferior das pequenas lojas sombrias, os mercadores dormitavam de leque na mão. Numa pequena sala do andar térreo contígua à mesquita, o velho Taleb, com uma longa cana na mão, obrigava todas as crianças de cócoras diante de si a repetir versículos do Corão, e o ruído surdo das vozes roufenhas dos pequenos perdia-se nas ruas estreitas…
Mas eis que chega, pela porta norte da aldeia, um homem montado num camelo. Com imponência e lentidão, penetra pela poterna e para. O viajante afrouxa a rédea do animal e inclina a cabeça sobre o peito. De repente, veem-no cair na areia. Os que bebiam chá, os jogadores de damas, os mercadores e os artesãos, todos se precipitaram na direção do pobre que tentava falar…
Revirando os olhos, o que podia ser entendido como a angústia de um moribundo, o viajante sussurrou algumas palavras incompreensíveis, ao mesmo tempo que apontava, com uma mão trémula, para uma grande bolsa de couro que trazia presa à cintura. Em seguida, elevando um dedo para o céu, recitou a Fatiha (oração diária) … A cabeça voltou a pender sobre o ombro… Estava morto!
A multidão que, entretanto, se tinha aglomerado, estava imóvel. Quem seria ele? De onde viria? Para onde iria? Ninguém era capaz de responder. Prepararam o cadáver e enterraram-no, no dia seguinte, num pequeno cemitério situado bem longe das casas, por detrás das primeiras dunas.
Na sala do café, foi decidido fazer o inventário dos objetos que o desconhecido transportava no seu camelo e dos que se encontravam nele. Numa das bolsas, roupas; na outra, diversos objetos indispensáveis aos viajantes; mas, na grande bolsa de couro negro que trazia à cintura, descobriu-se, com estupefação, um tesouro! Colares, braceletes, diademas, anéis, fivelas, pedras preciosas e peças em ouro amontoavam-se na mesa do café…
♦♦♦♦♦
Toda a gente se entreolhou em silêncio, mas todos pensavam o mesmo: "Que vamos fazer com estas riquezas? Reparti-las? Distribuí-las pelos pobres?" Estava instalada a discussão e cada um, querendo que a sua opinião fosse adotada, protagonizava uma rápida subida do tom de voz. Não tardariam as escaramuças. Seria mais avisado pedir a opinião da djemaa, o conselho dos anciãos.
Sob a autoridade do imã da mesquita, os dez anciãos de In-Amènas reuniram-se no dia seguinte. Foi decidido vender o camelo e o conteúdo das duas grandes bolsas e dar o dinheiro apurado aos pobres. Sábia decisão que todos aplaudiram. E o tesouro? Após longa e cuidadosa reflexão, o imã sentenciou que o tesouro seria enterrado na sepultura do desconhecido.
Esquecida a deceção, pensou-se que, afinal, fora esta a decisão mais acertada. Esse tesouro teria, porventura, despoletado invejas, rancores, porque cada um pensaria, certamente, que os outros teriam sido mais favorecidos que ele próprio. O tesouro desconhecido voltaria ao nada. Um buraco muito profundo foi cavado ao pé do túmulo e aí foi lançado o saco.
♦♦♦♦♦
Passaram-se meses, passaram-se anos… A pequena aldeia de In-Amènas já tinha esquecido o incidente e retomado a sua vida normal. Os camponeses bebiam chá, outros jogavam dominó, os mercadores dormitavam e as crianças recitavam versículos do Corão… quando um dia, de repente, ecoaram imensos gritos que pareciam vir do cemitério… Quem podia gritar daquela maneira? Toda a gente correu na direção das sepulturas e, no sítio da do viajante desconhecido, viram o imã deitado ao pé da cova com os braços enterrados no buraco que havia escavado. Era ele que soltava aqueles gritos terríveis…
Os primeiros que chegaram puxaram-no pelos pés para o tirar daquela posição deplorável. Tempo perdido! As suas duas mãos estavam presas à bolsa de couro negro que parecia tão pesada como um rochedo de várias toneladas… Toda a gente compreendeu, então, que o imã tinha querido recuperar o tesouro e que se tinha ordenado que o enterrassem era para, mais tarde, o poder reaver…
Mas, no imediato, era necessário tirá-lo daquela posição miserável. Puxaram-no pelos braços, pelas pernas, pelo corpo… Em vão! Os mais caridosos construíram um pequeno abrigo de palmas sobre a cabeça do imã, evitando, assim, uma insolação. Só ao fim da tarde, vencido pela dor, é que o imã se sentiu obrigado a reconhecer a sua falta diante de toda a aldeia, que, entretanto, se tinha reunido à sua volta:
Não passo de um ganancioso! Sou indigno da vossa confiança. O que fiz não tem perdão. Quis recuperar o tesouro e guardá-lo só para mim!
Mal acabou de proferir estas palavras, as mãos separaram-se da bolsa… Mas, quando se pôs de joelhos diante da sepultura, apenas tinha dois tocos queimados pelo fogo nas extremidades dos braços. Apressou-se a deixar a aldeia e foi esconder a sua vergonha numa das montanhas de Aïr.
Voltaram a tapar o buraco escavado pelo imã e todos tentaram esquecer o incidente.
♦♦♦♦♦
Contudo, seria possível esquecer que na sepultura do viajante havia um tesouro digno de um rei? Seria possível ignorar que esse ouro poderia transformar um pobre camponês num senhor ainda mais rico que um sultão?
Ali não pensava noutra coisa, e refletia sem cessar… Foi assim que arquitetou um plano que lhe permitiria, no seu entender, recuperar o saco sem lhe tocar… Ali era burriqueiro. Ganhava a vida a transportar, com o seu animal, pedras, areia ou legumes. Montado no dorso do burro, tinha muito tempo para pensar no desenrolar do seu plano. No entanto, decidiu esperar alguns anos, o tempo necessário para fazer cair no esquecimento o que se tinha passado.
Quando chegou o momento que lhe parecia mais propício, saiu de noite e dirigiu-se ao cemitério. Tirou uma das duas pedras presas na sepultura e, com a pá, cavou um buraco onde sabia que se encontrava a bolsa com o tesouro. De facto, descobriu a bolsa de couro com as duas mãos do imã enegrecidas ainda coladas a ela, uma de cada lado. Não tocou em nada e, sentado junto à sepultura, esperou o nascer do sol.
De manhã, viu caminhar na sua direção o pequeno Mohamed. Mohamed era demasiado jovem para ter ouvido falar da bolsa com o tesouro. Conduzia um burro e dirigia-se ao palmeiral. Ali levantou-se e pediu-lhe que tivesse a amabilidade de descer à cova a fim de reaver a bolsa que, inadvertidamente, lhe tinha caído.
Mohamed parou e olhou para a bolsa no fundo do buraco:
Mas por que é que tu não a podes ir buscar?
Porque fiquei com uma dor nas costas, ontem ao fim do dia, respondeu Ali, agarrando-se aos rins e esboçando um esgar de dor não me posso baixar.
Nesse caso, segura o meu animal que eu vou buscar a tua bolsa.
Mohamed desceu à cova, pegou na bolsa e subiu. Não viu que as duas mãos do imã se soltaram e rolaram para o fundo do buraco.
Toma a tua bolsa disse.
Ali estava felicíssimo: a maldição deixara de existir! Aproximou-se, agradeceu a gentileza a Mohamed e pegou na bolsa. Mas, de repente, soltou gritos de dor. As suas duas mãos ficaram presas à bolsa de couro e Ali quase desmaiou… E a bolsa rolou para o fundo da cova, arrastando-o com ela! Uma fumaça espessa emanava do corpo, que se calcinava, espalhando um odor infeto. Mohamed estava aterrorizado e não compreendia o que se passava; tentou puxar o seu companheiro pelos pés, mas depressa desistiu.
Alertados pelos gritos inumanos do ladrão, os habitantes da aldeia reuniram-se de novo à volta da sepultura… Os mais velhos sabiam muito bem o que estava a acontecer e pediram a Ali para reconhecer rapidamente a sua falta.
Perdoai-me. Quis roubar o tesouro do viajante. Sou um ser indigno!
Nesse preciso momento, as mãos do ladrão separaram-se dos braços e permaneceram coladas à sacola. Quando se levantou, verificou que apenas tinha nas extremidades dos braços dois cotos enegrecidos pelo fogo do inferno. Apenas lhe restava fugir da aldeia se não quisesse ouvir as reprimendas dos amigos.
Mas a lenda não acaba aqui... Os anciãos da aldeia de In-Amènas reuniram-se e decidiram fazer desaparecer para sempre a bolsa que já tinha provocado tanta dor! Pediram, então, a Mohamed, para pegar nela – ele que nunca tinha pensado em roubar podia pegar-lhe sem dificuldade – e imploraram-lhe que a escondesse na montanha. Foi o que fez… e, logo que voltou à aldeia, ninguém lhe perguntou nada.
♦♦♦♦♦
Pois bem, amigos, estão avisados: se, um dia, encontrarem numa gruta da montanha de Tassili N'Ajjer uma bolsa de couro negro, não toquem nela! Sabem bem o risco que correm!
Os anciãos de In-Amènas que contam esta lenda acrescentam para concluir: "A bolsa do tesouro é o que tu desejas. As mãos queimadas são os remorsos que te farão sofrer se pegares no que não te pertence. E o jovem Mohamed, que pode tocar na bolsa sem se ferir, é a felicidade prometida àquele que não tem maus pensamentos. No entanto, a bolsa escondida na montanha é também a esperança de nos tornarmos ricos um dia, mas na condição de sermos tão puros como o pequeno Mohamed! Parece não haver muita esperança para nós… mas, quem sabe? …"
André Voisin
Contes traditionnels du désert
Toulouse, Ed. Milan, 2002
(Tradução e adaptação)

A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias